



Digitalizao e Reviso: Vick




  Nora Roberts



Arrebatado pelo Mar


Volume 1 da Trilogia da Gratido





Traduo
Renato Motta














Copyright(c) 1998 by Nora Roberts 
Ttulo original: Sea Swept 
Capa: Leonardo Carvalho 
Foto da autora: John Earle 
Editorao: DFL
2006
Impresso no Brasil 
Printed in Brazil





CIP-Brasil. Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros - RJ



R549a         Roberts, Nora, 1950-
                Arrebatado pelo mar/Nora Roberts; traduo Renato Motta. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
       378p. : - (Trilogia da gratido; v. 1)
       
       Traduo de: Sea swept 
       Continua com: Movido pela mar 
       ISBN 85-286-1169-8

       1. Romance americano. I. Motta, Renato. II. Ttulo. III. Srie.

06-0270                                                                         CDD-813
       CDU-821.111 (73)-3






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Para Mary Blayney, 
por seu corao
amigvel e generoso.



      Queridos Leitores:
      
      Eu gosto dos homens. Ainda bem, porque tenho quatro irmos mais velhos. Cresci em minoria e mais tarde, ao ter dois filhos, continuei em minoria. Ou aprendia 
a gostar deles, apreci-los e fazer o melhor que pudesse para compreend-los ou ia ser obrigada a fugir, desesperada.
      Gosto de escrever a respeito de homens - suas mentes, coraes, esperanas e sonhos. Aprecio, especialmente, explorar a dinmica que existe entre os homens... 
irmos, pais e filhos, amigos. Sendo assim, pareceu-me natural enveredar por estes tipos de relacionamentos em uma nova trilogia.
      Cameron, Ethan e Phillip foram, todos, meninos problemticos que acabaram por ser adotados em perodos difceis de sua vida por Raymond e Stella Quinn. No 
compartilham laos de sangue, mas se transformaram em uma famlia. Em Arrebatado pelo Mar, a histria de Cameron, a famlia enfrenta uma tragdia e um escndalo 
que acabaro por mudar as suas vidas. Cameron assumira a vida agitada de quem gosta de viver perigosamente, desde que saiu da calma comunidade no litoral de Maryland, 
onde Ray e Stella criaram a ele e a seus irmos. Gosta de barcos rpidos, carros rpidos e mulheres rpidas. De repente,  chamado de volta para casa, no apenas 
para dizer adeus ao nico pai que jamais amou, mas tambm para enfrentar o desafio de cuidar do ltimo garoto perdido que Ray estava determinado a salvar. 
      Quem  Seth, este menino irascvel e de gnio difcil que um Ray moribundo pede a seus filhos para proteger? A fim de descobrir e manter sua promessa, Cameron 
ser obrigado a colocar a vida que resolveu abraar em compasso de espera. E ser obrigado tambm a lidar com uma certa assistente social que est to determinada 
quanto ele a fornecer o lar mais adequado para Seth. Anna Spinelli se mostra cheia de surpresas e desafios. Espero que vocs, leitores, aprendam a gostar dos Quinns, 
homens que esto dispostos a lutar para manter uma promessa.
      
      Nora Roberts
      
      
      
      
       
      
      
       
      
      
Prlogo
      
      
      Cameron Quinn no estava assim to bbado. Dava para conseguir chegar l, se pudesse se concentrar, mas, naquele momento, preferia o zumbido confortvel do 
"quase l". Gostava de pensar que era aquele estado de estar "a dois passos da negligncia" que estava mantendo a continuidade de sua sorte.
      Acreditava cegamente nas viradas da mar e nos fluxos de sorte, e naquele instante a sua sorte estava jorrando, rpida e quente. No dia anterior, ele levara 
o seu aerobarco  vitria no campeonato mundial, arrancando a vitria na competio graas ao ponto da curva final, quebrando o recorde de tempo e velocidade. 
      Alcanara a glria, recebera um gordo prmio, e resolvera levar ambos at Monte Carlo, para ver como se saam por l. 
      Sentia-se maravilhoso! 
      Algumas cartas certas no bacar, alguns dados que rolaram da maneira certa, a virada de uma carta decisiva e a sua carteira ficou ainda mais pesada. Circulando 
entre os paparazzi e um reprter da revista Sports Illustrated, sua glria tambm no parecia dar sinais de diminuir. 
      A sorte lhe continuava a sorrir. No exatamente a sorrir, mas a lanar-lhe um olhar de soslaio, malicioso, ao coloc-lo no caminho de uma praia, pensou Cameron, 
uma pequena jia do Mediterrneo onde, por acaso, estavam realizando uma sesso de fotos para a edio de moda-praia de uma revista popular.  
      E no  que a modelo de pernas mais longas, uma daquelas ddivas de Deus, voltara seus olhos azuis da cor do cu de vero para ele, e curvara seus lbios cheios 
e generosos em um sorriso convidativo que at mesmo um cego teria conseguido enxergar, acabando por optar permanecer por ali por mais alguns dias depois da sesso 
de fotos?  
      E ela tambm deixara bem claro para Cameron que, com um pouquinho s de esforo, ele poderia conseguir ainda mais...  
      Champanhe, cassinos generosos, despreocupao, sexo sem compromissos. Sim, de fato, Cameron refletiu, a sorte estava definitivamente se voltando para o seu 
lado. 
      Quando os dois pisaram na calada, saindo do cassino e recebendo no rosto o ar morno de uma noite de maro, um dos onipresentes paparazzi surgiu do nada, batendo 
fotos freneticamente. A mulher montou um biquinho - isso era, afinal, a sua marca registrada, fez seus cabelos louro platinados, macios e sedosos, voarem para trs, 
atirando-os de modo artstico e mudou seu corpo de posio, especialista que era. Seu vestido vermelho da cor do pecado, pouco mais grosso que algumas pinceladas, 
terminava abruptamente a poucos centmetros dos Portais do Paraso. 
      Cameron simplesmente sorriu. 
      - Esses caras so umas pestes! - comentou ela, mostrando que tinha a lngua presa ou um leve sotaque francs. Cameron jamais descobriria qual dos dois. Ela 
respirou fundo, como se testasse a resistncia daquela seda finssima, e deixou-se carregar por Cameron atravs da rua banhada pelo luar. - Para todo lugar que eu 
olho, sempre tem uma cmera! Estou farta de ser vista apenas como um objeto de prazer para os homens! 
      Aposto que sim, claro, pensou Cameron. E, sabendo que os dois eram to superficiais quanto um riacho seco depois de uma enxurrada, riu novamente e a tomou 
nos braos, perguntando: 
      - Por que no damos a ele alguma coisa para encher a primeira pgina, docinho? - E colou seus lbios contra os dela. Seu sabor penetrou em seu organismo e 
mexeu com seus hormnios, dando partida em sua imaginao e fazendo-o sentir gratido pelo fato de o hotel em que os dois estavam hospedados ficar a poucos quarteires 
dali. 
      Ela deslizou os dedos por entre os cabelos dele. Gostava de homens com muito cabelo, e o dele era cheio, grosso e to preto quanto a noite que os envolvia. 
Seu corpo era firme, todo cheio de msculos, esguio e com linhas disciplinadas. Ela era muito exigente a respeito do corpo de um amante em potencial, e o dele ultrapassava 
seus rgidos requisitos. 
      Suas mos eram um pouco mais speras do que ela gostaria que fossem. No a presso ou movimento delas, que eram perfeitos, mas a textura. Eram mos de trabalhador, 
mas ela estava disposta a fazer vistas grossas para a falta de classe daquelas mos, devido s habilidades que elas demonstravam. 
      O rosto dele era intrigante. No exatamente bonito... Ela jamais se deixaria ser vista ao lado, e muito menos fotografada, com um homem que fosse mais bonito 
do que ela. Havia uma dureza em seu rosto, uma tenacidade que parecia vir de algo a mais alm da pele muito bronzeada e dos ossos proeminentes. Eram os olhos, pensou, 
enquanto ria de leve e se desvencilhava do abrao. Eles eram cinzas, mais da cor de pedra do que de fumaa, e escondiam segredos. 
      Ela apreciava um homem com segredos, pois nenhum deles conseguia mant-los ocultos dela por muito tempo. 
      - Voc  um menino mau, Cameron, - falou ela, usando a tnica na ltima slaba do seu nome e colocando o indicador esticado sobre sua boca, uma boca que tambm 
no exibia maciez. 
      - Sempre me disseram isso, - e ele teve que pensar bastante, pois o nome dela estava lhe escapando por alguma fresta da memria - ... Martine.
      - Talvez esta noite eu o deixe ser bem mau comigo. 
      - Estou contando com isso, doura - e lanou um olhar de soslaio para o hotel. Com quase um metro e oitenta, ela tinha os olhos quase na mesma altura dos dele. 
- Na minha sute ou a sua? 
      - Na sua... - Ela s faltou ronronar. - Talvez, se voc pedir mais uma garrafa de champanhe, eu deixe voc me seduzir. 
      Cameron levantou uma das sobrancelhas e pediu a sua chave na recepo. 
      - Vou precisar de uma garrafa de champanhe Cristal, duas taas e uma rosa vermelha - avisou ao recepcionista, sem tirar os olhos de Martine - ...O mais depressa 
possvel. 
      - Sim, Monsieur Quinn. Vou cuidar pessoalmente disso. 
      - Uma rosa! - Ela tremulava ao lado dele enquanto os dois se encaminhavam para o elevador. - Que romntico...
      - U, voc queria uma para voc, tambm? - O olhar de quem no entendeu a piada serviu de aviso de que o humor no era o ponto forte dela. Portanto, eles iam 
deixar de lado os risos e as conversas, decidiu ele, e partiriam direto para o objetivo. 
      No instante em que as portas do elevador se fecharam. Ele a agarrou, puxando-a para junto de si, e apertou aquela boca sedosa e sensual contra a sua. Ele estava 
faminto. Estivera muito ocupado, focado demais no barco, ligado demais na corrida para separar algum tempo para diverso. Queria uma pele macia e perfumada junto 
da dele, curvas, curvas generosas. Uma mulher, qualquer mulher, desde que estivesse disposta a tudo, fosse experiente e tivesse conscincia de seus limites. 
      Isso tudo tornava Martine perfeita. 
      Ela soltou um gemido que no pareceu totalmente fingido, para alegria dele, e ento arqueou a garganta para os dentes que a mordiscavam. 
      - Voc vai muito depressa... - comentou ela. 
      Ele fez deslizar a mo pela seda abaixo, e depois novamente para cima.
      -  assim que eu ganho a vida. Indo depressa... Sempre... De todas as maneiras. 
      Ainda segurando-a com fora, ele saiu em crculos do elevador, e seguiu pelo corredor rumo ao quarto. O corao dela batia descompassado contra o dele, sua 
respirao estava ofegante e suas mos... Bem, ele sentiu que ela sabia muito bem o que estava fazendo com elas. 
      L se fora o jogo de seduo... Ele destrancou a porta, abriu-a com um golpe e depois tornou a fech-la empurrando o corpo de Martine de encontro a ela. Arriou 
os dois cordes que seguravam-lhe o vestido sobre os ombros e, com os olhos fixos em seu corpo, se fartou com aqueles magnficos seios. 
      Reconheceu que seu cirurgio plstico merecia uma medalha. 
      - Voc quer que eu v devagar? - perguntou ele. 
      Sim, a textura de suas mos era grossa, mas puxa, como elas eram excitantes! Ela empurrou a perna de um quilmetro de altura para cima e a enroscou em volta 
da cintura dele. Ele foi obrigado a lhe dar nota dez no quesito equilbrio.  
      - No, eu quero depressa! - respondeu ela. 
      - Nossa, eu tambm! - Ele esticou a mo por baixo do curto pedao de pano que ela usava  guisa de saia e destruiu o obstculo rendado que encontrou em seguida. 
Os olhos dela se arregalaram, e sua respirao ficou mais espessa.  
      - Animal! - gemeu ela. - Voc  muito selvagem! - e apertou os dentes na garganta dele. 
      No momento em que ele j baixava a braguilha da cala, uma batida na porta soou com discrio, por trs da cabea dela. Cada gota do seu sangue havia sido 
drenada da sua cabea para a regio abaixo da sua barriga. 
      - Puxa, o servio de quarto no pode ser assim to rpido, aqui... Pode deixar a fora! - berrou ele, e se preparou para possuir a magnfica Martine ali mesmo, 
encostada na porta.
      - Monsieur Quinn, peo desculpas, mas acabou de chegar um fax para o senhor, e diz que  urgente.  
      - Mande-o embora, Cameron! - Martine colocou o brao em volta dele e o agarrou com as unhas, como se fossem garras. - Mande-o para o inferno e trepe comigo! 
      - Guenta a! Quer dizer... - continuou ele, afastando os dedos dela antes que seus olhos ficassem vesgos. - Espere s um momento! - Ele a empurrou para trs 
da porta, levou um segundo para verificar se tornara a fechar a braguilha e abriu uma fresta. 
      - Sinto perturb-lo, Monsieur Quinn... 
      - Tudo bem. Obrigado. - Cameron enfiou a mo no bolso em busca de uma nota qualquer, sem sequer se dar ao trabalho de ver de quanto era, e a trocou pelo envelope. 
Antes que o mensageiro comeasse a gaguejar diante do valor da gorjeta, Cameron bateu a porta na cara dele. 
      Martine fez a sua famosa jogada de cabelos para trs e disse: 
      - Voc est mais interessado em um fax tolo do que em mim... Do que nisto!... - e com a mo rpida, acabou de arriar por completo o vestido, pulando para sair 
de dentro do montinho que se formou no cho como uma serpente que troca de pele.  
      Cameron decidiu que o que quer que ela tivesse pago por aquele corpo, o resultado compensara cada centavo. 
      - No, no, pode acreditar em mim, benzinho, no estou, no. Isso vai levar s um segundo - e rasgou o envelope antes de ceder  tentao de embol-lo na palma 
da mo, atir-lo por cima dos ombros e mergulhar de cabea dentro daquela glria feminina. 
      Ento, leu a mensagem e todo o seu mundo, toda a sua vida e o seu corao pararam de repente. 
      - Ah, meu Deus! No pode ser!... - todo o vinho consumido alegremente durante a noite inteira se afunilou em sua cabea, mergulhando vertiginosamente at atingir 
o seu estmago e transformar seus joelhos em gelia. Cameron se viu obrigado a encostar as costas na porta para se manter em p, antes de tornar a ler.
      
      Cam, que droga! Porque no retornou nossos telefonemas? Estamos tentando entrar em contato com voc h horas! Papai est no hospital. Est mal, muito mal mesmo! 
No h tempo para explicar detalhes. Estamos perdendo-o muito depressa. Corra. Phillip. 
      
      Cameron levantou a mo lentamente. A mesma mo que j controlara times e volantes de barcos, avies, carros de corrida, a mo que era capaz de mostrar a uma 
mulher vislumbres trmulos do paraso. A mesma mo que tremia muito agora, enquanto ele a passava por entre os cabelos. 
      - Preciso ir para casa! 
      - Mas voc j est em casa! - Martine resolveu dar a ele outra oportunidade e se lanou  sua frente, abraando-o e esfregando o corpo nu em Cameron.  
      - No, preciso realmente ir. - Empurrando-a para o lado, resolveu pediu uma linha para telefonar para fora. - Voc vai ter que ir embora. Preciso dar alguns 
telefonemas. 
      - E voc acha que pode me dispensar assim? 
      - Desculpe. Fica para outra vez... - sua mente simplesmente se recusava a funcionar direito. Distrado, arrancou mais algum dinheiro do bolso com uma das mos, 
enquanto pegava o fone com a outra. - Tome...  dinheiro para o txi, explicou, esquecendo-se por completo que ela estava hospedada no mesmo hotel que ele.  
      - Seu porco imundo! - Nua e furiosa, ela se lanou contra ele, preparando um tapa. Se ele estivesse com os ps firmes, teria conseguido se desviar. O tapa, 
porm, o atingiu em cheio, e chegou a estalar. Sua orelha badalou como um sino, sua bochecha ardeu e sua pacincia se esgotou. 
      Cameron simplesmente a envolveu com os braos, com toda a fora, e sentiu revolta quando a viu pensando que aquilo era o incio de uma investida sexual. Empurrando-a 
at a porta, teve o cuidado de pegar o seu vestido e ento jogou a mulher e os pedaos de seda no corredor do hotel. 
      Seus guinchos foram to agudos que Cameron sentiu o rangido dos prprios dentes ao passar a tranca na porta. 
      - Vou matar voc! Seu porco! Canalha! Vou mat-lo por isso! Quem voc pensa que ? Voc no  nada!... Nada!  
      Deixando Martine berrando e esmurrando a porta, Cameron foi para o banheiro a fim de colocar algumas coisas bsicas em uma maleta. 
      Parece que a sua sorte acabara de dar a pior das viradas. 
         
         
         
         
      

  Captulo Um
      
      Cam usou toda a sua influncia, mexeu alguns pauzinhos, implorou favores e espalhou dinheiro em vrias direes. Arrumar transporte de Mnaco para a costa 
de Maryland, nos Estados Unidos,  uma da manh no era nada fcil.  
      Foi de carro at Nice, dirigindo feito um louco pela estrada costeira, que era alta e onde ventava muito, at chegar a uma pequena pista de pouso a partir 
de onde um amigo concordara em lev-lo at Paris, pela mdica quantia nominal de mil dlares americanos. Em Paris ele conseguiu um vo charter, por metade da quantia 
que gastara at ali, e passou as horas do vo sobre o Atlntico em um borro de fadiga e medo que o corroam por dentro. 
      Chegou ao aeroporto Dulles, na Virgnia, logo depois das seis da manh. O carro alugado j estava  espera, e ele comeou a jornada at a Baa de Chesapeake 
ainda no escuro que antecede o pr-alvorecer. 
      No momento em que chegou  ponte que atravessava a baa, o sol j estava alto e brilhante, fazendo a gua cintilar e acentuando as formas dos barcos que j 
estavam no mar para mais um dia de pesca. Cam passara boa parte da sua vida velejando na baa, nos inmeros rios e minsculas enseadas daquele pedacinho do mundo. 
O homem que corria agora para encontrar ainda vivo lhe ensinara muito mais do que a simples noo de bombordo e estibordo. Tudo o que ele possua, tudo o que conseguira 
realizar que pudesse lhe proporcionar orgulho devia a Raymond Quinn. 
      Cam tinha treze anos e estava caminhando a passos largos em direo  desgraa quando Ray e Stella Quinn o resgataram do mundo em que vivia. Seus relatrios 
de delinqncia juvenil j formavam um estudo completo sobre as razes de uma vida de crimes.  
      Roubo, invaso de domiclio, ingesto de lcool antes da idade permitida, gazetas constantes e fugas da escola, assalto, vandalismo, comportamento malicioso. 
Vivia do jeito que queria e, mesmo ento, conseguira grandes perodos de sorte, durante os quais fugia por muito tempo sem ser encontrado. O momento de maior sorte 
em sua vida, porm, foi quando ele, finalmente, foi agarrado.  
      Tinha treze anos de idade, era magro como um palito e ainda estava com as marcas roxas da ltima surra que levara do pai. A cerveja acabara, em casa. O que 
 que um pai poderia fazer, a no ser surrar o filho por isso? 
      Naquela noite quente de vero, com o sangue ainda secando no rosto, Cam prometera a si mesmo que jamais voltaria para aquele trailer caindo aos pedaos onde 
moravam, nem para aquela vida, nem para o homem que constantemente o recebia de volta, devolvido pela sociedade. Ele ia para algum lugar, qualquer lugar... Talvez 
a Califrnia, talvez o Mxico.
      Seus sonhos eram elevados, mesmo que sua viso estivesse embaada graas a um olho roxo. Tinha cinqenta a seis dlares no bolso e mais alguns trocados em 
moedas, as roupas do corpo e uma atitude arrogante. Tudo o que precisava alm disso, decidiu, era transporte.
      Conseguiu uma carona clandestina em um dos vages de um trem de carga que saa de Baltimore. No sabia direito para onde ia, mas tambm no se importava, contanto 
que fosse para longe dali. Espremido no escuro, com o corpo doendo a cada solavanco da estrada, prometeu a si mesmo que mataria ou seria morto, mas a jamais voltaria 
para trs. 
      Ao sair do trem, andando de gatinhas, sentiu cheiro de umidade e peixe no ar, e implorou a Deus para que conseguisse arrumar comida em algum lugar. Sua barriga 
estava to vazia que fazia rudos constantes. Tonto e desorientado, comeou a caminhar.  
      No havia muita coisa naquele lugar. Uma cidade minscula com algumas ruas desertas no meio da noite. Barcos que se acotovelavam em docas desconjuntadas. Se 
sua cabea estivesse mais alerta e clara, teria considerado a hiptese de arrombar uma das lojinhas que se alinhavam diante do pequeno porto, mas isso no lhe ocorreu 
at ele ter passado por toda a cidade e se ver, de repente, contornando um lago pantanoso. 
      As sombras do pntano e os sons que o cercavam lhe provocaram calafrios. O sol estava comeando a nascer a leste, transformando aqueles terrenos baixos encharcados 
e as margens cobertas com grama molhada em raios de ouro. Um imenso pssaro branco alou vo, fazendo o corao de Cam quase parar de susto. Ele jamais vira uma 
gara antes, e achou que aquilo parecia algo sado da gravura de um livro, um animal inventado. 
      Mas as asas se abriram, majestosas, e o pssaro levantou vo rumo aos cus. Por razes que no conseguia explicar, o jovem rapaz seguiu sua rota pelo ar ao 
longo de toda a margem do pntano at v-la desaparecer entre as rvores mais densas.  
      Ele perdera a noo de distncia e direo, mas o instinto o aconselhou a se manter junto de uma pequena estrada rural, de onde ele poderia facilmente se esconder 
no mato alto ou atrs de uma rvore, se um carro da polcia aparecesse.  
      Queria desesperadamente achar um abrigo, algum lugar onde pudesse se enroscar e dormir, para afastar os golpes da fome e a nusea que sentia.  medida que 
o sol foi subindo, o ar se tornou mais denso, devido ao calor. Sua camisa grudou-lhe nas costas; seus ps comearam a reclamar. 
      O que ele avistou primeiro foi o carro, um Corvette branco e bem polido, todo cheio de potncia e graa, parado como um grande prmio  luz enevoada do amanhecer. 
Havia uma picape ao lado dele, muito enferrujada, amassada e ridiculamente rural comparada com a sofisticao arrogante do carro. 
      Cam se agachou embaixo de um luxuriante arbusto de hortnsias em flor e analisou o veculo, cheio de desejos. 
      Aquele filho da me conseguiria lev-lo at o Mxico, com certeza, e para qualquer outro lugar onde desejasse ir. Puxa, do jeito que uma mquina daquelas era 
capaz de rodar, ele j estaria a meio caminho da fronteira, antes que o dono desse pela falta dele. 
      Ajeitando-se melhor, piscou com fora para clarear sua viso embaada e saiu correndo em direo  casa e ao carro. Sempre se surpreendia ao ver a forma arrumada 
e certinha com que algumas pessoas viviam. Em residncias bonitas, com janelas pintadas, flores em volta e arbustos bem aparados no jardim. Cadeiras de balano na 
varanda da frente e cortinas nas janelas. A casa lhe pareceu imensa, um palcio moderno todo branco com detalhes e molduras em azul claro, em volta das janelas. 
      Deviam ser ricos, decidiu, sentindo um ressentimento estranho moer-lhe o estmago por dentro, junto com a fome. Eles podiam comprar casas bonitas, carros bonitos 
e vidas bonitas. E uma parte dele, alimentada por um homem que se mantinha  base de dio e cerveja queria destruir, arrasar com todos os arbustos decorativos, quebrar 
todas as vidraas limpas e brilhantes e lascar com um cinzel toda aquela madeira pintada, at reduzi-la a lascas. 
      Queria atingi-los de algum modo, por eles terem tudo enquanto ele no tinha nada. Ao se levantar, porm, a fria amarga foi se transformando em tontura e enjo. 
Apertou a barriga, cerrando os dentes com fora at que tambm eles comearam a doer, mas sua cabea ficou mais clara. 
      Deixe os canalhas ricos continuarem a dormir, pensou. Ele os aliviaria apenas do carro incrementado. O veculo no estava nem ao menos trancado, reparou ele, 
e soltou uma risada de deboche diante da falta de cuidado dos donos, enquanto abria a porta com toda a facilidade. Uma das habilidades mais teis que seu pai ensinara 
a ele foi como fazer uma ligao direta em um carro de forma rpida e silenciosa. Tal destreza vinha bem a calhar quando um homem ganhava a maior parte do seu dinheiro 
vendendo carros roubados para oficinas de ferro-velho. 
      Cam se abaixou, enfiou-se por baixo do volante e comeou a trabalhar.
      -  preciso muita coragem para roubar o carro de um homem bem na porta de sua casa! 
      Antes de Cam conseguir ver de onde vinha a voz e reagir, antes mesmo de conseguir xingar, dedos fortes o agarraram pelos fundilhos e o puxaram para fora. Ele 
esperneou muito e seu punho fechado pareceu atingir uma parede de pedra. 
      Foi quando ele viu pela primeira vez o Poderoso Quinn. O homem era gigantesco, tinha pelo menos dois metros de altura e a constituio fsica de um atacante 
dos Baltimore Colts. Seu rosto castigado pelo sol era largo, com um tufo espesso de cabelos louros que j exibiam fios grisalhos nas pontas. Seus olhos eram de um 
azul penetrante, e naquele momento se mostravam extremamente aborrecidos. 
      Ento, eles se estreitaram. 
      No foi preciso muita fora para manter o garoto preso. Ele devia pesar menos de cinqenta quilos, pensou Quinn, olhando para ele como se tivesse acabado de 
pesc-lo na baa. Seu rosto estava todo sujo e muito machucado. Um dos olhos quase no se via de to inchado, enquanto o outro, em um tom de cinza escuro como pedra, 
exibia um ar de amargura e sofrimento que nenhuma criana devia sentir. Havia sangue seco na boca, a qual, apesar disso, conseguia lanar sorrisos de escrnio. 
      Pena e raiva se misturavam dentro de Quinn, mas ele manteve o garoto seguro com toda firmeza. Aquele coelho, ele sabia, fugiria correndo dali, se o soltasse. 
      - Parece que voc acabou do lado errado da briga, filho. 
      - Tira a porra dessa mo de cima de mim! Eu no tava fazendo nada!...
      Ray simplesmente levantou uma sobrancelha. 
      - Voc estava dentro do carro novo da minha mulher s sete da manh de um sbado.  
      - Tava s procurando algum trocado! Qual  a porra da importncia disso?  
      - Voc no deve pegar o hbito de usar demais a palavra "porra" por aqui, sabia? Com o uso em excesso, ela vai acabar perdendo a imensa variedade do seu uso. 
      O tom ligeiramente explicativo era muito elevado para a cabea de Cam.
      - Escute aqui, Jack, eu s precisava de uns dois dlares em moedas. Voc nem ia sentir falta deles. 
      - No, mas Stella ia sentir muito a falta desse carro, se voc tivesse completado a ligao direta. E meu nome no  Jack!  Ray! Agora escute voc: Pelo meu 
modo de ver a situao, voc tem duas escolhas. Deixe-me explic-las para voc... Nmero um: Eu reboco sua bunda magra para dentro de casa e chamo a polcia. Que 
tal passar alguns anos em uma instituio de delinqentes juvenis feita para moleques como voc?  
      A pouca cor que Cam ainda tinha no rosto desapareceu por completo. Seu estmago vazio se contorceu e as palmas das mos se cobriram de suor. Ele no ia aturar 
ir preso. Tinha certeza de que ia acabar morrendo em uma cela.  
      - Eu j disse que no estava roubando a porcaria do carro! Ele no  automtico, tem quatro marchas. Como  que eu ia conseguir dirigir um carro de quatro 
marchas? 
      - Ora, ora... Tenho a impresso de que voc se sairia muito bem fazendo isso... - Ray estufou as bochechas, considerou a situao e soltou o ar com um sopro. 
- Muito bem. Opo nmero dois...
      - Ray! O que est fazendo a fora com esse garoto?
      Ray olhou para a varanda, onde uma mulher com cabelos ruivos em desalinho e vestindo um robe azul muito gasto apareceu, com as mos nos quadris.  
      - Estvamos apenas discutindo algumas opes de vida. Ele estava tentando roubar o seu carro. 
      - Mas o que  isso, pelo amor de Deus?! 
      - Algum andou arrancando o couro dele. Recentemente, pelo que me parece. 
      - Ora... - o suspiro de Stella Quinn foi to alto que dava para ser ouvido  distncia, atravs do gramado ainda coberto de orvalho. - Traga-o aqui pra dentro, 
deixe eu dar uma olhada nele. Que belo modo de comear o dia, hein? Um belo modo!... No, voc volte l pra dentro, seu cachorro idiota. Grande vigia voc , que 
no d nem sequer um latido quando meu carro est sendo roubado.  
      - Esta  a minha esposa, Stella - o sorriso de Ray se abriu e rebrilhou. - Ela acaba de lhe oferecer a opo nmero dois. Voc est com fome? 
      A voz parecia estar zumbindo em seu ouvido. Um co ladrava alegremente como se estivesse a quilmetros dali. Pssaros cantavam com som estridente, parecendo 
estar prximos demais do seu ouvido. O garoto sentiu a pele ficar subitamente quente e ento, logo em seguida, brutalmente gelada. E tudo comeou a escurecer. 
      - Ei, agente firme a, filho. Vou segur-lo... 
      Ele caiu sobre o assento preto e nem chegou a ouvir a praga que Ray soltou, baixinho. 
      Ao acordar, estava deitado em um colcho firme, em um quarto onde a brisa ondulava as cortinas transparentes, trazendo um perfume de flores e de gua de rio. 
Um sentimento de humilhao e pnico surgiu nele. No momento em que tentou se sentar na cama, sentiu que mos decididas o obrigaram a continuar deitado. 
      - Fique quieto por mais um minuto...
      O garoto viu o rosto comprido e magro da mulher que se debruava sobre ele, apertando-o e cutucando-o. Havia milhares de sardas douradas sobre aquele rosto, 
o que, por algum motivo, o deixou fascinado. Os olhos da mulher eram verdes escuros, e naquele instante estavam franzidos. Sua boca permanecia fechada, formando 
uma linha fina e sria. Ela prendera o cabelo todo para trs e tinha um leve cheiro de p-de-arroz. 
      Cam reparou , de repente, que tinham tirado as suas roupas, deixando-o s com as cuecas surradas. A humilhao e o pnico explodiram. 
      - Afaste-se de mim, agora mesmo! - sua voz saiu como um grasnado aterrorizado, e isso o enfureceu. 
      - Relaxe, vamos, relaxe... Eu sou mdica. Olhe para mim. - Stella chegou o rosto mais perto dele. - Olhe para mim, agora. Diga-me o seu nome.
      Seu corao martelou no peito. 
      - John - respondeu ele.  
      - E o sobrenome  Smith imagino, para parecer bem comum - disse ela em um tom seco. - Bem, se voc tem presena de esprito para mentir  porque no est assim 
to mal. - Acendendo uma lanterna em seu olho, resmungou: - Diria que voc teve uma pequena concusso na cabea. Quantas vezes j desmaiou, depois de ter apanhado? 
      - Essa foi a primeira vez - ele sentiu que a cor voltava a seu rosto diante do olhar de Stella, que sequer piscava, e fez fora para no se mostrar embaraado. 
- Acho que foi a primeira. No tenho certeza. Agora, preciso ir embora. 
      - Sim, precisa mesmo. Para o hospital. 
      - No! - o terror foi to grande que lhe deu foras para agarrar o brao dela antes que ela se levantasse. Se ele acabasse no hospital, haveria perguntas. 
Com as perguntas, viriam os tiras. Depois dos tiras, chegariam as assistentes sociais. E assim, de algum modo, antes que ele se desse conta, acabaria de volta naquele 
trailer que fedia a mijo e cerveja, em companhia de um homem que adorava descontar sua raiva da vida socando um menino que tinha a metade do seu tamanho. - No vou 
para hospital nenhum! No vou! Olhe, entregue minhas roupas. Eu tenho um pouco de dinheiro comigo. Vou lhe pagar por todo esse trabalho. Tenho que ir. Agora. 
      Ela tornou a suspirar e perguntou:
      - Diga-me o seu nome. O seu nome verdadeiro!
      - Cam... Cameron. 
      - Cam, quem fez isso com voc? 
      - Eu no... 
      - No minta para mim! - disse ela, com rispidez. 
      E ele no conseguiu mentir. Seu medo era imenso, e sua cabea estava comeando a latejar de forma to terrvel que ele mal conseguiu evitar um choramingo. 
      - Meu pai. 
      - Por que? 
      - Por que ele gosta de me bater. 
      Stella pressionou os dedos de encontro aos olhos, a seguir baixou as mos e olhou para fora da janela. Podia ver a gua, azul como o vero, as rvores, cheias 
de folhas e o cu, lindo e sem nuvens. E em um mundo to bonito como aquele, pensou, havia pais que batiam nos filhos porque gostavam de fazer isso. Porque podiam 
fazer isso. Simplesmente porque os filhos estavam ali, diante deles. 
      - Tudo bem, vamos ento dar um passo de cada vez. Voc estava tonto... Sentiu a viso turva? 
      Desconfiado, Cam fez que sim com a cabea, respondendo:
      - Um pouco, talvez. Mas  que eu no como nada h algum tempo.
      - Ray est l embaixo, cuidando disso.  melhor na cozinha do que eu. Suas costelas esto cheias de equimoses, mas no esto quebradas. O olho  que est em 
pior estado - murmurou, tocando no inchao com todo o cuidado. - Podemos tratar dele aqui mesmo. Vamos limpar voc, tornar a examin-lo e ver como voc reage. Eu 
sou mdica, - repetiu, e sorriu enquanto a mo, com um frescor maravilhoso, arrumou-lhe o cabelo para trs da orelha. - Sou pediatra.
      - Isso  mdico de crianas.  
      - E voc ainda est dentro da minha rea, garoto... Se eu no gostar de como voc est reagindo, vou lev-lo para tirar algumas radiografias - e pegou dentro 
da maleta um antissptico. - Isso vai arder um pouco.  
      Ele se encolheu todo e sugou o ar quando ela comeou a tratar do seu rosto.  
      - Por que est fazendo isso? - perguntou ele. 
      Ela no se agentou. Com a mo livre, passou os dedos nos cabelos pretos do garoto, penteando-os para trs e respondendo:
      - Porque eu gosto.   
            
         
      * * *
         
           Os Quinns ficaram com ele. Foi simples assim, Cam lembrava, agora. Ou, pelo menos, foi como lhe pareceu, na poca. Ele no compreendeu totalmente, at 
muitos anos mais tarde, o quanto de trabalho, esforo e dinheiro eles haviam investido nele, primeiro se oferecendo para abrig-lo e, mais tarde, adotando-o. Eles 
lhe deram sua casa, seu nome e tudo o que ele tinha de valor na vida. 
      Perderam Stella, havia j quase oito anos, para um cncer que se infiltrara em metstases pelo seu corpo, consumindo-o por completo. Um pouco da luz se fora 
quando ela desapareceu da linda casa nos arredores da pequena cidade de St. Christopher, que ficava s margens da baa. Uma parte da luz se apagara tambm em Ray, 
em Cam e nos outros dois meninos perdidos que eles haviam transformado em filhos.  
      Cam seguiu uma carreira esportiva, e disputava corridas. Qualquer tipo de corrida, em qualquer lugar. Agora, estava correndo para casa, a fim de ver o nico 
homem que sempre considerara como pai. 
      Ele j estivera naquele hospital inmeras vezes. Antes, quando sua me fazia parte da equipe, e depois quando ela estivera internada em tratamento contra a 
doena que a levara.  
      E era ali que ele entrava naquele momento, agitado e em pnico, perguntando por Raymond Quinn na recepo. 
      - Ele est no CTI. Apenas a famlia pode visit-lo. 
      - Sou filho dele. - Cameron se virou e foi direto para o elevador. No precisava que lhe informassem o andar. Ele conhecia o prdio muito bem. 
      Viu Phillip assim que as portas se abriram, j no andar do CTI. 
      - Qual o estado dele? 
      Phillip entregou-lhe um dos dois copos de caf que segurava nas mos. Seu rosto estava plido de cansao, seus cabelos normalmente muito bem cortados e penteados 
estavam com pontas e tufos que se eriavam por ao das mos que deviam estar passando atravs deles constantemente. Seu rosto comprido e com ar angelical estava 
com um aspecto rude devido  barba por fazer, e seus olhos, castanhos com tons dourados e muito claros, estavam cheios de olheiras. 
      - Eu no tinha certeza se voc ia conseguir chegar a tempo. Ele est muito mal, Cam. Puxa, eu preciso me sentar por alguns instantes... 
      Foram para uma pequena sala de descanso para visitantes, onde Phillip se largou sobre uma poltrona. Uma lata de Coca Cola que estava no bolso do seu terno 
bem cortado fez um barulho metlico. Por um instante, ele olhou sem expresso para o movimentado programa que estava sendo exibido em uma tev.  
      - O que aconteceu? - quis saber Cam. - Onde ele est? O que os mdicos falaram?  
      Ele estava voltando para casa, vindo de Baltimore. Pelo menos, Ethan acha que ele tinha ido a Baltimore, por algum motivo. Bateu de frente com um poste. De 
frente, Cam!... - e pressionou a base da mo sobre o corao porque ele parecia doer todas as vezes que imaginava a cena. - Os mdicos acham que talvez ele tenha 
sofrido um infarto ou um derrame, e perdeu o controle do carro, mas ainda no tm certeza. Ele vinha dirigindo muito rpido. Em altssima velocidade. 
      Phillip teve que fechar os olhos porque o estmago continuava tentando saltar-lhe pela garganta. 
      - Altssima velocidade - repetiu. - Levaram quase uma hora para conseguir arranc-lo das ferragens. Quase uma hora! Os paramdicos disseram que ele apresentava 
alguns momentos de conscincia, ficava acordando e desmaiando. Aconteceu a uns quatro quilmetros daqui. 
      Lembrando-se da lata de Coca em seu bolso, Phillip a abriu e bebeu. Parecia estar tentando bloquear a imagem do acidente e tir-la da cabea, concentrando-se 
no agora, e no que acontecera em seguida. - Conseguiram localizar Ethan bem depressa - continuou. - Quando ele chegou aqui para ver papai, ele j estava na cirurgia. 
Est em coma, agora. - Olhou para cima e encontrou os olhos do irmo. - Os mdicos acham que ele no vai escapar. 
      - Isso  papo furado! Ele  forte como um touro! 
      - Eles falaram... - Phillip tornou a fechar os olhos. Sua cabea parecia vazia, e ele tinha de buscar l no fundo cada pensamento - ... Que foi um trauma macio, 
com dano cerebral e ferimentos internos. Ele est sendo mantido vivo sob a ao de aparelhos. O cirurgio... Ele... Papai se registrou com doador de rgos. 
      - E da? Foda-se a doao de rgos! - a voz de Cam era baixa e furiosa. 
      - E voc acha que eu quero pensar nessa possibilidade? - Phillip se levantou, mostrando-se um homem muito alto e esguio, vestindo um terno carssimo todo amarrotado. 
- Eles me disseram que  s uma questo de horas. As mquinas esto fazendo com que ele respire. Que droga, Cam, voc sabe como a mame e o papai conversaram a respeito 
disso, quando ela ficou doente. Nenhuma medida extrema artificial! Eles assinaram um documento legal afirmando que no queriam continuar vivendo se para isso fossem 
depender de aparelhos. Estamos ignorando o fato s porque... S porque... No conseguimos agir de outra forma.  
      - E voc quer desligar o plugue? - Cam chegou junto de Phillip e o agarrou pelas lapelas. - Voc que desligar a porcaria do plugue dele? 
      Cansado e com o corao despedaado, Phillip balanou a cabea.
      - No, preferia cortar minha mo fora a ter que fazer isso. No quero perd-lo, tanto quanto voc tambm no quer.  melhor voc ir at l para v-lo, por 
si mesmo.  
      Ele se virou e seguiu na frente do irmo de criao atravs do corredor, onde o cheiro da desesperana no conseguia ser disfarado pelos antisspticos. Atravessaram 
portas duplas, passaram pelo balco das enfermeiras e seguiram por salas com visores de vidro que exibiam mquinas que apitavam e nas quais a esperana insistia 
em se agarrar. Ethan estava sentado em uma cadeira ao lado da cama no momento em que eles entraram. Sua mo grande e calosa passava por entre as grades da cama e 
cobria a de Ray. Seu corpo alto e magro estava curvado, como se ele estivesse falando baixinho como o homem inconsciente que estava na cama ao seu lado. Levantou-se 
lentamente e, com os olhos cercados de manchas escuras pela falta de sono, avaliou Cam. 
      - Ento voc resolveu aparecer. Unir-se ao bando.  
      - Vim o mais rpido que consegui. - Cam no queria admitir o que acontecera, recusava-se a acreditar. O homem, o velho assustadoramente frgil deitado na cama 
estreita era o seu pai. Ray Quinn era imenso, forte, invencvel. Mas aquele homem ali usando o rosto do seu pai parecia menor, como se tivesse encolhido, e estava 
plido e imvel como se estivesse morto. 
      - Papai... - foi at a lateral da cama e se inclinou mais para junto dele. - Aqui  o Cam... Estou aqui! - e esperou, certo que, de algum modo, essa informao 
bastaria para que os olhos de seu pai se abrissem e piscassem de forma brincalhona.  
      Mas no houve movimento algum e nenhum som, a no ser o bipe montono das mquinas. 
      - Quero falar com o mdico dele. 
      -  o Garcia... - Ethan esfregou as mos no rosto e passou-as pelos cabelos desbotados pelo sol. - ...Aquele cirurgio cerebral que mame costumava chamar 
de Mos Mgicas. A enfermeira vai cham-lo. 
      Cam endireitou o corpo, e pela primeira vez reparou no garoto todo encolhido e adormecido em uma poltrona no canto do quarto. 
      - Quem  aquele menino? 
      - O ltimo dos garotos perdidos de Quinn - explicou Ethan, conseguindo dar um sorriso leve. Normalmente, isso teria amenizado as linhas do seu rosto srio, 
e aquecido os paciente olhos azuis. - Papai chegou a comentar a respeito dele com voc, no chegou? Seth  o seu nome. Papai o trouxe para casa h uns trs meses 
- ia falar mais alguma coisa, mas percebeu o olhar de advertncia de Phillip, e parou. - A gente fala sobre isso mais tarde.
      Phillip se posicionou aos ps da cama, balanando para a frente e para trs sobre os calcanhares.  
      - E ento, como estavam as coisas em Monte Carlo? - Diante do olhar sem expresso de Cam, levantou os ombros. Aquele era um gesto que todos eles usavam em 
substituio a palavras. - A enfermeira falou que ns devamos continuar a conversar normalmente com ele, e entre ns. Disse que talvez ele possa ouvir... Eles no 
sabem direito, ainda no tm certeza... 
      - Correu tudo bem, por l... - Cam se sentou e espelhou o gesto de Ethan ao alcanar a mo de Ray atravs da grade protetora da cama. Como a mo estava muito 
mole e sem vida, ele a apertou de leve, estimulando-a a apertar a sua de volta. - Ganhei uma bolada no cassino e estava na minha sute com uma modelo francesa muito 
quente quando o fax de vocs chegou... - virou o rosto na direo de Ray e dirigiu-se diretamente a ele. - Voc devia t-la visto, pai, ela era incrvel! Tinha pernas 
to compridas que pareciam ir at as orelhas, e seios maravilhosos, esculpidos a mo.  
      - E tinha uma cara? - perguntou Ethan, de forma seca. 
      - Uma que combinava em tudo com o corpo. Garanto a vocs, ela era de arrasar! E quando avisei que tinha que ir embora s pressas, ficou meio revoltada - e 
mostrou as marcas em seu rosto, no lugar em que o arranhara. - Tive que expuls-la para o meio do corredor do hotel antes que ela me fatiasse em tiras. Ainda bem 
que me lembrei de jogar o vestido dela, logo atrs. 
      - Ela estava nua? - Phillip quis saber. 
      - Como Eva.  
      Phillip sorriu, a princpio, mas depois soltou a primeira gargalhada em quase vinte e quatro horas.  
      - Puxa, isso eu quero ouvir em detalhes - e colocou a mo sobre os ps cobertos de Ray, necessitando de uma conexo. - Ele tambm vai adorar essa histria! 
                  
         
      * * *
                  
      No canto, sobre a poltrona, Seth fingia que estava dormindo. Ouvira Cam entrar. Sabia quem ele era. Ray falava muito de Cameron. Tinha dois lbuns de recortes, 
gordos de tantas notcias, reportagens, artigos e fotos de suas corridas e conquistas.  
      Ele no parecia to duro, invencvel e importante naquele momento, Seth decidiu. O cara parecia mais era doente, plido e com os olhos fundos. Ele j havia 
criado em sua cabea uma imagem prpria de como seria Cameron Quinn.  
      De Ethan, ele gostava muito. Embora fosse um sujeito que o punha para trabalhar pesado sempre que iam pescar ostras e mariscos juntos. Mas no ficava dando 
esporro o tempo todo, e nem uma vez sequer o agredira com um tapa ou uma bofetada, mesmo quando Seth dera algumas mancadas no trabalho. Alm disso, combinava direitinho 
com a imagem que um menino de dez anos como Seth fazia de um pescador.  
      Tinha a pele ressecada e spera, era muito bronzeado, com cabelos encaracolados castanhos cheios de pontas louras queimadas pelo sol, msculos fortes e fala 
arrastada. ... Seth gostava muito dele. 
      Em Phillip ele no se ligava muito. Normalmente aparecia todo arrumado, limpo e bem vestido. Seth imaginava que o cara tinha uns seis milhes de gravatas, 
embora no conseguisse imaginar porque um homem precisaria de uma s que fosse. Phillip, porm, tinha assim uma espcie de emprego sofisticado em uma firma elegante 
em Baltimore. Trabalhava com propaganda. Bolava idias para vender coisas para as pessoas, coisas das quais elas provavelmente nem precisavam.  
      Seth via aquilo como uma maneira bem interessante de enganar otrios.
      E agora, Cam... Ele era aquele que gostava dos holofotes, vivia no limite e corria todos os riscos. No, ele no parecia assim to duro, nem to implacvel. 
      Nesse instante, Cam virou a cabea. Seus olhos se grudaram nos de Seth e ficaram parados ali, sem piscar, profundos e diretos, at o menino sentir o estmago 
se contorcer. Para escapar daquilo, simplesmente fechou os olhos e tentou se imaginar de volta na casa  beira d'gua, jogando gravetos para o desajeitado co que 
Ray batizara de Bobalho. 
      Percebendo que o garoto estava acordado e sentira o seu olhar, Cam continuou a avali-lo. Era um menino bonito, decidiu, com uma grande quantidade de cabelos 
despenteados, louros claros, e um corpo que j estava comeando a adquirir contornos masculinos. A julgar pelo tamanho dos ps, ele se transformaria em um varapau 
antes mesmo de acabar de crescer de todo. Tinha um queixo protuberante que indicava arrogncia, observou Cam, e uma boca que formava um biquinho. Ali, fingindo que 
dormia, conseguia parecer to inofensivo quanto um cachorrinho, e tambm charmoso. 
      Os olhos, porm... Cam percebera algo que transmitia cautela animal neles. O prprio Cam j vira aquele olhar demasiadas vezes, no espelho. No conseguira 
identificar a cor dos olhos do menino, mas pareciam sombrios. Azuis escuros ou castanhos, imaginou. 
      - No devamos levar o garoto para algum outro lugar? 
      Ethan olhou para trs, dizendo:  
      - No, ele est bem, aqui, No temos ningum com quem deix-lo, de qualquer modo. Se ficasse em casa sozinho ia acabar arrumando encrencas.
      Cam deu de ombros, olhou para o outro lado e se esqueceu do menino.
      - Quero falar com Garcia. Eles j devem ter os resultados dos testes, ou algo desse tipo. Papai sabe dirigir como um profissional, e se no teve um infarto 
ou um derrame... - e parou de falar, de forma repentina. Era demais imaginar aquilo. - Precisamos saber ao certo. Ficar andando aqui de um lado para o outro no 
est ajudando muito.  
      - Voc precisa fazer alguma coisa para espairecer - disse Ethan, com a voz suave demais, demonstrando que estava segurando uma exploso de raiva. - V at 
l e agite isso... O fato de estar aqui j conta muito - e olhou para o irmo atravs do corpo inconsciente de Ray. - Foi sempre o que contou, para ele.  
      - Algumas pessoas no planejam passar a vida escavando a lama em busca de ostras e mariscos, nem verificando armaes de arame para pegar caranguejos! - reagiu 
Cam. - Ele nos ofereceu a chance de construirmos nossas vidas, e esperava que fizssemos delas o que bem quisssemos.
      - E voc fez de sua vida o que bem quis. 
      - Todos ns fizemos - argumentou Phillip. - Se havia algo de errado com papai nos ltimos meses, Ethan, voc devia ter nos contado. 
      - Mas que diabos, como e que eu podia saber se havia algo de errado com ele? - Ele realmente desconfiara de alguma coisa, s que no conseguira tocar no assunto, 
e deixara a coisa correr... Isso o consumia por dentro agora, enquanto ficava sentado ali, escutando as mquinas que mantinham o pai respirando.  
      - Voc podia saber, sim, porque estava aqui! - disse-lhe Cam.
      - Sim, eu estava aqui, e vocs no... Durante anos. 
      - Quer dizer que se eu tivesse ficado aqui em St. Chris ele no teria se arrebentado em uma droga de poste?  isso a... - Cam passou as mos pelos cabelos 
- ...Isso faz mesmo muito sentido!  
      - Se vocs estivessem por perto... Se qualquer um dos dois estivesse, ele no tentaria fazer tantas coisas por conta prpria. Toda vez que eu aparecia ele 
estava no alto da porcaria de uma escada, ou empurrando um carrinho de mo, ou pintando um barco. Continuava a dar aulas trs vezes por semana na universidade, servindo 
de tutor, corrigindo provas e trabalhos... E j est com quase setenta anos, pelo amor de Deus! 
      - Ele tem s sessenta e sete! - Phillip sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha e agarrar-lhe o pescoo - e sempre foi to saudvel quanto um cavalo.
      - No ultimamente... Nos ltimos tempos ele j no andava assim to bem. Vinha perdendo peso, parecia cansado e acabado. Voc mesmo viu, com os prprios olhos. 
      - Certo, certo. - Phillip passou as mos no rosto, sentindo a aspereza da barba por fazer. - Ento, talvez ele devesse diminuir um pouco o ritmo. Pegar mais 
esse garoto para criar provavelmente foi demais para ele, mas no houve jeito de dissuadi-lo da idia. 
      - Sempre discutindo, vocs trs!...  
      A voz fraca e arrastada fez com que os trs homens dessem um pulo e ficassem alertas.  
      - Papai! - Ethan se inclinou primeiro na direo dele, com o corao martelando dentro do peito. 
      - Vou chamar o mdico - reagiu Phillip. 
      - No. Fique! - murmurou Ray antes de Phillip sair correndo do quarto. Para Ray, aquele rpido retorno  vida era um esforo tremendo, mesmo que s por alguns 
minutos. E ele sentiu que tinha no mais do que poucos minutos. Seu corpo e sua mente j lhe pareciam coisas separadas uma da outra, embora ele ainda conseguisse 
sentir a presso amorosa de mos sobre as suas mos, ouvir o som das vozes dos filhos, bem como sentir o medo e a revolta nelas.
      Sentia-se cansado, ah, muito cansado... E queria Stella... Antes de partir, porm, tinha de desempenhar uma ltima tarefa.  
      - Escutem aqui... - cada plpebra parecia pesar vrios quilos, mas ele fez fora para mant-las abertas e lutou para colocar os olhos em foco. Seus filhos, 
pensou ento, trs maravilhosos presentes do destino. Ele havia feito o melhor que podia por eles, tentou ensinar-lhes como se tornarem homens bons. Agora, precisava 
deles para mais uma coisa. Precisava deles para se manterem unidos, mesmo sem ele, a fim de cuidarem do garoto.
      - O menino... - at mesmo as palavras pareciam pesar. Faziam-no franzir os olhos para conseguir lev-las da mente para os lbios. - O menino  meu! E agora 
vai ser de vocs. Fiquem com ele! No importa o que acontea, cuidem dele. Cam... Voc  o que vai conseguir compreend-lo melhor - A mo grande, no passado to 
forte e cheia de vida, tentava desesperadamente apertar os dedos de Cam. - Quero que me dem a sua palavra! 
      - Ns tomaremos conta dele - naquele momento, Cam teria prometido a lua e as estrelas. - Vamos tomar conta dele at o senhor ficar bem de sade, novamente, 
pai.   
      - Ethan... - Ray sugou um pouco mais do ar que ofegava pelo respirador artificial. - Ele vai precisar da sua pacincia, do seu bom corao. Voc  bom para 
trabalhar na gua por causa disso.  
      - No se preocupe com Seth. Tomaremos conta dele. 
      - Phillip... 
      - Estou aqui - e se chegou mais para perto, abaixando a cabea. - Estamos todos aqui.
      - Voc tem uma cabea boa... Vai conseguir fazer com que tudo se ajeite e se encaixe, para funcionar. No deixem o garoto ser levado embora daqui. Vocs so 
irmos. Lembrem-se sempre de que voc so irmos! Tenho tanto orgulho de vocs... De todos vocs. Quinns... - Sorriu ligeiramente e parou de tentar lutar. - Vocs 
precisam deixar que eu me v, agora... 
      - Vou buscar o mdico! - Em pnico, Phillip correu para fora do quarto enquanto Cam e Ethan tentavam trazer o pai de volta  conscincia. 
      Ningum reparou no menino que continuava encolhido na poltrona, com os olhos fechados com toda a fora para evitar as lgrimas quentes que queriam escorrer. 
  
Captulo Dois
  
      
      Eles vieram sozinhos e em bandos para velar e enterrar Ray Quinn. Ele fora mais do que um simples residente no pontinho do mapa conhecido como St. Christopher. 
Fora professor, amigo e confidente. Nos anos em que as ostras andavam escassas ele ajudava a organizar campanhas para angariar fundos ou ento arrumava, de uma hora 
para outra, dezenas de bicos e servios que precisavam ser executados, a fim de sustentar os pescadores de gua doce durante os invernos mais rigorosos.
      Se algum estudante estava com dificuldades na matria, Ray sempre abria uma brecha em sua agenda para oferecer-lhe uma aula particular. Suas aulas de Literatura 
na universidade estavam sempre lotadas, e era muito difcil algum se esquecer do Professor Quinn.
      Ele acreditava na fora da comunidade, e essa f havia sido no apenas forte, mas gil. Ele tivera o mais vital dos dotes humanitrios: o de tocar e melhorar 
a vida das pessoas.
      Criara trs meninos que ningum queria e os transformara em homens.
      Todos cobriram seu tmulo com flores e lgrimas. Assim, quando os sussurros e as especulaes comearam a surgir, eram quase sempre caladas e sufocadas rapidamente. 
Poucos estavam dispostos a ouvir qualquer fofoca que refletisse mal na imagem de Ray Quinn. Ou pelo menos era o que falavam, mesmo quando as orelhas se virassem 
para ouvir melhor os murmrios.
      Escndalos sexuais, adultrio, uma criana ilegtima... suicdio...
      Ridculo! Impossvel! A maioria reagia assim, de corao. Outros, no entanto, se inclinavam um pouco mais para ouvir melhor e pegar cada sussurro, franzir 
as sobrancelhas e passar a histria adiante nos ouvidos de algum.
      Cam no ouviu nenhum dos rumores. Seu pesar era to grande, to monstruoso que ele mal conseguia ouvir os prprios pensamentos sombrios. Quando sua me morrera, 
ele fora capaz de lidar melhor com aquilo. J estava preparado para o momento quando tudo aconteceu. Ela j havia testemunhado seu sofrimento por muito tempo e a 
vira rezar para que aquilo tivesse um fim. Esta perda de agora, porm, fora muito rpida, muito arbitrria, e no havia cncer algum sobre o qual jogar a culpa.
      Havia pessoas demais na casa, pessoas que desejavam oferecer condolncias ou compartilhar lembranas. Cam no queria saber das lembranas, no conseguiria 
encar-las at lidar com as prprias recordaes.
      Sentou-se sozinho na doca que ele mesmo ajudara Ray a consertar pelo menos umas dez vezes no decorrer dos anos. Ao lado dele estava a linda corveta de vinte 
e quatro ps na qual toda a famlia velejara inmeras vezes. Cam ainda se lembrava do primeiro passeio por aquelas guas, para o qual Ray o levara em um pequeno 
veleiro de um s mastro, todo de alumnio, e que pareceu a Cam pouco maior que um barquinho entalhado em cortia.
      Lembrou-se da pacincia com que Ray o ensinara a velejar, ao manejar o cordame e a direcionar a embarcao. A emoo, Cam recordava naquele instante, da primeira 
vez em que Ray o deixara manejar o leme sozinho.
      Fora uma experincia capaz de modificar toda a existncia de um menino que crescera largado, vagando por ruas suspeitas: todo aquele ar salgado no rosto, o 
vento chicoteando a vela branca, a vertigem e a sensao de liberdade em deslizar velozmente sobre as guas espelhadas. Acima de tudo, porm, foi a confiana que 
ele demonstrou em Cam. Tome, Ray dissera, entregando-lhe a direo do barco. Veja o que consegue fazer com ele.
      Talvez tivesse sido naquele instante, naquela tarde um pouco enevoada, quando as folhas estavam verdes e exuberantes e o sol era j uma bola branca por trs 
da bruma, que Ray conseguira transformar o garoto no homem que Cam era hoje.
      E fizera isso apenas com um sorriso.
      Cam ouviu os passos lentos sobre a doca, mas no se virou. Continuou a olhar para a gua enquanto Phillip chegava e se colocava ao lado dele.
      - A maioria do pessoal j foi embora.
      - Que bom!
      - Eles vieram por papai... - Phillip enfiou as mos nos bolsos. - Ele teria gostado disso.
      - . - Cansado, Cam apertou os olhos com os dedos e os deixou escorregar pelo rosto. - Sim, ele teria gostado. Eu sa porque acabei com todo o estoque de coisas 
para dizer s pessoas, e tambm no sabia como diz-las.
      - . - Embora ganhasse a vida imaginando palavras e frases criativas e inteligentes, Phillip compreendia perfeitamente o sentimento. Ficou alguns instantes 
curtindo o silncio. A brisa que vinha da gua estava um pouco forte, e isso era um alvio depois de enfrentar a casa entulhada de gente, quente demais devido ao 
calor de muitos corpos juntos. - Grace est limpando a cozinha, e Seth est lhe dando uma mozinha. Acho que ele gosta dela.
      - Ela est com uma boa aparncia. - Cam tentava afastar a mente daquilo e pensar em outra coisa. Qualquer coisa. -  difcil imagin-la j com uma filhinha. 
Ela se divorciou, no foi?
      - Sim, h um ou dois anos. O cara se mandou pouco antes de a gracinha da Aubrey nascer. - Phillip soprou o ar entre os dentes. - Temos coisas para resolver, 
Cam.
      Cam reconhecia o irmo s pelo tom das palavras, e o tom na voz de Phillip queria dizer que era hora de tratar de negcios. Uma espcie de ressentimento comeou 
a borbulhar dentro dele.
      - Eu estava pensando em dar uma velejada. O vento est muito bom hoje - disse Cam.
      - Voc pode velejar mais tarde.
      - E posso velejar agora! - Cam virou o rosto para o irmo, com ar afvel.
      - Est correndo um boato por a... as pessoas esto falando que papai cometeu suicdio.
      O rosto de Cam ficou sem expresso por um instante, e ento se encheu de fria em estado bruto.
      - Que porra  essa que voc est dizendo? - Quis saber enquanto se colocava em p com um pulo.
      Ah, pensou Phillip, com uma satisfao sombria, agora consegui prender a sua ateno.
      - Cam, esto especulando por a que ele se jogou de propsito contra o poste.
      - Isso  mentira pura, papo furado! Quem, diabos, est falando isso?
      - Est rolando por a, e um pouco da histria est criando razes. Tem a ver com Seth.
      - O que tem a ver com Seth? - Cam comeou a andar de um lado para outro, com passos largos e furiosos, ao longo da estreita doca. - O que foi, eles acham que 
ele estava maluco por ter pegado mais um garoto para criar? Porra, ento ele era louco por ter pegado qualquer um de ns para criar, e o que isso tem a ver com o 
acidente?
      - Corre um papo por a... as pessoas esto falando que Seth  filho dele, de verdade... de sangue!
      - Mas a mame no podia ter filhos - argumentou Cam, parando de repente.
      - Eu sei disso.
      - Voc est dizendo que ele a traiu, ento? - A fria batia em seu peito como martelo sobre ao. - Est dizendo que papai saiu por a com outra mulher e arrumou 
um filho? Por Deus, Phillip!
      - No estou dizendo nada disso!
      Cam chegou mais perto do irmo at ficarem cara a cara.
      - Ento, o que est dizendo?
      - Estou apenas contando para voc o que ouvi as pessoas comentarem - disse Phillip, sem se abalar -, a fim de podermos lidar com o caso.
      - Se voc tivesse peito, teria dado um soco e colocado a nocaute a pessoa que disse isso com sua boca suja e mentirosa.
      -  o que parece que voc est querendo fazer comigo agora. Essa  a sua forma de lidar com as coisas? Ficar dando porrada nelas at que o problema desaparea? 
- Com o prprio sangue comeando a ferver, Phillip deu um empurro em Cam. - Ele era meu pai tambm, droga! Voc foi o primeiro, mas no foi o nico!
      - Ento por que no o defendeu, Phillip, em vez de ficar ouvindo todo esse lixo? Tava com medo de sujar suas mozinhas? Estragar suas unhas? Se voc no fosse 
to maricas, teria...
      O punho de Phillip se levantou e atingiu o maxilar de Cam com fora e preciso. Foi um soco forte o bastante para atirar a cabea de Cam para trs e faz-lo 
cambalear ligeiramente. Ele, porm, recuperou o equilbrio bem depressa. Com olhos sombrios e sedentos, balanou a cabea, chamando:
      - Bem, ento venha, pode vir.
      Com o sangue borbulhando na cabea, Phillip comeou a tirar o palet, olhando para Cam. O ataque veio sobre ele de modo inesperado e por trs. Ele mal teve 
tempo de xingar e entender o que acontecera, antes de voar por cima da doca e cair dentro d'gua.
      Phillip voltou  superfcie e afastou o cabelo molhado da frente dos olhos.
      - Filho-da-me. Seu filho-da-me!
      Ethan estava com os polegares enfiados nos bolsos da frente da cala e avaliava seu irmo, que espalhava gua lentamente em volta de si.
      - Esfrie a mufa - sugeriu com suavidade.
      - Esse terno  um Hugo Boss. - Phillip conseguiu argumentar, enquanto voltava lentamente na direo da doca.
      - Isso no significa porra nenhuma para mim. - Ethan olhou para Cam. - E para voc significa alguma coisa?
      - Significa sim. Significa que ele vai ter uma despesa gigantesca para mandar lavar a roupa a seco.
      - E voc tambm - disse Ethan, e empurrou Cam de cima da doca, atirando-o na gua. - Essa no  a hora nem o lugar para vocs ficarem brincando de socar um 
a cara do outro. Portanto, quando vocs dois rebocarem as bundas molhadas da e se secarem, a gente vai poder conversar direito. Mandei Seth ficar algum tempo com 
Grace.
      Com os olhos apertados, Cam penteou os cabelos para trs com os dedos.
      - Ento, de uma hora para outra, voc resolveu assumir o controle da situao?
      - A mim parece que fui o nico a conseguir ficar com a cabea fora d'gua. - Dizendo isso, Ethan se virou e encaminhou-se lentamente de volta para casa.
      Juntos, Cam e Phillip agarraram a ponta da doca. Trocaram um olhar longo e duro, antes de Cam finalmente suspirar e dizer:
      - A gente joga ele dentro d'gua mais tarde.
      Aceitando as desculpas do irmo, Phillip fez que sim com a cabea. Fez um esforo e se elevou sobre a borda da doca, sentando-se e comeando a arrancar a gravata 
de seda arruinada.
      - Eu o amava tambm. Tanto quanto voc. Tanto quanto qualquer um de ns era capaz.
      - . - Cam comeou a tirar os sapatos. - Eu no suporto isso! - Era uma coisa difcil de admitir, ainda mais vinda de um homem que escolhera viver continuamente 
no limite. - No queria estar aqui hoje. No queria estar aqui para testemunhar o momento em que eles o colocaram debaixo da terra.
      - Voc conseguiu estar com papai antes de sua morte. Era tudo o que teria importado para ele.
      Cam tirou as meias, a gravata, o palet e sentiu o vento gelado de incio de primavera.
      - Quem contou a voc sobre esses boatos? Quem anda dizendo essas coisas sobre papai?
      - Grace. Ela tem ouvido comentrios a respeito e achou que era melhor que ns soubssemos o que o povo anda falando. Ela contou a mim e a Ethan hoje de manh... 
e chorou muito! - Phillip levantou a sobrancelha. - Continua achando que eu devia ter dado um soco nela e a nocauteado?
      Cam atirou os sapatos destrudos sobre o gramado.
      - Quero saber quem comeou a espalhar esses boatos e por qu.
      - Voc j olhou para Seth, Cam?
      O vento comeava a atingir os seus ossos. Por isso, ele subitamente ficou com vontade de tremer.
      -  claro que j olhei para ele - Cam disse e se virou, comeando a caminhar em direo  casa.
      - Ento, olhe com mais ateno - murmurou Phillip.
      Quando Cam entrou na cozinha, vinte minutos depois, mais aquecido e seco, usando um jeans e um suter, Ethan j estava com o caf e o usque prontos.
      Era uma cozinha ampla, para uma famlia numerosa, com uma comprida mesa no centro. As bancadas brancas mostravam sinais de envelhecimento, com arranhes e 
rachaduras devidos ao uso constante. Alguns anos antes, houve planos de trocar o antigo fogo. Ento, Stella caiu doente e isso representou o fim daquela idia.
      Havia uma tigela rasa para colocar frutas sobre a mesa que Ethan fizera em uma oficina de artesanato em madeira quando ainda estava no ensino mdio. Ela continuava 
l desde o dia em que ele a trouxera para casa, mas vivia cheia de cartas, bilhetes e miudezas domsticas, em vez de exibir as frutas para as quais fora projetada. 
Trs janelas largas, sem cortinas, enfileiravam-se na parede dos fundos, descerrando para a cozinha uma linda vista do quintal e da bela superfcie da gua um pouco 
alm.
      As portas dos armrios eram de madeira com vidro no centro, e os pratos dentro deles eram de loua branca e simples, meticulosamente arrumados, como arrumado 
era tambm, Cam refletiu, o contedo de todas as gavetas. Stella insistira naquilo. Quando queria uma colher, por Deus, ela no aceitava ter que ficar procurando 
por ela.
      A geladeira estava coberta de fotos e recortes de jornais, notas, cartes-postais, desenhos infantis, todos afixados ao acaso por ms multicores.
      Cam sentiu um n dentro do peito ao entrar naquele lugar e saber que seus pais jamais estariam novamente ali com ele.
      - Fiz um caf bem forte - comentou Ethan. - O usque tambm  dos bons. Podem escolher.
      - Eu fico com os dois. - Cam despejou a bebida quente em uma caneca, acrescentou uma dose de Johnnie Walker ao caf e ento se sentou. - Voc tambm est com 
vontade de me dar um soco?
      - Estava. Pode ser que a vontade volte. - Ethan resolveu que queria seu usque puro e sem gelo. E se serviu de uma dose dupla. - No momento no estou com vontade 
de atacar voc. - Ele se colocou diante da janela, olhando para fora, com o usque intocado na mo. - Talvez eu continue achando que voc devia ter estado mais aqui 
nos ltimos anos. Talvez voc no tivesse condies ou oportunidade para fazer isso. Agora nada disso importa...
      - Eu no sou um pescador, Ethan. Trabalho naquilo que sou bom. Era isso que eles esperavam de mim.
      - . - Ethan no conseguia imaginar a necessidade que Cam sempre demonstrara em fugir para longe do lugar que era seu lar, seu santurio. O lugar que representava 
o amor. Mas no havia motivos para questionar isso, nem por que guardar ressentimentos. E nem, admitiu ele, procurar culpados. - A casa est precisando de reparos.
      - Eu notei.
      - Eu devia ter arrumado mais tempo para aparecer por aqui e ajeitar as coisas. A gente sempre acha que vai sobrar muito tempo para fazer as coisas, e ento 
descobre que no sobrou nenhum. A escada dos fundos est toda podre, precisa ser consertada. Eu vivia planejando fazer isso. - E ao ver Phillip entrar na cozinha 
avisou: - Grace vai ter que trabalhar hoje  noite, e no pode tomar conta de Seth por mais de algumas horas. Voc pode contar toda a histria para Cam, Phillip. 
Se eu fizer isso, vou levar um tempo.
      - Tudo bem. - Phillip se serviu de caf e deixou o usque de lado. Em vez de se sentar, preferiu se encostar em uma das bancadas. - Parece que uma mulher veio 
ver papai, h alguns meses. Foi at a universidade e causou alguns problemas por l, mas ningum ligou muito para ela na ocasio.
      - Que tipo de problemas?
      - Criou uma cena na sala de papai, com muitos gritos e choro da parte dela. Ento, foi procurar o reitor e tentou dar queixa de assdio sexual contra papai.
      - Isso  golpe, um monte de mentiras!
      - O reitor aparentemente tambm avaliou assim. - Phillip se serviu de outra caneca de caf, e dessa vez a colocou sobre a mesa. - Ela alegava, aos gritos, 
que papai a havia assediado e molestado tempos atrs, na poca em que era aluna dele. S que no havia registro algum de ela jamais ter freqentado aulas na universidade. 
Ento ela argumentou que assistia s aulas dele apenas como ouvinte, porque no podia pagar a mensalidade. S que ningum conseguiu comprovar a veracidade disso 
tambm. A reputao de papai permaneceu inabalada, e a coisa parecia ter acabado por a...
      - Ele ficou bastante abalado na ocasio - Ethan acrescentou. - No falava comigo a respeito do assunto. No falava com ningum sobre isso. Ento, resolveu 
viajar por uma semana. Disse que estava indo passar uns dias na Flrida para pescar um pouco... e voltou com Seth.
      - Voc est tentando me dizer que as pessoas acham que o garoto  filho dele? Pelo amor de Deus, ento vocs acreditam que ele teve uma transa com uma vadia 
qualquer que espera, deixe ver... dez ou doze anos para s ento reclamar a respeito?
      - Ningum deu muita importncia ao fato na hora - interrompeu Phillip. - Ele j tinha um passado de recolher garotos largados e traz-los para casa. S que 
a pintou o lance do dinheiro.
      - Que dinheiro?
      - Ele passou cheques, um de dez mil dlares, outro de cinco e mais um de dez nos ltimos trs meses. Todos nominais a Gloria DeLauter. Algum no banco percebeu 
a histria e comentou com mais algum, porque Gloria DeLauter era o nome da tal mulher que tentara enquadr-lo com acusaes de assdio sexual.
      - E por que diabos ningum me contou o que andava acontecendo por aqui?
      - Eu s descobri a respeito da grana h poucas semanas. - Ethan olhou fixamente para o usque, e ento decidiu que a bebida lhe seria mais til dentro da barriga 
do que fora. Entornou tudo de uma vez s e sibilou, fazendo uma careta. - Quando perguntei a ele a respeito, papai simplesmente me respondeu que o garoto  que era 
a parte mais importante da histria. Disse para eu no me preocupar. Garantiu que assim que tudo estivesse resolvido ele me explicaria a histria toda. Pediu-me 
um pouco mais de tempo, pacincia, e me pareceu to... indefeso. Voc no imagina como foi v-lo assim assustado, velho e frgil. Voc no o viu, no estava aqui 
para v-lo naquele estado. Ento eu esperei... - O usque se juntou ao ressentimento e  culpa e fizeram um buraco dentro dele - E eu estava errado, fiz mal em esperar. 
Abalado, Cam se afastou da mesa e perguntou:
      - Voc acha que ele estava sendo chantageado? Que ele seduziu uma aluna h uns doze anos e a engravidou? E agora estava pagando essa grana para ela ficar quieta 
e entregar o garoto para ele criar?
      - S estou lhe contando o que aconteceu, do jeito que eu ouvi. - A voz de Ethan estava calma, e seus olhos firmes. - No o que eu acho.
      - Pois eu nem sei o que achar - disse Phillip, baixinho. - O que eu sei  que Seth tem os olhos dele. Basta olhar para ele para perceber de cara, Cam.
      - Pois eu duvido que ele tenha trepado com uma aluna, de jeito nenhum! E no acho que tenha trado a mame, de jeito nenhum tambm.
      - Eu tambm no quero acreditar nisso. - Phillip pousou sua caneca sobre a mesa. - Mas ele era humano! Pode ser que tenha cometido um erro. - Um deles tinha 
que ser realista, e Phillip se elegeu para isso. - E, se ele cometeu esse erro, no cabe a mim conden-lo. O que temos que esquematizar  como fazer para atender 
ao pedido que ele fez. Precisamos arrumar um jeito de manter Seth conosco. Posso descobrir se ele j deu entrada nos papis de adoo. Se deu, no houve tempo para 
o processo estar concludo. Vamos precisar de um advogado.
      - Quero saber mais sobre essa tal Gloria DeLauter. - Deliberadamente, Cam abriu os punhos, antes que acabasse usando-os em alguma coisa ou em algum. - Quero 
saber quem, diabos,  ela. E onde se enfiou.
      - Voc  que sabe... - Phillip deu de ombros. - Pessoalmente, no quero nem chegar perto dela.
      - E essa histria escrota de suicdio?
      Phillip e Ethan trocaram um olhar, e ento Ethan se levantou e foi at uma gaveta da cozinha. Abriu-a e pegou um grande pacote selado. Sentia-se machucado 
s de pegar naquilo, e notou pelo jeito dos olhos de Cam, que se tornaram sombrios, que ele reconheceu de imediato o gasto chaveiro de acrlico com um trevo dentro 
que pertencera a seu pai.
      - Essas so as coisas que os bombeiros encontraram no carro logo depois do acidente. - Abrindo o pacote, pegou um envelope. O papel branco tinha manchas de 
sangue seco. - Acho que algum... um dos policiais, o motorista do reboque ou talvez um dos paramdicos deu uma olhada no envelope, leu a carta e no se preocupou 
em guardar as informaes para si mesmo.  dela. - Ethan deu um tapinha na carta e a entregou a Cam. - A carta  de Gloria DeLauter. O carimbo  de Baltimore.
      - Ele estava vindo de Baltimore. - Com receio, Cam desdobrou a carta. A caligrafia era meio confusa e feia, com letras muito grandes.
      
      Quinn, estou cansada de receber ninharias. J que voc quer tanto ficar com o garoto,  hora de pagar por ele. Encontre-me no mesmo lugar em que voc o pegou. 
Vamos nos encontrar na segunda de manh. O quarteiro fica bem mais calmo a essa hora. Onze horas. Traga cento e cinqenta mil, em dinheiro. Em dinheiro, Quinn, 
sem desconto! Se voc no aparecer com toda a grana, at o ltimo centavo, vou pegar o garoto de volta. Lembre-se de que eu posso melar o processo de adoo a qualquer 
tempo. Cento e cinqenta mil at que  um bom negcio para um garoto bonito como Seth. Traga a grana que eu sumo de vez. Dou-lhe minha palavra.
      Gloria.
      
      - Ela estava vendendo o garoto - murmurou Cam -, como se ele fosse um... - E parou de falar na mesma hora, olhando direto para Ethan ao lembrar que Ethan tambm 
havia sido vendido, pela prpria me, para homens que preferiam garotos novos. - Desculpe, Ethan.
      - Eu consigo conviver com isso - disse ele com resignao. - Mame e papai fizeram de tudo para que eu superasse essa histria. Ela no vai pegar Seth de volta. 
No importa o que seja necessrio, ela no vai colocar as mos nele.
      - E ns no sabemos ao certo se ele deu essa grana toda para ela.
      - Ele esvaziou sua conta aqui na cidade - informou Phillip. - Pelo que investiguei, apesar de ainda no ter tido tempo de analisar sua papelada com detalhes, 
ele encerrou todas as contas de poupana e resgatou os certificados de depsito. Teve apenas um dia para levantar o dinheiro. Tudo isso somado chegou a cem mil, 
mais ou menos. No sei se ele tinha os outros cinqenta nem se teve tempo de transformar em grana caso tivesse.
      - E ela no ia sumir. Papai devia saber disso. - Cam colocou a carta sobre a mesa e esfregou as mos nas calas, como se para limp-las.
      - Ento, qual ?... o povo anda fofocando que ele se matou por causa de qu?... vergonha, pnico, desespero? Ele jamais deixaria o garoto para trs, sozinho.
      - E no deixou mesmo - Ethan foi at a cafeteira. - Deixou-o conosco.
      - Mas como  que a gente vai poder ficar com ele? - Cam tornou a se sentar. - Quem  que vai deixar trs caras adotarem um garoto?
      - A gente arruma um jeito - Ethan se serviu de caf, e colocou tanto acar que fez Phillip virar o rosto, fazendo uma careta. - Ele agora  nosso!
      - Mas que diabos ns vamos fazer com ele?
      - Matricul-lo na escola, colocar um teto sobre a sua cabea, comida na sua barriga e tentar dar a ele um pouco do que nossos pais deram para a gente. - Foi 
pegar o bule e completou o caf de Cam.
      - Voc tem algum argumento contra?
      - Duas dzias, mas nenhum deles se sobrepe ao fato de que empenhamos nossa palavra.
      - Pelo menos ns trs concordamos nesse ponto. - Franzindo os olhos, Phillip tamborilou com os dedos sobre a mesa. - S que esquecemos um pequeno detalhe que 
 vital: nenhum de ns sabe o que Seth tem a dizer a respeito disso. Pode ser que ele no queira ficar aqui. Pode ser que no queira ficar com a gente.
      - Voc vive arrumando um jeito de complicar as coisas,  sempre assim! - reclamou Cam. - Por que razo ele no ia querer?
      - Porque ele nem conhece voc, e mal me conhece. - Phillip levantou a caneca e gesticulou. - O nico de ns com quem ele j passou algum tempo foi Ethan.
      - No passou assim tanto tempo comigo tambm no - admitiu Ethan. - Eu o levei comigo no barco para trabalhar algumas vezes. Ele pensa rpido e tem mos geis. 
No fala muito de si mesmo, mas, quando isso acontece, at que se comunica. Passou algum tempo com Grace tambm. Ela parece no se importar de cuidar dele.
      - Papai queria que ele ficasse - afirmou Cam, encolhendo os ombros. - Ele vai ficar! - E olhou para trs ao ouvir o som de trs buzinadas ligeiras.
      - Deve ser Grace que veio deix-lo aqui, a caminho do bar do Shiney.
      - Bar do Shiney? - As sobrancelhas de Cam se elevaram. - O que Grace est fazendo l?
      - Trabalhando para ganhar a vida, imagino - respondeu Ethan.
      - Ah, sim... - E um lento sorriso se espalhou no rosto de Cam.
      - Shiney continua com aquelas garonetes vestidas com saias bem curtas, um imenso lao colorido em cima da bunda e as pernas cobertas por uma meia tipo arrasto 
preta?
      - Continua - disse Phillip, com um suspiro longo e sonhador.
      - Continua sim.
      - Grace deve ficar muito bem vestindo uma dessas fantasias, imagino.
      - Fica sim. - Phillip sorriu. - Fica mesmo.
      - Talvez eu d uma passada por l mais tarde.
      - Grace no  uma daquelas suas modelos francesas no! - Ethan se afastou da mesa e levou sua caneca e sua irritao para a pia.
      - Afaste-se dela!
      - Opa! - Pelas costas de Ethan, Cam levantou e abaixou as sobrancelhas para Phillip. - J estou me afastando, mano. No sabia que voc estava com os olhos 
voltados para essa direo em particular.
      - E no estou!  que ela  me de uma criana pequena, pelo amor de Deus!
      - Pois eu me diverti muito com a me de duas crianas em Cancun no inverno passado - relembrou Cam. - O ex-marido dela era nadador. Nadava em azeite extra 
virgem, e tudo o que ela conseguiu no acordo do divrcio, coitada, foi uma vila no Mxico, uns dois carros, algumas bugigangas e dois milhes. Passei uma semana 
memorvel consolando-a. Os garotos eram uma gracinha... de longe. Eles ficavam com a bab.
      - Voc  mesmo um grande humanitrio, Cam - disse-lhe Phillip.
      - E ento eu no sei?
      Ao ouvir a porta da frente bater, olharam um para o outro.
      - Bem, quem  que vai conversar com ele? - quis saber Phillip.
      - Eu no sou bom para esse tipo de coisa no - Ethan j estava escapando, indo em direo  porta dos fundos -, e tambm tenho que dar comida pro cachorro.
      - Covarde - murmurou Cam quando a porta se fechou atrs de Ethan.
      - Pode apostar. Eu tambm sou covarde. - Phillip j estava em p e pronto para sair. - Voc quebra o gelo... tenho aquela papelada para providenciar.
      - Ei, espere s um minutinho para...
      Mas Phillip j tinha ido embora, e na sada ainda avisou alegremente a Seth que Cam queria conversar com ele. Quando o menino chegou  porta da cozinha, com 
o co pulando em seus calcanhares, viu Cam fazer uma cara feia enquanto colocava mais usque em seu caf.
      Seth enfiou as mos nos bolsos e levantou o queixo. No queria estar ali, no queria conversar com ningum. Na casa de Grace, conseguira ficar algum tempo 
sentado nos degraus da entrada, sozinho com seus pensamentos. Mesmo quando Grace acabou vindo para fora por alguns instantes e se sentou ao lado dele com Aubrey 
sobre o joelho, ela o deixara em paz.
      Porque entendeu que ele queria ficar quieto em seu canto.
      Agora, tinha que lidar com aquele cara. No tinha medo de mos grandes ou olhares duros. No ia... no podia se permitir ter medo. No se importava de saber 
que eles iam lhe dar um chute na bunda e atir-lo longe, como um daqueles peixes nanicos que Ethan pescava na baa e devolvia para o mar.
      Ele j era capaz de cuidar de si mesmo. No estava preocupado.
      O seu corao se remexia dentro do peito como um ratinho na gaiola.
      - Que foi? - S aquelas palavras j demonstravam oposio e desafio. Parado no portal, com as pernas travadas, esperou pela reao de Cam.
      Este, por sua vez, continuava a franzir a testa enquanto bebia seu caf aditivado. Com uma das mos, de forma distrada, acariciava o co, que tentava de forma 
valente e agitada pular sobre o seu colo. Viu um garoto esqueltico que usava jeans ainda engomados, obviamente novos, um sorriso do tipo "que se dane" e os olhos 
de Ray Quinn.
      - Sente-se - ofereceu Cam.
      - Estou bem, posso ficar em p.
      - Eu no perguntei o que voc podia fazer, apenas lhe disse que sentasse aqui!
      Na mesma hora, Bobalho assumiu um ar obediente, achatou o traseiro sobre as patas de trs e pareceu sorrir. O garoto e o homem ficaram ali, olhando um para 
o outro. O garoto cedeu primeiro. Foi o brusco movimento para cima com os ombros que fez com que Cam colocasse a caneca sobre a mesa com fora. Aquele era um gesto 
tpico da famlia Quinn, por inteiro... Cam levou um momento para se aquietar, enquanto tentava reunir os pensamentos. Mas eles insistiam em ficar espalhados e esquivos. 
Que diabos ele deveria dizer ao garoto?
      - Voc comeu alguma coisa?
      Seth olhou para ele desconfiado, por trs de clios compridos e grossos, e respondeu:
      - Sim, tinha uns troos na cozinha.
      - Ahn... Ray... ele conversou com voc a respeito de... alguma coisa? Quais os planos que tinha para voc?
      - No sei. - Os ombros do garoto tornaram a se elevar.
      - Ele estava reivindicando a sua adoo, legalizando tudo. Voc sabia disso?
      - Ele est morto.
      - Sim... - Cam pegou o caf novamente e deixou a dor se alastrar por dentro. - Ele est morto.
      - E eu vou para a Flrida - disse Seth, em um rompante, assim que a idia passou pela sua cabea.
      - Ah, vai? - Cam tomou um pouco de caf e olhou para o menino meio de lado, ligeiramente interessado.
      - Arrumei alguma grana. J planejei ir embora de manh e pegar um nibus para o Sul. Voc no pode me impedir.
      - Claro que posso. - Sentindo-se mais  vontade agora, Cam se recostou na cadeira. - Sou maior do que voc. O que planeja fazer na Flrida?
      - Posso arrumar trabalho. Posso fazer um monte de coisas.
      - Bater algumas carteiras, dormir na praia...
      - Talvez.
      Cam concordou com a cabea. Aquele tambm havia sido seu plano, s o destino era diferente, pois ele planejara ir para o Mxico. Pela primeira vez sentiu que 
talvez conseguisse se conectar com o menino, afinal.
      - Imagino que voc ainda no saiba dirigir - afirmou.
      - Sei sim, se for necessrio - garantiu o menino.
      - Hoje em dia  mais complicado roubar um carro, a no ser que voc tenha alguma experincia. E voc vai ter que ser bem gil... vai precisar se movimentar 
depressa, para ficar sempre  frente dos tiras. A Flrida  uma m idia.
      - Pois  para l que eu vou! - Seth apertou o maxilar.
      - No, no !
      - Vocs no vo me mandar de volta! - Seth pulou da cadeira, com seu corpo magro vibrando de medo e raiva. O movimento brusco e o grito fizeram o cozinho 
sair correndo da sala, amedrontado. - Vocs no mandam em mim! No podem me obrigar a voltar!
      - Voltar para onde?
      - Para ela. Vou embora agora mesmo! Vou pegar minhas tralhas e cair fora. Se vocs acham que podem me impedir, esto muito enganados!
      Cam reconheceu a atitude. O menino estava pronto para ser agredido, mas preparado para revidar.
      - Ela espancava voc? - perguntou.
      - Isso no  da sua conta!
      - Ray fez com que fosse da minha conta, sim. Se voc for em direo quela porta - acrescentou ao ver que Seth j estava preparado para correr -, eu corro 
atrs para rebocar voc de volta at aqui! - E simplesmente suspirou no momento em que Seth saiu correndo, desabalado.
      Mesmo tendo conseguido peg-lo a um metro da porta de entrada, Cam foi obrigado a reconhecer que Seth era bem veloz. E quando agarrou o menino pela cintura, 
por trs, e recebeu um soco dado com as costas da mo em seu j machucado queixo, deu-lhe crdito tambm pela fora.
      - Tira essas mos de cima de mim, seu filho da me! Vou te matar se voc tocar em mim!
      Com ar sombrio, Cam arrastou Seth at a sala de estar, empurrou-o em uma poltrona e o segurou ali, com o rosto bem prximo do dele. Se fosse apenas raiva o 
que vira nos olhos do menino, ou desafio, no teria se importado. O que viu, porm, foi terror em estado bruto.
      - Voc tem peito, garoto. Agora, tente desenvolver um pouco do crebro tambm, para acompanhar. Quando eu estou a fim de sexo, procuro uma mulher. Sacou?!
      O menino estava sem fala. Tudo o que sentiu quando aqueles braos duros e musculosos o agarraram por trs foi que daquela vez ele no ia conseguir escapar... 
daquela vez ele no ia conseguir lutar para se libertar e fugir.
      - Ningum aqui nesta casa jamais vai querer tocar em voc desse jeito. Nunca. - Sem perceber, Cam amenizara o tom de voz. Seus olhos continuavam sombrios, 
mas a dureza que havia neles se fora. - Se eu algum dia puser as mos em voc, o mximo que isso pode significar  que talvez eu esteja tentando enfiar um pouco 
de juzo na sua cabea. Sacou bem isso?
      - No quero que voc me toque - conseguiu dizer. Estava sem flego. Um suor provocado pelo pnico fazia sua pele brilhar como se estivesse coberta de leo. 
- No gosto de ser tocado!
      - Tudo bem... Certo. Fique a sentado, onde eu coloquei voc. - Cam se afastou e pegou uma banqueta, sentando-se nela. Ao ver que Bobalho agora estava tremendo 
de terror, Cam o pegou e o colocou no colo de Seth. - Estamos com um problema - comeou ele, rezando por um pouco de inspirao para lidar com aquilo. - No vou 
poder vigi-lo vinte e quatro horas por dia, garoto. Mesmo que pudesse no iria fazer isso. Se fugir para a Flrida, vou ter que ir at l procurar voc at encontr-lo 
para traz-lo de volta. Garanto que isso vai me deixar muito revoltado!
      - E por que  que voc se importa tanto com o lugar para onde eu vou? - Como o co estava ali, Seth comeou a acarici-lo, obtendo um pouco de conforto ao 
fazer isso.
      - No posso dizer que me importo. Mas Ray se importava. Portanto, voc vai ter que ficar.
      - Ficar?! - Era uma opo que Seth jamais considerara. Claro que no se permitira acreditar em uma coisa daquelas. - Ficar aqui? Mas quando vocs venderem 
a casa...
      - E quem  que vai vender a casa?
      - Eu ouvi... - Seth parou de falar, decidindo que estava falando demais. - As pessoas por a acharam que vocs iam fazer isso.
      - Pois acharam errado. Ningum vai vender a casa. - Cam ficou surpreso ao ver o quanto seus sentimentos estavam firmes com relao quele ponto em particular. 
- Ainda no sei como  que a gente vai coordenar as coisas. Estou tentando bolar um plano. Nesse meio-tempo, v enfiando isso na cabea: voc vai ficar aqui! - O 
que significava, Cam compreendeu, de repente, que ele tambm ia ter que ficar.
      Pelo jeito, sua sorte continuava mudando para pior.
      - Estamos grudados um no outro, garoto - completou ele -, pelo menos por mais algum tempo.
  
Captulo Trs
      
      
      Cam identificou aquela como a semana mais estranha em toda a sua vida. Ele devia estar na Itlia naquele momento, preparando-se para o campeonato de motocross 
que planejara disputar simplesmente pela diverso. A maioria das suas roupas e o seu barco estavam em Monte Cario, o carro estava em Nice e a moto em Roma.
      E ele estava ali em St. Chris, servindo de bab para um garoto de dez anos cheio de marra. Esperava, com toda a f, que o menino estivesse na escola quela 
hora. Alis, era o lugar exato onde ele devia estar. Haviam travado uma batalha gigantesca a respeito disso naquela manh, o que no era de espantar, j que viviam 
em p de guerra com relao a quase tudo.
      Tarefas da cozinha, hora de dormir, roupas sujas, esquemas para assistir  tev. Cam balanava a cabea enquanto analisava os degraus podres da escada dos 
fundos. Tinha a impresso de que o garoto se encrespava todo s de ouvir algum lhe dar bom-dia.
      Talvez ele no estivesse fazendo um trabalho assim to bom como guardio legal, mas tambm, que droga, tentava fazer o melhor possvel.
      E tinha uma dor de cabea constante, provocada pela tenso para provar isso. Alm do mais, basicamente, ele estava por conta prpria. Phillip prometera ir 
para l nos fins de semana, o que j era alguma coisa. Mas isso deixava um terrvel buraco de cinco dias para preencher. Ethan fazia questo de dar uma passada e 
ficar ali algumas horas todas as noites, depois de encerrada a sua jornada de trabalho no mar. Mas ainda sobravam os dias.
      Cam teria negociado a sua alma imortal em troca de uma semana na Martinica. Areias quentes e mulheres ainda mais quentes. Cerveja gelada, nenhuma briga nem 
encucao. Em vez disso, estava lavando roupa, aprendendo os mistrios sobre a culinria de microondas e tentando observar de perto um menino que parecia totalmente 
dedicado a tornar sua vida miservel.
      - Voc era do mesmo jeito.
      - Eu no! Aqui que eu era assim! No teria chegado nem aos doze anos, se fosse um idiota to grande assim.
      - Na maioria das noites daquele seu primeiro ano conosco, Stella e eu costumvamos ficar deitados na cama, quietinhos, nos perguntando se voc ainda estaria 
em seu quarto pela manh.
      - Bem, pelo menos vocs eram dois, e...
      As mos de Cam ficaram sem foras e ele no conseguiu segurar o martelo. Seus dedos simplesmente soltaram a ferramenta que caiu com um baque surdo no cho, 
ao seu lado. Ali, na velha cadeira de balano da varanda dos fundos, Ray Quinn estava calmamente sentado. Seu rosto parecia mais bonito e exibia um sorriso largo. 
Seus cabelos eram um apanhado de fios brancos e cheios, um pouco mais compridos. Vestia sua cala favorita, a cinza, que usava para pescar, e uma camiseta tambm 
cinza, muito desbotada, com a estampa de um caranguejo na frente. Estava descalo.
      - Papai? - A cabea de Cam girou uma vez, deixando-o tonto, mas ento seu corao explodiu de alegria. Colocou-se em p com um salto rpido.
      - Voc no achou que eu ia deixar voc sozinho nessa furada, nessa tremenda confuso, achou?
      - Mas... - Cam fechou os olhos. Ele estava surtando e tendo alucinaes, compreendeu ento. Era o estresse, a fadiga, o pesar, tudo junto.
      - Eu sempre tentei ensinar a voc que a vida  cheia de surpresas e milagres. Queria que voc abrisse a sua mente no apenas para as coisas possveis, Cam, 
mas para as impossveis tambm.
      - Para fantasmas? Ai, meu Deus!
      - E por que no? - A idia parecia alegrar Ray imensamente, enquanto ele soltava uma das suas gargalhadas profundas e retumbantes. - Leia sobre isso nas obras 
de literatura, filho. Esto cheias de histrias assim.
      - No pode ser... - murmurou Cam para si mesmo.
      - Estou sentado bem na minha cadeira, ento me parece que pode sim. Deixei muitas coisas inacabadas por aqui. Tudo depende de voc e de seus irmos agora, 
mas quem  que disse que eu no posso vir dar uma mozinha de vez em quando?
      - Uma mozinha... , eu vou precisar  de uma mozona. Comeando com um psiquiatra. - Antes que suas pernas desabassem, Cam subiu com todo o cuidado, pisando 
os degraus frgeis, e se sentou na beira da varanda.
      - Voc no est louco, Cam, simplesmente confuso.
      Cam respirou bem fundo para se firmar e virou a cabea na direo do homem que se balanava preguiosamente na velha cadeira de madeira. O Poderoso Quinn, 
pensou, enquanto o ar parecia ser sugado de seus pulmes. Seu pai parecia slido e bem real. Parecia, pensou Cam, que estava realmente sentado ali...
      - Se voc est realmente aqui, agora, comigo, conte-me sobre o garoto. Ele  seu filho?
      -  filho de vocs agora. Seu, de Ethan e de Phillip.
      - Isso no  resposta... no  o bastante.
      -  claro que . Estou contando com cada um de vocs. Ethan aceita as coisas como elas vm e faz o melhor com elas. Phillip queima a mufa pensando em todos 
os detalhes e amarra todas as pontas. Voc fora a barra com tudo, at que as coisas funcionem do seu jeito. O menino precisa de vocs trs. Seth  o mais importante. 
Vocs todos so a coisa mais importante agora.
      - No sei mais o que fazer com ele - argumentou Cam, impaciente. - No sei mais nem o que fazer comigo mesmo.
      - Descubra uma resposta e voc vai encontrar a outra.
      - Droga, conte-me o que aconteceu. Conte-me o que est acontecendo.
      - No  para isso que estou aqui, e tambm no posso lhe contar se j me encontrei com Elvis. - Ray sorriu quando Cam soltou uma risada curta e fraca. - Acredito 
em voc, Cam. No desista de Seth... no desista de si mesmo.
      - No sei como fazer isso.
      - Conserte os degraus - disse Ray, dando uma piscada. - J  um comeo.
      - Pro inferno com os degraus! - reagiu Cam, mas, de repente, se viu sozinho novamente, com o som de pssaros cantando ao longe e o barulho das ondas quebrando 
suavemente ao fundo. - Estou pirando - murmurou, passando a mo trmula no rosto. - Estou perdendo a porcaria da razo.
      E, levantando-se, voltou a consertar os degraus.
      
      
      Anna Spinelli estava com o rdio a todo o volume. Aretha Franklin botava a boca no mundo com os sons que saam de sua garganta de um milho de dlares, exigindo 
respeito. Anna botava a boca no mundo tambm, junto com ela, delirantemente empolgada com seu carro novo.
      Ela se matara de trabalhar, fizera um planejamento das despesas pessoais e um malabarismo com as contas a fim de ter condies de dar a entrada e assumir as 
prestaes. Na viso dela, tudo estava valendo a pena, inclusive cada potinho de iogurte que comera, em vez de uma refeio de verdade.
      Apesar do ventinho agradvel de primavera, preferira ter deixado a capota levantada enquanto rodava a toda pelas estradas rurais. O problema  que no ia parecer 
muito profissional chegar com os cabelos despenteados pelo vento. Acima de tudo, era essencial parecer e se comportar de forma profissional.
      Anna escolhera um terninho bem apropriado, azul-marinho, e uma blusa branca para visitar aquela casa. O que usava por baixo no era da conta de ningum, a 
no ser dela mesma. Sua quedinha por lingerie de seda provocava alguns rombos em seu oramento apertado, mas a vida era para ser vivida, afinal de contas.
      Prendera os cabelos pretos longos e cacheados em um coque bem apertado atrs da nuca. Achava que isso a fazia parecer mais madura e respeitvel. Muitas vezes, 
ao usar os cabelos soltos, acabava passando a idia de uma mulher fcil, em vez de uma assistente social muito sria em seu trabalho.
      Sua pele tinha um tom dourado plido, graas  sua origem italiana. Os olhos eram grandes, escuros e amendoados. A boca era cheia, com um lbio inferior carnudo. 
Os ossos de seu rosto eram fortes e proeminentes, e o nariz comprido e reto. Usava pouca maquiagem quando estava trabalhando, para no atrair um tipo errado de ateno.
      Tinha vinte e oito anos, era devotada ao trabalho e estava satisfeita com a vida de solteira, alm de estar muito contente por ter conseguido se estabelecer 
na linda cidade de Princess Anne, bem ali perto.
      J estava cheia da cidade grande.
      Enquanto dirigia entre os campos longos e planos, cheios de plantaes enfileiradas, o cheirinho do mar e a brisa leve que penetrava pela janela, sonhava em 
algum dia se mudar para um lugar como aquele. Em uma casa cercada de estradinhas rurais e tratores, com vista para a baa e os barcos.
      Ia ter de economizar muito, planejar bastante, mas um dia esperava poder comprar uma casinha nos arredores da cidade. As idas e vindas at o trabalho no seriam 
um problema muito grande, pois dirigir era um de seus maiores prazeres.
      O CD player trocou de disco, e a rainha do soul foi substituda por Beethoven. Anna comeou a cantarolar a "Ode  Alegria".
      Estava feliz pelo fato de o caso Quinn ter sido designado para ela acompanhar. Era to interessante... Ela gostaria de ter tido a oportunidade de conhecer 
Raymond e Stella Quinn. Eles deviam ser pessoas muito especiais para adotar trs garotos adolescentes e problemticos e conseguir fazer com que tudo desse certo.
      Mas eles se foram, e agora Seth DeLauter era a sua principal preocupao. Obviamente os procedimentos para adoo no poderiam seguir adiante. Trs homens 
solteiros: um morando em Baltimore, outro em St. Chris e o terceiro andando pelo mundo, por onde lhe aprouvesse. Bem, Anna avaliou, aquele no parecia ser o melhor 
ambiente para uma criana. De qualquer modo, era pouco provvel que eles quisessem manter a guarda legal do garoto.
      Sendo assim, Seth DeLauter seria novamente absorvido pelo sistema. Anna estava disposta a fazer o melhor por ele.
      Ao avistar a casa por entre as folhagens verdes, parou o carro. Deliberadamente, abaixou o volume para um nvel mais respeitvel e conferiu o rosto e o cabelo 
no espelho retrovisor. Reduzindo at a primeira, dirigiu os ltimos metros em uma velocidade de lazer, fazendo o carro virar lentamente, a fim de entrar na propriedade.
      Sua primeira impresso foi a de que a casa era muito bonita e a localizao, maravilhosa. Tudo to calmo e plcido, refletiu. A fachada precisava de uma nova 
mo de tinta, e o jardim merecia cuidados melhores, mas o leve ar de descaso s servia para acrescentar aconchego ao lugar.
      Um menino seria muito feliz ali, pensou. Qualquer pessoa seria. Era uma pena que ele tivesse que ser retirado daquele local. Suspirou de leve, sabendo muito 
bem que o destino possua seus caprichos. Pegando a pasta, saltou do carro.
      Ajeitou o palet, para ter certeza de que estava bem apresentvel. Ela preferia usar um modelo mais largo, para no exibir nenhuma curva que pudesse distrair 
as pessoas. Foi caminhando em direo  porta da frente, reparando que as flores que flanqueavam os degraus da entrada j estavam comeando a desabrochar.
      Sentiu que realmente precisava conhecer um pouco mais a respeito de flores; ia se lembrar mais tarde de procurar alguns livros sobre jardinagem na biblioteca.
      Ao ouvir marteladas, hesitou. Ento, com seus prticos sapatos de salto baixo, passou atravs do gramado e seguiu em direo aos fundos da casa.
      Ele estava ajoelhado no cho quando ela o viu pela primeira vez. Usava uma camiseta preta enfiada em uma cala jeans justa e desbotada. Sob um ngulo puramente 
feminino, era impossvel no reagir e aprov-lo. Msculos do tipo que ela apreciava, longos e fortes, ondulavam enquanto ele ,martelava um prego na madeira com tanta 
raiva, avaliou Anna, e com tanta fora que parecia lanar vibraes que espalhavam pelo ar.
      Ser que era Phillip Quinn, o executivo na rea de propaganda?, tentou adivinhar. No, altamente improvvel.
      Cameron Quinn, o homem que rodava o mundo arriscando a vida? Dificilmente.
      Ento s podia ser Ethan, o pescador. Colocando um sorriso educado no rosto, foi em direo a ele, dizendo:
      - Sr. Quinn?
      Sua cabea levantou. Com o martelo ainda firme na mo, ele se virou lentamente, at que Anna viu seu rosto. Ah, sim, a raiva estava l, ela reconheceu, funcionando 
a toda a fora e letal. E o rosto em si era mais cativante e certamente mais duro do que ela esperava ou se preparara para encarar.
      Havia, talvez, um pouco de sangue ndio americano ali, imaginou. Isso explicaria os ossos protuberantes e a pele muito bronzeada. Seus cabelos eram completamente 
pretos, estavam bem despenteados e muito compridos, espalhando-se para o lado de fora da gola. Seus olhos pareciam tudo, menos amigveis, e tinham a cor de uma tempestade 
que se aproximava.
      Em nvel pessoal, Anna achou o conjunto sexy, de forma quase chocante. Em nvel profissional, conhecia de longe o olhar de um briguento de beco, e decidiu 
na mesma hora que, qualquer dos trs Quinn que estivesse diante dela, era preciso ter cautela com aquele.
      Ele levou algum tempo analisando-a. Seu primeiro pensamento foi que pernas como aquelas mereciam uma vitrine melhor do que uma medonha saia azul-marinho e 
sapatos pretos horrorosos. Seu segundo pensamento foi que quando uma mulher possua olhos to grandes, to castanhos e to lindos, provavelmente conseguia o que 
queria sem dizer uma s palavra.
      Colocando o martelo no cho, ele se levantou e se apresentou.
      - Sou Quinn.
      - E eu sou Anna Spinelli. - Conseguindo manter o sorriso no lugar, ela se aproximou com a mo estendida. - Qual dos Quinn voc ?
      - Cameron. - Ele esperava dela um aperto de mo meio mole, por causa dos seus olhos, por causa do ronronar rouco de sua voz, mas o cumprimento foi bem firme. 
- Em que posso ajud-la?
      - Sou a responsvel pelo acompanhamento do caso Seth DeLauter.
      O interesse de Cam se evaporou na mesma hora, e ele se empertigou.
      - Seth est na escola - informou ele.
      - Eu imaginava que sim. Gostaria de conversar com o senhor a respeito da situao, Sr. Quinn.
      - Quem est cuidando dos detalhes legais  o meu irmo Phillip. Ela levantou uma sobrancelha, determinada a manter o sorriso
      educado no lugar.
      - E o seu irmo est aqui?
      - No.
      - Bem, ento, se o senhor tiver alguns minutinhos para conversar comigo... imagino que esteja morando aqui, ao menos temporariamente.
      - Estou sim, e da?
      Ela nem se deu ao trabalho de suspirar de desnimo ao ouvir aquilo. Muitas pessoas encaravam as assistentes sociais como inimigas. Ela mesma j pensara assim 
no passado.
      - Minha preocupao  com Seth, Sr. Quinn. Agora, me entenda: podemos discutir o assunto aqui ou eu posso simplesmente levar os procedimentos legais adiante, 
remov-lo desta casa e encaminh-lo a uma casa de adoo temporria que seja registrada e aprovada.
      - Seria um erro tentar fazer isso, Srta. Spinelli. Seth no vai a lugar algum.
      As costas de Anna se retesaram pelo jeito arrastado com que ele pronunciou o nome dela.
      - Seth DeLauter  menor de idade, Sr. Quinn. A adoo que o seu pai estava requerendo no chegou a ser finalizada nem oficializada, e h alguns questionamentos 
agora, a respeito de sua validade. Neste momento, Sr. Quinn, nem o senhor nem os seus irmos possuem conexo legal, de nenhum tipo, com ele.
      - A senhorita no vai querer ouvir a sugesto que eu tenho sobre o que fazer com a sua conexo legal, vai, Srta. Spinelli? - Com alguma satisfao, ele viu 
aqueles imensos olhos escuros se acenderem. - No, acho que no vai querer ouvir. E eu consigo resistir  tentao de lhe dizer. Seth  meu irmo! - S por falar 
aquilo, sentiu um tremor interno. Com um levantar brusco do ombro, se virou para o outro lado - Preciso de uma cerveja.
      Anna ficou ali fora por um momento, depois de ver a porta telada bater. Quando se tratava de assuntos de trabalho, ela simplesmente no se permitia perder 
a calma. Respirou fundo e soltou o ar devagar trs vezes antes de subir pelos degraus que estavam sendo consertados e entrar na casa.
      - Sr. Quinn...
      - Voc ainda est a? - Ele abriu uma garrafa de cerveja Harp. - Quer tomar uma tambm?
      - No. Sr. Quinn...
      - Eu no gosto de assistentes sociais.
      - No brinca! - Ela balanou os clios para ele. - Eu jamais teria desconfiado.
      Os lbios de Cam sorriram sem querer, antes de ele levantar a cerveja e lev-la  boca.
      - No  nada pessoal - explicou ele.
      - Claro que no. Eu tambm no gosto de homens rudes e arrogantes, mas isso tambm no  nada pessoal. Agora est pronto para discutir os assuntos relacionados 
com o bem-estar de Seth ou eu devo simplesmente voltar aqui com os papis apropriados, acompanhada pelos tiras?
      Ela era bem capaz de fazer aquilo, decidiu Cam, aps voltar a estud-la por um momento. Ela recebera, ao nascer, um rosto apropriado para ser eternizado em 
uma tela, mas no era fcil de enfrentar no.
      - Se fizer isso, senhorita, o garoto vai fugir na primeira chance que tiver. Voc vai conseguir ach-lo mais cedo ou mais tarde, e ele vai ser encaminhado 
para uma instituio para delinqentes juvenis e, mais tarde, vai acabar dentro de uma cela de priso. O sistema que a senhorita representa no vai ajud-lo, Srta. 
Spinelli.
      - E o senhor vai poder fazer isso?
      - Talvez - disse, e franziu as sobrancelhas, olhando para a cerveja. - Meu pai conseguiria. - Ao levantar os olhos novamente, havia tantas emoes conflitantes 
em seu olhar que ela se comoveu. - Voc acredita na santidade de uma promessa feita em um leito de morte?
      - Sim - respondeu ela, antes de conseguir evitar.
      - No dia em que meu pai morreu eu prometi a ele... ns trs prometemos a ele... que amos manter Seth em nossa companhia. Nada nem ningum vai me fazer quebrar 
essa promessa. Nem voc, nem o seu sistema, nem um batalho de tiras.
      A situao no era exatamente a que ela esperava encontrar. Sendo assim, precisava fazer uma reavaliao de tudo.
      - Gostaria de me sentar - pediu Anna depois de um momento.
      - V em frente, fique  vontade.
      Ela puxou uma das cadeiras que estavam em volta da mesa. Havia loua suja dentro da pia, reparou, e um leve cheiro de alguma coisa que havia queimado no jantar 
da noite anterior. Para ela, porm, aquilo significava apenas que algum ali estava tentando alimentar um menininho.
      - O senhor est pensando em requerer a guarda legal do menino?
      - Ns...
      - O senhor, Sr. Quinn - interrompeu ela. - Estou perguntando ao senhor se essa  a sua inteno. - E aguardou a resposta, observando as dvidas e a resistncia 
que passaram pelo seu rosto.
      - Ento, acho que sim. Estou sim. - Que Deus os ajudasse a todos, pensou ele. - Se isso for necessrio.
      - E o senhor pretende morar nesta casa, com Seth, em carter permanente?
      - Permanente? - Aquela era talvez a nica palavra verdadeiramente aterradora em sua vida. - Agora sou eu que preciso me sentar. - E fez isso, apertando em 
seguida a parte de cima do nariz com o polegar e o indicador, como se tentasse aliviar um pouco da tenso. - Nossa! Que tal usarmos a expresso "no futuro prximo", 
em vez de "permanente"?
      Anna cruzou as mos na beira da mesa. No duvidava da sinceridade dele, e gostaria de aplaudir suas boas intenes. Porm...
      - O senhor no tem idia sobre o que vai enfrentar.
      - Voc est errada. Tenho sim.  isso que me apavora de modo to terrvel.
      Ela concordou com a cabea, considerando a resposta como um ponto a favor dele.
      - E o que o leva a pensar que poderia ser um guardio melhor para um menino de dez anos, uma criana que acredito que o senhor conhea h menos de duas semanas, 
do que uma casa para adoo j preparada, registrada e aprovada?
      - Porque eu o compreendo! J fui o que ele  ou pelo menos uma parte dele. E porque o lugar dele  aqui!
      - Deixe-me alert-lo sobre alguns dos maiores obstculos ao que est planejando fazer. O senhor  um homem solteiro, sem endereo fixo e sem rendimentos freqentes 
ou um emprego.
      - Tenho uma casa bem aqui. E tenho dinheiro.
      - No nome de quem est a casa, Sr. Quinn? - Ela simplesmente acenou com a cabea de forma afirmativa quando viu suas sobrancelhas se unirem. - Suponho que 
o senhor no faa a mnima idia.
      - Phillip sabe.
      - Bom para Phillip. E estou certa de que o senhor tem algum dinheiro, Sr. Quinn, mas estou falando de um emprego fixo. Percorrer o mundo participando de corridas, 
pilotando diferentes tipos de transporte no  exatamente um emprego fixo.
      - Mas paga muito bem!
      - J considerou o risco  sua integridade, no apenas fsica, mas especialmente do tipo de vida que escolheu, ao se propor assumir uma responsabilidade como 
essa? Acredite em mim, o juiz vai questionar ISSO. E se alguma coisa acontecer ao senhor enquanto estiver tentando explorar algo novo ou quebrando algum recorde 
de velocidade?
      - Eu sei o que estou fazendo. Alm do mais, somos trs. - Apenas um de vocs mora oficialmente na casa em que Seth vai residir.
      - E o que isso tem a ver?
      - Esta pessoa que mora aqui agora no  um respeitvel professor universitrio com experincia na criao de trs filhos.
      - Mas isso no significa que eu no consiga lidar com a situao.
      - No, Sr. Quinn - disse ela com pacincia -, mas vai ser um grande obstculo na obteno da guarda legal.
      - E se todos ns morssemos aqui?
      - Como assim...?
      - Se todos os irmos morassem aqui? E se meus irmos se mudassem para c? - Que zona ia ser, pensou Cam, mas continuou falando sem parar. - E se eu arrumasse 
um... - nesse momento, foi obrigado a tomar um gole ainda maior de cerveja, sabendo que a palavra ia ficar grudada na garganta - ... arrumasse um emprego? - conseguiu 
soltar.
      Anna ficou olhando fixamente para ele.
      - O senhor estaria disposto a modificar a sua vida de forma to drstica?
      - Ray e Stella Quinn modificaram a minha vida.
      O rosto de Anna se suavizou, fazendo com que Cam piscasse duas vezes, surpreso ao ver sua boca generosa se curvar em um sorriso e seus olhos se tornarem mais 
escuros e profundos. Quando ela esticou a mo e a colocou de leve sobre a dele, ele sentiu os olhos grudarem no gesto, e foi pego de surpresa por uma rpida fisgada 
interna que representava, sem dvida, desejo em estado bruto.
      - Quando vinha para c, dirigindo, estava pensando no quanto gostaria de t-los conhecido. Achei que deviam ter sido pessoas admirveis. Agora tenho certeza 
disso. - Ela afastou a mo. - Vou ter que conversar com Seth e com os seus irmos. A que horas Seth chega da escola?
      - A que horas? - Cam olhou para o relgio da cozinha, sem fazer a mnima idia. - O horrio dele  assim, tipo... flexvel.
      - O senhor vai ter que fazer mais do que isso se tivermos que chegar a ponto de criar um horrio de estudo formal para ser seguido em casa. Vou passar na escola 
e conversar com ele. E quanto ao seu irmo Ethan? - Levantou-se. - Ser que vou encontr-lo em casa?
      - No a essa hora da tarde. Ele chega com o resultado do trabalho do dia no mar um pouco antes das cinco.
      Ela olhou para o relgio de pulso e calculou o tempo.
      - Tudo bem... e vou entrar em contato com o seu irmo em Baltimore tambm. - Dentro da pasta, pegou um lindo bloco de anotaes revestido em couro. - Agora, 
gostaria que me fornecesse nomes e endereos de alguns dos vizinhos. Pessoas que conheam o senhor e Seth e que possam dar testemunho sobre o seu carter. O lado 
bom do seu carter,  claro.
      - Talvez eu possa conseguir alguns.
      - J  um comeo. Vou fazer algumas pesquisas para este caso, Sr. Quinn. Se for do interesse de Seth permanecer em sua casa, sob os seus cuidados, vou fazer 
tudo o que puder para ajud-los. - E virou um pouco a cabea. - Se, porm, eu chegar  concluso de que o melhor para ele  ser levado para longe de sua casa e longe 
de seus cuidados, ento vou lutar com unhas e dentes para me assegurar que isso acontea.
      - Ento, acho que estamos comeando a nos compreender. - Cam tambm se levantou.
      - Ainda no temos muita coisa, mas a gente tem que comear de algum lugar.
      No minuto em que ela colocou os ps fora da casa, Cam voou para o telefone. No momento em que j passara por uma secretria, depois um assistente e finalmente 
conseguira chegar a Phillip, sua raiva j havia transbordado.
      - Apareceu a porra de uma assistente social aqui!
      - Eu avisei a voc que isso ia acontecer.
      - No, no avisou no...
      - Avisei sim!  que voc no escuta o que a gente fala... Estou com um amigo meu, que  advogado, cuidando da papelada sobre a guarda do menino. A me de Seth 
tomou um ch de sumio e est por a, no se sabe onde; pelo que pesquisamos, no est mais em Baltimore.
      - Estou cagando e andando para o lugar onde a me dele est! A assistente social levantou algumas dificuldades a respeito de a gente ficar com Seth.
      - O advogado est requerendo uma guarda temporria. Essas coisas levam tempo, Cam.
      - E pode ser que a gente no tenha tanto tempo assim. - Fechou os olhos, tentando superar a raiva. - Ou talvez eu tenha conseguido algum tempo a mais. Quem 
 o dono da casa agora?
      - Ns. Papai deixou a casa e, bem, todo o resto, para ns trs, igualmente.
      - Legal, timo! Porque voc est prestes a fazer uma mudana. Vai ter que embalar todos aqueles ternos de grife que voc tem, meu chapa, e arrastar o seu traseiro 
para morar aqui nesta casa. Ns trs vamos ter que morar juntos novamente.
      - Nem pensar! Sem essa!
      - E eu vou ter que arranjar um emprego. Estou esperando voc aqui s sete horas, hoje  noite, para a gente conversar. Traga o jantar. Estou de saco cheio 
de cozinhar.
      E teve a pequena satisfao de desligar o telefone na cara de Phillip, que soltava vigorosos palavres do outro lado da linha.
      
      
      Anna achou que Seth era um menino mal-humorado, com a lngua afiada e muito irritante. E gostou dele imediatamente. A diretora lhe dera permisso para tir-lo 
da sala e usar um canto da lanchonete vazia como escritrio improvisado.
      - Seria mais fcil se voc me contasse o que acha disso tudo, como se sente a respeito e o que gostaria que acontecesse.
      - E por que razo voc ia dar alguma importncia ao que eu quero?
      - Porque sou paga para isso.
      Seth encolheu os ombros e continuou a desenhar crculos sobre a mesa com os dedos.
      - Bem, acho que voc devia cuidar da sua vida, me sinto de saco cheio e quero que voc v embora.
      - Bem, voc respondeu tudo sobre mim - disse Anna, e teve a satisfao de ver Seth fazer fora para abafar um sorriso. - Agora vamos falar de voc. Est feliz 
morando com o Sr. Quinn?
      -  uma casa legal...
      -  mesmo, gostei muito dela. E quanto ao Sr. Quinn?
      - Ele pensa que sabe tudo. Acha que  o mximo dos mximos, e se julga muito esperto porque j conhece o mundo inteiro. Cozinhar ele no sabe, isso eu posso 
lhe assegurar com certeza.
      Anna largou a caneta sobre a mesa e cruzou as mos sobre o bloco de anotaes. O garoto era magro demais, pensou.
      
      - Voc passa fome l?
      - No, ele acaba pedindo pizzas ou montes de hambrgueres.  pattico, lamentvel... Quer dizer, o que h de to complicado em colocar um forno de microondas 
para funcionar?
      - Talvez voc devesse se encarregar da comida.
      - Como se ele fosse me pedir para fazer isso... Numa dessas noites, fez as batatas explodirem todas l dentro. Esqueceu-se de fazer furos na casca com o palito 
antes de coloc-las no forno, entende, e a... bum!... - Seth se esqueceu de torcer o nariz para o caso, e em vez disso soltou uma gargalhada. - Foi a maior cagalhufa! 
E ele saiu soltando um monte de palavres... Puxa, como xingou!
      - Ento podemos afirmar que a cozinha no  a sua especialidade. - Mesmo assim, Anna refletiu, ele estava tentando.
      - Eu que o diga! Ele  muito melhor quando est andando pela casa consertando coisas, martelando ou mexendo no carro irado! J viu aquele Corvette? Cam disse 
que era da me dele, e que j estava com ela havia muitos anos. Corre feito um foguete, pode crer... Ray o mantinha sempre dentro da garagem. Acho que no gostava 
muito de tir-lo de l.
      - Voc sente saudades dele? De Ray?
      O ombro se empinou novamente e Seth ficou com um olhar triste.
      - Ele era legal - respondeu. - S que era muito velho, e quando as pessoas ficam velhas morrem.  desse jeito que as coisas so.
      - E quanto a Ethan e Phillip?
      - So legais. Eu gosto de sair de barco. Se no tivesse que ir para a escola, poderia trabalhar com Ethan. Ele falou que eu sei me virar muito bem em um barco.
      - Voc quer ficar morando com eles, Seth?
      - No tenho outro lugar para ir, tenho?
      - Sempre existe uma escolha, e eu estou aqui justamente para ajud-lo a descobrir qual  a melhor opo para voc. Se voc souber onde a sua me est...
      - Eu no sei. - Sua voz se alterou e a cabea se elevou de repente. Seus olhos pareceram ficar mais escuros, quase azul-marinhos, em contraste com um rosto 
que empalideceu depressa. - Nem quero saber! Se voc tentar me mandar de volta para ela, nunca mais vai me achar!
      - Ela batia em voc? - Anna esperou um segundo e depois assentiu com a cabea quando viu que o menino ficou simplesmente olhando para ela. - Tudo bem, vamos 
deixar esse assunto de lado por agora. H casais e famlias que esto dispostos e tm estrutura para receber crianas. Eles as criam em suas casas, cuidam delas 
e lhes do uma vida boa e confortvel.
      - Os Quinn no querem que eu fique morando com eles, no ? - As lgrimas ameaaram escorrer. Ele no podia deixar que isso acontecesse, de jeito nenhum. Em 
vez disso, seus olhos pareceram ficar mais quentes, sem piscar, e as lgrimas secaram antes de cair. - Ele me disse que eu podia ficar morando ali, mas era tudo 
mentira! Mais uma porra de uma mentira!
      - No! - Anna agarrou a mo de Seth antes que ele se levantasse de raiva. - No, eles querem voc, de verdade! Para ser franca, o Sr. Quinn... Cameron ficou 
muito zangado comigo quando eu sugeri que voc devia ir para outra casa. Estou aqui apenas para tentar descobrir o que voc quer para a sua vida. E acho que voc 
acabou de me contar. Se morar com os Quinn  o que voc quer realmente e se isso for o melhor para voc, quero ajud-lo a conseguir isso.
      - Ray me disse que eu ia poder ficar naquela casa. Disse que eu nunca mais ia ter que voltar para o lugar de onde eu vim. Ele prometeu!
      - Se eu puder, vou tentar ajud-lo a manter a promessa que ele lhe fez.

Captulo Quatro
  
      J que, pelo jeito, no havia nada gelado na casa para beber, a no ser cerveja, refrigerantes e um leite com aparncia suspeita, Ethan colocou gua em uma 
chaleira para ferver. Ia preparar um pouco de ch, encher uma jarra com gelo e curtir um copo bem grande na varanda enquanto o anoitecer se esgueirava, aproximando-se 
lentamente.
      Estava trabalhando h quatorze horas seguidas e se sentia pronto para relaxar.
      O que no ia ser fcil, decidiu, enquanto caava saquinhos de ch e ouvia por alto a discusso entre Cam e Seth a respeito de alguma coisa na sala de estar. 
Imaginou que eles deviam gostar muito de implicar um com o outro ou no gastariam tanto do seu tempo fazendo isso.
      Por ele, tudo o que desejava era um pouco de paz, uma refeio decente e depois um dos dois charutos que se permitia fumar por dia. Pelo jeito que as coisas 
iam, chegou  concluso de que a horinha de paz no ia conseguir entrar na sua agenda do dia.
      Enquanto jogava os saquinhos de ch na gua, que estava fervendo, ouviu passos firmes subindo pela escada, seguidos por um barulho forte como o de uma bala 
quando a porta bateu.
      - Esse garoto est me deixando louco! - reclamou Cam ao entrar com passos largos na cozinha. - A gente no pode nem dizer "oi" pra ele sem que ele se encrespe 
todo para uma briga.
      - Hum-hum...
      -  respondo, tem uma lngua ferina e vive arrumando encrenca. - Achando que resumira bem a situao, Cam pegou uma cerveja na geladeira.
      - Deve ser como se olhar no espelho.
      - No vem com esse papo no!
      - Desculpe, no sei o que deu em mim para pensar isso. Voc tem uma ndole to pacfica... - Movimentando-se pela cozinha com um caminhar bem relaxado, Ethan 
se abaixou em busca de uma jarra de vidro qualquer. - Deixe-me ver... voc tinha mais ou menos quatorze anos quando eu cheguei nesta casa. A primeira coisa que fez 
foi arrumar uma briga comigo, s para ter um pretexto para fazer o meu nariz sangrar.
      Pela primeira vez em horas, Cam sentiu um sorriso se espalhar no rosto.
      - Aquele foi s o meu jeito de dizer "bem-vindo  famlia". Alm do mais, pelo que me lembro, voc me deixou com um olho todo roxo como agradecimento.
      - Ento est explicado... o garoto no  otrio o bastante para tentar dar um soco na sua cara - continuou Ethan, comeando a colocar generosas quantidades 
de acar na jarra. - Sendo assim, azucrina voc... com certeza consegue atrair a sua ateno, no consegue?
      Ouvir aquilo era irritante, porque era verdade.
      - J que consegue sacar tudo sobre o garoto assim to bem, Ethan, por que no cuida dele?
      - Porque estou indo para o mar todo dia antes do sol nascer. Um garoto como ele precisa de acompanhamento. - Aquela, Ethan pensou, era a sua defesa, e ele 
se agarraria a esse argumento mesmo que tivesse que passar por todas as torturas do inferno. - De ns trs, voc  o nico que no est trabalhando.
      - Ento vou ter que dar um jeito nisso - murmurou Cam.
      - Ah, vai? - Com um risinho de deboche, Ethan acabou de preparar o ch. - Essa eu quero ver!
      - Pois esse dia est bem prximo. Uma assistente social esteve aqui hoje.
      Ethan resmungou alguma coisa e deixou as implicaes daquela informao assentarem em sua cabea, antes de perguntar:
      - O que  que ela queria?
      - Verificar algumas coisas a respeito da gente. Ela vai procurar voc para conversar tambm. E Phillip... j conversou com Seth, o que, alis, era o que eu 
estava querendo arrancar dele, de forma diplomtica, quando ele comeou a espumar novamente.
      Cam franziu a testa, pensando mais em Anna Spinelli com suas pernas sensacionais e a pasta toda arrumadinha do que em Seth.
      - Se a gente no passar no teste, ela vai fazer tudo para arranc-lo da gente - avisou Cam.
      - Pois ele no vai a parte alguma! - reagiu Ethan.
      - Foi isso o que eu falei para ela - disse, e passou as mos pelos cabelos mais uma vez, o que, por algum motivo, o fez lembrar de que precisava de um bom 
corte de cabelo... em Roma. Seth no era o nico que no ia a parte alguma. - S que, meu caro mano, a gente vai ter que promover algumas mudanas muito srias por 
aqui.
      - As coisas vo muito bem do jeito que esto. - Ethan encheu um copo com tantos cubos de gelo que, quando colocou o ch, eles chegaram a estalar.
      -  fcil pra voc falar isso. - Cam foi para a varanda, deixou a porta telada bater atrs de si, caminhou at a cerca e ficou observando Simon, o lindo retriever 
com plo luzidio que pertencia a Ethan, ficar brincando de cair e rolar em companhia do gordo Bobalho. No andar de cima, Seth obviamente resolvera se vingar ligando 
o rdio no volume mximo, com o intuito de explodir alguns tmpanos. O som de uma banda de rock das mais barulhentas explodia atravs das janelas.
      O maxilar de Cam se mexeu para o lado, com raiva. Ele faria qualquer coisa, menos mandar o garoto baixar o volume. Era uma atitude clich demais e terrivelmente 
adulta. Tomou a cerveja, tentou desfazer os ns que sentia nos ombros e se concentrou na imagem  sua frente e no jeito com que o sol jogava diamantes brancos dentro 
d'gua.
      O vento estava ficando mais forte, de forma que o mato alto do brejo balanava de um lado para outro como uma plantao de trigo no Kansas. O macho de um casal 
de patos que instalara o ninho no lugar em que a gua formava uma curva sob as rvores chegou voando e grasnando.
      Lucy, cheguei!, foi o que Cam pensou, lembrando-se do antigo seriado de tev, e isso quase o fez sorrir novamente.
      Por trs do rugido da msica, ouviu o suave e rtmico ranger da cadeira de balano na varanda. A cerveja chegou a voar do gargalo quando ele girou o corpo 
de repente. Ethan parou de se balanar e olhou para ele.
      - Que foi? - quis saber. - Nossa, Cam, at parece que voc viu um fantasma!
      - Nada no... - Cam passou a mo sobre o rosto, e ento se agachou lentamente at se encostar de costas na coluna do gradil. - No foi nada - repetiu, mas 
deixou a cerveja de lado. -  que estou um pouco nervoso.
      - Normalmente voc fica assim, quando permanece mais de uma semana no mesmo lugar.
      - No comece a pegar no meu p, Ethan!
      - Foi s um comentrio. - E como viu que Cam parecia exausto e plido, Ethan enfiou a mo no bolso da camisa e pegou dois charutos. No ia fazer mal mudar 
um pouco a sua rotina de depois do jantar. - Quer um charuto?
      - ... por que no? - suspirou Cam. Em vez de se mover, deixou que Ethan acendesse o primeiro e o passasse para ele. Recostando-se novamente, soltou alguns 
preguiosos anis de fumaa. Quando a msica parou de forma abrupta, sentiu que conseguira uma pequena vitria pessoal.
      elos dez minutos seguintes no havia nenhum outro som, a no ser o lamber lnguido das guas nas margens do rio, o pio dos pssaros e o sussurro da brisa. 
O sol caa mais fundo, transformando o cu do Oeste em uma nvoa suave e rosada que mergulhava sangrando dentro d'gua e transformava a linha do horizonte em um 
borro. As sombras se acentuaram.
      Era prprio de Ethan, Cam refletiu, no fazer perguntas. Ficar sentado em silncio e esperar. Compreender a importncia da quietude. Quase se esquecera daquela 
admirvel qualidade do irmo. E talvez, Cam admitiu, quase se esquecera tambm de o quanto amava aquele irmo que Ray e Stella lhe tinham dado.
      Porm, mesmo se lembrando do fato naquele momento, no tinha certeza sobre o que fazer a respeito disso.
      - Estou vendo que voc consertou e pintou os degraus - comentou Ethan ao reparar que Cam estava voltando a ficar mais relaxado.
      - Consertei. E a casa bem que merecia ser pintada tambm.
      - Vamos ter que resolver isso.
      Eles iam ter que resolver um bocado de coisas, pensou Cam. Mas o ranger suave da cadeira de balano continuava levando a sua cabea de volta para aquela tarde.
      - Ethan, voc alguma vez j teve um sonho quando estava completamente acordado? - Ele podia perguntar aquilo porque se tratava de Ethan, e ele ia pensar e 
considerar o assunto com cuidado.
      Depois de pousar o copo quase vazio no cho, ao lado da cadeira, Ethan ficou olhando para o charuto, parecendo estud-lo.
      - Bem... - respondeu, por fim - ... acho que j. A mente gosta de vagar e viajar quando a gente deixa.
      Devia ter sido isso, disse Cam a si mesmo. Sua mente havia vagado, talvez at se perdido um pouco. Talvez isso o tivesse levado a achar que vira o seu pai 
se balanando na cadeira da varanda. E quanto  conversa? Pensamentos fantasiosos, decidiu. Apenas isso.
      - Lembra-se de como papai costumava trazer o violino aqui pra fora? Nas noites quentes de vero, ele sentava onde voc est sentado agora e tocava por horas. 
E tinha umas mos grandes...
      - Ele conseguia fazer aquele violino soar bonito de verdade.
      - E voc tambm aprendeu a tocar muito bem.
      Ethan encolheu os ombros e soprou a fumaa do charuto de um jeito preguioso e lento.
      - ... aprendi um pouco.
      - Acho que devia pegar o violino como herana. Ele gostaria de saber que o instrumento ficou para voc.
      Ethan desviou seu olhar calmo e o fixou nos olhos de Cam. Nenhum dos dois falou por um momento, nem precisavam.
      - Acho que vou fazer isso, mas no assim to depressa. Ainda no estou pronto.
      - ... eu entendo. - Cam soprou mais um pouco de fumaa.
      - E voc, ainda tem o violo que eles te deram de presente naquele Natal?
      - Deixei-o aqui. No queria ficar carregando aquilo comigo por a... - Cam olhou para os dedos e os flexionou, como se estivesse prestes a dedilh-los sobre 
algumas cordas. - Acho que no toco h mais de um ano.
      - Talvez a gente devesse fazer Seth experimentar um instrumento qualquer. Mame costumava afirmar que tocar msica ajuda a diminuir a agressividade. - E virou 
a cabea quando os ces comearam a latir e correr para os lados da casa. - Voc est esperando algum?
      - Phillip.
      - Pensei que ele s ia chegar na sexta-feira. - As sobrancelhas de Ethan se uniram, mostrando estranheza.
      - Digamos que se trata de uma emergncia familiar. - Cam atirou longe com um piparote a guimba do charuto, antes de se levantar.
      - Deus queira que ele tenha trazido alguma comida decente, em vez daquelas bostas de comidas sofisticadas, tipo favas recheadas e coisas assim que ele gosta 
tanto de comer.
      Phillip entrou a passos largos na cozinha, equilibrando uma imensa sacola, alm de uma tigela funda cheia de frango frito, e lanando ondas de irritao. Despejou 
a comida em cima da mesa, passou a mo no cabelo e olhou com cara feia para os irmos.
      - Cheguei! - disse, agressivo, quando os viu aparecer na porta dos fundos. - Qual  o grande problema?
      -  que estamos com fome por aqui - respondeu Cam com suavidade, e, tirando o plstico que cobria a tigela, pegou uma coxinha.
      - Sua cala bonita estilo "vejam s, sou um executivo..." t com umas sujeirinhas na perna, Phillip.
      - Ah, que droga! - Furioso, Phillip comeou a passar a mo com impacincia sobre as marcas de patas em suas calas. - Quando  que vocs vo ensinar quele 
cachorro idiota a no ficar pulando em cima das pessoas, hein?
      - Voc surge com uma tigela cheia de frango frito, o coitado vem agradar pra ver se consegue um pedao. Isso prova que ele  esperto, na minha opinio. - Sem 
parecer ofendido, Ethan foi at o armrio a fim de pegar alguns pratos.
      - Trouxe batatas fritas? - Cam tornou a enfiar a mo, desta vez na sacola, e pegou uma. - T fria!  melhor um de vocs esquentar o rabo delas. Se eu tentar 
fazer isso, sei que elas vo explodir ou se desintegrar.
      - Deixe que eu fao isso - ofereceu-se Ethan. - Arrume um prato para colocar a salada, Cam.
      Phillip respirou fundo e depois tornou a fazer isso. A viagem de Baltimore at ali fora longa, e o trfego estava horrvel.
      - Quando vocs duas acabarem de brincar de casinha, garotas, talvez possam me dizer por que foi que eu desmarquei um lance quente com uma contadora muito gostosa, 
que j era o meu terceiro encontro com ela, um jantar em sua casa, com grandes probabilidades de sexo para encerrar a noite e, em vez disso, fiquei duas horas preso 
na estrada, num engarrafamento, para entregar uma porra de uma tigela de frango frito a uma dupla de mans.
      - Para comear, estou farto de cozinhar. - Cam serviu uma poro de salada em seu prato e pegou uma torrada. - E ainda mais cansado de jogar no lixo toda a 
comida que preparo, porque nem mesmo o cachorro, que bebe gua da privada regularmente, consegue tocar nela. Mas isso  apenas o incio...
      Deu mais uma dentada generosa em outro pedao de frango que pegara e foi at a porta, soltando um berro trovejante para chamar Seth.
      - O garoto tem que ficar aqui - completou. - E ns estamos todos juntos nisso.
      - Certo... legal! - Phillip se largou em uma cadeira e afrouxou a gravata.
      - No precisa ficar putinho s porque a contadora no vai passar a noite conferindo os seus dados, meu chapa. - Ethan lhe ofereceu um sorriso amigvel e um 
prato.
      - A poca da declarao do imposto de renda est chegando. - Com um suspiro de resignao, Phillip se serviu de salada. - Agora vou ter sorte se conseguir 
um olhar interessado dela antes do dia 15 de abril. E eu estava to perto!...
      -  pouco provvel que algum de ns v conseguir um pouco de ao nessa rea por algum tempo - disse Cam, e virou a cabea ao ouvir os passos de Seth, que 
vinha descendo as escadas -, porque o som de passinhos de criana faz desgraas com a vida sexual das pessoas.
      Cam controlou a vontade de tomar mais uma cerveja e se contentou com ch gelado quando Seth entrou na cozinha. O garoto deu uma olhada em torno, com o nariz 
sentindo o cheiro de frango frito temperado, mas no se lanou em cima da tigela, como gostaria de fazer.
      - Qual  o lance? - quis saber, e enfiou as mos nos bolsos enquanto o estmago roncava de fome.
      - Reunio de famlia! - anunciou Cam. - E com comida! Sente-se. - E pegou uma cadeira para si mesmo, enquanto Ethan colocava as batatas recm-esquentadas, 
ainda chiando, sobre a mesa.
      - Senta a! - repetiu Cam ao ver que Seth continuava onde estava.
      - Mesmo que no esteja com fome, pode ficar apenas ouvindo.
      - No, eu posso comer alguma coisa sim. - Seth veio se chegando at a mesa, meio desconfiado, e se deixou escorregar em uma cadeira. - Isso deve estar melhor 
que a gororoba que voc vem tentando fazer com que eu engula, fingindo que  comida.
      - Sabe de uma coisa - disse Ethan com seu jeito arrastado de falar, antes que Cam comeasse a rosnar -, acho que eu me sentiria grato se algum estivesse tentando 
preparar uma refeio quentinha para mim de vez em quando. Mesmo que fosse uma gororoba... - Com os olhos em Seth, Ethan ofereceu-lhe a tigela, exibindo as opes 
que havia para comer. - Especialmente se esse algum estivesse fazendo o melhor que consegue.
      Por ser Ethan, Seth ficou vermelho, se encolheu todo e ento sacudiu os ombros, enquanto pegava um gordo pedao de peito.
      - Ningum pediu para ele cozinhar - argumentou o garoto.
      - Mais uma razo... talvez funcionasse melhor se vocs dois se revezassem.
      - Ele acha que eu no sei fazer nada. - E olhou com escrnio para Cam. - Assim eu no fao mesmo.
      - Sabe,  uma idia tentadora jogar esse peixinho que a gente pescou de volta no lago... - Cam estava colocando sal nas batatas e lutava para manter uma relativa 
calma. - Assim eu podia estar em Aruba a essa hora, amanh.
      - Ento v em frente! - Os olhos de Seth se acenderam, cheios de raiva e desafio. - V para o diabo de lugar que quiser, contanto que saia da minha frente. 
No preciso de voc!
      - Seu fedelho com lngua afiada. J aturei muito. Chega! - Cam tinha um brao comprido e o usou para lanar a mo atravs da mesa e levantar Seth da cadeira. 
No momento em que Phillip ia abrir a boca para protestar, Ethan balanou a cabea.
      - Voc acha que eu estou curtindo muito ter passado as ltimas duas semanas servindo de bab para um monstro melequento cheio de marra e fazendo onda o tempo 
todo? Coloquei a minha vida em compasso de espera para estar aqui, cuidando de voc!
      - Grande coisa! - Seth ficara branco como um leno, e j estava pronto para receber o golpe no rosto que tinha certeza que viria em seguida, mas no retrocedeu. 
- Tudo o que voc faz na vida  correr por a juntando trofus e comendo mulheres. Pode voltar para onde voc veio e continuar com a sua vida. Estou cagando e andando.
      Cam sentiu as bordas do seu campo de viso ficarem vermelhas. Fria e frustrao fizeram-lhe o sangue ferver, e ele se sentiu como uma cobra pronta para o 
bote.
      Viu as mos do pai na ponta dos seus braos. No as de Ray, mas as do homem que usara aquelas mos para surr-lo com uma violncia que se tornara banal durante 
toda a sua infncia. Antes que fizesse algo imperdovel, colocou Seth de volta na cadeira. Sua voz era calma agora, e todo o aposento vibrava com o seu controle.
      - Se voc acha que eu estou ficando aqui por sua causa, est muito enganado! Estou aqui por Ray. Ser que voc tem idia do lugar Para onde o governo vai mand-lo, 
se um de ns decidir que voc no compensa toda essa dor de cabea?
      Abrigos, Seth pensou. Estranhos. Ou, pior, de volta para ela. Ao sentir que suas pernas tremiam sem parar, enganchou-as em volta das pernas da cadeira, dizendo:
      - Vocs no ligam a mnima para o que eles possam fazer comigo.
      - Essa  outra coisa com a qual voc est enganado! - reagiu Cam no mesmo tom. - Se voc no quer se mostrar grato, tudo bem. No preciso da porcaria da sua 
gratido. Mas voc vai ter que comear a demonstrar um pouco de respeito aqui, e vai comear agora mesmo! No sou apenas eu que vou estar na rea protegendo o seu 
rabo magro e tirando-o da reta, meu chapa. Vamos ser ns trs!
      Cam tornou a se sentar, e esperou a serenidade voltar aos poucos, antes de anunciar:
      - A assistente social que esteve aqui hoje... Spinelli... Anna Spinelli, tem algumas preocupaes com relao ao ambiente em que o menino est.
      - O que h de errado com o ambiente? - perguntou Ethan. A pequena altercao, embora desagradvel, havia conseguido limpar o ar. Agora eles podiam entrar nos 
detalhes. -  uma casa boa, bem slida, em uma rea respeitvel. A escola  bem conceituada, a criminalidade  baixa.
      - Tenho a impresso de que eu  que sou o ambiente problemtico. No momento, sou o nico que estou aqui, supervisionando as coisas.
      - Ns trs vamos ser designados como guardies, igualmente - explicou Phillip. Serviu um copo de ch gelado e o colocou, com casualidade, junto da mo que 
Seth colocara sobre a mesa, com o punho fechado. Imaginava que a garganta do menino devia estar pegando fogo naquele exato momento. - Confirmei tudo com o advogado 
depois que voc me ligou. A papelada preliminar vai estar resolvida at o fim da semana. Vai haver um perodo experimental, onde sero avaliadas questes, como horas 
de estudo regulares em casa, reunies e avaliaes. A no ser que surja alguma objeo sria, no me parece que v haver problemas.
      - Anna Spinelli  o problema. - Cam recusou-se a deixar que a briga estragasse o seu apetite e pegou mais frango. -  a clssica "Dona Certinha". Pernas fabulosas, 
muito competente, mas com jeito de sria... Sei que ela conversou com o garoto, mas ele no est muito disposto a compartilhar conosco o que foi falado. Ento vou 
contar sobre a conversa que eu tive com ela. Para comear, ela demonstrou dvidas sobre minhas qualificaes como guardio. Um cara solteiro, sem emprego fixo nem 
residncia permanente.
      - Mas ns somos trs. - Phillip franziu a testa e comeu mais uma garfada de salada. Sentiu uma fisgada de culpa se insinuando por dentro, mas no ligou.
      - Foi isso que eu argumentei. Pois a Srta. Spinelli, com seus deslumbrantes olhos italianos, contra-argumentou com o triste fato de que, por acaso, eu sou 
o nico dos trs que est realmente morando aqui com o garoto. E deixou tacitamente implcito que, de ns trs, eu era o menos aconselhvel como guardio. Foi quando 
eu lancei para ela a idia de ns todos virmos morar aqui juntos.
      - O que quer dizer com "virmos todos morar aqui"? - perguntou Phillip, pousando o garfo. - Eu trabalho em Baltimore. Tenho um apartamento na cidade, como  
que vai ser eu morando aqui e trabalhando l?
      - Isso seria um problema - concordou Cam -, e um problema maior ainda seria como espremer todas as suas roupas transadas dentro daquele closet pequenininho 
do seu antigo quarto.
      Enquanto Phillip se engasgava, sem conseguir dar uma resposta, Ethan batia com o dedo na ponta da mesa. Pensou na casinha em que morava. Era pequena, mas perfeita, 
s para ele. Lembrou-se da calma e da solido gostosa que havia l. E notou o jeito com que Seth olhava de cabea baixa para seu prato com os olhos sombrios e confusos.
      - Quanto tempo voc acha que isso pode levar?
      - No sei. - Cam passou as mos pelos cabelos. - Seis meses, um ano talvez...
      - Um ano! - Tudo o que Phillip conseguiu fazer foi fechar os olhos. - Meu santo Cristo!
      - Converse com o advogado a respeito disso - sugeriu Cam. - Discuta esse assunto com ele. S que ns temos que apresentar um front unido para o servio de 
assistncia social do governo, seno eles vo levar o garoto da gente. A outra novidade  que eu vou ter que arrumar um trabalho...
      - Trabalho?! - O ar arrasado de Phillip se transformou em um sorriso. - Voc? Fazendo o qu? No h pistas de corrida aqui em St. Chris. E a baa de Chesapeake, 
que Deus a guarde, no  exatamente o Mediterrneo.
      - Eu encontro alguma coisa. Trabalho fixo no significa emprego de bacana. No estou buscando um emprego no qual eu tenha que trabalhar em um terno Armani.
      Ele estava enganado, percebeu Cam. Aquela porcaria de papo ia acabar com seu apetite.
      - Pelo que eu estou vendo - continuou ele -, a tal de Spinelli vai voltar amanh ou depois de amanh o mais tardar. Temos que combinar como as coisas vo ser 
e tentar mostrar a ela que a gente sabe que diabos est fazendo.
      - Eu posso antecipar as minhas frias - sugeriu Phillip, dando adeus s duas semanas que planejara passar no Caribe. - Isso nos d algumas semanas. Durante 
esse tempo, posso trabalhar junto com o advogado e lidar com a assistente social.
      - Eu lido com ela - disse Cam e sorriu ligeiramente. - Gostei do jeito dela, e mereo me dar bem de alguma forma nessa histria.  claro que tudo vai depender 
do que o garoto disse a ela hoje.
      - Eu disse a ela que queria ficar aqui - murmurou Seth, mastigando as palavras. Seu estmago estava embrulhado. A comida continuava intocada no prato. - Ray 
disse que eu podia ficar. Disse que eu podia ficar aqui. Prometeu ajeitar as coisas para que eu pudesse ficar.
      - E ns somos tudo o que sobrou dele. - Cam esperou at que Seth levantasse os olhos. - Portanto, a gente vai ajeitar as coisas, como ele prometeu.
      
      
      Mais tarde, quando a lua j ia alta e as guas escuras eram cortadas na diagonal por seus raios brancos, Phillip estava em p na doca. O ar estava mais frio 
quela hora, o vento mido carregava um restinho do inverno que lutava para no ceder espao  primavera.
      Aquilo combinava com o seu estado de esprito.
      Havia uma guerra sendo travada dentro dele, entre a conscincia e a ambio. Em duas curtas semanas, a vida que planejara para si mesmo, traando tudo com 
mincias e incrementando cada ato com muita determinao e a deciso de trabalhar duro, se esfacelara por completo.
      Agora, ainda entorpecido de pesar pela morte de seu pai, estavam lhe pedindo para que transplantasse toda a sua vida para ali, comprometendo seus cuidadosos 
planos.
      Tinha treze anos quando Ray e Stella Quinn o acolheram. A maior parte daqueles treze anos fora passada nas ruas, com ele tentando se desviar do juizado de 
menores. Era um ladro muito hbil, um lutador entusiasmado e bom de briga, que usava as drogas e a bebida para apagar um pouco da falta de beleza em sua vida. Os 
projetos e as jogadas suspeitas feitas em Baltimore eram a sua praia. Um dia, ao ser atingido no meio de um tiroteio, foi abandonado sangrando na rua, e se preparou 
para morrer... estava pronto para ver simplesmente tudo acabar.
      Na realidade, o dia-a-dia que ele levava at ento, e que o levara a ponto de ser ferido de morte em uma sarjeta no meio do lixo, acabara naquela mesma noite. 
Ele sobreviveu. E por motivos que jamais compreendeu, os Quinn o queriam. E abriram inmeras portas fascinantes para ele. E no importa com que freqncia e ar de 
desafio ele tentasse novamente fech-las para si mesmo, eles jamais o permitiram.
      Eles lhe ofereceram escolhas, lhe deram esperana e uma famlia. Ofereceram-lhe a chance de obter uma boa educao, que salvara sua alma. E ele usou as ferramentas 
que lhe foram dadas para se transformar no homem que era. Estudou e trabalhou, at enterrar aquele menino miservel bem no fundo do passado.
      Seu cargo na Innovations, a agncia de publicidade mais importante na rea metropolitana de Baltimore, era bem slido. Ningum duvidava que Phillip Quinn estava 
caminhando a toda a velocidade para o topo. E ningum que conhecesse o homem que envergava os ternos mais elegantes e feitos sob medida, o sujeito sofisticado que 
sabia pedir uma refeio utilizando o idioma francs com perfeio e sempre escolhia com preciso o vinho mais apropriado conseguiria acreditar que ele, no passado, 
j vendera o prprio corpo em troca de um baseado.
      Ele tinha orgulho do que conseguira, talvez orgulho demais at, mas considerava isso seu testamento para os Quinn.
      Ainda havia um pouco do menino egosta e auto-indulgente dentro dele, a ponto de faz-lo se rebelar diante da idia de abrir mo de uma s das coisas que conseguira. 
Mas havia muito mais do homem que Ray e Stella moldaram para que considerasse a possibilidade de agir de outra forma que no a que eles lhe haviam ensinado.
      De algum modo ele precisava encontrar um meio-termo.
      Virando-se para trs, olhou para a casa. O andar de cima estava s escuras. Seth j devia estar na cama, refletiu Phillip. Ele no tinha a menor idia de como 
se sentia com relao ao garoto. Ele o reconhecia, o compreendia e se ressentia um pouco ao ver algumas partes de si mesmo no jovem Seth DeLauter.
      Ser que ele era filho de Ray Quinn?
      Ali, Phillip pensava, com os dentes rangendo, havia ainda mais ressentimento diante da simples possibilidade de aquilo ser verdade. Ser que o homem que ele 
idolatrara por mais da metade de sua vida tivesse realmente desabado de seu pedestal, sucumbido  tentao, trado a mulher e a famlia? E, se tinha feito isso, 
como pde virar as costas para algum que carregava seu prprio sangue? Como era possvel que aquele homem que transformara estranhos em filhos tivesse ignorado 
por mais de uma dcada um filho verdadeiro, que sara de seu prprio corpo?
      J estamos com problemas demais, lembrou Phillip a si mesmo. O primeiro deles era manter uma promessa. Ficar com o menino.
      Foi caminhando de volta, usando a luz da varanda de trs da casa para gui-lo. Cam estava sentado nos degraus. Ethan na cadeira de balano.
      - Vou voltar para Baltimore amanh de manh - anunciou Phillip. - Vou ver o que o advogado pode esclarecer sobre o caso. Voc disse que a assistente social 
se chama Spinelli?
      - Isso. - Cam estava com uma xcara de caf nas mos. - Anna Spinelli.
      - Ela deve trabalhar na repartio municipal que controla esta rea, provavelmente em Princess Anne. Vou passar essa informao para o advogado. - Detalhes, 
pensou. Ele devia se concentrar nos fatos - Pelo que estou vendo, vamos ter que desempenhar o papel de cidados perfeitos, figuras modelares. Eu j passei. - Sorriu 
Phillip, de leve - Vocs dois  que vo ter que lapidar muito bem esse jeito pouco sofisticado que vocs tm, meus caros.
      - Eu disse  Srta. Spinelli que ia arrumar um emprego. - S aquele pensamento j deixava Cam enjoado.
      - Eu esperaria mais um pouco, Cam. - Estas palavras vieram de Ethan, que se balanava suavemente nas sombras. - Tive uma idia. Preciso pensar um pouco mais 
nela. A mim, porm, me parece - continuou ele - que se Phillip e eu vamos estar por aqui, e ambos trabalhando, voc poderia muito bem ficar cuidando da casa.
      - Ah, meu Deus! - Foi tudo o que Cam conseguiu dizer.
      - Pode funcionar assim... - Ethan fez uma pausa, se balanou um pouco mais na cadeira e continuou: - Voc seria o que eles chamariam de guardio primrio. 
Aquele que est sempre disponvel quando a escola liga para conversar sobre algum problema, se Seth passar mal ou coisas desse tipo.
      - Faz sentido - concordou Phillip, sentindo-se melhor e sorrindo para Cam. - Voc vai ser a mame...
      - V se foder!
      - Olha... isso no so modos de uma mame falar...
      - Se vocs acham que eu vou ficar preso aqui dentro, lavando as suas meias sujas e limpando a privada com uma escovinha, podem colocar de lado toda aquela 
finesse da qual se orgulham tanto e podem tambm ir tirando o cavalinho da chuva.
      -  s por algum tempo - disse Ethan, embora estivesse se divertindo com a idia de ver seu irmo usando um avental e dando pulinhos para limpar as teias de 
aranha nos cantos do teto com um espanador. - Podemos fazer um rodzio. Seth vai ter algumas tarefas tambm. Sempre foi assim aqui em casa. De qualquer modo, nos 
primeiros dias, a coisa vai ficar mais em cima de voc, enquanto Phillip segura as pontas jurdicas e eu vejo como posso reajustar os meus horrios.
      - Mas eu tambm tenho meus negcios para resolver. - O caf estava comeando a abrir um buraco no seu estmago, mas Cam engoliu tudo de qualquer jeito. - Minhas 
coisas esto espalhadas por toda a Europa!
      - Bem, Seth fica na escola o dia todo, no ? - De modo distrado, Ethan esticou a mo para acariciar o co que roncava de leve ao lado da cadeira.
      - Certo. timo! - Cam desistiu. - Voc - disse, apontando para Phillip -, traga algumas coisas da mercearia quando voltar. Estamos com a despensa quase vazia. 
E Ethan pode juntar as coisas que voc trouxer e preparar uma refeio. E todo mundo vai fazer a prpria cama, droga. No vou ser a empregada da casa.
      - E quanto ao caf da manh? - perguntou Phillip, de forma seca. - Voc no pode mandar seus homens para o trabalho de manh sem uma refeio quentinha e nutritiva, 
no ?
      - Voc est curtindo isso tudo, no est? - Cam lanou-lhe um olhar de dio.
      - Bem que podia curtir... - E se sentou nos degraus da varanda, ao lado de Cam, recostando-se no piso, apoiado nos cotovelos. - E algum precisa conversar 
com Seth a respeito do seu linguajar.
      - Ah, sim... - riu Cam com cara de deboche. - Isso vai adiantar muito!
      - Se ele ficar falando palavres daquele jeito na frente dos vizinhos, da assistente social, dos professores, isso pode pegar mal, vai causar m impresso. 
Por falar nisso, como vo os deveres dele da escola?
      - Mas como  que eu posso saber?
      - Ora, mame... - grunhiu Phillip, e depois caiu na risada quando o cotovelo de Cam atingiu-lhe as costelas.
      - Fique me zoando assim, gostoso, e vai acabar com outro terno arruinado.
      - Ento espere at eu mudar de roupa e podemos disputar alguns rounds. Ou, melhor ainda... - Phillip levantou uma sobrancelha, olhou meio de lado para Ethan 
e depois novamente para Cam.
      Aprovando o plano, Cam coou o queixo e colocou a xcara vazia no cho. Pularam dos degraus ao mesmo tempo, to depressa que Ethan mal teve tempo de piscar.
      Seu punho se arremessou para a frente, mas foi bloqueado, e ele foi rebocado da cadeira pelas axilas e tornozelos, xingando o tempo todo. Simon se levantou, 
pulando e latindo alegremente, e comeou a andar em crculos em volta dos homens que carregavam seu dono, que se debatia violentamente para fora da varanda.
      Dentro da cozinha, o co menor se sacudia, agitado, ganindo em resposta. Para mant-lo l dentro, Seth pegou um pedao do frango que o animal viera buscar 
e o deixou cair no cho. Enquanto Bobalho engolia o presente com gulodice, Seth observava intrigado e surpreso as silhuetas que se encaminhavam para a doca.
      Ele descera para encher a barriga ainda vazia. Estava acostumado a se mover silenciosamente. Enfiara o mximo possvel de frango na boca e ficara ouvindo os 
homens falando na varanda.
      Parecia que eles realmente estavam pensando em deix-lo ficar. Mesmo sem saber que ele estava ouvindo tudo, falavam como se j fosse um fato consumado. Pelo 
menos por enquanto, analisou, at se esquecerem da promessa que haviam feito ou simplesmente no se importarem mais com ele.
      Ele sabia que promessas no tinham valor algum. Exceto a de Ray. Ele acreditara em Ray, mas ele se fora, morreu e tudo ficou arruinado. Assim, ele sabia que 
cada noite que passava naquela casa, entre lenis limpos e com o co enroscado a seu lado, era um escape. Quando eles decidissem se livrar dele, Seth estaria pronto 
para fugir.
      Porque preferia morrer a voltar para o lugar onde vivera antes de Ray Quinn.
      O co estava farejando por baixo da porta, atrado pelo som dos risos, latidos e gritos. Seth lhe deu mais um pedao de frango para distra-lo.
      Seth tambm estava doido para sair, correr pelo gramado e se unir queles risos, quela diverso... quela famlia. Mas sabia que no seria bem-vindo. Os irmos 
iam parar com a brincadeira na mesma hora, olhando para ele e se perguntando uns aos outros, com o olhar de onde, diabos, ele surgira, e o que eles deviam fazer 
a respeito.
      Ento iam mandar que ele voltasse para a cama.
      Ah, Deus, como ele gostaria de ficar! Queria apenas ficar ali. Seth apertou o rosto contra a tela da porta da varanda, desejando, de todo o corao, poder 
fazer parte daquilo.
      Ao ouvir a voz de Ethan, que praguejava em voz alta e ria ao mesmo tempo, seguida pelo barulho de gua sendo espalhada e os estrondos de satisfao dos risos 
masculinos que surgiram logo a seguir, ele sorriu.
      E ficou parado ali, sorrindo, sem notar a lgrima que lhe escapara pelo canto do olho e descia-lhe, serpenteante, pelo rosto.

Captulo Cinco
  
      Anna chegou ao trabalho mais cedo. As chances de sua supervisora ter chegado ainda antes dela eram grandes. As pessoas sempre podiam contar com Marilou Johnston 
sentada em sua mesa ou ali por perto.
      Marilou era uma mulher que Anna admirava tanto quanto respeitava. Quando precisava de um conselho, no havia ningum cuja opinio valorizasse mais.
      Ao enfiar a cabea pela porta aberta da sala da chefe, Anna sorriu de leve. Como esperava, Marilou estava l, enterrada atrs das pastas e da papelada que 
eternamente lhe entulhavam a mesa. Era uma mulher baixa, com pouco mais de um metro e meio de altura. Usava o cabelo cortado bem curto, por praticidade e tambm 
por estilo. Seu rosto era liso como bano polido, e a expresso que sempre exibia conseguia se manter composta mesmo durante as piores crises.
      Uma ilha de calma, era como Anna freqentemente imaginava Marilou, embora o modo pelo qual ela conseguia se manter calma, tendo uma vida atribulada por uma 
carreira exigente, dois filhos adolescentes e uma casa que Anna j notara que vivia cheia de gente, escapava totalmente  sua compreenso.
      Anna sempre refletia que queria ser como Marilou Johnston quando ficasse mais velha.
      - Voc tem um minutinho?
      - Claro! - respondeu Marilou, com a voz agitada e cheia de vida, enfeitada pelo sotaque sulino que mantinha as palavras presas entre o fraseado arrastado e 
o tom agudo no fim das frases. Convidou Anna a se sentar em uma cadeira e balanou a pequena argola de ouro que usava como brinco na orelha esquerda. -  o caso 
Quinn-DeLauter?
      - Acertou de cara! Havia uns dois fax esperando por mim, enviados ontem pelo representante dos Quinn, de um escritrio de advocacia em Baltimore.
      - E o que o nosso advogado de Baltimore tinha a dizer?
      - O ponto principal  que eles esto requerendo a guarda do menino. Ele vai enviar uma petio  corte. Parece que a famlia est levando a srio o objetivo 
de manter Seth DeLauter na casa deles, e sob seus cuidados.
      - E...?
      -  que esta  uma situao incomum, Marilou. At agora eu s consegui conversar com um dos irmos. Aquele que morava na Europa at recentemente.
      - Cameron? E quais foram as suas impresses?
      - Ele certamente impressiona... - E como Marilou era tambm uma amiga, Anna se permitiu dar um sorriso e girar os olhos. - Um colrio de homem! Quando cheguei, 
estava consertando os degraus da varanda dos fundos. No me pareceu exatamente feliz com a situao, mas demonstrou uma grande determinao. Senti um bocado de raiva 
nele e muito pesar. O que me impressionou mais, porm...
      - Alm da aparncia dele?
      - Alm de sua aparncia - concordou Anna, com uma risada -, foi o fato de que ele nem sequer por um momento questionou a guarda de Seth. Era um fato simples 
e decidido. Referiu-se a Seth como seu irmo. E falava srio. No tenho certeza quanto a ele saber exatamente como se sente a respeito disso, mas ele realmente falava 
srio.
      E continuou a contar a histria, enquanto Marilou ouvia, sem comentar nada. Anna relatou em detalhes tudo sobre o que falaram, a determinao de Cam em mudar 
o seu estilo de vida e a sua preocupao sobre a possibilidade de Seth fugir, se fosse levado daquela casa.
      - E - continuou ela - depois de falar com Seth eu estou tendendo a concordar com ele.
      - Voc acha que o menino  fujo?
      - Quando sugeri um abrigo na casa de algum, durante o processo para a sua possvel adoo, ele ficou zangado e mostrou um ar de ressentimento. E medo... Caso 
se sinta ameaado, ele foge sim. - E se lembrou de todas as crianas que acabavam nas ruas pobres das cidades do interior, sem casa e desesperadas. Pensou no que 
faziam para sobreviver. E tambm em quantas delas simplesmente no sobreviviam.
      O trabalho dela era manter pelo menos aquela criana, aquele menino, a salvo.
      - Ele quer ficar l, Marilou. Talvez precise disso. Seus sentimentos a respeito da me so muito fortes e muito negativos. Eu suspeito de abuso, mas ele no 
estava pronto para conversar sobre isso. Pelo menos no comigo.
      - E h alguma notcia sobre o paradeiro da me?
      - No. No temos a mnima idia de onde ela est ou do que vai fazer. Ela assinou os documentos que permitiam que Ray Quinn desse entrada no pedido de adoo, 
mas ele morreu antes que o processo ficasse resolvido. Se ela aparecer e quiser pegar o filho de volta - Anna balanou a cabea -, os Quinn vo se ver diante de 
uma boa briga.
      - Voc me parece estar do lado deles.
      - Estou do lado de Seth - disse Anna com firmeza. - E  onde vou ficar. Conversei com seus professores - pegou uma pasta enquanto falava - e trouxe um relatrio 
a respeito. Vou voltar l hoje para falar com alguns dos vizinhos, e espero me encontrar com os trs Quinn.  possvel interromper o processo de guarda temporria 
at que eu complete as investigaes iniciais sobre o caso, mas estou inclinada a no fazer isso. Aquele menino precisa de estabilidade. Precisa se sentir querido 
por algum. E mesmo que os Quinn o queiram s por causa de uma promessa  mais do que ele teve at hoje, na minha opinio.
      Marilou pegou a pasta e a colocou de lado.
      - Eu a designei para cuidar deste caso porque sei que voc no olha apenas na superfcie. E a mandei l sem prepar-la de antemo porque queria saber quais 
eram as suas impresses. Agora deixe que eu lhe conte o que sei a respeito dos Quinn.
      - Voc os conhece?
      - Anna, eu nasci e fui criada aqui, nesta parte do litoral - disse e sorriu de forma maravilhosa. Era um fato simples, mas algo de que ela tinha imenso orgulho. 
- Ray Quinn foi um dos meus professores na faculdade. Eu o admirava tremendamente. Quanto tive meus dois meninos, Stella Quinn foi a pediatra deles, at que nos 
mudamos aqui para Princess Anne. Ns a adorvamos!
      - Quando eu estava indo para l ontem, dirigindo pela estrada, fiquei pensando em como seria bom ter tido a chance de conhec-los.
      - Eram pessoas excepcionais - disse Marilou com naturalidade. - Gente comum, at mesmo simples em certos aspectos. Excepcionais, porm... Vou lhe contar uma 
histria - acrescentou, recostando-se na cadeira. - Sa formada da faculdade h dezesseis anos. Os trs irmos Quinn eram adolescentes na poca. A gente ouvia histrias 
a respeito deles de vez em quando. Talvez eles fossem um pouco rebeldes, e as pessoas se perguntavam o motivo de Ray e Stella terem adotado trs meninos, j quase 
rapazes, e com maus hbitos. Eu estava grvida de Johnny, o meu filho mais velho, batalhando como uma louca para conseguir me formar a fim de ajudar meu marido, 
Ben, a pagar o aluguel. Ele trabalhava em dois empregos. Queramos uma vida melhor para ns, e com certeza sonhvamos com algo ainda melhor para o beb que eu carregava.
      Fazendo uma pausa, puxou o porta-retratos duplo que havia em sua mesa para mais perto dela, para poder ver de frente os dois filhos sorrindo.
      - Eu me perguntava sobre aquilo tambm - continuou. - Achava que eles eram loucos ou que estivessem apenas bancando os bons samaritanos. O Professor Quinn 
me chamou em sua sala certo dia. Eu faltara a duas aulas seguidas. Passara pela pior crise de enjo matinal que j vira na vida.
      S de se lembrar daquilo fez uma careta, comentando:
      - Juro que no compreendo o porqu de algumas mulheres se lembrarem com saudades de momentos como aqueles. Enfim, achei que ele ia recomendar que eu interrompesse 
as aulas, o que ia significar perda de crditos e a impossibilidade de obter o diploma. Isso quando eu j estava na reta final do curso... Nadei tanto, estava chegando 
 praia e ia ser a primeira pessoa da minha famlia a ter um diploma universitrio. Fui at l preparada para brigar com ele, a fim de defender o meu sonho. Em vez 
disso, ele me perguntou o que poderia fazer para me ajudar. Fiquei sem fala.
      Tornando a sorrir ao se lembrar do fato, ela ampliou ainda mais o sorriso e olhou para Anna, dizendo:
      - Voc bem sabe como uma universidade pode ser impessoal e distante. Aquelas imensas palestras onde cada aluno  apenas um rosto a mais na multido... Pois 
bem, ele reparara em mim! E se dispusera a usar seu precioso tempo, a fim de pesquisar alguns fatos a respeito da minha situao. Eu comecei a chorar. Deviam ser 
os hormnios - disse ela com um sorriso irnico. - Bem, ele deu algumas palmadinhas na minha mo, entregou-me uns lenos-de-papel e deixou que eu chorasse tudo o 
que tinha para chorar. Eu tinha uma bolsa de estudos e se minhas notas baixassem ou eu ficasse reprovada em alguma disciplina poderia perd-la. Faltava s mais um 
semestre. Ele me disse que eu no me preocupasse, porque resolveramos tudo, e eu conseguiria o meu diploma. Comeou a falar de uma coisa e outra, a fim de me acalmar. 
De repente, estava me contando algo sobre estar ensinando seu filho a dirigir. Aquilo me fez rir. S mais tarde  que eu me dei conta de que ele estava falando sobre 
um dos meninos que adotara. Porque para ele os filhos no eram adotados. Eram dele...
      Como tinha um fraco por finais felizes, Anna suspirou, afirmando:
      - E voc conseguiu o seu diploma.
      - Ele fez de tudo para que eu conseguisse. Devo isso a ele. Esse  o motivo de eu no ter lhe contado nada disso at que voc tivesse formado algumas impresses 
prprias. Quanto aos trs Quinn, eu no os conheo de perto. Encontrei-os apenas nos dois funerais. Vi Seth DeLauter com eles no enterro do Professor Quinn. Por 
motivos pessoais, gostaria de v-los ter a chance de formar uma famlia. Porm...
      ela juntou as palmas das mos - ... o que for melhor para o menino tem que vir antes disso, e a estrutura do sistema tem que ser respeitada. Voc tem conscincia, 
 minuciosa em seu trabalho, Anna, e acredita nas estruturas da sociedade e do sistema. O Professor Quinn gostaria de que Seth tivesse o melhor, e para pagar uma 
antiga dvida de gratido entreguei o caso a voc.
      - Sem presses, hein? - Anna deu um grande suspiro.
      - Presso  o que mais temos por aqui. - Como que para confirmar isso, o telefone tocou. - E o tempo est passando...
      -  melhor eu ir trabalhar, ento. - Anna se levantou. - Parece que vou estai fazendo trabalho de campo a maior parte do dia.
      
      Era quase uma da tarde quando Anna entrou dirigindo pelo porto da propriedade dos Quinn. Conseguira fazer entrevistas com trs dos cinco nomes que Cam lhe 
indicara na vspera e tinha a esperana de aumentar a lista antes que mais tempo se passasse.
      Ao ligar para o escritrio de Phillip Quinn em Baltimore, recebera a informao de que ele tirara duas semanas de licena. Assim, Anna esperava encontr-lo 
ali para ver se conseguia formar uma impresso de outro dos Quinn.
      S que foi o cozinho que veio receb-la. Ladrava com ferocidade, mas recuava com rapidez  medida que ela avanava. Anna riu quando ele se urinou todo de 
terror ao ver que ela continuava a andar em sua direo. Rindo, agachou-se e estendeu-lhe a mo.
      - Venha c, fofinho, no vou machuc-lo. Voc no  mesmo uma gracinha, to bonitinho? - E continuou a murmurar palavras carinhosas para ele, at que o pequeno 
co veio se chegando, farejou a mo dela e ento rolou de lado, deitando-se de barriga para cima em xtase enquanto ela lhe fazia cosquinhas.
      - Pelo que conhece desse cachorro, pode ser que ele tenha pulgas e raiva.
      Anna levantou o olhar e viu Cam na porta da frente.
      - Pelo que conheo do senhor, posso pensar o mesmo.
      Com uma gargalhada gostosa e as mos enfiadas nos bolsos da cala, ele saiu para a varanda. A roupa dela naquele dia era um terno marrom. Ele no fazia a menor 
idia do motivo de ela escolher cores to sem vida para usar.
      - Imagino que voc esteja disposta a correr riscos, j que voltou. No a esperava de volta to depressa.
      - O bem-estar de um menino est em jogo, Sr. Quinn. No acho que deva levar mais tempo do que o necessrio diante das circunstncias.
      Obviamente encantado por sua voz, o cozinho pulou e lambeu o rosto de Anna. Uma risadinha aguda lhe escapou antes que ela conseguisse evitar, com um som que 
fez Cam levantar as sobrancelhas, e tentando se defender das lambidas do co ela se levantou. Ajeitou o palet, puxando-o para baixo com fora, tentando retomar 
a dignidade.
      - Posso entrar?
      - Por que no? - Dessa vez ele esperou por ela e at lhe abriu a porta com delicadeza, convidando-a a entrar antes dele.
      Ela viu uma sala de estar bem grande e razoavelmente arrumada. A moblia dava mostras de ter sido muito usada, mas parecia confortvel e era bem colorida. 
Um piano antigo parecido com um cravo em um dos cantos da sala chamou a sua ateno.
      - O senhor toca?
      - Na verdade, no. - Sem perceber, Cam passou a mo sobre a madeira. Nem reparou que seus dedos deixaram marcas sobre a superfcie empoeirada. - Minha me 
tocava, e Phillip tambm toca um pouco, de ouvido.
      - Procurei por ele em seu escritrio hoje de manh.
      - Ele saiu para fazer compras no supermercado. - Satisfeito por ter ganho aquela batalha, Cam sorriu de leve. - Ele vai morar aqui... no futuro prximo. Ethan 
tambm.
      - O senhor trabalha rpido...
      - O bem -estar de um menino est em jogo - disse ele, ecoando as palavras dela.
      Anna concordou com a cabea. Ao ouvir o ribombar distante de um trovo, olhou para fora e franziu a testa. A luz do dia estava mudando, tornando-o mais escuro, 
e o vento comeava a soprar.
      - Gostaria de discutir o caso de Seth com o senhor - disse, e trocou a pasta de mo, olhando para uma cadeira.
      - Isso vai levar muito tempo?
      - No sei, talvez.
      - Ento vamos conversar na cozinha. Quero um pouco de caf.
      
      - Tudo bem.
      Ela o seguiu, aproveitando a ocasio para estudar melhor a casa. O ambiente estava arrumado o suficiente para faz-la imaginar que Cam na verdade estava esperando 
por ela. Ento, passaram por um escritrio onde a sujeira estava toda espalhada em cima das mesas, o sof coberto de jornais abertos e o cho cheio de sapatos.
      Voc se esqueceu de arrumar esse cmodo aqui, no foi?, pensou ela ao passar, com um sorriso esperto. Mesmo assim, achou o fato comovente.
      Ento ouviu as pragas terrveis e os xingamentos que ele comeou a soltar e que quase a fizeram pular fora de seus sapatinhos de salto baixo.
      - Que droga! Merda! Que porra  essa? O que falta me acontecer agora? Caramba! - Ele j estava caminhando atravs da cozinha completamente encharcada, cheia 
de bolhas de espuma que cobriam tudo, e deu um soco na mquina de lavar pratos.
      Anna deu um passo para trs, a fim de evitar pisar o piso alagado.
      - Se eu fosse o senhor, desligava a mquina.
      - Ah, ... sim, sim... agora vou ter que desmontar essa droga de lavadora - disse, e abriu a porta da mquina. Um mar de espuma branca como neve foi expelido 
na mesma hora.
      Anna mordeu a bochecha, pigarreou e, por fim, perguntou:
      - Ahn... que tipo de sabo o senhor usou?
      - Detergente! - Com o corpo vibrando de frustrao, Cam pegou um balde que estava guardado debaixo da pia.
      - Detergente comum ou sabo para lava-louas?
      - E qual  a diferena?! - Furioso, comeou a encher o balde com espuma. Do lado de fora da casa, a chuva comeou a cair como se atirasse lanas de forma violenta.
      - Esta aqui... - Mantendo o rosto admiravelmente srio, ela apontou para o rio que continuava a escorrer por toda a cozinha. - Esta  a diferena! Quando a 
gente usa detergente de pia em lava-louas, este  o resultado inevitvel.
      Ele se levantou, ficou parado com o corpo reto, o balde ainda na mo e um olhar de irritao to grande que dava pena, e ela no conseguiu segurar o riso.
      - Desculpe, desculpe... escute, vire-se para o outro lado.
      - Por qu?
      - _Porque eu no estou a fim de estragar meus sapatos nem as minhas meias. Portanto, vire-se para o outro lado enquanto eu os tiro para lhe dar uma mozinha.
      - T legal... - Pateticamente grato, ele se virou de costas para ela e tentou fazer o possvel para no imagin-la despindo as meias bem atrs dele. No foi 
bem-sucedido nisso, mas o esforo  o que contava.
      _Ethan era quem cuidava da maior parte das tarefas de cozinha
      quando a gente era mais novo. Eu fazia a minha parte, mas acho que nunca peguei muito bem o jeito.
      - O senhor parece algum fora do seu ambiente. - Enfiando as meias com cuidado dentro dos sapatos, ela os colocou de lado. - Pegue um esfrego, por favor. 
Eu limpo tudo enquanto o senhor prepara o caf.
      Abrindo uma porta alta e estreita, ele pegou um esfrego de cabo longo e o entregou a ela, dizendo:
      - Obrigado.
      Aquelas pernas, reparou Cam enquanto ela limpava todo o piso, no precisavam de meias. Eram um pouco plidas, mas tinham um fascinante tom de dourado e pareciam 
lisas como seda. Quando ela se inclinou, ele passou a lngua sobre os dentes. No fazia idia de que uma mulher passando um esfrego no cho pudesse ser assim to... 
atraente.
      Era to surpreendentemente agradvel, refletiu ele, estar ali, com a chuva tamborilando no telhado, o vento rugindo l fora e uma mulher bonita e descala 
lhe fazendo companhia na cozinha.
      - A senhorita parece estar em seu ambiente - comentou ele, e ento sorriu quando ela virou a cabea e olhou para ele com cara de dio. - No que eu esteja 
insinuando que isso  trabalho de mulher. Minha me ia me arrancar a pele se achasse que eu nem estava sequer pensando nisso. Estou apenas dizendo que a senhorita 
parece saber o que est fazendo.
      Como ela trabalhara durante todo o perodo da faculdade fazendo faxina na casa das pessoas, realmente sabia muito bem, e confirmou: - Sei lidar com um esfrego, 
Sr. Quinn.
      - J que est esfregando o cho de minha cozinha, deveria me chamar de Cam.
      - A respeito de Seth...
      - Sim, a respeito de Seth. Importa-se se eu me sentar?
      - No, v em frente. - Ela quase se pegou cantarolando. A tarefa descontrada, a chuva e a sensao de isolamento eram ligeiramente relaxantes. - Certamente 
o senhor j sabe que eu conversei com ele ontem.
      - Sei, e sei tambm que ele lhe falou que queria ficar aqui.
      - Falou, e eu coloquei isso no relatrio. Conversei tambm com os professores dele. O quanto o senhor sabe a respeito dos deveres de casa de Seth?
      Cam se mexeu na cadeira, desconfortvel.
      - Bem, ainda no tive muito tempo para acompanhar isso.
      - Hum-hum... Quando ele se matriculou na escola, teve alguns problemas com os outros alunos. Houve algumas brigas. Ele quebrou o nariz de um dos colegas.
      Que bom para ele, pensou Cam, com uma surpreendente fisgada de orgulho, mas fez o possvel para exibir uma cara de desaprovao.
      - Quem comeou a briga? - perguntou ele.
      - Isso no vem ao caso. De qualquer modo, o seu pai foi at l e resolveu o problema. A partir desse momento, segundo me informaram, Seth passou a se manter 
mais isolado. No participa das tarefas em sala, o que  outro problema. Quase nunca leva os deveres de casa feitos, e os poucos que se d ao trabalho de fazer so 
muito malfeitos.
      Cam comeou a sentir uma dor de cabea se insinuando de leve.
      - Quer dizer ento que o garoto no  muito inteligente...
      - Pelo contrrio! - Anna se esticou toda e se apoiou no esfrego. - Se ele participasse mais das aulas, mesmo que no muito, e se seus trabalhos e pesquisas 
fossem feitos e entregues a tempo, ele seria um estudante nota dez, com conceito A em todas as matrias. Apesar do jeito que leva a escola, j consegue conceito 
B em tudo...
      - Ento, qual  o problema?
      Anna fechou os olhos por um momento.
      - O problema  que os testes de QI e todos os outros testes de avaliao de Seth so incrivelmente altos. Ele  uma criana brilhante!
      Embora tivesse dvidas a respeito daquilo, Cam balanou a cabea, dizendo:
      - Ento isso  uma coisa boa. Ele est obtendo boas notas e se mantendo longe de problemas.
      - Certo. - Anna resolveu tentar uma abordagem diferente: - Imagine que o senhor estivesse em uma corrida de Frmula Um...
      - J estive em uma - falou ele, com um olhar sonhador. - J fiz isso.
      - Muito bem, e ento o senhor estava com o carro mais bem ajustado, o mais rpido, o melhor da pista.
      - ... - suspirou. - Eu estava mesmo.
      - Pois bem, e mesmo assim imagine que jamais levou o carro  sua capacidade total, nunca forou a barra nas curvas ou emendou uma quinta nas retas, aproveitando 
as vantagens do traado da pista.
      Cam levantou uma sobrancelha.
      - A senhorita acompanha corridas de automveis?
      - No, mas dirijo um carro.
      - Um carro muito bom por sinal. At que velocidade j foi com ele?
      Cento e quarenta quilmetros por hora, pensou ela, com um jbilo secreto, mas jamais poderia admitir aquilo.
      - Eu considero o carro apenas um meio de transporte, Sr. Quinn - disse, mentindo de forma descarada -, e no um brinquedo...
      - No h motivos para ele no ser as duas coisas. Por que no me deixa lev-la para dar uma volta no Corvette? Aquilo  que  uma grande forma de transporte 
e de lazer.
      Embora ela adorasse a oportunidade de se deixar levar pela fantasia de se ver atrs do volante daquele projtil branco e veloz, precisava terminar o raciocnio, 
e falou:
      - Olhe, procure se concentrar na analogia que estou fazendo. O senhor est pilotando uma mquina superior... se no dirigir o carro da forma como ele foi feito 
para ser dirigido, estar desperdiando o seu Potencial, e talvez at consiga algum dinheiro com ele, mas no seria o vencedor do campeonato.
      Ele entendeu o que ela estava querendo dizer, mas no pde evitar o sorriso e afirmar:
      - Eu geralmente vencia as corridas.
      - Seth! - Anna balanou a cabea, com uma pacincia admirvel. - Estamos falando de Seth! Ele se sente socialmente tolhido e desafia a autoridade das pessoas 
o tempo todo. Vive levando suspenses na escola. Precisa de uma superviso aqui em casa, bem de perto, quando se trata dessa rea de sua vida. O senhor vai ter que 
assumir um papel ativo no acompanhamento de seus deveres de casa e no seu comportamento.
      - Pois a mim parece que se o garoto consegue conceito B em tudo devia ser deixado em paz - disse, e levantou a mo para impedi-la de falar. - Potencial, eu 
sei! Eu tive o meu potencial exercitado o tempo todo na cabea, pelo melhor dos professores. Ns trs vamos trabalhar nisso...
      - timo! - E continuou a passar o esfrego. - Recebi um comunicado do seu advogado com relao ao pedido de guarda do menino.  quase certo que vocs conseguiro 
a guarda legal que esto requerendo, pelo menos temporariamente. Mas podem se preparar para visitas regulares e acompanhamento do Servio Social do governo.
      - Isso significa inspees feitas pela senhorita...
      - Sim, significa.
      Cam fez uma pausa por um momento, e ento perguntou:
      - E voc tambm sabe lavar janelas?
      Ela no se conteve e caiu na gargalhada enquanto despejava gua cheia de espuma na pia.
      - Tambm andei conversando com alguns dos seus vizinhos, e vou conversar com outros. - Ela se virou. - A partir desse momento, sua vida vai ser um livro aberto 
para mim.
      Cam se levantou, pegou o esfrego da mo de Anna e, s para se divertir com aquilo, ficou parado em p bem junto dela, mais do que seria socialmente adequado, 
enquanto falava:
      - Gostaria de saber do momento em que voc chegar a um captulo do livro que a interesse em nvel pessoal.
      O corao dela martelou-lhe as costelas. Aquele era um homem perigoso, pensou, em nvel pessoal.
      - Sr. Quinn, no tenho muito tempo para ler fico.
      E comeou a dar um passo para trs, mas ele a tomou pela mo.
      - Gosto de voc, Srta. Spinelli. Ainda no descobri por qu, mas gosto.
      - Ento nosso contato vai ficar bem mais fcil.
      - Errado! - disse, esfregando o polegar sobre as costas da mo dela. - Vai ficar muito mais complicado. Mas eu no me importo de enfrentar complicaes. Alm 
do mais, j estava na hora de a minha sorte voltar a dar o ar de sua graa. Voc gosta de comida italiana?
      - Tendo um sobrenome como Spinelli?
      - Certo. - Ele riu. - Bem que eu ia curtir uma refeio calma, em um restaurante decente, acompanhado por uma linda mulher. Que tal hoje  noite?
      - No vejo nenhum motivo para o senhor no curtir a sua refeio calma, em um restaurante decente, acompanhado por uma linda mulher esta noite - disse ela 
e, deliberadamente, puxou a mo que estava sob a dele. - Porm, se o senhor est me convidando para sair, a resposta  no. Primeiro, porque no seria adequado; 
segundo, porque j tenho outro compromisso.
      - Mas que droga, Cam, no me ouviu buzinando que nem um louco?
      Anna se virou e viu um homem encharcado, com a cara extremamente zangada, carregando duas sacolas de supermercado transbordando de compras entrar pela porta. 
Era alto, muito bronzeado, quase lindo... e parecia soltar fumaa pelas orelhas de tanta raiva.
      Phillip balanou os cabelos para tir-los da frente dos olhos e os focou em Anna. A troca de expresso em seu rosto foi rpida e sutil. Mudou de rabugento 
para charmoso em menos de um segundo.
      - Ol! Desculpem... - Largando as compras sobre a mesa, sorriu para ela. - No sabia que Cam estava com algum aqui em casa. - Observou o balde, o esfrego 
que ainda estava entre eles e imediatamente chegou  concluso errada. - Nem sabia que ele ia contratar uma empregada. At que enfim, graas a Deus! - Phillip pegou 
na mo de Anna e a beijou. - J estou adorando voc ter vindo...
      - Este  o meu irmo Phillip - apresentou Cam, secamente. - Esta  a Srta. Anna Spinelli, assistente social do governo. Agora voc j pode tirar esse sorriso 
de grife da sua cara, Phil.
      O charme no desapareceu nem se modificou.
      - Srta. Spinelli,  um prazer conhec-la. Acredito que o nosso advogado j entrou em contato com a senhorita.
      - Sim, j sim. O Sr. Quinn me disse que o senhor vai se mudar para c por algum tempo.
      - J lhe pedi para me chamar de Cam. - E foi at o fogo para tornar a encher a caneca de caf. - As coisas vo comear a ficar meio confusas por aqui se voc 
ficar chamando todos ns de Sr. Quinn. - Cam ouviu a porta dos fundos batendo e pegou mais uma caneca. - Especialmente agora - completou no instante em que a porta 
se escancarava de repente, dando passagem a um imenso co todo encharcado acompanhado por um homem.
      - Puxa, essa porra de chuva caiu de repente! - Enquanto Ethan tirava a capa de chuva, o co se firmou nas quatro patas e se sacudiu violentamente. Anna simplesmente 
recuou um pouco ao ver os respingos que atingiram sua roupa. - Mal deu para sentir o cheiro do tor chegando antes de...
      Ao avistar Anna, ele automaticamente tirou o bon ensopado da cabea e passou a mo pelos cabelos midos e encaracolados. Vendo a mulher, o balde e o esfrego, 
sentiu-se culpado pelas botas enlameadas.
      - Boa-tarde, senhora...
      - Meu irmo Ethan. - Cam entregou a Ethan uma fumegante caneca de caf. - Esta  a assistente social que o seu co acabou de cobrir de gua e plos.
      - Desculpe. Simon, sente-se!
      - Est tudo bem - continuou Cam. - Bobalho j havia babado o rosto da visita todo mesmo, e Phillip j estava comeando a jogar um charme pra cima dela.
      Anna sorriu de forma suave, comentando:
      - Eu achei que fosse o senhor que estivesse jogando um charme pra cima de mim.
      - Eu a convidei para jantar - corrigiu Cam. - Se estivesse a fim da senhorita, no teria sido to sutil - disse, e bebeu um pouco do caf. - Bem, agora voc 
j conhece todos os personagens.
      Ela se sentiu em desvantagem e pouco profissional ali em p na cozinha fracamente iluminada, descala, olhando para trs homens fortes e escandalosamente bonitos. 
Como defesa, tentou recolher todas as migalhas de dignidade que lhe restaram e pegou uma cadeira.
      - Cavalheiros, podemos nos sentar? Este parece ser o momento ideal para discutirmos a respeito de seus planos para cuidar de Seth. - Ela colocou a cabea meio 
de lado ao olhar para Cam. - Pelo menos no futuro prximo.
      - Bem - comentou Phillip uma hora depois -, acho que nessa etapa a gente se deu bem.
      Cam estava na porta da frente, observando o lindo carro esporte ir desaparecendo na estrada em meio a uma garoa.
      - Ela tem a nossa ficha completa - murmurou. - No  de perder tempo.
      - Gostei dela - admitiu Ethan, esticando-se na espreguiadeira e deixando que o cozinho subisse em seu colo. - Deixe de encucao, Cam - sugeriu ele ao ver 
o irmo dar um riso abafado. - Falando srio, gostei dela.  inteligente e muito profissional, sem ser fria. Parece uma mulher que se importa com os casos que acompanha.
      - E tem umas pernas maravilhosas - acrescentou Phillip. - Apesar de tudo isso, porm, ela vai anotar no livrinho todas as vezes em que a gente pisar na bola. 
No momento, ns temos a faca e o queijo nas mos. Temos o garoto, e ele quer ficar conosco. A me escafedeu-se para sabe Deus onde e no est perturbando a gente, 
pelo menos no momento. O problema  que se a linda Anna Spinelli conversar com muita gente aqui em St. Chris vai acabar sabendo dos boatos.
      Enfiando as mos nos bolsos, comeou a caminhar de um lado para outro, completando:
      - No sei se isso vai contar a favor da gente ou contra.
      - So apenas boatos - disse Ethan.
      - Sim, mas so horrveis. Temos uma boa chance de ficar com Seth por causa da boa reputao de papai. Se essa reputao comear a ficar manchada, vamos ter 
batalhas pelas quais brigar em diversas frentes.
      - Qualquer um que queira manchar a reputao do papai vai enfrentar bem mais do que uma briga.
      - Mas  justamente isso que a gente tem que evitar! - Virou-se Phillip, olhando para Cam. - Se a gente sair por a botando pra quebrar, s vai servir para 
piorar as coisas.
      - Ento voc fica sendo o diplomata - convidou Cam, encolhendo os ombros e se sentando no brao do sof - e eu boto pra quebrar!
      - Pois eu achava melhor a gente lidar com o que est acontecendo, em vez de com o que pode vir a acontecer. - Com ar pensativo, Ethan fez um cafun no cozinho. 
- Andei pensando sobre a situao. Vai ser muito puxado para Phillip morar aqui e ficar indo e voltando todo dia para Baltimore, a fim de trabalhar. Mais cedo ou 
mais tarde, Cam vai ficar de saco cheio de brincar de dona-de-casa.
      - Vai ser antes disso, porque j aconteceu!
      - Estava pensando em contratar Grace para fazer uma parte do trabalho da casa. Talvez vir aqui uns dois ou trs dias por semana.
      - Agora sim! Essa  uma idia com a qual eu concordo em cem por cento - disse Cam e se deixou cair no sof.
      - O problema  que no vai sobrar muita coisa para voc fazer. A idia  que ns trs estejamos aqui em casa, dividindo as responsabilidades de cuidar de Seth. 
 isso o que o advogado diz e  o que a assistente social falou tambm.
      - Eu j confirmei que ia procurar trabalho.
      - E o que pensa em fazer? - perguntou Phillip. - Trabalhar como frentista em um posto de gasolina? Abrir ostras? Voc s ia agentar um lance desses por uns 
dois dias.
      - Garanto que eu agento. - Cam se inclinou para a frente. - E voc, agenta? O mais provvel  que, depois da primeira semana indo e voltando, voc comece 
a ligar de Baltimore dando desculpas para no voltar naquele dia. Por que no fica voc aqui, enchendo tanques no posto ou abrindo ostras s por um tempo?
      A discusso foi inevitvel. Em poucos segundos os dois j estavam se estranhando, quase encostando o nariz um no outro. Foram necessrias vrias tentativas, 
at que a voz de Ethan conseguiu berrar mais alto. Cam recuou e se virou para ele com a testa franzida, perguntando:
      - O que voc disse...?
      - Disse que a gente devia tentar construir barcos.
      - Construir barcos? - Cam balanou a cabea. - Para qu?
      - Para vender, para fazer negcios. - Ethan pegou um charuto no bolso, mas ficou girando-o entre os dedos, em vez de acend-lo. Sua me nunca permitira que 
eles fumassem na sala. - A gente tem visto um monte de turistas vindo para esses lados nos ltimos anos. E ainda mais gente que est comeando a se mudar para c, 
a fim de escapar da cidade grande. Eles gostam de alugar barcos. No ano passado eu constru um barco, no meu tempo livre, para um cara l de Washington. Um pequeno 
esquife de quatorze ps. H alguns meses ele me ligou para ver se eu estaria interessado em construir mais um para ele. Est querendo um barco maior dessa vez, com 
cabine, lugar para dormir e uma pequena cozinha.
      Ethan tornou a enfiar o charuto no bolso e continuou:
      - Estive pensando em aceitar. S que ia levar muitos meses para fazer tudo sozinho no meu tempo livre.
      - Ento voc quer que a gente ajude voc a construir um barco? - Phillip apertou os olhos fechados com os dedos.
      - No apenas um barco. Estou falando de negcios, abrir uma firma para isso.
      - Eu j tenho uma ocupao - murmurou Phillip. - Trabalho com propaganda!
      - E ns vamos precisar de algum que manje dessas coisas se a gente for comear um negcio novo. A construo de barcos  uma atividade tradicional nesta regio, 
mas ningum mais faz isso aqui em St. Chris.
      - E j lhe ocorreu que talvez exista uma boa razo para isso? - perguntou Phillip, sentando-se.
      - J me ocorreu sim. Pensei bastante sobre isso e cheguei  concluso de que  porque ningum quer se arriscar. Estou falando de barcos de madeira... veleiros... 
um trabalho especial e exclusivo. E j conseguimos o primeiro cliente.
      - Puxa, Ethan - Cam esfregou o queixo -, eu no fao esse tipo de trabalho a srio desde que ns construmos o barco de pesca. Isso j faz... nossa, quase 
dez anos!
      - E ele est agentando bem, no est? Isso significa que fizemos um bom trabalho ao constru-lo.  uma espcie de aposta - acrescentou, sabendo que aquela 
simples palavra calava fundo no corao de Cam.
      - J temos a grana para os custos iniciais - murmurou Cam, comeando a se animar com a idia.
      
      - Como  que voc sabe? - interveio Phillip. - No faz a mnima idia de quanto vamos precisar para o custo inicial.
      - Pois ento calcule! - Era como jogar dados, pensou Cam. No havia nada de que ele gostasse mais. - Deus  testemunha de que eu prefiro estar manejando um 
martelo  porcaria de um aspirador de p. Estou nessa!
      - Simples assim? - Phillip levantou as mos. - Sem nem pensar nos custos indiretos, perdas e ganhos, licenas, impostos, seguros? Onde  que a gente vai comercializar 
os barcos? Como  que vamos coloc-los no mercado?
      - Esse problema no  meu - respondeu Cam com um sorriso. - Essa  a sua rea...
      - Mas eu j tenho um emprego! Em Baltimore!
      - E eu tinha uma vida toda montada - disse Cam com a voz calma. - Na Europa!
      Phillip comeou a andar de um lado para outro, sem parar. Estava preso em uma armadilha, era s o que conseguia pensar.
      - Bem... - disse por fim. - Vou fazer o que puder para comear a fazer a coisa funcionar. Pode ser que tudo isso acabe se transformando em um erro gigantesco, 
e vai nos custar um bocado de dinheiro. E  melhor vocs dois considerarem o fato de que a assistente social no vai ver com bons olhos a gente estar dando incio 
a um negcio arriscado a essa altura do campeonato. Eu no vou abrir mo do meu emprego. Pelo menos ele  uma fonte de renda certa.
      - Vou conversar com a Srta. Spinelli a respeito de tudo isso - decidiu Cam, por impulso - para ver como  que ela reage. E voc pode ver com Grace se ela pode 
nos dar uma mozinha na casa? - perguntou a Ethan.
      - Posso. Vou at o bar e levo um papo com ela.
      - timo! Com isso, sobrou a funo de lidar com Seth hoje  noite - sorriu suavemente para Phillip - para for-lo a fazer os deveres de casa.
      - Ai, meu Deus!
      - Agora que j est tudo combinado - recostou-se Cam -, quem vai preparar o jantar?


  Captulo Seis
  
      Tentar localizar Anna Spinelli era uma desculpa perfeita para escapar do caos ps-jantar em casa. Significava, na prtica, que os pratos iam ser problema de 
outra pessoa, e ele no ia ser sugado pela briga causada pelos deveres de casa que acabara de ter incio entre Phillip e Seth, a qual j estava esquentando.
      Na verdade, no que dizia respeito a Cam, dirigir no meio da chuva em uma noite escura at outra cidade, no caso Princess Anne, era divertimento puro, embora, 
pensando bem, fosse algo pattico para um homem que se acostumara a ir de Paris para Roma de avio.
      Tentou no pensar nisso.
      Ele conseguira que o seu barco de corrida fosse guardado em um local apropriado e que as suas roupas fossem embaladas e enviadas. Ainda tinha que resolver 
o problema do carro, que ele pensou em trazer para os Estados Unidos tambm. Isso, porm, seria um compromisso de permanncia ali. Entre o tempo que passara consertando 
degraus quebrados e lavando roupa, conseguira se distrair regulando e aprimorando o motor do supervalorizado Corvette de sua me. 
      Dirigir aquele carro lhe proporcionava muito prazer, tanto que ele aceitou a multa por excesso de velocidade que recebeu bem na entrada de Princess Anne sem 
reclamar.
      A cidade j no era a grande colmia ativa que fora durante os sculos 18 e 19, poca em que o tabaco reinara nos mercados e fortunas foram feitas na regio. 
No entanto, ainda era bem bonita, avaliou Cam, com as casas antigas restauradas e preservadas, alm de as ruas serem limpas e calmas. Agora que o turismo estava 
comeando a se transformar na nova riqueza daquela parte da costa, o charme e a graa das cidades histricas traziam um imenso crescimento para a economia local.
      O apartamento de Anna ficava a menos de um quilmetro das salas onde funcionava o Departamento de Servio Social do governo. Ficava a uma caminhada de distncia 
do trabalho e do frum. As lojas prximas eram variadas e convenientes. Cam ficou imaginando se Anna escolhera para morar uma velha casa em estilo vitoriano adaptada 
para abrigar vrios apartamentos por todos aqueles motivos ou tambm pela atmosfera que evocava.
      A construo ficava encravada entre imensas rvores, com os galhos j exibindo folhas novas. O piso da entrada que levava  porta estava rachado, mas era flanqueado 
por narcisos prontos para florescerem e cobrir a entrada de um amarelo vivo. Pequenos degraus levavam a uma varanda coberta. A placa ao lado do portal informava 
que a casa era tombada pelo patrimnio histrico.
      A porta da frente estava destrancada e Cam entrou em um pequeno vestbulo. A madeira do piso tambm estava bem gasta ali, mas algum se dera ao trabalho de 
polir a madeira, embora o brilho apresentasse pontos foscos. As caixas de correspondncia instaladas na parede eram de lato, tambm polido, e indicavam que a casa 
fora convertida em quatro apartamentos. Anna Spinelli ocupava o 2-B.
      Cam subiu com determinao os degraus que o conduziram ao segundo andar entre rangidos e estalos. O corredor era estreito e a iluminao, fraca. O nico som 
que ouviu foi um eco abafado do que lhe pareceu um seriado cmico que vinha da tev do 2-A
      Bateu na porta de Anna e aguardou. Ento, tornou a bater, enfiou as mos nos bolsos e franziu a testa. Esperava encontr-la em casa.
      
      Nem pensara em outra possibilidade. J eram quase nove horas da noite, de um dia de semana, e ela era uma funcionria pblica.
      Devia estar acomodada, bem quietinha em sua casa, lendo um livro ou preenchendo formulrios e relatrios. Era assim que mulheres prticas e dedicadas  prpria 
carreira passavam as noites, embora ele tivesse a esperana de mostrar a ela outras formas mais divertidas para passar o tempo.
      Provavelmente fora a alguma reunio em um clube feminino, decidiu, j aborrecido com ela. Procurou nos bolsos de sua jaqueta de aviador para ver se encontrava 
um pedao de papel onde pudesse escrever um recado, e j estava prestes a incomodar o morador do 2-A para pedir uma caneta e um papel emprestados quando ouviu o 
clique-clique rtmico que um homem experiente reconhecia de imediato como sapatos de salto alto pisando em madeira.
      Olhou para a ponta do corredor, satisfeito por sua sorte ter mudado.
      Mal notou que o seu queixo caiu.
      A mulher que vinha caminhando na direo dele estava vestida dentro dos mais delirantes padres das fantasias masculinas. E era altrusta o bastante para exibir 
um corpo de arrasar espremido em um vestido azul forte com decote generoso e bem curtinho, que no escondia quase nada, mas deixava muita coisa por conta da imaginao 
de um homem.
      O clique-clique na madeira era uma cortesia dos saltos em estilo agulha dos sapatos na mesma cor forte do vestido, que transformavam as longas pernas em um 
foco de satisfao infinita.
      Seus cabelos, midos da chuva, caam-lhe em cachos revoltos sobre os ombros, formando uma juba grossa de bano que imediatamente lhe trouxe  mente imagens 
de ciganas e sexo junto a uma fogueira. Seus lbios eram vermelhos e midos, seus olhos imensos e escuros. Seu perfume chegou dez segundos antes, golpeando-o com 
a fora de um soco de tirar o flego entre as virilhas.
      Ela no disse nada, simplesmente apertou os olhos surpreendentes, apoiou o corpo em um dos gloriosos quadris e esperou.
      - Bem... - Ele teve que fazer um esforo para conseguir retomar a respirao. - Aposto que voc nunca ouviu aquela expresso sobre manter ocultos os prprios 
talentos.
      - J ouvi sim! - Ela estava furiosa por encontr-lo na porta de sua casa, furiosa por estar sem a sua armadura profissional e mais furiosa ainda por ele ter 
estado dentro de sua cabea a noite inteira, por muito mais tempo do que o rapaz com o qual safra. - O que deseja, Sr. Quinn?
      Nesse momento ele sorriu abertamente, rpido e certeiro como um lobo que exibe os dentes.
      - Essa  uma pergunta capciosa, se considerarmos as circunstncias, Srta. Spinelli.
      - No seja vulgar, Quinn. Voc conseguiu evitar isso at agora.
      - Juro que no estou com um pensamento vulgar sequer na cabea. - Sem conseguir resistir, esticou o brao e brincou com as pontas do cabelo dela. - Por onde 
andou, Anna?
      - Escute aqui, j passa muito do meu horrio de expediente, e a minha vida pessoal no lhe diz... - e parou de falar na mesma hora, tentando no praguejar 
nem gemer de irritao ao ver a porta em frente se abrir.
      - Ora, j voltou do seu encontro, Anna?
      - J, Sra. Hardelman.
      A mulher de uns setenta anos estava toda enrolada por um roupo de chenile cor-de-rosa e observava tudo por cima dos culos espetados na ponta do nariz. Uma 
exploso de gargalhadas e aplausos veio flutuando da tev para o corredor. A vizinha sorriu para Cam, iluminando o rosto simptico enquanto comentava:
      - Ora, esse a  muito mais bonito do que aquele seu ltimo namorado.
      - Obrigado. - Cam deu um passo na direo da senhora e sorriu de volta, querendo saber: - Ela tem muitos namorados?
      - Ah, eles vm e vo... - A Sra. Hardelman deu uma risadinha e afofou com a mo os cabelos brancos. - Ela nunca fica muito tempo com eles.
      Cam se encostou no portal com jeito cmplice, adorando os sons de frustrao que Anna fazia por trs dele, e falou:
      - Sra. Hardelman, eu aposto que  porque ela ainda no encontrou um que valha a pena manter, porque muito bonita, com certeza, - E uma moa to boa... Traz 
coisas do supermercado para ns, quando eu e minha irm no estamos com disposio para ir at l. Sempre se oferece para nos levar at a igreja de carro, aos domingos. 
E quando o meu pobre Petie faleceu, ela mesma o enterrou e cuidou de tudo.
      A Sra. Hardelman olhou para Anna com tanta afeio e doura que ela s conseguiu dar um suspiro, avisando:
      - A senhora est perdendo o seu programa, Sra. Hardelman.
      - Ah, . - Olhou para o interior do apartamento, onde a tev continuava a todo o volume. - Adoro esses seriados cmicos. Podem ficar  vontade... - disse a 
Cam, e fechou a porta com delicadeza.
      Como Anna sabia perfeitamente que a sua vizinha no ia resistir  tentao de ficar espiando pelo olho mgico, na esperana de presenciar um romntico beijo 
de despedida, comeou a procurar as chaves.
      -  melhor entrar de uma vez, j que veio at aqui.
      - Obrigado. - Ele atravessou o corredor, esperando enquanto ela destrancava a porta. - Quer dizer que voc enterrou o marido da sua vizinha?
      - No, foi o periquito dela - explicou Anna. - Petie era um passarinho. Ela e a irm j so vivas h uns vinte anos. E tudo o que eu fiz foi arrumar uma caixa 
de sapato e fazer um buraco na terra l atrs, perto de uma roseira.
      Cam passou a mo sobre os cabelos dela novamente enquanto ela abria a porta, comentando:
      - Significou muito para ela.
      - Cuidado com a mozinha, Quinn! - avisou ela, acendendo as luzes.
      Para indicar que estava sendo cordato, Cam afastou a mo e a enfiou no bolso da cala enquanto avaliava a sala. Sof com almofadas macias, fofas e em cores 
fortes. Decidiu que tais escolhas significavam que Anna tinha um lado sensual bem pronunciado.
      Agradou-o chegar a essa concluso.
      A sala era espaosa e pouco mobiliada. O sof era grande e acolhe-dor o bastante para se dormir nele, mas havia para acompanh-lo apenas uma poltrona larga 
e alta, alm de duas mesinhas.
      No entanto, ela cobrira todas as paredes com arte. Quadros, psteres, esboos a bico-de-pena. Todos mostravam lugares, em vez de pessoas, e muitas das paisagens 
ele reconheceu. As ruas estreitas de Roma, os atordoantes penhascos da Costa Oeste da Irlanda, os aconchegantes cafs cheios de classe de Paris.
      - J estive aqui! - comentou ele, dando um tapinha na gravura do caf parisiense.
      - Que bom para voc - reagiu ela, seca, tentando no se ressentir pelo fato de que as figuras eram a nica forma que tinha de viajar. Por enquanto. - Muito 
bem... o que veio fazer aqui?
      -  que eu queria conversar com voc sobre... - E cometeu o erro de se virar e tornar a olhar para ela com ateno. Anna parecia muito aborrecida, mas isso 
s servia para lhe acrescentar charme e sensualidade. Seus olhos e sua boca eram grandes e ela cruzara os braos em posio de desafio. - Nossa, voc  uma beleza 
de se olhar, Anna! Eu j me sentia atrado por voc antes, acho que deu para perceber, mas agora... quem diria?
      Ela no queria se sentir bajulada. Certamente tambm no queria que o corao disparasse e perdesse o ritmo. Mas era difcil controlar essas reaes quando 
um homem como Cameron Quinn estava ali, parado em p diante dela, lanando-lhe olhares de um jeito de quem parecia ter vontade de mordiscar cada pedacinho do seu 
corpo e continuar desfrutando-a lentamente, at t-la devorado por inteiro.
      Respirando fundo, ela perguntou:
      - Queria conversar comigo sobre...? - Ela incentivou-o a continuar.
      - Sobre o garoto, sobre outras coisas. Que tal um caf? Isso  bem civilizado, certo? - Decidiu testar a ambos caminhando at onde ela estava. - Percebi que 
voc espera que eu me comporte de forma civilizada. Estou disposto a tentar.
      Ela considerou suas palavras por alguns instantes, e ento deu uma volta quase completa sobre os sapatos de salto alto azuis e sensuais. Cam apreciou a vista 
da parte de trs do seu corpo e levantou os olhos para o cu, antes de segui-la at o balco limpssimo que separava a sala de estar da cozinha. Encostou-se ali, 
satisfeito pelo fato de que a localizao lhe oferecia uma perfeita viso de suas pernas.
      De repente, ouviu o rudo de um moedor eltrico e sentiu o surpreendente aroma de caf fresco.
      - Voc mi os gros de caf na hora?
      - J que a gente vai tomar caf,  melhor preparar um bom caf.
      - ... - Fechou os olhos para poder curtir melhor o aroma. - 
       mesmo... vamos ter que nos casar para que voc me prepare um caf como esse todo dia ou podemos simplesmente morar juntos?
      Ela olhou para ele por cima do ombro, levantou uma sobrancelha diante do sorriso largo e vitorioso que notou em seus lbios, e ento voltou ao que fazia.
      - Aposto que j usou esse olhar antes para dar um corte em algum homem e com enorme sucesso. Por mim, eu gosto. E ento, onde esteve esta noite?
      - Tive um encontro.
      Ele se foi para o outro lado do balco. A cozinha era pequena, pouco mais que um corredor estreito. Ele gostava de estar to perto dela que seu perfume misturava-se 
com o cheiro do caf.
      - Ento voltou para casa cedo - comentou ele.
      - Essa era a idia. - Ela sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem. Ele estava perto demais. Por instinto, usou o mtodo usual para afastar homens que colavam 
nela. Deu-lhe uma cotovelada na barriga.
      - Quanta prtica - murmurou ele, massageando o estmago e recuando um pouco. - Voc j teve que usar esse golpe quando est fantasiada de assistente social?
      - Raras vezes. Como quer o seu caf?
      - Bem forte.
      Ela o colocou para coar, virou-se e bateu de frente com Cam. Seu radar, decidiu, enquanto as mos dele a ampararam pelos braos, estava realmente desligado. 
Ou, foi forada a admitir, ela no o ligara porque queria saber como  que eles iam se encaixar.
      Bem, agora j sabia.
      Cam, de forma proposital, manteve os olhos em seu rosto, e no os deixou baixar at a pequena cruz de ouro que se aninhava entre seus seios. No era particularmente 
devoto, mas ficou com medo de ir para o inferno por ter pensamentos lascivos sobre a localizao de um smbolo religioso.
      Alm disso, gostava do rosto dela.
      
      - Quinn - disse ela com um suspiro longo e irritado. - Chegue pra l!
      - Voc desistiu de me chamar de senhor Quinn. Isso quer dizer que j somos amigos?
      Por ele dizer isso rindo e por ter se afastado, ela se viu soltando uma risada e dizendo:
      - O jri ainda est em deliberaes...
      - Gosto do seu perfume, Anna. Sensual, provocante. Desafiador.  claro que gosto do perfume da Srta. Spinelli tambm. Suave, prtico e sutil.
      - Ento est bem... Cam. - Ela se virou para pegar duas xcaras no armrio. - Vamos deixar de danar um em volta do outro e aceitar o fato de que sentimos 
atrao um pelo outro.
      - Mas eu tinha a esperana de que depois de reconhecer essa atrao  que a gente ia comear a danar...
      - Pois teve a esperana errada. - Jogando os cabelos para trs, serviu o caf. - Eu sou a responsvel pelo caso de Seth. Vocs esto requerendo a guarda legal 
dele. Seria incrivelmente inadequado para qualquer um de ns dois comear a agir baseado em atrao fsica.
      Ele pegou a xcara e se recostou de volta no balco, replicando:
      - No sei quanto a voc, mas eu adoro fazer coisas inadequadas. Especialmente se for uma coisa gostosa. - Levou a xcara aos lbios e sorriu lentamente. - 
E aposto que agir de acordo com essa atrao fsica ia ser gostoso demais!
      -  uma sorte que eu seja mais sbia, ento... - Com um sorriso que espelhava o dele, ela se recostou no balco em frente, do outro lado da cozinha. - E agora, 
parece que voc queria conversar a respeito de Seth... e de outras coisas, como eu acho que voc afirmou.
      Seth, os outros irmos e a situao haviam desaparecido completamente da sua cabea. Ele descobriu que usara aquilo apenas como pretexto para v-la. Isso era 
algo sobre o que ele ia ter que refletir mais tarde.
      - Tenho que admitir que vir at Princess Anne hoje para conversar com voc foi um timo motivo para fugir. Estava prestes a enfiar a mo na pia para lavar 
a loua... Phil e o garoto j estavam no primeiro round da luta de boxe diria que  o dever de casa.
      - Fico contente em ver que algum o est ajudando nos deveres de casa. E quanto a voc, por que jamais se refere a Seth usando o nome dele?
      - Uso sim, claro que uso.
      - No, pelo menos no normalmente. - Colocou a cabea de lado. -  um hbito seu, Cameron, evitar o envolvimento pessoal de usar nomes para se comunicar com 
pessoas com as quais no pretende manter um relacionamento importante ou permanente?
      Ponto para ela, ele teve de admitir, mas levantou uma sobrancelha, em defesa.
      - Eu uso o seu nome.
      E a viu piscar, ouviu-a suspirar e balanar a mo, colocando o assunto de lado.
      - E quanto a Seth? - perguntou ela.
      - No se trata dele, diretamente. O caso  que eu acho que estamos comeando a dividir as responsabilidades com ele de forma mais equilibrada. Phil  o melhor 
para acompanhar o garoto... acompanhar Seth - corrigiu ele, com nfase - nas tarefas da escola, porque, por algum motivo, Phil realmente gostava de estudar. Alm 
disso, resolvemos chamar uma pessoa para limpar e lidar com a maior parte dos trabalhos domsticos duas vezes por semana.
      Ela ainda tinha na memria a imagem dele parado em p sobre um monte de poas de gua e espuma, exibindo um olhar de fria no rosto. Ficou com uma imensa vontade 
de sorrir ao lembrar-se daquilo, mas disse apenas:
      - Voc vai se sentir mais feliz.
      - Espero nunca mais ver um saco imundo de aspirador de p na vida. J aconteceu de um deles rasgar em cima de voc? - E estremeceu com fora, fazendo-a rir. 
- Enfim, Ethan teve uma idia genial. Eu estou no desvio mesmo; Phillip precisa de algo para ocup-lo, j que vai ficar aqui, embora pretenda ir e voltar para Baltimore 
por enquanto. Assim, vamos abrir um negcio.
      - Negcio? Que tipo de negcio?
      - Construo de barcos.
      - Vocs vo construir barcos? - Ela abaixou a xcara. - Eu j trabalhei muito nisso, e Ethan tambm. Para falar a verdade, at mesmo Phil, que enveredou por 
essa vida de terno e gravata, j fez isso por algum tempo. Ns trs construmos o barco de pesca que Ethan usa at hoje.
      - Mas isso  muito bom para recreao, para uso pessoal, para ter como hobby. Abrir um negcio, e um negcio arriscado por sinal, no mesmo momento em que vocs 
esto tentando registrar um menor como seu dependente...
      - Ei, ele no vai passar fome! Pelo amor de Deus, Ethan se d muito bem com seu trabalho de pesca na baa, e Phil tem aquele emprego burocrtico em Baltimore. 
Pode ser que eu  que acabe trabalhando demais, mas qual  o problema?
      - Estou apenas comentando que um empreendimento arriscado dessa natureza vai consumir uma grande quantidade de dinheiro e tempo, particularmente durante os 
primeiros meses. A estabilidade...
      - No  tudo! - cortou ele. Aborrecido, pousou o caf e comeou a andar de um lado para outro. - Ser que o garoto no deveria aprender que h mais na vida 
alm de ter que trabalhar de nove s cinco da tarde em um escritrio? Que existem outras escolhas e que as pessoas podem se arriscar? Que bem vai fazer a ele se 
eu ficar enfiado dentro de casa espanando a moblia e detestando cada segundo dessa atividade enlouquecedora? Ethan j conseguiu o primeiro cliente, e se ele mesmo 
trouxe o assunto  baila e lanou a idia  porque j a analisou por todos os ngulos, pode acreditar. Ningum pensa tanto nas coisas, nem de forma to completa 
quanto ele.
      - E j que voc pensou que devia discutir o assunto comigo, estou simplesmente tentando fazer o mesmo. Pesar a situao e analis-la por todos os ngulos.
      - E voc acha que seria melhor se eu sasse por a e arrumasse um emprego legal e estvel, de horrio integral, e trouxesse um contracheque igualmente legal 
e estvel todos os meses para casa? - Parou diante dela. -  esse o tipo de homem que atrai voc? O tipo de cara que bate o ponto s nove da manh, cinco dias por 
semana, e depois a leva para jantar em uma noite chuvosa para finalmente traz-la de volta para casa em uma hora bem razovel, sem nem ao menos tentar convenc-la 
a despir o pouco de pano que tem nesse vestido?
      Ela no respondeu nada por um instante, lembrando a si mesma que no ia adiantar nada os dois perderem a batalha por estarem com raiva.
      - O que me atrai, a roupa que eu uso e a forma como escolho passar as minhas noites no vm ao caso aqui. Como responsvel pelo caso de Seth, estou apenas 
preocupada e querendo me certificar de que o seu lar seja o mais feliz e estvel possvel.
      - E por que o fato de eu construir barcos iria torn-lo infeliz?
      - Meus questionamentos em relao a essa nova idia  que a ateno de vocs poder ser afastada do menino e direcionada para o novo negcio. Um negcio que 
vocs iriam, imagino, achar excitante, desafiador e interessante, pelo menos por algum tempo.
      - Voc simplesmente pensa que eu no consigo ficar no mesmo lugar por muito tempo, no ? - Os olhos dele se estreitaram.
      - Isso ainda falta ser provado. Acho que vocs so capazes de tentar. O que me preocupa  saber que no esto tentando por Seth, esto tentando por causa do 
pai de vocs. Pelo seu pai e por sua me. No acho que isto seja um ponto contra vocs, Cam - explicou ela com mais gentileza na voz -, s que no  um ponto a favor 
de Seth.
      Como, diabos, a gente consegue discutir com uma mulher que quer colocar todos os pingos nos is?, perguntou Cam a si mesmo.
      - Quer dizer, Anna, que voc acha que ele ficaria melhor entre estranhos?
      - No, acho que ele vai ficar melhor se permanecer com voc e seus irmos. - Ela sorriu, feliz por ter conseguido fazer com que ele calasse a boca por um instante. 
- Foi isso o que coloquei no meu relatrio. Essa idia de dar incio a um negcio de construo de barcos  algo novo no qual tenho que pensar, e espero que nenhum 
de vocs se precipite com relao a isso.
      - Voc veleja?
      - No, nunca experimentei isso. Por qu?
      - Eu jamais havia entrado em um barco em toda a minha vida, at Ray Quinn me adotar.
      Por se lembrar de como aqueles olhos dela eram capazes de se aquecer com compaixo, decidiu contar-lhe como havia sido para ele.
      - Eu estava completamente apavorado, mas era muito duro para admitir isso - explicou ele. - Estava em companhia deles havia poucos dias, e jamais imaginei 
que ia acabar ficando. Ele me levou para velejar em um pequeno barco que possua na poca. Disse que o ar ia me fazer bem.
      Tudo o que Cam tinha a fazer era pensar na cena, e as imagens daquela manh lhe voltavam  cabea lmpidas e claras como a luz do sol.
      - Meu pai era um homem corpulento. O Poderoso Quinn. Tinha a compleio de um touro. Eu sabia que aquele barquinho ia acabar emborcando e que eu ia acabar 
me afogando, mas ele tinha um jeito especial de conseguir que a gente fizesse as coisas.
      Amor, pensou Anna. Era amor puro e simples o que havia em sua voz naquele momento. Isso a atraa, foi forada a admitir para si mesma, tanto quanto cada pedacinho 
daquele rosto lindamente rude.
      - Voc sabia nadar?
      - No, mas mesmo assim odiei quando ele me obrigou a usar um colete salva-vidas - comentou. - Achava que aquilo era coisa de marics.
      - Preferia ter se afogado?
      - No, ora, mas precisava faz-lo achar que sim. Enfim, sentei-me na popa, com o estmago embrulhado. Estava usando um daqueles culos escuros que a minha 
me... Stella - corrigiu, pois naquela poca ela ainda era Stella para ele - desencavara de algum lugar, porque meus olhos ainda estavam muito inchados e a luz do 
sol incomodava.
      Ele havia sido surrado, sofrer diversos tipos de agresso e fora negligenciado, lembrou ela quando os Quinn o encontraram. Seu corao se comoveu ao pensar 
no menino franzino do passado.
      - Voc devia estar apavorado!
      - At o fundo da alma, mas teria mordido a lngua antes de admitir isso. Ray deve ter sacado - disse Cam baixinho. - Ele sempre soube o que se passava na minha 
cabea. Estava muito quente, e a umidade do ar estava to alta que a cada vez que eu inspirava parecia que engolia gua. Ele avisou que o ar refrescaria um pouco 
assim que a gente sasse do estreito junto do cais e entrasse no rio, mas eu no acreditei nele. Achei que a gente ia simplesmente ficar ali at fritar os miolos. 
O barco nem sequer tinha motor! Nossa, como ele riu quando eu falei isso... Foi quando me disse que tnhamos algo muito melhor do que um motor.
      Cam se esqueceu por completo do caf. At a finalidade de ele estar contando aquela histria foi sendo levada embora, engolfada pelas lembranas.
      - Seguimos em frente pelo rio abaixo, de modo lento e suave a princpio. A embarcao balanou um pouco quando chegamos  curva, e eu imaginei que o barco 
ia virar. Fim de jogo. Foi quando uma gara saiu do meio das rvores. Eu j a tinha visto antes. Pelo menos achava que era a mesma. Ela voou at ficar bem por cima 
do barco, e ento abriu as asas, como se quisesse aprisionar o ar. Foi quando ns tambm pegamos o vento que soprou, a pequena vela se inflou e comeamos a voar. 
Ray se virou para trs e sorriu para mim. Eu nem reparei que eu mesmo estava sorrindo abertamente de volta, at tornar a abrir as feridas dos lbios. Jamais me sentira 
daquele jeito em toda a minha vida. Nem uma vez...
      Sem pensar, levantou a mo e ajeitou o cabelo dela, prendendo-o atrs da orelha.
      - Nunca me senti assim em toda a minha vida - repetiu.
      - Aquilo mudou voc por dentro. - Ela sabia que momentos comuns como aquele, simples e dramticos, eram capazes de alterar o curso de uma vida para sempre.
      - Sim, comeou a mudar ali. Um barco sobre a gua e pessoas que estavam me oferecendo uma chance. Nada muito mais complicado do que isso. As coisas no precisam 
ser muito complicadas aqui nesse caso tambm. Vamos colocar o garoto para usar o martelo, colocar um pouco de suor e esforo na construo de um barco. Vai ser uma 
operao da famlia Quinn, e isso tambm o inclui.
      O sorriso dela veio rpido, generoso, e, para surpresa de Cam, ela lhe deu uma palmadinha na bochecha.
      - Essa sua ltima frase explica tudo.  uma espcie de jogo. No estou bem certa se este  o momento ou o lugar para isso, mas... deve ser interessante de 
observar.
      -  isso o que voc vai fazer? - Ele se insinuou, aproximando-se mais, at encost-la com as costas no balco. - Ficar me observando?
      - Pretendo no tirar os olhos de voc, em nvel profissional, at me certificar de que voc e seus irmos so capazes de fornecer a Seth uma casa adequada 
e proteo.
      - Parece justo - disse e se aproximou mais alguns centmetros dela, at que seus corpos bem constitudos roaram de leve um no outro. - E quanto ao nvel pessoal?
      Ela fraquejou o bastante para deixar o olhar descer lentamente, no rosto dele, at parar. Sua boca era definitivamente uma tentao. Era perigosa e estava 
muito prxima.
      - Manter o olho em voc em um nvel pessoal no  um sacrifcio.  um erro, talvez, mas no um sacrifcio.
      - Pois eu sempre achei que quando a gente est disposto a cometer um erro... - ele colocou as duas mos no balco, deixando-a presa - ... deve ser um bem grande. 
O que acha disso, Anna? - Abaixou um pouco a cabea, pairando sobre ela.
      Ela tentou pensar, medir as conseqncias. Mas havia momentos em que a necessidade, o desejo e a atrao simplesmente suplantavam a lgica.
      - Ento, que seja... - murmurou ela, envolvendo-lhe a nuca com uma das mos e puxando-lhe a boca para baixo, at se encontrar com a sua.
      Era exatamente o que ela queria. Faminta, feroz e descuidada. Sua boca era quente, cheia e quase pag ao se esmagar de encontro  dela para devor-la. Ela 
se deixou levar, entregou-se por completo  sensao, um momento de loucura em que o corpo mandava na mente e o sangue governava a razo.
      E a emoo foi estalando por dentro dela como um chicote, forte e doloroso, at se transformar em uma queimao rpida e chocante.
      - Puxa!... - A respirao dele se fora, e sua cabea girava. Por reflexo, suas mos apertaram ainda mais a borda do balco, antes que ele as arrancasse dali 
e as preenchesse com o corpo dela.
      O que quer que ele estivesse esperando, o que quer que tivesse imaginado, no chegou sequer perto do vulco que entrou subitamente em erupo junto de seus 
braos. Ele fez com que uma das mos penetrassem por entre a massa encacheada que eram os cabelos dela e seus dedos se fecharam ali, agarrados a eles como se sua 
vida dependesse disso.
      - No posso... - foi o que ela conseguiu balbuciar, mas seus braos continuavam moldados nele, at lhe parecer que seu corao no estava mais apenas martelando 
o seu peito de encontro ao dela, mas batendo dentro dela. Seu gemido foi como um grunhido leve de desespero e prazer delirante que lhe escapou da garganta no exato 
instante em que os dentes dele a mordiscaram, depois arranharam para a seguir se enterrarem avidamente em sua carne.
      A borda do balco apertou-lhe a base das costas, e os dedos dela se enterraram nos quadris dele para pux-lo mais para junto de seu corpo. Ah, Deus, ela queria 
contato, frico, queria mais! E sentiu a sua boca junto da dela novamente, mergulhando cegamente em mais um beijo profundo.
      S mais um, prometeu a si mesma, acolhendo-o e lanando-se de encontro aos seus desejos insaciveis.
      O perfume dela o seduziu por completo. Seu nome foi um murmrio que lhe escapou dos lbios, um leve sussurro em sua cabea. O corpo dela parecia um banquete, 
e estava totalmente moldado ao seu. Nenhuma mulher jamais o preenchera to depressa e to completamente, excluindo todo o resto de forma to definitiva.
      - Deixe-me... - era um apelo, e ele jamais, em toda a sua vida, implorara por uma mulher - ... pelo amor de Deus, Anna, deixe-me ter voc... - E suas mos 
subiram vidas pelas pernas dela acima, por sobre aquelas coxas interminveis - Agora!
      Ela queria. Seria to fcil possuir e ser possuda. Mas o fcil, ela sabia, raramente era o correto.
      - No... agora no. - O arrependimento a sufocou no mesmo instante em que levantava as mos para emoldurar o rosto dele. Por um instante a mais, sua boca permaneceu 
sobre a dele. - Ainda no. No desse jeito.
      Os olhos dela estavam escuros e enevoados. Ele conhecia o bastante sobre os desejos de uma mulher e sobre os seus prprios atributos para acreditar que seria 
capaz de deix-los cegos de tanto prazer.
      - Mas est perfeito desse jeito - argumentou.
      - O momento  errado, e as circunstncias tambm. Espere mais um pouco. - Algum tinha de se mover, pensou ela, para quebrar o contato fsico. E foi se arrastando 
de lado, ao longo da borda do balco, at soltar um suspiro entrecortado. Fechou os olhos e levantou a mo para mant-lo afastado. - Bem... - conseguiu falar depois 
de mais um instante - ... isso foi uma insanidade.
      Ele pegou a mo que ela levantara, levou-a aos lbios e lhe mordiscou o dedo indicador.
      - E quem precisa de sanidade? - quis saber ele.
      - Eu preciso! - E quase conseguiu dar um sorriso genuno enquanto puxava a mo. - No que eu me arrependa tanto assim do que acabou de acontecer, mas preciso 
de sanidade sim. Uau! - Tornou a sugar o ar com fora, longamente, e levou as mos aos cabelos. - Sabe, Cameron. Voc  mesmo to poderoso quanto eu esperava.
      - E olhe que eu ainda nem comecei.
      - Aposto que sim! - O sorriso se ampliou. Ela se afastou dele um pouco mais e pegou o caf, que esfriara rapidamente. - No sei se isto vai fazer com que qualquer 
um de ns dois durma com mais facilidade esta noite, mas a coisa teve que ser assim. - E entortou ligeiramente a cabea quando viu os olhos dele se estreitarem. 
- O que foi?
      - A maioria das mulheres, especialmente em uma posio como a sua, ia inventar desculpas.
      - Para o qu? - Levantando um dos ombros, ela lembrou a si mesma que o seu organismo ia acabar voltando ao normal. - Isso foi tanto culpa minha quanto sua. 
Fiquei pensando em como seria colocar as mos nesse corpo desde a primeira vez em que vi voc.
      Cam compreendeu que talvez jamais tornasse a ser o mesmo outra
      vez.
      - E eu acho que estou louco por voc - disse ele.
      - No, no est - e ela riu, entregando-lhe o caf. - Voc est intrigado comigo, sente-se atrado e est s voltas com um saudvel acesso de teso, mas todas 
essas questes so totalmente diferentes. Voc nem ao menos me conhece...
      - Mas quero conhecer. - Soltou uma risada curta. - Essa  que  a grande surpresa para mim. Eu geralmente no dou a mnima, de um jeito ou de outro.
      - Sinto-me lisonjeada. No sei se isso representa um tributo ao seu charme ou  minha prpria estupidez, mas a verdade  que me sinto lisonjeada. S que...
      - Droga, eu sabia que vinha alguma coisa!
      - S que... - repetiu ela, enquanto colocava a xcara dentro da pia. - Seth  a minha prioridade. Tem que ser! - O calor que representava tanto compaixo quanto 
compreenso surgiu em seus olhos e tocou alguma coisa dentro dele que estava enterrada bem fundo, por baixo do saudvel acesso de teso. - E ele deveria ser a sua 
prioridade tambm. Espero estar por perto se e quando isso acontecer.
      - Estou fazendo tudo o que posso para chegar l.
      - Sei que est. E sei que est fazendo mais do que a maioria dos
      homens faria. - Tocou o brao dele com carinho, rapidamente, e depois tornou a se afastar. - Tenho o pressentimento de que h mais ainda dentro de voc. S 
que...
      - L vem voc de novo!
      -  melhor voc ir embora agora.
      Ele queria ficar, mesmo que fosse apenas para conversar com ela, estar com ela.
      - Ainda no acabei de tomar o meu caf... - Foi a desculpa dele.
      - J esfriou! Est ficando tarde. - E olhou para a vidraa, por onde os pingos de chuva escorriam como lgrimas. - A chuva me faz pensar em coisas nas quais 
no deveria pensar.
      - No acredito que voc tenha dito isso s para me fazer sofrer - disse ele, fazendo uma careta.
      - Claro que disse! - Ela riu novamente, encaminhando-se para a porta e a abrindo de todo para confirmar sua posio. - Se eu vou sofrer, por que voc no deve 
sofrer tambm?
      - Ah, estou gostando de voc, Anna Spinelli. Voc  uma mulher que me agrada.
      - Voc no est interessado em uma mulher que agrade voc - rebateu ela, enquanto ele atravessava a sala. - Quer uma que agrade o seu corpo.
      - Viu s?... J estamos comeando a nos entender.
      - Boa-noite! - Ela no o evitou quando ele a pegou para mais um beijo ao passar por ela junto  porta. Evit-lo seria fingimento para si mesma, e ela no era 
de se iludir.
      Sendo assim, ela correspondeu ao beijo com um calor crescente e um entusiasmo honesto... e bateu a porta na cara dele.
      Ento, recostou-se na porta fechada, sentindo-se fraca.
      Poderoso? Aquela palavra no expressara nem a metade. Sua pulsao era capaz de continuar disparada por horas. Talvez dias.
      Ela s no queria estar se sentindo to feliz por causa disso.


  Captulo Sete
  
      Cam estava olhando de cara feia para uma cesta cheia de meias e cuecas cor-de-rosa quando o telefone tocou. Sabia muito bem que as meias e cuecas eram brancas 
ou mais ou menos brancas, quando ele as enfiara na mquina de lavar. Agora estavam todas com um tom de rosa-beb. Talvez por ainda estarem molhadas.
      Continuou a coloc-las no cesto para enfi-las em seguida na secadora, quando viu uma meia vermelha escondida no meio das cor-de-rosa. E rangeu os dentes.
      Phillip, jurou, podia se considerar morto.
      - Merda! - Colocando tudo de lado e dando um soco na secadora com um acesso de mau humor, foi atender o telefone.
      Lembrou-se a tempo de baixar o volume da tev porttil que estava ligada sobre o balco da cozinha. No que estivesse assistindo a alguma coisa com ateno, 
e certamente no estava dando a mnima para o torvelinho de paixes e traies da novela da tarde.
      Ligara o aparelho apenas pela companhia das vozes.
      - Aqui  Quinn falando. O que ?!
      - Oi, Cam! Puxa, foi a maior dificuldade para localizar voc, campeo! Aqui  o Tod Bardette.
      Cam viu uma embalagem aberta de biscoitos Oreo que estava sobre a mesa e encheu a mo.
      - Como vo as coisas, Tod?
      - Bem, posso lhe garantir que esto melhores do que nunca. Estou passando algum tempo aqui, ancorado ao largo da Grande Barreira de Corais.
      - Hum... lugar legal! - murmurou Cam com a boca cheia. E ento levantou as sobrancelhas ao ver uma mulher maravilhosa se lanar na cama sobre um homem ridiculamente 
bonito na telinha do outro lado da cozinha.
      Talvez passasse algo de interessante na programao diurna da tev, afinal.
      - D pro gasto! - afirmou Tod. - Ouvi falar que voc botou pra quebrar no circuito do Mediterrneo algumas semanas atrs.
      Algumas semanas?, refletiu Cam enquanto enfiava outro biscoito na boca. Ele jurava que j haviam passado alguns anos desde que ele voara acima da linha de 
chegada com o seu hidroflio. A gua azul, a velocidade arrebatadora, as multides delirando e um monte de dinheiro para torrar.
      Agora ele teria sorte se conseguisse achar um restinho de leite na geladeira para acompanhar o Oreo j meio esfarelado que tinha nas mos.
      -  verdade, Tod, tambm ouvi essa notcia. Tod deu uma risada gostosa.
      - Bem, Cam, aquela oferta para comprar o seu brinquedinho continua de p. Mas estou ligando para lhe fazer outra proposta.
      Tod Bardette sempre tinha alguma proposta na ponta da lngua. Era o filho rico de um texano ainda mais rico, e fazia do mundo o seu playground. Adorava barcos. 
Participava de corridas, patrocinava-as, comprava e vendia mquinas de voar sobre a gua. E arrebanhava mulheres, trofus e pedaos da sua herana com espantosa 
regularidade.
      Cam sempre achara que a estrela de Tod comeara a brilhar desde momento da sua concepo. J que no fazia mal algum ouvir, e a cena de cama acabara de ser 
substituda por um comercial que mostrava uma escova gigante para lavar privadas, ele desligou o aparelho.
      - Estou sempre pronto para ouvir uma boa proposta.
      - Estou montando uma equipe para a disputa da La Coupe Internationale.
      - A One-Ton Cup, para embarcaes de grande porte? - Cam comeou a sentir os hormnios se agitarem e perdeu subitamente todo o interesse por biscoitos e leite. 
Aquele campeonato internacional era um dos mais importantes do mundo aqutico. Tinha cinco etapas, lembrou ele, sendo que a final era uma corrida em mar aberto atravs 
de trezentas milhas nuticas terrivelmente estafantes, mas emocionantes.
      - Essa mesmo... voc lembra que os australianos venceram no ano passado; portanto, a disputa deste ano vai ser sediada aqui na Austrlia. Quero dar uma surra 
neles este ano, e j consegui um barco que  uma jia!  gil e rpido como voc nunca viu, campeo. Com a equipe certa, vamos conseguir trazer a taa de volta para 
os Estados Unidos. Preciso de um lder de equipe. Quero o melhor. Quero que seja voc. Em quanto tempo voc pode vir aqui para a Austrlia?
      Em cinco minutos, era o que Cam queria responder. Poderia arrumar uma mochila em menos de um minuto; na verdade, entrar em um avio e se lanar para l. Para 
participantes de corridas de barco, aquela era uma das maiores oportunidades da vida. Ao abrir a boca para responder, seu olhar pousou na cadeira de balano que 
ficava na varanda, bem perto da janela da cozinha.
      Ento, fechou os olhos e ouviu com um estranho ressentimento o zumbido constante das meias cor-de-rosa que rolavam dentro da secadora no cmodo ao lado.
      - Vou ter que ficar de fora dessa, Tod. No posso sair daqui agora.
      - Olhe, escute s... estou disposto a lhe dar algum tempo para colocar todas as suas transas a, todas elas mesmo - assinalou ele, com uma gargalhada de gozao 
-, em ordem. Posso esperar umas duas semanas. E se voc receber alguma outra oferta eu cubro.
      - No vai dar no, Tod. Eu estou com... - O qu?... roupa pra lavar? Um garoto pra criar? De jeito nenhum ele ia se humilhar oferecendo de graa esse tipo 
de informao - ...  que os meus irmos e eu estamos abrindo um negcio - respondeu em um impulso. - Estou cheio de compromissos aqui.
      - Voc...? Abrindo um negcio? - Dessa vez o riso de Tod foi mais longo e divertido. - No goze tanto assim com a minha cara, Cam, que isso at me deixa bolado.
      Agora eram os olhos de Cam que se estreitavam. No tinha dvidas de que Tod Bardette, do Texas, se juntaria a outros dos seus amigos e conhecidos de outros 
lugares e todos morreriam de rir diante da idia de Cameron Quinn ter se transformado em um homem de negcios.
      - Estamos construindo barcos - disse entre dentes. - Bem aqui, no litoral leste, na baa de Chesapeake. Barcos de madeira. Servios personalizados e de alta 
qualidade - acrescentou, determinado a manter o seu terreno. - Cada embarcao  nica! Em seis meses as pessoas vo ter que gastar uma grana alta para ter um barco 
projetado e construdo pela Quinn Embarcaes. Como somos velhos amigos, posso tentar encaixar voc na fila.
      - Barcos... - O interesse na voz de Tod aumentou. - Bem, voc sabe muito bem como conduzi-los. Ento imagino que tambm saiba como constru-los.
      - No h dvida alguma a respeito disso.
      - Olhe, esse  um empreendimento interessante, mas encare os fatos, Cam, voc no  um homem de negcios... no vai conseguir ficar enfiado o tempo todo em 
uma linda baa no litoral de Maryland, comendo caranguejo e martelando em tbuas compridas, enchendo-as de pregos. Voc sabe que eu consigo fazer com que essa corrida 
valha mais a pena para voc. Dinheiro, fama e sorte. - E deu mais uma risada. - Ento, depois que a gente vencer, voc pode voltar para casa e comear a construir 
algumas corvetas.
      Ele ia conseguir agentar, prometeu Cam a si mesmo. Ia conseguir lidar com os insultos e com a frustrao de no ser capaz de fazer as malas e ir para onde 
escolhesse. O que ele jamais faria era dar a Tod Bardette a satisfao de saber que ele se sentia confuso e com as idias desordenadas.
      - Voc vai ter que arrumar outro lder de equipe, Tod. Se quiser comprar uma embarcao de primeira, pode me ligar.
      - E se voc conseguir realmente terminar de construir um barco me d uma ligada. - Suspirou profundamente no fone. - Voc est perdendo a maior chance de sua 
vida, Cam! Se mudar de idia nas prximas horas, entre em contato comigo. O problema  que eu preciso montar toda a equipe ainda nesta semana. A gente se fala...
      E Cam o ouviu desligar, ficando com o sinal de ocupado apitando no crebro.
      Cam no varejou o telefone pela vidraa. Bem que teve vontade de fazer isso, mas considerou a idia e descobriu que era ele mesmo que ia acabar tendo que varrer 
os cacos do vidro quebrado; portanto, de que lhe serviria o chilique?
      Assim, colocou o fone no gancho com uma deliberao cuidadosa. Chegou a respirar fundo. E se os pratos que colocara na mquina de lavar loua no tivessem 
escolhido aquele momento em particular para fazer a lavadora comear a girar e sacudir, dando pequenos pulos, no teria socado a parede com o punho.
      - Por um momento, ainda agora, achei que voc ia desistir. Cam girou o corpo e viu o pai sentado  mesa da cozinha, rindo.
      - Ah, que timo, s faltava essa para completar o dia!
      - Por que no pega um pouco de gelo para colocar em seus dedos?
      - Meus dedos esto bem! - reagiu Cam, analisando-os atentamente. Havia apenas alguns arranhes leves. E a dor aguda que sentia era uma boa maneira de mant-lo 
preso  realidade. - Pensei a respeito disso, pai, pensei muito mesmo... simplesmente no acredito que o senhor esteja aqui.
      - Voc est aqui, Cam. - Ray continuava a rir. -  isso o que importa. Foi muito duro dispensar uma competio como essa. Sou grato por isso. Estou orgulhoso 
de voc!
      - Bardette disse que est com um barco maravilhoso. Com o dinheiro dele por trs da equipe... - Cam apertou as mos na borda do balco e olhou para fora da 
janela, em direo s guas plcidas - ... eu poderia ganhar esse campeonato. Fui chefe de uma equipe que chegou em segundo lugar na Copa da Amrica, h cinco anos, 
e venci o circuito Chicago-Mackinac no ano passado.
      - Voc  um grande marinheiro e excelente competidor, Cam.
      - ... - Uniu os dedos lentamente, at ficar com o punho fechado - O que estou fazendo aqui? Se continuar assim, vou acabar me
      viciando nas novelas da tarde na tev. Vou comear a achar que Lilac e Lance no so personagens de folhetim, mas gente de verdade, amigos pessoais. Vou comear 
a recortar cupons de desconto no jornal para os produtos do supermercado, colecionar receitas e acabar fodendo de vez com a minha sanidade.
      - Estou surpreso com voc falando a respeito de como cuidar de uma casa nesses termos. - A voz de Ray era cortante agora e exibia desapontamento. - Organizar 
uma casa e cuidar de uma famlia  um trabalho importante. O mais importante que existe!
      - Mas no  o meu trabalho.
      - Parece que, por agora, ... sinto muito por tudo isso.
      Cam tornou a se virar. J que ia levar em frente a conversa com uma alucinao, era melhor olhar de frente para ela.
      - O senhor sente muito pelo qu, exatamente? Por morrer e me deixar na mo?
      - Bem, na verdade, isso foi muito inconveniente para todos. Cam quase riu da resposta, pois o comentrio e o tom irnico eram tipicamente os de Ray Quinn. 
S que ele precisava esclarecer as coisas que estavam lhe colocando macaquinhos no sto.
      - Tem gente por a dizendo que o senhor jogou o carro contra o poste de propsito.
      O sorriso de Ray desapareceu e seus olhos se tornaram srios e tristes.
      - Voc acredita nisso?
      - No. - Cam soltou um longo suspiro. - No, eu no acredito nisso.
      - A vida  um presente. Nem sempre ela funciona s mil maravilhas, mas  algo precioso. Eu jamais magoaria voc nem os seus irmos jogando a minha vida fora.
      - Eu sei disso - murmurou Cam. - Ajuda muito ouvi-lo afirmar, mas eu sei disso.
      - Talvez eu pudesse ter interrompido o fluxo dos acontecimentos. Talvez devesse ter feito as coisas de forma diferente - suspirando, Ray comeou a girar a 
aliana de ouro em volta do dedo -, mas no fiz isso. Agora, tudo depende de voc. De voc, de Ethan e de Phillip.
      Havia uma razo para que vocs trs viessem at ns, at mim e Stella. Havia tambm uma razo para vocs terem chegado quase juntos. Sempre acreditei nisso. 
Agora compreendo tudo.
      - E quanto ao garoto?
      - O lugar de Seth  aqui! Ele precisa de vocs. Est em apuros neste exato momento e precisa que voc se recorde de como era estar no mesmo lugar em que ele 
est agora...
      - Como assim est em apuros neste exato momento?
      - Atenda o telefone - sugeriu Ray, sorrindo, segundos antes de o aparelho comear a tocar.
      E ento desapareceu.
      -  melhor comear a dormir mais do que tenho dormido - decidiu Cam, e ento pegou com fora o fone do gancho, gritando:
      - Sim, sim, o que foi?
      - A-al?... Sr. Quinn?
      - Certo. Aqui  Cameron Quinn falando.
      - Sr. Quinn, aqui fala Abigail Moorefield, vice-diretora da Escola St. Christopher.
      - H-h... - Cam sentiu o estmago afundar.
      - Estamos com um pequeno problema aqui. Seth DeLauter est em minha sala.
      - Que tipo de problema?
      - Ele se meteu em uma briga com um dos colegas. Vai ser suspenso, Sr. Quinn. Agradeceria muito se o senhor pudesse comparecer  escola, a fim de podermos explicar 
tudo ao senhor, antes de lev-lo para casa.
      - timo! Maravilha! - J quase fora de si, Cam passou a mo pelos cabelos. - J estou indo.
      A escola no mudara muito, notou Cam, desde que ele cumprira pena ali. Na primeira vez em que ele passara atravs daquelas pesadas portas, Stella Quinn s 
faltou arrast-lo.
      Agora, quase dezoito anos mais velho, percebeu que o seu entusiasmo pelo prdio no aumentara.
      Os pisos eram de linleo desbotado, e a luz era forte, entrando pelas janelas largas. O cheiro era de doces contrabandeados no fundo das calas e suor infantil.
      Enfiando as mos nos bolsos, Cam se encaminhou para a sala da administrao. J conhecia o caminho. Afinal, fizera aquele mesmo percurso inmeras vezes, durante 
o tempo que passara na Escola St. Christopher.
      A secretria mudara. No era a mesma velha com olhos de guia que estava do outro lado da mesa. Essa aqui era mais jovem, mais agitada e o cobriu de sorrisos.
      - Posso ajud-lo? - perguntou ela com voz alegre.
      - Vim aqui para pagar a fiana de Seth DeLauter.
      Ela piscou ao ouvir isso, sem entender, e seu sorriso pareceu mais intrigado.
      - Como disse?
      - Sou Cameron Quinn. Vim falar com a vice-diretora.
      - Ah, o senhor quer dizer a Sra. Moorefield. Sim, ela o est aguardando. Segunda porta  direita, seguindo por aquele pequeno corredor. - O telefone tocou 
e ela o atendeu de imediato. - Bom-dia! - cantarolou. - Escola St. Christopher, Kathy falando.
      Cam decidiu que preferia a megera que guardava as salas da diretoria no seu tempo quela recm-chegada toda alegrinha. No momento em que se viu diante da porta, 
levantou os ombros, manteve o queixo firme... e sentiu as palmas das mos comearem a suar.
      Havia coisas, pensou ele, que jamais mudavam.
      A Sra. Moorefield estava sentada  sua mesa, alimentando seu computador com dados, na maior calma. Cam notou que seus dedos se moviam sobre o teclado com muita 
eficincia, e aquilo combinava com ela. Estava bem arrumada e tinha uma aparncia impecvel, apesar de seus aparentes cinqenta e poucos anos. Seu cabelo era curto, 
liso e castanho-claro, e seu rosto era sereno e suavemente atraente.
      Sua aliana de ouro refletia a luz enquanto seus dedos se moviam velozes sobre as teclas. A nica outra jia que usava era um par de brincos discretos em forma 
de concha.
      Do outro lado da sala, Seth estava sentado meio largado em uma cadeira, olhando para o teto. Tentava parecer entediado, imaginou Cam, mas s conseguia mostrar 
que estava irritado. O garoto estava precisando cortar o cabelo, notou, pondo-se em seguida a pensar em quem teria que lidar com isso. Usava uma cala jeans desfiada 
nas bainhas, uma camiseta de jersey dois nmeros maior que ele e botinas incrivelmente sujas.
      Para Cam, tudo pareceu perfeitamente normal.
      Bateu no portal. Tanto a vice-diretora quanto Seth olharam para ele, com duas expresses dramaticamente diferentes. A Sra. Moorefield lanou-lhe um educado 
sorriso de boas-vindas. Seth fez cara de deboche.
      - Sr. Quinn?
      - Sim... - Ento se lembrou de que, ali, deveria representar o papel de um guardio responsvel. - Espero que possamos esclarecer tudo isso, Sra. Moorefield. 
- E pregou um sorriso igualmente educado no rosto, enquanto caminhava at a mesa para cumpriment-la.
      - Agradeo ao senhor por ter vindo to depressa. Quando somos obrigados a tomar medidas disciplinares, tais como essa contra um aluno, queremos que os pais 
ou responsveis tenham a oportunidade de compreender a situao. Por favor, Sr. Quinn, sente-se.
      - Qual foi o problema? - Cam se sentou em frente a ela e descobriu que no gostava daquilo nem um pouco a mais do que em sua poca.
      - Infelizmente Seth atacou fisicamente um colega esta manh, durante o intervalo. O outro menino j est sendo tratado na enfermaria da escola, e seus pais 
j foram informados.
      - Ento, onde  que eles esto? - Cam levantou uma sobrancelha.
      - Os pais de Robert esto ambos no trabalho neste momento. De qualquer modo...
      - Por qu?
      - O que deseja saber, Sr. Quinn? - O sorriso voltou, menos radiante e mais atento, questionador.
      - Por que Seth bateu em Robert?
      A Sra. Moorefield suspirou, explicando:
      - Compreendo que s recentemente o senhor assumiu a guarda de Seth; portanto, talvez no esteja a par do fato de que esta no  a primeira vez que ele briga 
com outro aluno.
      - Sim, j sei disso. Estou perguntando a respeito do incidente de hoje.
      - Muito bem... - Ela cruzou as mos. - De acordo com Robert, Seth exigiu que ele lhe desse um dlar, e quando Robert se recusou a lhe entregar o dinheiro, 
Seth o atacou. At o momento - acrescentou ela, desviando o olhar para o menino - Seth no confirmou nem negou o ocorrido. A poltica da escola exige que os alunos 
sejam suspensos por trs dias, como ao disciplinar, quando eles se envolvem em brigas no recinto da escola.
      - Certo. - Cam se levantou, mas quando Seth fez meno de se levantar tambm, ele apontou-lhe um dedo, ordenando que ficasse sentado, foi at junto do menino, 
agachou-se at ficar na altura dos seus olhos e perguntou: - Voc tentou obrigar esse garoto a lhe dar dinheiro?
      - Foi o que ele disse. - E Seth levantou um dos ombros.
      - E voc enfiou-lhe o cacete...
      - Sim, enfiei-lhe o cacete. Mirei direto no nariz - acrescentou, sorrindo de leve, e afastou o cabelo cor de palha da frente dos olhos. - Assim di mais.
      - E por que fez isso?
      - Talvez por no gostar daquela cara gorda.
      Com a pacincia to esfarrapada quanto o jeans de Seth, Cam apertou-o pelos ombros. Quando viu que o garoto recuava e se encolhia todo, um sinal de alarme 
soou em sua cabea. Antes que Seth conseguisse fugir, Cam o segurou pela gola e exps um dos braos do menino, puxando-o para fora da camiseta imensa. Viu pequenas 
marcas roxas que Cam sabia que haviam sido feitas por ns de dedos e desciam do ombro de Seth at o cotovelo.
      - Me larga! - Com o rosto vermelho de vergonha, Seth tentou se desvencilhar, mas Cam simplesmente o virou de costas. Havia arranhes vermelhos feitos com fora 
por toda parte nas costas do menino.
      - Pare de se mexer! - Cam soltou Seth e pousou as mos nos braos da cadeira. Seus olhos continuavam encarando o menino. - Agora me conte o que aconteceu. 
E nem pense em mentir para mim!
      - No quero falar sobre isso!
      - No lhe perguntei o que voc quer! Estou mandando voc contar tudo. Ou ser... - disse ele, baixando tanto a voz que s Seth conseguiu ouvir - ... que voc 
quer deixar esse moleque safado sair dessa limpinho?
      Seth pensou em falar, mas pareceu mudar de idia. Teve de se certificar de que seu queixo estava bem firme para no gaguejar.
      - Ele estava puto comigo. Fizemos um teste de Histria no outro dia e eu me dei bem. Qualquer idiota teria se dado bem, porque o teste estava muito fcil, 
mas ele  menos do que um idiota, e tirou nota baixa. Desde ento ficou me pentelhando, me chamando pra brigar no corredor e me dando socos. Eu sempre saa fora, 
porque j estou de saco cheio de levar "SE".
      - Levar o qu?
      - Suspenso Escolar - explicou Seth, girando os olhos. - Isso  muito chato... Eu no queria mais ser suspenso, ento no entrava na pilha dele. S que ele 
continuava a me socar e xingar: cu-de-ferro, baba-ovo, queridinho da professora e um monte de merdas desse tipo. Eu no esquentava, mas, quando ele me empurrou contra 
os armrios do corredor e disse que eu no passava de um filho de uma puta e que todo mundo na escola sabia disso, enfiei-lhe o cacete e o pus a nocaute.
      Envergonhado e se sentindo enjoado, tornou a levantar um dos ombros, de forma desafiadora, e completou:
      - Pronto!... Ganhei trs dias de frias. Grande coisa!
      Cam assentiu com a cabea e se levantou. Quando se virou para a vice-diretora, seus olhos estavam quase pretos de tanta fria.
      - A senhora no vai suspender esse menino durante trs dias por ele ter se defendido de um boal ignorante... e se tentar fazer isso passo por cima da senhora 
e vou reclamar na Secretaria de Educao.
      Completamente chocado, Seth levantou o olhar para Cam. Ningum jamais tomara o partido dele em toda a sua vida. Ele jamais esperaria que algum pudesse defend-lo.
      - Sr. Quinn...
      - Ningum pode chamar o meu irmo aqui de filho de uma prostituta, Sra. Moorefield! E se vocs no tm por aqui uma poltica de represso a xingamentos e assdios 
deveriam ter! Portanto, estou avisando a senhora de que  melhor analisar com mais ateno este caso.  melhor reavaliar quem  que merece suspenso aqui. E pode 
tambm dizer aos pais do pequeno Robert que se no quiserem ver o filho chorando por causa de um fiozinho de sangue escorrendo do nariz seria bom dar-lhe um pouco 
mais de educao.
      A Sra. Moorefield pensou por alguns instantes antes de falar. J era professora e conselheira de crianas h quase trinta anos. O que viu no rosto de Seth 
naquele momento foi esperana. Estava misturada com perplexidade e cansao, mas, ainda assim, era esperana. Aquele era um olhar que ela no gostaria que se extinguisse.
      - Sr. Quinn, pode ter certeza de que vou investigar este assunto a fundo. No fui informada de que Seth estava machucado. Se o senhor lev-lo at a enfermaria 
enquanto eu converso com Robert... e os outros alunos...
      - No, eu posso cuidar dele.
      - Como quiser. Vou cancelar a ordem de suspenso, por enquanto, at ficar satisfeita com os fatos.
      - Pois faa isso, Sra. Moorefield. Eu, por mim, estou plenamente satisfeito com os fatos. Agora vou levar Seth de volta para casa. Ele j suportou muito para 
um dia.
      - Concordo com o senhor.
      O menino no lhe pareceu abalado ao entrar na sala da diretoria, pensou ela. Pareceu atrevido. No pareceu abalado quando ela mandou que ele se sentasse enquanto 
ela ligava para a sua casa. Pareceu hostil.
      Naquele momento, porm, ele estava abalado, finalmente, com os olhos arregalados e perplexos, e suas mos agarravam com fora os braos da cadeira. O escudo 
que o menino mantivera em torno de si mesmo, um escudo que ela no conseguira sequer arranhar, da mesma forma que nenhum dos seus professores conseguira, parecia 
ter sido profundamente atingido.
      Agora, decidiu, eles iam tentar ver o que poderia ser feito por ele.
      - Se o senhor mesmo trouxer Seth para a escola amanh de manh, para se encontrar comigo aqui, vamos resolver de vez esta questo.
      - Pois estaremos aqui! Agora vamos! - disse a Seth, e saram da sala com determinao.
      Enquanto caminhavam pelos corredores, indo na direo das portas da frente, seus passos ecoavam nas paredes de forma assustadora. Cam olhou para o lado e notou 
que Seth estava olhando para as botinas.
      - At hoje isso me causa arrepios - disse ele.
      - O qu? - perguntou Seth, empurrando a porta para fora.
      - O som dos passos quando voc segue o longo caminho que vai dar na diretoria.
      Seth deu uma risada, encurvou um pouco os ombros e continuou a caminhar. Seu estmago parecia ter milhares de borboletas guerreando entre si.
      A bandeira americana no mastro junto do estacionamento drapejava ao vento. De uma janela atrs deles ecoavam os sons patticos e desafinados de uma aula de 
msica. A rea da primeira  quarta srie era separada da rea de quinta  oitava por um espao gramado e alguns arbustos tristes.
      Do outro lado de um pequeno caminho ficava o prdio do ensino mdio, todo revestido em tijolinhos. Parecia-lhe menor agora, notou Cam. Tinha um charme quase 
estranho, e no dava a impresso de ser a priso que um dia ele imaginou que fosse.
      Ele viu a si mesmo, em lembrana, recostado preguiosamente contra o cap do seu carro de segunda mo, parado ali naquele mesmo estacionamento, observando 
as garotas que passavam. Viu a si mesmo caminhando por aqueles corredores barulhentos, indo de uma aula para outra... e observando as garotas que passavam. Veio-lhe 
a imagem de estar sentado em cadeiras de assento to duro que lhe deixavam o traseiro dormente enquanto assistia a aulas to chatas que lhe deixavam o crebro dormente... 
enquanto observava as garotas.
      O fato de que a sua experincia do ensino mdio estava voltando  sua memria naquele instante como um desfile de variadas formas femininas o fez se sentir 
quase sentimental.
      Ento uma sineta tocou, estridente, e o nvel do rudo que saa pelas janelas aumentou como se tivesse entrado em erupo. O sentimentalismo sumiu na mesma 
hora. Graas a Deus, foi tudo o que conseguiu pensar, aquele captulo da sua vida j estava encerrado.
      S que no estava encerrado para o garoto, lembrou. E, j. que ele estava ali, poderia ajud-lo a superar aquilo. Abriram as portas nos lados opostos do Corvette 
e Cam parou, esperando at que os olhos dos dois se encontrassem.
      - E ento... - perguntou - ... voc acha que quebrou o nariz do babaca?
      - Talvez. - A sombra de um sorriso pareceu surgir em torno da boca de Seth.
      - timo! - Cam entrou e bateu a porta do carro. - Ir direto no nariz  legal, mas, se voc no quiser um monte de sangue escorrendo por toda parte, mire no 
estmago. Um bom soco curto e slido bem na boca do estmago no deixa muitas evidncias.
      Seth analisou o conselho e explicou:
      -  que eu queria que ele sangrasse.
      - Bom, voc  que faz as suas escolhas na vida. Hoje est um dia legal para velejar - decidiu ele ao ligar o carro. - A gente bem que podia fazer isso.
      - Acho que sim. - Seth ficou beliscando a cala na altura do joelho. Algum ficara do lado dele, era s o que a sua mente confusa conseguia pensar. Algum 
acreditara nele, o defendera e tomara o seu partido. Seu brao estava machucado, seus ombros doam, mas algum tomara o seu partido. - Obrigado - murmurou.
      - Tudo bem, no precisa agradecer. Se algum sacaneia um Quinn, sacaneia todos eles. - Olhou de lado enquanto saa do estacionamento e viu que Seth estava 
com os olhos fixos nele. -  assim que as coisas funcionam. Bem, agora vamos comprar uns hambrgueres ou algo desse tipo para levar com a gente no barco.
      - ... eu estou com fome. - Seth passou a mo sob o nariz. - Voc me arruma um dlar?...
      Quando Cam deu uma gargalhada e pisou fundo o acelerador, aquele foi um dos melhores momentos da vida de Seth.
      
      O vento soprava de sudeste e estava bem firme, de forma que as pontas dos arbustos que saam do pntano acenavam preguiosamente. O cu estava claro e muito 
azul, formando uma perfeita moldura para a gara que alou vo saindo da grama oscilante e seguindo por cima da gua brilhante para a seguir lanar-se como uma flecha 
branca sobre a gua, em busca de um almoo antecipado.
      Por impulso, Cam jogara alguns apetrechos de pesca no barco. Com um pouco de sorte, era possvel que eles tivessem peixe frito para o jantar.
      Seth j sabia mais coisas a respeito da arte de velejar do que Cam suspeitara. No devia se surpreender com isso, refletiu. Anna dissera que o menino tinha 
um raciocnio rpido, e Ethan devia ter lhe ensinado muito bem e com pacincia.
      Ao ver a facilidade com que Seth lidava com as cordas, confiou a ele a tarefa de aprumar a bujarrona. As outras velas pegaram o impulso do vento e Cam se viu 
velejando em alta velocidade.
      Nossa, como ele sentira falta daquilo! A rapidez, o poder, o controle. Tudo aquilo lhe corria por dentro, limpando a sua mente de preocupaes, obrigaes, 
desapontamentos e at mesmo pesar. A gua abaixo, o cu acima, e suas mos no timo persuadindo o vento, provocando-o, desafiando-o a soprar com mais fora.
      Atrs dele, Seth sorria e teve de se segurar para no gritar de puro deleite. Ele jamais velejara a uma velocidade to alta. Com Ray os passeios haviam sido 
lentos e estveis. Com Ethan, tratava-se apenas de trabalho e busca. Com Cam era uma corrida louca, livre e selvagem, com o barco subindo e descendo junto com as 
ondas, arremessando-se veloz como uma bala branca que seguia sem rumo sobre as guas.
      O vento quase lhe arrancou o bon da cabea, o que o obrigou a colocar a aba para trs, para evitar que ele fosse carregado por um p-de-vento mais esperto 
e brincalho.
      Foram navegando ao longo do litoral, passaram diante das docas, que representavam o corao de St. Chris, at que finalmente diminuram de velocidade. Um velho 
barco abandonado estava ancorado ali, um smbolo do estilo de vida dos pescadores de gua doce.
      Os homens e mulheres que saam bem cedo pela baa para pescar traziam o produto conseguido no dia para aquele local. Linguados, trutas e vermelhos naquela 
poca do ano, alm de...
      - Que dia do ms  hoje? - perguntou Cam, olhando para Seth por sobre os ombros.
      - Trinta e um. - Seth levantou os culos escuros, colocando-os na testa, e olhou para a doca. Tinha a esperana de ver Grace. Queria acenar para algum que 
conhecesse.
      - A estao da pesca de caranguejo comea amanh. Caramba!..-garanto que amanh Ethan vai trazer para casa um cesto cheio dessas maravilhas. Vamos comer como 
reis. Voc gosta de caranguejo, no gosta?
      - No sei.
      - Como assim no sabe...? - Cam abriu uma lata de Coca-Cola e bebeu quase tudo de uma vez s. - Voc nunca experimentou caranguejo na vida?
      - No.
      - Ento  melhor preparar o paladar para um manjar dos deuses, garoto, porque  o que vamos comer amanh.
      Imitando o gesto de Cam, Seth pegou um refrigerante e o abriu, comentando:
      - Nada do que voc cozinha  um manjar dos deuses. Isso foi dito com um sorriso e recebido com outro.
      - Caranguejo eu sei preparar, e muito bem...  fcil! Basta colocar a gua para ferver, misturar um monte de temperos e depois jogar aqueles canalhas l dentro, 
de preferncia antes que eles belisquem e...
      - Vivos?!
      -  o nico jeito.
      - Isso  nojento!
      Cam simplesmente mudou de posio e argumentou:
      - Eles no ficam vivos por muito tempo no. Viram jantar logo, logo... Acompanhe tudo com umas latas de cerveja e temos um banquete. Daqui a mais umas duas 
semanas vamos estar experimentando caranguejos azuis de carapaa fina.  s colocar um deles entre dois pedaos de po e morder.
      Dessa vez Seth sentiu o estmago revirar de verdade.
      - Eu no...
      - Por qu? Voc  muito enjoado? - No, sou muito civilizado.
      - Frescura! s vezes, aos sbados, no vero, mame e papai traziam a gente at as docas. Ns pegvamos uns sanduches de caranguejo de carapaa fina, um saco 
de batatas fritas em leo de amendoim e ficvamos vendo os turistas tentando descobrir como comer aquilo. Quase nos mijvamos de tanto rir.
      A lembrana o deixou subitamente triste, e ele tentou afastar o sentimento e continuou a contar:
      - s vezes, velejvamos por a, exatamente como agora. Ou descamos mais abaixo, pelo rio, para pescar. Mame no era muito de pescar. Ento ficava s nadando, 
depois vinha at a beira, sentava-se na margem e lia um livro.
      - Por que ela simplesmente no ficava em casa?
      - Porque gostava de passear de barco - explicou Cam baixinho - ... e gostava de ficar com a gente.
      - Ray falou que ela enjoava.
      -  verdade, s vezes ela enjoava. - Cam expirou com fora. Stella havia sido a nica mulher que ele amara e a nica que perdera. A saudade dela ainda se arrastava 
por dentro dele e parecia amput-lo dos joelhos para baixo.
      - Vamos l! - ordenou ele. - Vamos seguir pelo rio Annemessex abaixo para ver se est dando peixe por l...
      No ocorreu a nenhum dos dois que aquelas trs horas que passaram juntos na gua representaram a trgua mais longa que ambos haviam experimentado em vrias 
semanas.
      E quando voltaram para casa com seis percas gordas num isopor estavam, pela primeira vez, em total harmonia.
      - Voc sabe como limp-las? - perguntou Cam.
      - Talvez... - Ray o ensinara a fazer aquilo, mas Seth no era bobo. - S que fui eu que pesquei quatro das seis. Ento  voc que vai ter que limpar.
      - ... manda quem pode... - comeou Cam, mas parou de falar na mesma hora, quando viu lenis pendurados para secar no antigo varal do quintal. Ele no via 
nada pendurado no varal desde que sua me ficara doente. Por um momento, ficou com medo de estar tendo outra alucinao, a sua boca ficou seca.
      De repente, a porta dos fundos se abriu e Grace Monroe saiu na varanda.
      - Oi, Grace!
      Aquela era a primeira vez que Cam ouvia a voz de Seth se elevar demonstrando felicidade e um puro prazer de menino. Ficou to surpreso que olhou para trs 
de repente e quase deixou o isopor cair em cima do seu p quando Seth largou a outra ponta e saiu correndo em direo  casa.
      - Oi, pessoal! - Ela possua uma voz morna que contrastava com seu aspecto comum. Era alta, magra e tinha longas pernas que, um dia, sonhara em aproveitar 
como bailarina.
      S que Grace j aprendera tambm a colocar a maioria dos sonhos de lado.
      Seus cabelos eram to curtos que pareciam os de um garoto, e ela os mantinha assim porque era mais prtico. No tinha tempo nem energia para se preocupar com 
estilo. Era um cabelo louro-escuro que exibia fios mais claros, especialmente no vero. Seus olhos eram de um verde suave e freqentemente apresentavam olheiras.
      Seu sorriso, porm, era puro, solar e nunca deixava de iluminar-lhe o rosto e exibir covinhas bem ao lado da boca.
      Uma linda mulher, pensou Cam, com rosto de fada e voz de sereia. Ficava surpreso pelo fato de os homens no estarem se atirando aos seus ps.
      O menino s faltava fazer isso, pensou Cam, surpreso ao ver que Seth praticamente correu ao encontro de seus braos. Ele a abraou e deixou ser abraado, logo 
aquele garoto irritadio que no gostava de ser tocado. Ento ficou vermelho de vergonha, deu um passo para trs e comeou a brincar com o cozinho, que seguira 
Grace quando ela saiu de casa.
      - Boa-tarde, Cam. - Grace protegeu os olhos do sol com as costas da mo. - Ethan deu uma passada no bar ontem  noite e disse que vocs estavam precisando 
de uma mozinha por aqui.
      - Voc vai assumir os cuidados com a casa?!
      - Bem, posso vir aqui durante umas trs horas, duas vezes por semana, at...
      No conseguiu acabar a frase, pois Cam pousou o isopor no cho, subiu a escada trs degraus de cada vez e a agarrou com um beijo estalado, bem alto e entusiasmado. 
Ver aquilo deixou Seth com os dentes rangendo, enquanto Grace apenas gaguejava e ria.
      - Isso foi legal - conseguiu dizer por fim -, mas vocs vo ter que pagar pelo meu trabalho do mesmo jeito.
      - Pois diga qual  o seu preo. Adoro voc! - E agarrou as mos dela, plantando mais beijos ali. - Minha vida  toda para voc.
      - J vi que meu trabalho vai ser apreciado por aqui, e  muito necessrio. Deixei aquelas meias cor-de-rosa de molho na gua sanitria. Talvez d certo.
      - A meia vermelha era de Phil. Ele foi o responsvel. Isto , qual o cara que se preze  capaz de comprar um par de meias vermelhas?
      - Pois vamos conversar mais a respeito de como separar as roupas para lavar... e esvaziar os bolsos. Um caderninho preto de algum se desfez todo na ltima 
enxaguada.
      - Merda! - Cam notou o olhar de reprovao dela ao olhar para o menino, que pigarreou. - Desculpe o palavro. Acho que o caderninho era meu.
      - Eu fiz um pouco de limonada, e ia preparar um ensopado, mas me parece que vocs j trouxeram o jantar.
      - Para hoje sim, mas a gente gostaria do ensopado tambm.
      - Certo. Ethan no estava bem certo a respeito das coisas que vocs precisavam que eu arrumasse ou fizesse. Talvez fosse melhor a gente conversar sobre isso.
      - Querida, faa tudo o que achar que a gente est precisando, e j vai estar muito alm do que jamais vamos poder recompens-la.
      Ela j percebera isso por si mesma. Cuecas cor-de-rosa, refletiu, um dedo de poeira em uma das mesas e substncias no identificadas grudadas umas nas outras. 
E o fogo? S Deus era capaz de informar quando havia sido limpo pela ltima vez.
      Era bom se sentir necessria, pensou ela. Bom saber exatamente o que precisava ser feito.
      - Vamos resolver tudo com o tempo, ento. Pode ser que eu tenha que trazer o beb comigo de vez em quando. Julie toma conta dela para mim  noite, quando estou 
trabalhando no bar, mas nem sempre consigo achar algum disponvel para ficar com ela em outros momentos. Ela  boazinha.
      - Eu posso ajudar a tomar conta dela - ofereceu Seth. - Volto da escola s trs e meia.
      - Desde quando? - quis saber Cam, e Seth encolheu os ombros.
      - Quando no tenho "SE".
      - Aubrey adora brincar com voc, Seth. Tenho mais uma hora de trabalho pela frente aqui ainda - avisou ela, porque era uma mulher que organizava seus horrios 
o tempo todo. - Vou logo preparar o ensopado e deix-lo no freezer. Tudo o que vocs tm a fazer  esquentar quando quiserem comer. Vou deixar uma lista dos produtos 
de limpeza que esto faltando ou ento posso comprar tudo e trazer para vocs, se preferirem.
      - Trazer para a gente? - Cam s faltou se ajoelhar a seus ps. - 
      Quer um aumento?
      Ela riu e voltou para dentro, avisando:
      - E voc, Seth, fique de olho para que o cozinho permanea longe das tripas do peixe na hora em que vocs forem prepar-lo, seno depois ele vai ficar fedendo 
durante uma semana.
      - Tudo bem, est certo. Estarei acabando em alguns minutos, depois vou entrar. - Levantou-se, saiu da varanda para que Grace no pudesse ouvi-lo pela porta 
e seguiu Cam, com jeito de homem feito, perguntando: - Voc no vai ficar atiando a Grace, tentando dar em cima dela, vai?
      - Atiando... dar em cima dela? - Cam ficou pasmo por um momento, e ento balanou a cabea. - Pelo amor de Deus! - Levantando o isopor, comeou a caminhar 
em volta da casa, na direo da mesa para limpar peixe. - Conheo Grace h muitos anos, metade da minha vida, e no atio nem dou em cima de toda mulher que encontro.
      - Tudo bem, ento.
      Foi o tom de voz do menino que fez com que Cam comeasse a passar a lngua sobre os dentes enquanto pousava o isopor no cho. Era um tom possessivo, de quem 
era dono de alguma coisa, e pareceu satisfeito com a resposta.
      - Quer dizer ento que  voc que est de olho nela, no ? Seth ficou vermelho e abriu a gaveta da mesa para pegar um raspador de escamas.
      - Eu apenas fico vigiando Grace para proteg-la... s isso.
      - Ela  mesmo muito bonita - disse Cam de forma casual, e teve a satisfao de ver os olhos de Seth brilharem de cime por um instante.
      - S que, por acaso, estou atiando e dando em cima de outra mulher no momento, e a coisa pega quando a gente tenta ficar com mais de uma de cada vez. O pior 
 que essa mulher de quem estou falando, em particular, vai me dar o maior trabalho para ser convencida.


  Captulo Oito
  
      Ele resolveu comear a forar a barra com Anna. J que estava com ela na cabea, Cam deixou Seth lidando com os dois ltimos peixes por conta prpria e ficou 
circulando por dentro da casa. Emitiu alguns rudos de satisfao ao ver o que Grace estava preparando para colocar no fogo, e ento subiu as escadas.
      No telefone do seu quarto ele teria um pouco mais de privacidade, e o carto de Anna estava em seu bolso.
      Ao chegar  porta do quarto, parou e quase chorou de gratido. J que sua cama estava feita, os travesseiros arrumados, com as fronhas trocadas, e a colcha 
verde alisada de forma profissional, viu que alguns dos lenis pendurados no varal eram seus.
      Naquela noite ele ia dormir em lenis limpos e passados que ele no tivera que lavar. Aquilo tornou a perspectiva de dormir sozinho um pouco mais tolervel.
      A superfcie da sua antiga cmoda de carvalho no estava apenas livre da poeira. Ela brilhava! As prateleiras que ainda exibiam a maior parte dos seus trofus 
e alguns dos seus romances favoritos haviam sido limpas e arrumadas, e a cadeira entulhada que ele trouxera l de baixo para usar como porta-tudo estava vazia. Ele 
no tinha a menor idia de onde ela colocara suas coisas, mas imaginou que as encontraria em seu lugar apropriado.
      Talvez ele tivesse ficado mal-acostumado por passar a vida em hotis nos ltimos anos, mas lhe fazia bem ao corao entrar em seu quarto sem ter meia dzia 
de pequenas tarefas desagradveis  espera.
      As coisas estavam melhorando, e assim ele se jogou na cama, se espreguiou e pegou o telefone.
      - Aqui fala Anna Spinelli. - Sua voz era baixa, neutra, profissional. Cam fechou os olhos para fantasiar melhor a forma como ela estava vestida. Gostou da 
idia de imagin-la por trs de alguma mesa bem burocrtica usando aquele vestidinho colante azul que usara na vspera.
      - Srta. Spinelli, como se sente com relao a caranguejos?
      - Ahn...
      - Deixe-me reconstruir a frase. - E se recostou ainda mais, at ficar completamente deitado, e sentiu que era capaz de cair no sono em cinco minutos mesmo 
sem querer. - O que acha da idia de comer caranguejos cozidos?
      - Acho boa.
      - timo! Que tal amanh  noite?
      - Cameron...
      - Aqui em casa - especificou ele. - A casa que nunca fica vazia. Amanh  o primeiro dia da temporada de pesca do caranguejo. Ethan vai trazer uma tonelada 
deles para casa. Vamos cozinh-los. Voc vai poder assistir ao vivo e em cores como os Quinn... como foi mesmo que voc falou...? se relacionam e interagem. Vai 
poder ver como Seth est se sentindo aqui, como ele est se aclimatando a este ambiente domstico em particular.
      - Isso  muito bom.
      - Ei, eu j lidei com assistentes sociais antes.  claro que nenhuma que usasse sapatos azuis de salto alto, mas...
      - Eu estava fora do horrio de servio - lembrou ela. - Entretanto, acho que o jantar seria uma idia aceitvel. A que horas?
      - Seis e meia, mais ou menos. - Ele ouviu um farfalhar de papis e se sentiu ligeiramente irritado ao notar que ela estava consultando sua agenda.
      - Tudo bem, vou poder ir sim. Seis e meia, ento.
      Ela parecia realmente uma assistente social marcando uma reunio profissional para um momento adequado ao cliente.
      - Voc est sozinha a?
      - Em minha sala? Sim, no momento, sim... Por qu?
      - S pra saber. Andei pensando em voc. Aconteceu vrias vezes, o dia inteiro. Por que no me deixa ir at a cidade em que voc mora e peg-la de carro amanh? 
Assim, vou poder levar voc de volta para casa depois. Podamos parar no caminho e... eu ia falar que ns podamos passar para o banco de trs, mas o Corvette no 
tem um. Mesmo assim, acho que a gente ia conseguir se ajeitar.
      - Estou certa de que sim, e esse  o motivo de eu preferir dirigir at a eu mesma, em meu carro.
      - Mas eu preciso colocar as mos em voc novamente...
      - No duvido que isso possa voltar a acontecer... eventualmente. Enquanto isso...
      - Eu quero voc.
      - Eu sei.
      Ao sentir que a voz dela se tornou mais densa e que j no parecia to formal, ele sorriu.
      - Por que no deixa que eu lhe diga o que gostaria de fazer com voc? Posso ir passo a passo. Voc pode at mesmo fazer anotaes em seu caderninho para futura 
referncia.
      - Acho que seria melhor a gente adiar isso. Embora eu no descarte a idia de discutir o assunto alguma outra hora. Sinto muito, mas tenho um compromisso marcado 
para daqui a poucos minutos. Vou v-lo, e  sua famlia, amanh  noite.
      - D-me apenas dez minutos a ss com voc, Anna - sussurrou ele. - Apenas dez minutos para eu poder toc-la.
      - Eu... podemos tentar encaixar isso no nosso horrio de amanh. Agora preciso ir. At l, ento...
      - At. - Feliz por t-la balanado, ele colocou o fone lentamente no gancho e se deixou mergulhar em uma bem merecida soneca.
      
      
      * * *
      
      Foi acordado mais ou menos uma hora mais tarde pela porta da frente que bateu com fora e pela voz de Phillip, que falava alto e parecia furioso.
      - Lar, doce lar... - murmurou Cam, rolando para fora da cama. Foi cambaleando de sono at a porta e seguiu pelo corredor, at as escadas. Era pssimo de cochilo, 
e quando se permitia tirar um acordava zonzo, irritado e louco por um caf.
      Ao chegar ao p da escada, Phillip j estava na cozinha, abrindo uma garrafa de vinho.
      - Onde, diabos, todo mundo se meteu? - quis saber, enquanto lutava com a rolha.
      - Sei l! Sai da minha frente! - Esfregando a mo no rosto, Cam despejou o resto do bule de caf em uma caneca, enfiou-a no microondas e apertou algumas teclas.
      - Acabei de ser informado pela seguradora que eles vo prender o dinheiro do seguro de papai at fazer uma investigao completa.
      Cam olhou fixamente para o microondas, desejando ardentemente que aqueles dois minutos infindveis passassem depressa para que ele pudesse ingerir cafena. 
Seu crebro enevoado ouviu os termos seguro, pagamento, investigao, mas no conseguia correlacion-los.
      - Hein?
      - Se liga, droga! - Sacudiu-o Phillip, com impacincia. - Eles no querem pagar o seguro de vida de papai porque suspeitam de suicdio.
      - Isso  papo furado! Ele me garantiu que no se matou.
      - Ah, foi mesmo? - Apesar de se sentir enjoado e furioso, Phillip ainda conseguiu levantar uma sobrancelha, com ar de ironia. - E voc teve essa conversa com 
ele antes ou depois de ele morrer?
      Cam ia falar, mas se segurou a tempo e quase ficou vermelho. Em vez disso, tornou a xingar e abriu com fora a porta do microondas.
      - O que quero dizer  que ele no teria feito isso de jeito nenhum, e eles esto falando isso s para atrasar o processo, porque no fundo no querem liberar 
a grana.
      - O fato  que no vo liberar nada mesmo, pelo menos por agora. O investigador deles anda conversando com as pessoas, e algumas delas, pelo jeito, ficaram 
deliciadas com a oportunidade de contar a ele os detalhes mais desagradveis da situao. E eles sabem a respeito da carta da me de Seth e dos pagamentos que papai 
fez a ela.
      - Ento... - Cam provou o caf, queimou a lngua e xingou - . ... para o inferno com os caras da seguradora! Vamos deixar que eles fiquem com a porra desse 
dinheiro.
      - No  to simples assim. Para comear, se eles no pagarem, vai ficar sacramentado que papai cometeu suicdio.  isso que voc quer?
      - No. - Cam apertou o ponto entre os olhos, em uma tentativa de aliviar um pouco da presso que estava aumentando em sua cabea. Passara a maior parte de 
sua vida sem dores de cabea, mas agora se sentia perseguido por elas.
      - Ento, isso significa que vamos ter que aceitar as concluses a que eles chegarem ou vamos ter que lev-los diante de um tribunal para provar que ele no 
se matou. Isso vai ser uma tremenda confuso, especialmente porque vai ocorrer em pblico. - Lutando para se acalmar, Phillip experimentou o vinho. - De qualquer 
modo, seu nome vai ficar manchado. Acho que vamos ter que achar essa mulher, essa tal de Gloria DeLauter, afinal. Temos que esclarecer tudo direitinho.
      - E o que o faz pensar que se a gente a encontrar e conversar com ela as coisas vo se esclarecer?
      - Temos que arrancar a verdade dela.
      - Como, atravs de tortura? - No que essa idia no o agradasse. - Alm do mais, o garoto tem pavor dela - acrescentou Cam. - Se ela aparecer, pode melar 
todo o processo da guarda do filho.
      - E se no aparecer pode ser que a gente jamais descubra a verdade, toda a verdade. - Phillip precisava saber de tudo, pensou, para poder comear a aceitar 
o que acontecera.
      - Pois aqui est a verdade, ao meu modo de ver - Cam bateu com a caneca sobre a mesa -, essa mulher estava em busca de um alvo fcil e sacou que encontrara 
um. Papai se amarrou no garoto e quis ajud-lo. Assim, saiu em campo para lutar por ele, do mesmo jeito que fez conosco, e ela ficou forando a barra para sugar 
mais grana dele. Imagino que ele estava chateado ao voltar para casa naquele dia, preocupado, distrado... Estava dirigindo em alta velocidade, calculou mal, perdeu 
o controle do carro, sei l! Foi isso o que aconteceu.
      - A vida no  to simples quanto voc a leva, Cam. As pessoas no saem de um ponto e chegam a outro da maneira mais rpida que conseguirem. Existem curvas, 
desvios e bloqueios no caminho. Seria bom se voc comeasse a pensar nisso.
      - Por qu?  desse jeito que voc encara tudo, e me parece que ns dois acabamos exatamente no mesmo lugar.
      Phillip soltou um suspiro. Era difcil argumentar contra aquilo. Ento decidiu que um segundo clice de vinho ia cair bem.
      - No importa o que voc pensa, estamos com um problemo nas mos, e vamos ter que lidar com ele. Onde est Seth?
      - No sei onde ele est. Por a...
      - Por Deus, Cam, por a onde? Voc  que  o responsvel por ficar de olho nele.
      - E fiquei de olho nele o dia inteiro. Agora ele est por a. - Foi at a porta dos fundos, deu uma olhada no quintal e franziu a testa quando no viu Seth. 
- Provavelmente est l na parte da frente da casa, dando uma volta no jardim ou algo desse tipo. No vou colocar uma coleira no garoto e traz-lo preso na correia.
      - A essa hora do dia ele devia estar fazendo o dever de casa. Voc s precisa ficar de olho nele durante umas duas horas depois da escola.
      - S que hoje as coisas no correram desse jeito. Ele tirou uma folga da escola hoje.
      - Como assim? Ele matou aula? Voc deixou que ele matasse aula quando estamos com o Servio Social do governo farejando tudo por aqui?
      - No, ele no matou aula. - Indignado, Cam se virou. - Um babaca na escola andava zoando dele, dando pequenos socos, deixando o garoto cheio de marcas roxas 
e chamando-o de filho-da-puta.
      A postura de Phillip mudou na mesma hora, de ligeira irritao para imensa fria. O brilho de seus olhos aumentou e ele apertou os lbios.
      - Quem  esse babaquinha? Quem  esse cara?
      - Um garoto gordinho chamado Robert. Seth enfiou-lhe a porrada, e eles queriam suspend-lo por trs dias por causa disso.
      - Aqui que eles vo fazer isso! Quem  o palhao do diretor agora algum nazista?
      Cam teve que sorrir. Em se tratando de briga, sempre se podia contar com Phillip.
      -  mulher, e ela no me pareceu nazista no. Depois que eu fui at l e consegui arrancar toda a histria de Seth, ela mudou de posio. Vou tornar a lev-lo 
na sala dela amanh para outra pequena conferncia.
      Ao ouvir isso, Phillip sorriu, um sorriso debochado e cruel.
      - Voc? Cameron Esquentadinho Quinn vai bancar o responsvel por um aluno em uma reunio na escola? Ah, eu queria ser uma mosquinha na parede s para ver isso.
      - No precisa, porque voc vai junto. Phillip engoliu o vinho com pressa e engasgou.
      - Como assim eu vou junto?
      - E Ethan vai tambm - decidiu Cam naquele momento. - Vamos todos. Frente unida. Sim,  desse jeito que vai ser.
      - Eu tenho um compromisso s...
      - Cancele.  pelo garoto. - Avistou Seth saindo do bosque com Bobalho ao seu lado. - Viu? Ele estava s circulando por a com o cachorro. Ethan j deve estar 
chegando a qualquer momento, e eu vou convoc-lo para essa reunio tambm.
      Phillip olhou para o vinho e franziu a testa.
      - Odeio quando voc tem razo. Ns todos vamos...
      - Vai ser uma manh divertida. - Satisfeito, Cam deu um soco amigvel no ombro de Phillip. - Dessa vez ns vamos ser os adultos. E depois de vencermos essa 
pequena batalha com as autoridades podemos celebrar amanh  noite com uma batelada de caranguejos.
      Phillip se animou.
      - Primeiro de abril.  a abertura da temporada de pesca de caranguejo. Legal!
      - E temos peixe fresco para hoje  noite. Eu mesmo pesquei e preparei. Agora vou para o chuveiro. - Cam movimentou os ombros. - A Srta. Spinelli vem jantar 
aqui amanh.
      - H-h... bem, voc... o qu? - Phillip se virou enquanto Cam saa da cozinha. - Voc convidou a assistente social para jantar? Aqui?
      - Isso mesmo. J disse que gostei do jeito dela.
      - Pelo amor de Deus - Phillip s conseguiu fechar os olhos -, voc est a fim da assistente social?
      - E ela est a fim de mim tambm. - Cam deu um sorriso. -  Estou gostando disso.
      - Cam, sem querer cortar o barato da sua idia distorcida de romance, use um pouco a cabea. Estamos com esse problema com a companhia de seguros. E estamos 
com problemas com Seth na escola. Como  que isso tudo vai combinar com o Servio Social?
      - Quanto ao primeiro problema, a gente no conta nada para eles, e, quanto ao segundo, a gente conta a histria de forma correta. Acho que vai funcionar muito 
bem com a Srta. Spinelli. Ela vai adorar a idia de ns trs indo at a escola para defender Seth.
      Phillip abriu a boca, considerando o argumento, e acabou concordando:
      - Voc tem razo. Isso vai ser bom. - Ento, quando novos pensamentos comearam a surgir em sua cabea, ele a virou meio de lado. - Talvez voc possa usar 
o seu... poder de influncia sobre ela para fazer com que ela coloque esse caso para a frente e tire a burocracia da nossa cola.
      Cam no disse nada por um momento, surpreso por se sentir to zangado s de ouvir uma sugesto como aquela. Assim, sua voz saiu baixa ao responder a Phillip:
      - Olhe, eu no vou usar coisa alguma com ela, e as coisas vo ficar desse jeito. Uma situao no tem nada a ver com a outra. E isso vai continuar desse jeito 
tambm.
      Quando Cam saiu, Phillip apertou os lbios, pensativo. Ora, ora, pensou, aquilo no era interessante?
      
      Enquanto Ethan manobrava o barco para atracar na doca, avistou Seth no pequeno porto. Por trs de Ethan, Simon soltou um latido forte e alegre. Ethan afagou 
seu plo.
      - Sim, meu chapa, estamos quase em casa.
      Enquanto trabalhava com as velas, Ethan observava o garoto, que atirava gravetos para o co. Quando era menor, sempre havia um co naquele porto para correr 
atrs de gravetos ou bolas... ou para rolar na grama junto com ele. Lembrou-se de Dumbo, o labrador de focinho meigo por quem ele se apaixonara loucamente assim 
que chegara  casa dos Quinn.
      Aquele havia sido o primeiro co com quem ele brincara e o primeiro que o consolara em toda a vida de Ethan. Com Dumbo ele aprendera o significado do amor 
incondicional, e certamente aprendera a confiar no co muito antes de confiar em Ray e Stella Quinn ou nos meninos que se transformariam em seus irmos.
      Imaginava que Seth se sentia exatamente da mesma forma. A gente podia sempre confiar em um co.
      Ao chegar ali, tantos anos atrs, ferido no corpo e na alma, no tinha esperana alguma de que a sua vida pudesse realmente mudar. Promessas, afirmaes de 
confiana, refeies saborosas e pessoas decentes no significavam nada para ele. Assim, ele pensou em acabar com aquela vida.
      A gua j o atraa naquela poca. Ethan se imaginava caminhando dentro dela, afundando aos poucos at que a gua lhe cobrisse a cabea. Ainda no aprendera 
a nadar; portanto, tudo seria bem simples. Era s se deixar afundar, afundar e afundar at que no houvesse mais nada.
      Mas, na noite em que escapara silenciosamente da cama para fazer isso, o co resolveu vir para fora, em companhia dele. Dumbo lhe lambeu a mo, pressionou 
o corpo peludo de encontro s suas pernas e lhe trouxe um graveto, abanando o rabo, com os olhos castanhos esperanosos. Da primeira vez, Ethan atirou o graveto 
bem alto e bem longe, com toda a fria. Mas Dumbo foi  procura dele alegremente e o trouxe de volta, abanando o rabo.
      Ethan tornou a atirar o graveto, e de novo, e dezenas de vezes... Ento, simplesmente se sentou na grama e, sob a luz do luar, chorou muito, colocando o corao 
para fora e apertando o co como se fosse uma tbua de salvao.
      A necessidade de acabar com tudo passara.
      Um co, pensou Ethan naquele instante, enquanto passava a mo na cabea de Simon, podia ser algo glorioso.
      Viu quando Seth se virou e avistou o barco. Sentiu uma leve hesitao, e ento o menino levantou a mo, acenando para ele e, sempre acompanhado pelo cozinho, 
correu para a doca.
      - Segure as cordas, companheiro.
      - Sim, capito! - Seth pegou com competncia as cordas que Ethan lhe atirou, enrolando-as e dando um n, amarrando-as na estaca do cais. - Cam me disse que 
voc vai trazer caranguejos amanh.
      - Disse, ? - Ethan sorriu ligeiramente e girou para trs o bon de jogador de beisebol. Plos grossos e escuros se emaranhavam em redor do colarinho de sua 
camisa de trabalho toda manchada. - Vai l, garoto - murmurou para o co, que estava sentado, vibrando o corpo sem sair do lugar,  espera do comando para abandonar 
o barco. Soltando um latido para celebrar, Simon pulou na gua e foi nadando at a beira. - Para falar a verdade, Cam tem razo. O inverno no foi muito forte, e 
a gua j est esquentando. Acho que a gente vai pegar muitos caranguejos sim. Amanh deve ser um bom dia de trabalho.
      Inclinando-se para o lado, puxou uma armao de metal para pegar caranguejos que estava pendurada na doca e afirmou:
      - Ela est sem fiapos.
      - Fiapos? Ora, por que haveria fiapos em uma velha gaiola feita com tela de galinheiro?
      - Armadilha. Isto  uma armadilha para pegar caranguejos. Se eu levantasse isso da gua e ela estivesse cheia de fiapos, parecendo uns cabelos, algas alouradas, 
isso iria significar que a gua ainda estava fria demais para os caranguejos. Acontece isso, s vezes, quando a gente j est quase em maio, se o inverno foi muito 
bravo. Isso sempre traz uma primavera muito dura para quem tira o sustento da gua.
      - Mas no este ano, porque a gua est bem quente para pegar caranguejos - concluiu o menino.
      - Parece que sim. Voc pode colocar a isca nessa armadilha aqui mais tarde: pescoo de frango ou pedaos de peixe servem bem para isso. E de manh pode ser 
que a gente encontre alguns caranguejos muito aborrecidos a dentro. Eles caem direitinho todas as vezes.
      Seth se ajoelhou, querendo ver mais de perto.
      - Eles so meio burros, n? Parecem uns besouros cascudos gigantes. Ento acho que devem ter uma burrice gigante tambm.
      - So apenas mais famintos do que espertos, eu diria.
      - E Cam me contou que vocs os cozinham vivos! No vou comer isso no, de jeito nenhum!
      - Voc  que sabe, fique  vontade. Quanto a mim, acho que vou encarar umas duas dzias deles quando chegar amanh de noite. - Deixando cair a armao de arame 
de volta na gua, Ethan pulou com destreza do barco para a doca.
      - Grace esteve aqui. Ela limpou a casa e arrumou as coisas.
      - Foi? - Ethan imaginou que a casa toda devia estar com um suave perfume de limo. A casa de Grace sempre tinha esse cheiro.
      - Cam a beijou... bem na boca.
      - O qu? - Ethan parou de caminhar e olhou para o rosto de Seth.
      - Foi um beijo estalado. Ela ficou rindo. Acho que foi assim uma espcie de brincadeira.
      - Brincadeira... sei! - Ethan encolheu os ombros e ignorou o bolo que sentiu dentro da barriga. No era da sua conta quem Grace beijava. No tinha nada a ver 
com ele. Mas sentiu os dentes rangendo quando Cam, com os cabelos ainda escorrendo, saiu na varanda dos fundos.
      - Como voc acha que vai ser a temporada dos caranguejos, Ethan?
      - Vai dar pro gasto - respondeu ele secamente.
      Cam levantou as sobrancelhas ao sentir o tom da voz do irmo.
      - Qual , Ethan? Um deles escapou da armadilha mais cedo e pinou a sua bunda?
      - Quero s tomar uma chuveirada e pegar uma cerveja. - E Ethan passou direto por ele e entrou dentro de casa.
      - Amanh vamos ter uma mulher jantando conosco.
      Isso fez Ethan parar novamente, e ele se virou, mantendo a porta telada entre eles.
      - Uma mulher? Quem?
      - Anna Spinelli.
      - Merda! - Foi o nico comentrio de Ethan enquanto se afastava.
      - Por que motivo ela vem aqui? O que ela quer? - O pnico surgiu dentro de Seth como uma fonte borbulhante, que transbordou em sua voz antes que ele conseguisse 
impedir.
      - Ela vem porque eu a convidei, e ela quer comer caranguejo. - Cam enfiou os polegares nos bolsos e se balanou para trs, apoiado pelo calcanhar. Por que 
era sempre ele que tinha que encarar aquela carinha plida de medo? - Ela deve estar querendo verificar se tudo o que a gente faz por aqui  peidar, coar o saco 
e cuspir no cho. Acho que d para segurar tudo isso por uma noite. Mas voc vai ter que se lembrar de levantar a tampa da privada para mijar e depois tornar a abaix-la. 
As mulheres detestam quando a gente no faz isso. Fazem um pronunciamento social e poltico se voc no levanta a tampa do vaso. V entender!
      Um pouco da tenso desapareceu do rosto de Seth.
      - Ento ela est vindo aqui s para observar se ns somos porcalhes? Bem, Grace limpou a casa toda, e no  voc que vai cozinhar. Ento acho que vai correr 
tudo bem.
      - Vai correr melhor ainda se voc ficar com essa boca suja e metida a engraada bem fechada.
      - A sua  to suja quanto a minha.
      - Sim, mas voc  muito mais baixo do que eu. E no pretendo pedir que voc me passe a porra das batatas na frente dela.
      Seth soltou uma gargalhada diante disso, e seus ombros, que estavam duros como pedra, relaxaram.
      - Cam, voc vai contar para ela a merda que deu na escola hoje?
      - Olhe, comece a treinar uma palavra alternativa para "merda", pelo menos at amanh  noite. - Bufou Cam. - Sim, vou contar para ela o que aconteceu na escola. 
E vou contar tambm que Phil, Ethan e eu fomos com voc at l para resolver o problema.
      - Todos vocs? - Dessa vez tudo o que Seth conseguiu fazer foi piscar. - Vocs vo todos l mesmo?
      -  isso a! Como eu falei, quando algum sacaneia um Quinn, sacaneia todos eles.
      Foi um choque completo e uma surpresa que deixou ambos aterrorizados quando lgrimas comearam a aparecer nos olhos de Seth. Elas ficaram ali por um momento, 
enevoando aqueles olhos azuis profundos e brilhantes. Na mesma hora, os dois enfiaram as mos nos bolsos e se viraram para o outro lado.
      - Eu preciso resolver... um lance a... - disse Cam, sem saber o que falar. -  melhor voc ir... lavar as mos ou algo desse tipo, porque a gente j vai jantar.
      No momento em que conseguiu coragem para se virar de novo, com a inteno de colocar a mo no ombro de Seth, a fim de dizer algo que, sem dvida alguma, iria 
deixar os dois com cara de idiotas, o menino saiu correndo para dentro, indo para a cozinha.
      Cam apertou os olhos com os dedos, massageou as tmporas e baixou os braos, falando em voz alta:
      - Puxa, tenho que voltar depressa para disputar uma corrida, que  um lugar onde eu sei o que estou fazendo. - Deu um passo em direo  porta, mas ento balanou 
a cabea e resolveu recuar na mesma hora. No queria entrar em casa com toda aquela emoo e toda aquela carncia que pairavam no ar.
      Deus, tudo o que ele queria era a sua liberdade de volta; acordar e descobrir que tudo aquilo fora apenas um sonho. Melhor ainda, acordar em algum quarto imenso, 
na cama de um hotel annimo em uma cidade bem extica com uma mulher nua e excitada ao seu lado.
      S que, quando ele tentava imaginar a cena, a cama era a mesma em que ele dormia agora, e a mulher era Anna.
      Como substituta, at que a fantasia no era m, s que no fazia com que o resto das coisas desaparecesse. Olhou para cima, para a janela do segundo andar, 
enquanto andava ao redor da casa. O garoto estava l, tentando se recompor. E ele estava ali fora, tentando fazer a mesma coisa.
      O olhar que o garoto lhe lanara, pensou Cam, pouco antes de as coisas comearem a ficar lacrimosas... aquilo mexera com ele por dentro. Ele jurava que vislumbrara 
confiana ali, e uma pattica, quase desesperada gratido que o fazia se sentir sem graa e aterrorizado.
      Que diabos ele ia fazer com aqueles sentimentos? E quando as coisas todas se assentassem e ele conseguisse tocar a prpria vida adiante? Isso tinha de acontecer, 
garantiu a si mesmo. Tinha de acontecer! Ele no podia continuar  frente das coisas daquele jeito. Ningum podia esperar que ele continuasse a levar a vida naquele 
ritmo para sempre. Ele tinha lugares para ir, corridas para disputar e vencer, riscos a correr.
      Assim que tudo estivesse sob controle, assim que eles fizessem o que precisava ser feito em prol do garoto e colocassem de p esse negcio de construo de 
barcos que Ethan sugerira, ele estaria livre para ir e vir para onde bem entendesse novamente.
      S mais alguns meses, avaliou, talvez um ano, e ele poderia cair fora dali. Ningum esperava outra coisa dele.
      Nem mesmo ele prprio.


  Captulo Nove
  
       A vice-diretora, Sra. Moorefield, observava os trs homens que estavam em p na sua sala, parecendo uma muralha humana. A aparncia deles jamais poderia indicar 
que eram irmos. Um usava um terno impecvel e uma gravata com n perfeito. Outro vestia uma camisa preta e jeans. O terceiro usava calas caqui desbotadas e uma 
camisa de trabalho em brim toda amassada.
      Mas dava para ver que naquele momento eles estavam to unidos como trigmeos no tero.
      - Sei que todos vocs tm horrios de trabalho apertados e agenda lotada. Agradeo que tenham vindo juntos.
      - Queremos esclarecer tudo, Sra. Moorefield. - Phillip mantinha um sorriso leve, de negociador. - Seth precisa estar na escola.
      - Concordo. Depois da declarao de Seth ontem, fiz algumas averiguaes. Parece que realmente foi Robert que instigou o incidente. Analisamos com cuidado 
a motivao que levou ao problema. Quanto  questo da tentativa de extorso...
      Cam levantou a mo.
      - Seth, voc exigiu que esse tal de Robert lhe desse um dlar?
      - No. - Seth enfiou os polegares nos bolsos da frente, como vira Cam fazer. - No preciso do dinheiro dele. Nem ao menos falo com ele, a no ser quando aparece 
na minha frente.
      Cam tornou a olhar para a Sra. Moorefield.
      - Seth afirma que ele gabaritou aquele teste e Robert se deu mal na prova. Foi isso o que aconteceu?
      A vice-diretora cruzou as mos sobre a mesa, confirmando:
      - Sim. Os testes foram devolvidos ontem corrigidos, pouco antes do fim da aula, e Seth foi quem conseguiu a maior nota. Agora...
      - A mim parece - Ethan interrompeu-a, com a voz mansa - que Seth falou a verdade, ento. Desculpe, dona, mas se o outro menino mentiu em uma parte da histria 
pode ser que esteja mentindo em todo o resto tambm. Seth afirmou que o menino veio atrs dele, e foi o que aconteceu. Disse que o motivo foi a sua nota no teste. 
Ento eu imagino que tenha sido mesmo.
      - J considerei isso, e a minha tendncia  concordar com o que est argumentando, Sr. Quinn. Conversei com a me de Robert. Ela no est mais satisfeita do 
que os senhores a respeito desse incidente ou sobre o fato de que ambos os meninos devem ser suspensos.
      - A senhora no vai suspender o Seth! - Cam afastou as pernas para ganhar firmeza. - No por causa disso e no sem muita briga!
      - Compreendo como os senhores se sentem. Entretanto, socos foram trocados. Violncia fsica no pode ser permitida aqui.
      - Eu concordaria com a senhora, Sra. Moorefield, na maioria das circunstncias. - Phillip colocou a mo no brao de Cam para evitar que ele desse um passo 
 frente. - No entanto, Seth j vinha sendo atacado, fsica e verbalmente. Ele se defendeu. Deveria haver um professor monitorando o corredor durante as mudanas 
de sala, entre os horrios das aulas. Seth deveria ter a oportunidade de ter por perto um adulto em quem confiasse, deveria ter o sistema para proteg-lo. Por que 
razo no havia ningum l para representar esse papel?
      A Sra. Moorefield encheu as bochechas e soltou o ar, afirmando:
      - Essa  uma pergunta razovel, Sr. Quinn. No vou agora comear a me lamentar a respeito de cortes nas verbas, mas o fato  que  impossvel, com uma equipe 
to pequena quanto a nossa, monitorar todas as crianas em todos os momentos.
      - Sou solidrio com o seu problema, mas Seth no deveria pagar por isso.
      - Tem havido momentos difceis para ele ultimamente - acrescentou Ethan. - Eu no concordo com a idia de que chutar o menino para fora da escola por alguns 
dias possa ajud-lo de algum modo. Educao deveria ser mais do que apenas aprender coisas novas... pelo menos, foi isso o que nos foi ensinado. Um sistema de educao, 
supostamente, deveria ensinar um jovem a construir o seu carter e ajud-lo a enfrentar o mundo. Se a senhora diz ao menino que ele est levando um chute no traseiro 
por ter feito o que era certo e por defender a si mesmo, ento h algo de muito errado com esse sistema.
      - Se a senhora der a ele a mesma punio que vai dar ao menino que comeou tudo - completou Cam -, o que na verdade est dizendo a ele  que no h muita diferena 
entre o certo e o errado. Essa no  a escola na qual eu quero que meu irmo estude.
      A Sra. Moorefield uniu as mos, formando uma pirmide, olhou por cima das pontas dos dedos para os trs homens e depois lanou o olhar para Seth.
      - Seus testes de avaliao foram excelentes, Seth, e suas notas esto muito acima da mdia. Entretanto, seus professores informaram que voc raramente faz 
os deveres de casa e mais raramente ainda participa dos debates dentro de sala.
      - J estamos lidando com o problema dos deveres de casa... - Cam deu uma cotovelada de leve no menino - ... certo, Seth?
      - Sim, acho que sim. S que no vejo por qu...
      - Voc no tem que ver nada - cortou Cam, baixando o olhar para ele. - Voc simplesmente tem que fazer e pronto! Ns no podemos sentar na sala de aula ao 
lado dele para obrig-lo a abrir a boca e participar dos debates, mas ele vai trazer todos os deveres de casa feitos.
      - Imagino que sim - murmurou ela. - Quero combinar uma coisa com voc, Seth. Por acreditar em voc, no vou suspend-lo. Mas voc vai ficar sob observao 
aqui na escola durante trinta dias. Se no acontecerem outros incidentes ou tumultos e seus professores me relatarem que voc melhorou na questo da entrega dos 
deveres de casa, vamos encerrar esse assunto. No entanto, seu primeiro compromisso com relao aos deveres de casa est sendo determinado neste instante, e por mim: 
voc tem uma semana para escrever uma redao de mais ou menos quinhentas palavras sobre o perigo da violncia na sociedade e a necessidade de resolues pacficas 
para resolver os problemas.
      - Ah... puxa!
      - Cale a boca - ordenou Cam com a voz baixa. - Isso  justo,
      - disse  Sra. Moorefield. - Ns agradecemos muito.
      - At que a coisa no foi assim to mal - comentou Phillip ao sair da escola para a manh ensolarada, enquanto movimentava os ombros para relaxar.
      - Fale por voc. - Ethan colocou o bon de volta na cabea. - Eu estava suando frio. No quero nunca mais ter que passar por isso na vida. Deixem-me junto 
do cais. Dali eu posso arrumar uma carona na embarcao de algum at onde est o meu barco. Jim est trabalhando nele, e j deve ter pego um monte de caranguejos 
a essa altura.
      - S no esquea de levar para casa a nossa parte, logo mais - lembrou Cam enquanto entrava no Land Rover azul-marinho de Phillip, que brilhava de to bem 
polido. - E no se esquea de que temos companhia para jantar.
      - No vou esquecer - resmungou Ethan. - Diretoras de manh, assistentes sociais de noite. Minha nossa, a cada vez que eu olho para o lado tenho que conversar 
com algum.
      - Pretendo manter a Srta. Spinelli ocupada.
      - Voc no consegue deixar as mulheres em paz, no ? - Virou-se Ethan, tornando a olhar para Cam.
      - Por que eu faria isso? Elas esto por a.
      -  melhor algum comprar mais cerveja. - Ethan simplesmente suspirou.
      Cam se apresentou como voluntrio para comprar a cerveja no final da tarde. No era por altrusmo. Simplesmente achava que no ia conseguir agentar ouvir 
Phillip nem por cinco minutos mais. Ir ao mercado era a melhor forma de escapar da casa e ficar longe da tenso, enquanto Phillip preparava o esboo e aperfeioava 
a carta que ia enviar para a seguradora, em seu pequeno computador, um sofisticado notebook.
      - Traga alguns troos para preparar uma salada, aproveitando que voc vai l! - berrou Phillip, fazendo com que Cam voltasse na mesma hora e colocasse a cabea 
para dentro da porta da cozinha, onde Phillip continuava a trabalhar sem parar, sentado  mesa.
      - Como assim alguns troos para preparar salada?
      - Ah... verduras... pelo amor de Deus, no me aparea aqui com uma cebola e dois tomates de estufa, sem gosto. Eu fiz um molho vinagrete muito gostoso no outro 
dia e no tinha porcaria nenhuma de verdura onde eu pudesse colocar a droga do molho. Traga uns tomates gordos, vermelhos e bonitos, se eles estiverem decentes.
      - E por que ns precisamos de saladas e tudo isso? Phillip soltou um suspiro e parou de digitar.
      - Primeiro, porque todos ns queremos levar vidas longas e saudveis, e segundo, porque voc convidou uma mulher para jantar, uma mulher que vai reparar como 
ns estamos lidando com as necessidades nutricionais de Seth.
      - Ento vai voc na droga do mercado!
      - Legal, eu vou! E voc fica aqui, escrevendo essa droga de carta. Cam preferia ser queimado vivo, e resmungou:
      - Verduras... faa-me o favor!
      - E traga tambm po francs. E estamos quase sem leite. Ah, e j que eu vou trazer meu processador de frutas da prxima vez que voltar de Baltimore, pegue 
tambm algumas frutas frescas, umas cenouras, abobrinhas. V escrevendo que eu vou ditar uma lista.
      - Pera, agenta um instante! - Cam comeou a sentir as coisas lhe escapando do controle e lutou para ficar firme. - Vou s pegar uma cerveja.
      - Baguetes de po integral... - murmurou Phillip enquanto voltava a escrever usando o teclado.
      
      * * *
      
      Trinta minutos depois, Cam se viu analisando o balco de verduras do mercado. Qual seria a diferena entre alface lisa, crespa e romana e por que ele devia 
se importar com isso? Como defesa, comeou a jogar tudo no carrinho, aleatoriamente.
      Sentindo que aquilo funcionou, fazendo-o se sentir melhor, fez a mesma coisa em todos os corredores. No momento em que chegou ao caixa, estava com dois carrinhos 
transbordando de latas, caixas, garrafas e pacotes.
      - Minha nossa... vocs devem estar preparando uma festa!
      - Temos grande apetite - contou ele  senhora que estava no caixa, e depois de vasculhar o crebro tentando se lembrar do nome dela conseguiu: - Como vo as 
coisas, Sra. Wilson?
      - Ah, est tudo bem. - E comeou a correr os produtos com rapidez e eficincia pela esteira, escaneando os preos, os dedos com unhas pintadas de vermelho 
movendo-se com a rapidez de um relmpago. - S posso lhe dizer que est um dia lindo demais para uma pessoa como eu ficar enfiada em um lugar como este, trabalhando. 
Acabo meu horrio daqui a uma hora e vou direto sair para pegar uns caranguejos por a com o meu neto.
      - Pois ns vamos preparar um jantar com caranguejos. Talvez devesse levar uns pescoos de frango para a armao que fica na nossa doca.
      - Ethan deve ter alguns pescoos de frango no freezer, imagino. Fiquei terrivelmente arrasada pelo que aconteceu com Ray - acrescentou ela. - No consegui 
falar com vocs direito depois do funeral. Vamos todos sentir muito a falta dele, com certeza. Ele costumava vir at aqui uma ou duas vezes por semana, depois que 
Stella se foi, e comprava pilhas de caixas de comida pronta, dessas de microondas, para comer. Eu lhe dizia: "Ray, voc tem que se tratar melhor. Um homem precisa 
de um bom bife de vez em quando", mas eu sei que  muito difcil cozinhar para um s quando a gente est acostumado com famlia grande.
      - ... - Era tudo o que Cam podia dizer. Ele fazia parte da famlia. Estivera l e sabia como era.
      - Ray tinha sempre uma histria para contar a respeito de um de vocs, os meninos dele. Exibia recortes com fotos e notcias de jornais estrangeiros falando 
de voc. Corridas aqui, corridas ali... e eu perguntava- "Ray, como  que voc pode saber se o menino ganhou ou no essas corridas se est tudo escrito em francs?", 
e ele simplesmente ria. Pesando um saco cheio de mas, ela digitou um cdigo e continuou: - _E como vai aquele menino, como  mesmo o nome dele?
      Sam?...
      - Seth - murmurou Cam. - Ele est bem.
      - Um menino muito bonito. Eu disse para o Sr. Wilson, quando
      Ray o trouxe para casa: "Veja s, Ray  assim mesmo, est sempre com a porta de sua casa aberta." No sei como  que um homem com aquela idade esperava lidar 
com um menino novinho como aquele, mas, se algum sabia como fazer isso, esse algum era Ray Quinn. Ele e Stella cuidaram muito bem de vocs trs.
      Como ela sorriu e piscou o olho, Cam sorriu de volta, dizendo:
      - Cuidaram mesmo. E olhe que ns demos um bocado de trabalho.
      - Eu torci muito para que desse tudo certo para eles dois. E esperava que o menino, Seth, fosse servir de companhia para Ray depois que vocs todos cresceram 
e saram de casa, cada um com a sua vida. Quero que voc saiba que eu no concordo com aquilo que algumas pessoas andam dizendo. No mesmo!
      Sua boca ficou mais fina e firme enquanto registrava trs caixas gigantes de cereais. Com um estalar de lngua e um balanar de cabea, continuou:
      - Digo a eles bem na cara, quando acontece de eu ouvir essas fofocas degradantes, que se eles tm um pouquinho de esprito cristo no corao deviam cuidar 
melhor das suas lnguas.
      Seus olhos brilharam com fria e lealdade.
      - No preste ateno a nenhuma dessas conversas, Cameron, no preste mesmo... que idia  essa de que o Ray poderia ter se metido com aquela mulher e que o 
menino tinha seu prprio sangue e era filho dele... Ningum que tenha um pingo de decncia poderia acreditar nessa histria ou achar que ele atirou o carro contra 
aquele poste de propsito. Olhe, me d at enjo s de ouvir essas coisas.
      Aquilo estava provocando enjo era em Cam. Pediu a Deus para nunca mais ter que voltar ali.
      
      - Algumas pessoas acreditam em mentiras, Sra. Wilson. Algumas pessoas preferem acreditar nelas.
      - Isso  verdade - concordou com a cabea, balanando-a para a frente com fora duas vezes. - E mesmo que no acreditem gostam de espalhar a histria por a... 
Quero que vocs saibam que o Sr. Wilson e eu considervamos Ray e Stella bons amigos, e gente muito boa. Qualquer um que diga algo que eu no goste a respeito deles 
vai ter que aturar alguns desaforos.
      - Pelo que eu me lembro, a senhora era boa nisso. - Cam teve de rir.
      Ela riu tambm, uma espcie de soluo feliz, concordando.
      - Eu bem que disse uns desaforos para voc, naquela vez em que voc veio se chegando muito perto da minha Caroline, no foi? Ento acha que eu no sei quais 
eram as suas intenes, garoto?
      - Caroline era a menina mais bonita da escola.
      - E ainda  uma pintura!  com o filho dela que eu vou tentar pegar alguns caranguejos daqui a pouco. Ele vai completar quatro anos nesse vero. E ela est 
esperando o segundo, j vai pelo sexto ms de gravidez... o tempo voa...
      Pelo jeito era verdade, pensou Cam quando entrou de volta em casa, completamente carregado de sacolas. Sabia que a Sra. Wilson falara aquilo tudo por bem, 
mas certamente conseguiu deix-lo deprimido.
      Se uma pessoa que havia sido amiga to leal dos seus pais estava ouvindo essas mentiras nojentas, ento elas estavam se espalhando mais depressa e eram mais 
exageradas do que ele imaginava. Quanto mais eles teriam que esperar, fingindo ignorar os boatos, antes que tivessem que fazer declaraes negando tudo para mostrar 
a todos a posio dos filhos?
      Agora ele estava com receio de que no haveria outra escolha seno a de seguir o conselho de Phillip e procurar pela me de Seth.
      O garoto ia detestar o fato, e Cam sabia disso. O que aconteceria com o lampejo de confiana que vira nos olhos de Seth?
      - Aposto que voc vai querer uma mozinha com todas essas sacolas - disse Phillip, entrando na cozinha. - Eu estava ao telefone, com o advogado. A guarda temporria 
j est garantida.  um passo  frente pelo menos.
      - timo. - E comeou a relatar a conversa no mercado, mas resolveu deixar para outra hora. Afinal de contas, droga, eles haviam vencido duas batalhas naquele 
dia. Ele no ia estragar o resto da noite por causa de algumas lnguas afiadas.
      - Tem mais no carro - avisou a Phillip.
      - Mais o qu?
      - Sacolas.
      - Mais? - Phillip olhou para a meia dzia de sacolas que ainda esperavam para ser levadas para dentro. - Nossa, Cam, no havia nem vinte coisas naquela lista.
      -  que eu resolvi aument-la - disse e pegou uma caixa, jogando-a sobre o balco. - Ningum vai ficar com fome por aqui, pelo menos por algum tempo.
      - Voc comprou Twinkies? Twinkies? Voc  uma das pessoas que acreditam que esses bolinhos recheados com creme esto entre os quatro maiores grupos nutricionais?
      - O garoto provavelmente vai voar em cima deles.
      - Claro que vai. E voc pode pagar a conta do dentista depois. Com a raiva perigosamente prxima do ponto de exploso, Cam girou o corpo.
      - Escute aqui, meu chapa, aquele que vai ao mercado compra o que bem quiser e entender! Essa vai ser a nova norma por aqui! Agora quer fazer o favor de pegar 
aqueles troos todos no carro antes que a bosta toda apodrea?
      Phillip simplesmente levantou uma sobrancelha.
      - J que comprar comida deixa voc com um astral to bom, eu posso assumir essa pequena tarefa de agora em diante. E  melhor a gente comear a separar um 
pouco de dinheiro, a fim de deixar sempre alguma grana em casa para os artigos do dia-a-dia.
      - timo! - Cam acenou com a mo, dispensando-o. - Voc cuida disso.
      Quando Phillip saiu, Cam comeou a enfiar caixas e latas onde quer que coubessem. Resolveu deixar para algum organizar tudo com calma depois. Na verdade, 
preferia que qualquer outra pessoa cuidasse daquilo. Sentiu que estava cheio de tudo, e ia ficar assim por algum tempo.
      Tornou a sair e, quando chegou  porta da frente, viu que Seth acabara de chegar em casa. Phillip estava lhe passando algumas sacolas, e os dois conversavam 
com descontrao, como se no tivessem problema algum no mundo.
      Assim, era melhor sair pelos fundos, decidiu, e deixar os dois cuidarem das coisas por algumas horas. Ao se virar, viu o cozinho dar um ganido e em seguida 
se agachar para fazer xixi no tapete.
      - Imagino que agora voc est esperando que eu limpe essa sujeira, no ? - E quando Bobalho balanou a cauda com alegria e deixou a lngua pendurada, tudo 
o que Cam conseguiu fazer foi fechar os olhos.
      - Eu continuo a achar que essa histria de ter que fazer uma redao foi um mau negcio - reclamava Seth enquanto entrava em casa. - Esse tipo de coisa  um 
saco! No vejo em que...
      - Mas voc vai fazer a redao sim! - Cam pegou a sacola das mos de Seth. - ... E no quero ouvir mais reclamaes a respeito disso! Pode comear logo depois 
que limpar a mijada que o seu cachorro acabou de fazer no tapete.
      - Meu cachorro? Ele no  meu.
      - A partir de agora ! E  melhor trein-lo para fazer as necessidades dele no quintal ou ele vai ficar do lado de fora da casa.
      E saiu pisando duro em direo  cozinha com Phillip, que tentava desesperadamente prender o riso, seguindo logo atrs.
      Seth ficou parado no mesmo lugar em que estava, olhando para Bobalho.
      - Cachorro burro! - murmurou, e, ao se abaixar, o cozinho se atirou nos braos do menino, onde foi recebido com um abrao apertado. - Voc  o meu co agora...
      
      
      Anna disse a si mesma que poderia e deveria se comportar de forma perfeitamente profissional durante o jantar  noite. Pediu permisso a Marilou, sua chefe, 
para efetuar a visita informal, s para manter o assunto em nvel oficial. A verdade, porm,  que ela realmente estava querendo rever Seth. Tanto quanto queria 
rever Cam.
      Por motivos diferentes, certamente, e talvez em pores diferentes dela, mas queria rever a ambos. Ela conseguiria lidar com os dois lados, o corao e a mente. 
Sempre fora capaz de separar as diferentes reas de sua vida em compartimentos estanques e conduzi-las todas de forma satisfatria.
      Aquela situao no seria nem um pouco diferente.
      Uma ria de Verdi, selvagem e apaixonada, saa dos alto-falantes do carro. Ela levantou o vidro um pouco, o bastante para que a brisa no desmanchasse seu 
cabelo. Tinha a esperana de que os Quinn permitissem a ela alguns momentos a ss com Seth, para que pudesse julgar por si mesma, sem influncia, como ele estava 
se sentindo.
      Tinha a esperana tambm de conseguir alguns momentos a ss com Cam, para que pudesse julgar por si mesma como ela estava se sentindo.
      Formigando, admitiu. Carente.
      Mas nem sempre era necessrio ou possvel atuar baseada em sentimentos, por mais forte que eles pudessem ser. Se, depois de tornar a v-lo, ela sentisse que 
seria melhor para todos os envolvidos que ela desse um grande passo para trs, faria isso.
      Ela no tinha dvidas de que aquele homem possua uma determinao de ferro. Mas Anna Spinelli tambm era determinada. Ela podia competir com Cameron Quinn 
nessa rea a qualquer tempo. E ganhar dele.
      Enquanto se tranqilizava a respeito desse fato simples, Anna virou para a direita com o seu elegante carrinho, parando na entrada da casa. Cam saiu na mesma 
hora para a varanda.
      Os dois ficaram exatamente onde estavam por um momento, com os olhos fixos um no outro. Quando ele saiu da varanda e foi at a calada, com o corpo musculoso 
coberto por uma roupa preta apertada, os cabelos escuros despenteados e os misteriosos olhos da cor de fumaa, o corao de Anna deu um pulo incontrolvel dentro 
do peito e pareceu cair de volta com um baque surdo.
      Ela queria aquela boca robusta colada na sua, aquelas mos speras espalmadas em seu corpo. Queria aquele corpo msculo sobre o dela, deixando-a imobilizada 
sobre um colcho e se movendo com a velocidade que era uma parte to vital da vida dele. Era idiotice tentar negar tudo isso.
      Mas ela ia conseguir lidar com ele, prometeu a si mesma. S esperava que pudesse lidar consigo mesma.
      Saltou do carro, usando um palet formal cor de palha com ombreiras. Seus cabelos estavam presos atrs da cabea e pareciam rgidos, sob controle. Seus lbios 
sem batom se curvaram em um educado sorriso, embora distante, e ela trazia a sua pasta de trabalho.
      Por motivos que desconhecia, Cam sentiu exatamente a mesma reao que tivera ao v-la chegar pelo corredor de seu prdio fazendo barulho no cho com os saltos 
tipo agulha naquela noite chuvosa: um desejo instantneo e violento por ela.
      Quando ele foi se encaminhando na direo dela, Anna colocou a cabea ligeiramente de lado, quase de forma imperceptvel, mas o bastante para enviar-lhe um 
aviso. A mensagem de "mos longe de mim" era clara como um sinal de trnsito.
      Ao chegar junto dela, porm, ele se inclinou um pouco em sua direo e cheirou o seu cabelo, dizendo:
      - Voc fez isso de propsito!
      - Fiz o que de propsito?
      - Misturou o terninho de trabalho em estilo "no me toque" com o perfume de deusa do sexo s para me deixar maluco.
      - Ento se ligue no terninho srio, Quinn, e fique sonhando com o perfume. - Ela passou ao lado de Cam, olhando com frieza para a mo dele quando ela se fechou 
sobre o seu brao. - Se voc no ficar se ligando no terninho...
      - Eu gosto de brincar de joguinhos de seduo tanto quanto qualquer cara, Anna. - Apertou-lhe o brao, at que ela se virou e eles ficaram novamente face a 
face. - S que acho que voc escolheu um mau momento para esse joguinho de hoje.
      Havia algo mais nos olhos dele, Anna reparou, algo alm do desejo e da irritao. E ao perceber que era infelicidade amoleceu o corao, perguntando:
      - Aconteceu alguma coisa? H algo de errado?
      - H algo de certo? - atirou ele de volta.
      - Foi um dia difcil? - E colocou a mo sobre a dele, que continuava agarrada ao seu brao, apertando-a ligeiramente.
      - Sim. No. Um inferno! - Desistindo, ele a soltou e se encostou no cap do carro. Verdade seja dita, ela demonstrou um pouco de compaixo e conseguiu franzir 
a testa, mesmo depois de ter se mostrado sem emoes e controlada. - Aconteceu um problema na escola hoje de manh.
      - Problema?
      - Voc provavelmente vai receber algum relatrio oficial ou algo assim a respeito do que aconteceu, portanto eu gostaria de lhe explicar o nosso lado da questo 
pessoalmente.
      - -h... o lado de vocs... bem, vamos ouvi-lo.
      E ele contou tudo a ela, sentindo-se novamente enfurecido ao chegar ao ponto em que descobriu as marcas roxas no brao de Seth. Acabou se afastando do carro 
e comeou a andar de um lado para outro, enquanto terminava de contar a histria e a forma como tudo havia sido resolvido.
      - Voc fez muito bem - murmurou Anna, quase rindo quando ele parou e olhou para ela com ar desconfiado. -  claro que agredir o outro menino no era a atitude 
correta, mas...
      - Pois eu acho que foi uma atitude danada de correta!
      - Sei que sim, mas vamos deixar isso de lado por agora. O que quero dizer  que voc agiu de modo responsvel e lhe deu apoio. Voc se agachou junto dele, 
ouviu tudo, convenceu Seth a lhe contar toda a verdade e ento se colocou do lado dele. Duvido que ele esperasse isso de voc.
      - E por que razo eu no agiria assim... por que razo? Seth estava certo!
      - Pois, pode acreditar, nem todo mundo encara um confronto para defender os filhos.
      - Ele no  meu filho,  meu irmo!
      - Ento nem todo mundo encara um confronto para defender o irmo - corrigiu ela. - O fato de vocs trs terem ido at l hoje de manh foi o certo a fazer, 
foi excelente e, novamente, mais do que muita gente faria, infelizmente. Foi uma barreira ultrapassada por todos juntos, e imagino que voc compreenda isso. Foi 
essa histria que o deixou chateado?
      - No, isso  bobagem.  que h outras coisas... no importa. - Ele no pretendia contar a ela a respeito da investigao que estavam fazendo sobre a morte 
do pai nem sobre as fofocas que rolavam na cidade, especialmente em um momento imprprio como aquele. Alm do mais, achou que no pesaria muito a seu favor o fato 
de estar se sentindo preso a uma armadilha e sonhando em escapar dela.
      - Como Seth encarou o problema?
      - Ele est numa boa. - Cam encolheu um dos ombros. - Fomos velejar ontem, pescamos um pouco. Farreamos o dia todo.
      Ela tornou a sorrir, e dessa vez com o corao.
      - Eu gostaria de ter estado l para ver isso tudo acontecendo. Voc est comeando a se amarrar nele.
      - Do que est falando?
      - De voc, que est comeando a se importar com ele em nvel pessoal. Seth est comeando a ser mais do que apenas uma obrigao ou uma promessa que tem que 
ser cumprida. Ele  importante para voc.
      - Eu prometi que ia cuidar dele.  o que estou fazendo.
      - Mas ele  importante para voc - repetiu ela. -  isso que est deixando voc preocupado, Cam. Deve estar tentando descobrir como vo ser as coisas se voc 
comear a se ligar demais a ele... e como evitar que isso acontea.
      Cam olhou para ela, notou o jeito com que o sol baixava lentamente por trs de sua silhueta, reparou o modo com que os olhos dela se mantinham focados e quentes 
nos dele. Talvez ele estivesse se preocupando sim, admitiu, e no apenas com as mudanas nos sentimentos que nutria por Seth.
      - Eu termino tudo o que comeo, Anna. E no sou de abandonar a famlia, deixando-a na mo. Acho que o garoto se qualifica nesse ltimo caso. O problema  que 
sou um tremendo egosta. Pode perguntar a qualquer um.
      - Certas coisas eu prefiro descobrir por mim mesma. E agora vou conseguir comer aquele caranguejo ou no?
      - Ethan j deve estar com o panelo preparado. - Ele se moveu na direo dela, como se fosse lev-la para dentro. Ento, notando que ela relaxara e baixara 
a guarda, jogou-a em seus braos e agarrou-a, dando-lhe um beijo quente, daqueles de arrasar.
      - Viu, isso foi para mim - murmurou ele, quando os dois j estavam sem flego e tremendo. - Quando eu quero, eu pego! Avisei a voc que eu era egosta.
      Anna se afastou um pouco, alisou com toda a calma seu palet, que ficara todo amassado, e passou a mo no cabelo, para se assegurar que continuava no lugar.
      - Desculpe discordar de voc, mas eu curti o que acabou de acontecer tanto quanto voc. Portanto, isso no qualifica o ato como egosmo.
      - Ento, deixe-me tentar convencer voc de novo - riu ele, enquanto sua pulsao comeava a acelerar. - Voc vai ver como eu realmente sou egosta.
      - No, fica para outra hora. Quero o meu jantar. - E dizendo isso foi caminhando, comeou a subir os degraus lentamente, deu uma batidinha curta na porta e 
entrou na casa.
      Cam continuou no mesmo lugar em que estava, rindo. Ali estava uma mulher, pensou, que iria tornar memorvel aquele captulo de sua vida.
      No momento em que Cam resolveu segui-la, entrou na casa e foi andando at a cozinha, viu que Anna j estava batendo papo com Phillip e aceitando um clice 
de vinho.
      - Com caranguejo a gente bebe cerveja - avisou Cam, e pegou uma pequena garrafa na geladeira para si mesmo.
      - No momento eu no estou comendo caranguejo algum. Alm do mais, Phillip me assegurou que este aqui  um vinho excelente - disse, e provou, avaliando a bebida 
e concordando em seguida. - E ele est absolutamente certo.
      -  um dos meus vinhos favoritos. - Vendo que Anna aprovara, Phillip completou o clice que ela segurava. -  macio, desce suave e no  muito forte.
      - Phil  um desses esnobes que manja de vinhos. - Cam girou a tampa e levou a garrafa de cerveja Harp aos lbios. - Mesmo assim, a gente deixa que ele more 
aqui com a gente.
      - E como  que as coisas esto funcionando? - Anna perguntou a si mesma se eles tinham noo de como a casa parecia masculina. Arrumadssima, certamente, mas 
sem um mnimo toque feminino. - Deve ser estranho vocs trs terem que se ajustar uns aos outros para tornarem a morar juntos na mesma casa.
      - Bem, no nos matamos... - Cam lanou um sorriso para o irmo, com os dentes cerrados - ... ainda.
      - E onde est Seth? - perguntou ela, rindo, enquanto ia at a janela.
      - Est com Ethan - disse Phillip. - Esto preparando os caranguejos l no poo.
      - No poo?
      -  um buraco no cho, l fora, ao lado da casa. - Cam pegou a mo dela e a levou at a janela. - Mame jamais permitiu que a gente preparasse caranguejo dentro 
de casa. Era mdica, mas mesmo assim se impressionava com facilidade. No gostava de ver. - Puxou-a pela mo at a varanda e desceu os degraus enquanto falava. - 
Papai construiu esse poo com tijolos do lado de fora da casa. Despencou tudo no primeiro vero que eu passei aqui. Ele no sabia muito bem trabalhar com tijolos. 
Mas ns o reconstrumos.
      Assim que chegaram ao canto da casa e viraram, ela viu Ethan e Seth em p ao lado de uma chaleira gigantesca pendurada sobre uma fogueira preparada dentro 
de um poo de tijolos meio tortos. A fumaa subia em rolos, e de um imenso barril de ao no cho vinha o som dos arranhes e das batidas das pinas dos caranguejos.
      Anna olhou do barril para a chaleira e depois para o barril de novo, informando:
      - Sabem de uma coisa?  bem capaz de eu tambm ficar um pouco impressionada com isso.
      Deu um passo para trs e se virou para apreciar a vista da gua. Nem mesmo se importou quando Cam comeou a rir dela, especialmente depois de ouvir a voz de 
Seth bem alta, demonstrando uma imensa empolgao.
      - Voc vai jog-los a dentro agora? Puta merda, cara, isso  muito nojento!
      - Eu pedi para ele moderar a linguagem hoje  noite, mas ele ainda no reparou que voc chegou.
      Ela apenas balanou a cabea, dizendo:
      - Ele est me soando bem normal. - Recuou um pouco e franziu a testa ao ouvir o barulho das pinas aumentar e as exclamaes selvagens de Seth, que misturavam 
delrio com nojo. - Eu diria que o que est acontecendo ali adiante  brbaro o bastante para deix-lo assim to empolgado. - Sua mo se levantou depressa, de forma 
protetora, para segurar os cabelos quando sentiu um puxo neles.
      - Gosto mais deles soltos. - Cam atirou bem longe o grampo que acabara de tirar dos cabelos dela.
      - Mas eu gosto deles presos - disse ela de forma indulgente, enquanto comeava a caminhar na direo da gua.
      - Aposto que a gente vai bater de frente a respeito de todo tipo de coisas. - Tomou um pouco mais de cerveja e lanou-lhe um olhar de lado enquanto caminhavam. 
- Isso deve manter as coisas bem interessantes.
      - Duvido que um de ns v ter a chance de se sentir entediado com relao a isso. Seth vem primeiro, Cam. Estou falando srio! - Fez uma pausa, ouvindo o bater 
lnguido e musical da gua contra os cascos dos barcos e contra as margens inclinadas. Sobre uma das estacas havia um imenso ninho, e diversas bias subiam e desciam 
ao sabor da mar.
      - Eu posso ajud-lo, Cam, e vai ser pouco provvel que a gente v sempre concordar sobre o que  melhor para ele. Porm,  essencial manter essas questes 
bem definidas e completamente separadas umas das outras quando ns acabarmos indo para a cama.
      Ele se sentiu grato por no ter tomado outro gole, pois sem dvida teria se engasgado seriamente.
      - Acho que consigo fazer isso - afirmou.
      Ela levantou a cabea quando viu uma gara flutuando no ar, acima deles, e se perguntou se o ninho pertencia a ela.
      - Quando eu estiver certa de que consigo, podemos usar a minha cama. Meu apartamento  bem mais reservado que a sua casa.
      Ele passou a mo sobre o estmago em uma intil tentativa de se acalmar. 
      - Moa, voc  bem atirada, no ?
      - Qual a finalidade de agir de outro modo? Ns dois somos adultos, desimpedidos. - Lanou-lhe um olhar engraado, balanando os clios e depois levantando 
uma sobrancelha. - Se voc  do tipo que preferia que eu fingisse insegurana e me mostrasse relutante at o momento final da seduo, sinto muito.
      - No, no!... para mim est muito legal desse jeito mesmo. - Isso se ele no acabasse superaquecendo e explodindo nesse meio-tempo. - Sem joguinhos, sem desculpas, 
sem fingimentos, sem promessas... De onde, diabos, voc veio? - perguntou, fascinado.
      - Pittsburgh - disse ela com um tom leve, e comeou a caminhar de volta para a casa.
      - No foi isso o que eu quis dizer.
      - Eu sei. Mas, se voc pretende dormir comigo, deveria demonstrar algum interesse em fatos bsicos. Sem jogos, sem desculpas, fingimentos nem promessas. Isso 
tudo  legal, mas eu no transo com estranhos.
      Ele colocou a mo em seu brao antes que ela continuasse a andar e se aproximasse demais da casa. Queria mais um instante com ela a ss.
      - Tudo bem ento, Anna... Quais so os fatos bsicos?
      - Tenho vinte e oito anos, sou solteira, de descendncia italiana. Minha me... morreu quando eu tinha doze anos, e eu fui criada basicamente pelos meus avs.
      - Em Pittsburgh.
      - Isso mesmo. Eles so maravilhosos. Retrgrados, enrgicos, amorosos. Sei preparar um molho para massas com tomate peneirado que  fantstico. A receita vem 
passando de gerao para gerao em minha famlia. Mudei-me para Washington logo depois de me formar, trabalhei l e fiz mais alguns cursos. Mas a cidade no me 
satisfez.
      - Poltica demais?
      - Sim, e urbana demais. Estava em busca de algo um pouco diferente, e foi assim que acabei aqui.
      Cam olhou em volta do quintal tranqilo e das guas plcidas, comentando:
      - Aqui  bem diferente de Washington, sem dvida!
      - E eu gosto. Tambm gosto de romances com suspense, filmes com contedo e qualquer tipo de msica, com exceo de jazz. Leio revistas comeando pela ltima 
pgina, no sei por que, e embora me sinta  vontade com todo tipo de gente, no curto muito recepes grandiosas nem importantes acontecimentos sociais.
      Parou de falar, considerando o que j contara. Mais tarde eles veriam, decidiu, o que mais ele queria descobrir a respeito dela.
      - Acho que  o bastante para voc saber de mim, por ora, e o meu clice j est quase vazio.
      - Voc no  nem um pouco parecida com a primeira impresso que tive quando a vi.
      - No? Pois voc me parece exatamente o que eu achei que fosse.
      - Voc fala italiano?
      - Fluentemente.
      Ele se inclinou e murmurou em italiano uma sugesto bem explcita e sexualmente muito pesada em seu ouvido. Algumas mulheres teriam lhe dado uma bofetada, 
outras talvez soltassem risadinhas, e outras certamente ficariam vermelhas de vergonha. Anna simplesmente soltou um som musical:
      - Seu sotaque  medocre, mas sua imaginao  excepcional. - E deu-lhe um tapinha no brao. - No se esquea de voltar a me propor isso... qualquer hora dessas.
      - Vou sim, com certeza - murmurou Cam, enquanto a observava rindo de forma descontrada e aberta para Seth, enquanto ele vinha desabalado dos fundos da casa.
      - Oi, Seth! - cumprimentou ela.
      Ele parou de repente, quase escorregando. Aquele olhar desconfiado e distante surgiu em seus olhos, e seus ombros pareceram se encurvar.
      - Oi - respondeu ele. - Ethan mandou avisar que a gente pode comear quando vocs quiserem.
      - timo, estou morrendo de fome. - Embora soubesse que ele estava se segurando para se manter longe dela, continuou caminhando em sua direo. - Ouvi dizer 
que voc saiu para velejar ontem.
      O olhar de Seth se desviou dela e se lanou em Cam, com ar de acusao.
      - Foi. E da?...
      - E da que eu jamais velejei - disse depressa, sentindo que o ar que Cam inspirou com fora era uma espcie de lembrete para que o menino se comportasse. 
- Cam se ofereceu para me levar junto com vocs uma hora dessas.
      - O barco  dele. - Ento, reparando na cara feia que Cam lhe exibiu, Seth encolheu os ombros. - Claro, isso seria muito legal. Agora eu vou ter que forrar 
o piso da varanda com uma tonelada de jornais.  assim que a gente come caranguejo.
      - Certo - concordou ela. Antes que ele tornasse a sair correndo, ela se inclinou e falou em seu ouvido: - Ainda bem para ns dois que no foi Cam quem preparou 
a comida hoje.
      Isso fez com que o menino desse uma risadinha abafada e acabasse soltando um sorriso rpido, antes de se virar e correr para dentro da casa.


  Captulo Dez
      
      At que ela no era to mal. Para uma assistente social. Seth chegou a essa concluso a respeito de Anna depois de pensar muito, quando foi para o seu quarto 
sob a desculpa de que ia comear a preparar a sua redao antiviolncia. Em vez disso, estava fazendo diversos desenhos e esboos, todos de rostos de pessoas. Ele 
tinha uma porcaria de uma semana inteira para preparar a droga da redao, no tinha? No ia levar mais do que umas duas horas, a partir do momento em que resolvesse 
comear. O que era o maior sufoco, mas bem melhor do que deixar o gorducho do Robert e sua cara redonda v-lo tomar suspenso.
      Ele ainda podia fechar os olhos e trazer  mente a imagem dos trs Quinn em p na sala da diretora. Os trs homens enfileirados ao seu lado e enfrentando a 
todo-poderosa Sra. Moorefield. Era to... legal, decidiu, e comeou a rabiscar um esboo daquele instante em seu caderno.
      Ali estava Phillip, com seu terno sofisticado, o cabelo bem cortado e seu rosto um pouco estreito. Ele parecia uma daqueles caras de anncios de revistas, 
pensou Seth, que vendem troos caros para sujeitos ricos.
      A seguir, esboou o rosto de Ethan, com a cara muito sria, avaliou Seth, e com os cabelos meio despenteados, embora Seth se lembrasse de como ele passara 
o pente neles com todo o cuidado antes de entrar na escola. Ele parecia exatamente o que era. Um tipo de cara que ganhava a vida e passava todo o tempo ao ar livre.
      E ento foi a vez de Cam, com uma cara de mau, toda amarrada, alm de um pouco de dureza no olhar. Os polegares enfiados nos bolsos da frente do jeans. , 
era assim mesmo, reconheceu Seth. Ele quase sempre assumia aquela postura quando estava pau da vida com alguma coisa. Mesmo no esboo feito s pressas, ele parecia 
algum que j havia feito de tudo na vida e planejava fazer ainda muito mais.
      Por ltimo, desenhou a si mesmo, tentando expressar o modo como os outros o viam. Seus ombros eram estreitos e magros, pensou com um pouco de desapontamento. 
Mas nem sempre seriam assim. O rosto era magro demais para o tamanho dos olhos, mas sua face ia mudar tambm. Um dia ele ia ser mais alto, mais forte, e j no ia 
mais parecer um garoto fraco.
      Mesmo assim ele mantivera a sua cabea elevada, no foi? No demonstrara medo de nada. E no parecia que ele estava sobrando na figura. Ele parecia... quase 
como se... pertencesse quele lugar.
      Quem sacaneia um Quinn sacaneia a todos. Era isso que Cam havia dito, e ele deve ter falado srio. Mas ele no era um Quinn, pensou Seth, franzindo a testa 
enquanto avaliava os detalhes do desenho. Ou talvez fosse... simplesmente no sabia ao certo. No se importaria se Ray Quinn fosse realmente o seu pai, como algumas 
pessoas andavam falando. Tudo o que importava era que ele continuasse longe dela.
      Jamais havia importado para ele quem era o seu pai. E isso era uma coisa que continuava a no ter importncia, assegurou a si mesmo. Ele no dava a mnima... 
Tudo o que queria era permanecer ali, bem ali.
      Ningum usara as costas da mo nem os punhos para agredi-lo, e isso j havia meses. Ningum chegara doido, cheio de drogas, e se largara imvel junto dele 
durante tanto tempo que ele achava que a pessoa estava morta. Enquanto torcia secretamente para que estivesse. Nenhum cara cambaleante com as mos suadas tentara 
agarr-lo.
      Ele nem mesmo queria pensar naquilo.
      
      Comer caranguejos havia sido bem legal tambm. Gostoso e tumultuado, lembrou com um sorriso. A gente tem de comer o bicho com as mos. A assistente social 
no se comportara de forma sria nem fresca diante da comida. Tirou o palet, arregaou as mangas da blusa e caiu dentro. No parecia estar vigiando-o para ver se 
ele arrotava, coava a bunda ou algo desse tipo.
      E rira muito tambm, lembrou. Ele no estava habituado a mulheres que riam muito sem estar cheias de cocana na cabea. E o dela era um tipo diferente de riso, 
notara Seth. O riso da Srta. Spinelli no era rasgado, escandaloso ou desesperado. Era baixo, discreto, mais sofisticado, ele diria.
      E ningum falou a ele que era proibido repetir a comida. Nossa, ele era capaz de apostar que comera uns cem daqueles bichos feios. E no se importou nem mesmo 
de comer a salada, embora tivesse fingido que no gostava.
      No tinha aquela sensao de azia e enjo no estmago causado pela fome desesperada j havia bastante tempo... tanto, na verdade, que ele j parecia ter se 
esquecido da sensao. S que, no fundo, no havia. Ele no se esquecera de nada!
      Ele se preocupara um pouco com a possibilidade de a assistente social querer lev-lo dali, de volta para a me, mas ela lhe parecia uma pessoa legal. E ele 
notou que ela dera uns pedaos de caranguejo e po para Bobalho, escondido dos outros, e isso provava que ela no era nem um pouco m.
      Mas teria gostado dela ainda mais se ela fosse uma garonete ou algo desse tipo, como Grace.
      Ao ouvir uma batida de leve na porta do quarto, Seth fechou o caderno de desenhos na mesma hora e rapidamente abriu outro, onde as primeiras frases da sua 
redao de quinhentas palavras estavam rascunhadas.
      - Sim?...
      - Oi. Posso entrar um minutinho? - Anna colocou a cabea no espao da porta entreaberta.
      Era estranho algum pedir a ele para entrar em seu quarto, e ele se perguntou se ela simplesmente ia desistir e virar as costas para ir embora se ele dissesse 
que no. Simplesmente encolheu os ombros, respondendo:
      - Acho que pode...
      - Vou ter que ir embora logo, logo - comeou ela, dando uma olhada em torno no quarto. Uma cama de solteiro, arrumada com a colcha meio torta, tpica de quem 
no sabe fazer a cama, um armrio e uma cmoda em madeira macia, algumas prateleiras nas paredes com alguns livros, um som porttil que parecia muito novo e um 
par de binculos que parecia muito velho. Nas janelas, persianas brancas com lminas estreitas e, nas paredes, tinta verde-clara.
      O cmodo parecia estar precisando de algumas coisas. Trastes tpicos de um menino... Brinquedos antigos quebrados, psteres pregados nas paredes. O cozinho, 
porm, dormindo a sono solto em um canto j era um bom comeo.
      - Legal o seu quarto! - Anna foi at a janela. - Voc tem uma bela vista daqui: gua e rvores. D para apreciar os pssaros. Quando eu me mudei de Washington, 
comprei um livro sobre os pssaros que vivem nesta regio e fazem os ninhos perto da gua, a fim de poder identificar o nome deles. Deve ser muito legal observar 
as garas todos os dias.
      - Acho que sim.
      - Gostei daqui.  difcil no gostar, voc no acha?
      Ele encolheu os ombros e tomou a rota mais cautelosa para responder:
      -  bom... no tenho queixas do lugar. Anna se virou e olhou para o caderno.
      - E ento, Seth, essa  a terrvel redao?
      - ... j comecei a preparar. - Por defesa, puxou o caderno para mais perto de si e acabou derrubando no cho o outro que escondera. Antes que conseguisse 
se abaixar para recolh-lo, Anna se agachou e ela mesma o pegou.
      - Puxa, olhe s para isso! - O caderno cara aberto, em uma folha onde havia o desenho do cozinho, s a sua cabea, e Anna sentiu que o artista que fizera 
aquele desenho conseguira captar a expresso tola e doce do animal de forma perfeita. - Foi voc que fez esse desenho?
      - No  nada de mais! Estou trabalhando na porcaria da redao, no estou?
      Ela poderia ter simplesmente suspirado diante da resposta dele, mas estava totalmente encantada com o desenho.
      -  maravilhoso! Parece direitinho com ele! - Seus dedos coaram para ela virar as folhas, a fim de ver quem ou o que mais Seth desenhara. Resistiu  vontade, 
porm, e devolveu o caderno. - Eu no consigo desenhar de forma decente nem um homem daqueles que parece feito com palitos de fsforo.
      - Isso no foi nada. Fiz s para me distrair.
      - Bem, se voc no quer ficar com o desenho, pode dar para mim?
      Seth achou que aquilo talvez fosse um truque. Afinal, ela tornara a vestir o palet e carregava sua pasta. Estava com cara de representante da Secretaria de 
Servio Social novamente, em vez de se mostrar a mulher que arregaara as mangas e morrera de rir enquanto comia caranguejos cozidos.
      - Para que voc vai querer o desenho?
      -  que eu no posso ter animais de estimao em meu apartamento. No meu caso,  at bom - acrescentou -, porque no seria justo manter o bichinho preso o 
dia todo enquanto estou no trabalho. S que... - e sorriu enquanto olhava para trs para o cozinho adormecido - ... eu adoro cachorros! Quando tiver condies de 
comprar uma casa com quintal, vou ter uns dois ces. At l, porm, vou ter que me contentar em brincar com os cezinhos de outras pessoas.
      Aquilo pareceu estranho a Seth. Em sua cabea, os adultos mandavam em sua vida, faziam o que queriam e na hora em que queriam, muitas vezes com punho de ferro.
      - Por que voc no se muda para outro lugar? - quis saber ele.
      - O lugar onde eu moro fica pertinho do trabalho, o aluguel  razovel. - Tornou a olhar novamente na direo da janela, vendo aquela extenso maravilhosa 
de gua e verde. Estava tudo escondido pelas sombras agora,  medida que a noite avanava. - Vai ter que servir at que eu consiga a casa com jardim e quintal. - 
E foi at a janela mais uma vez, atrada pela vista to calma. A primeira estrela piscou no leste. Ela quase fez um pedido. - Gostaria que fosse um lugar bem perto 
da gua. Como este aqui. Enfim...
      Anna se virou e se sentou na beira da cama, olhando para Seth.
      - Eu s quis subir at aqui antes de ir embora para ver se h alguma coisa sobre a qual voc estivesse com vontade de conversar ou alguma pergunta que quisesse 
me fazer.
      - No. Nada...
      - T legal! - Ela no esperava mesmo que ele fosse conversar com ela  vontade, por enquanto. - Seth, talvez voc queira saber o que eu vejo aqui e o que penso 
a respeito. - Ela avaliou o seu gesto de levantar um dos ombros como afirmativa. - Eu vejo uma casa cheia de caras adultos que esto tentando descobrir a melhor 
forma de conviver uns com os outros e fazer a coisa funcionar. Quatro homens diferentes que ainda esto esbarrando uns nos outros. Acho que esto cometendo alguns 
erros enquanto tentam acertar, e quase que certamente esto irritando uns aos outros e discordando em vrias questes. Mas acho tambm que vo conseguir fazer com 
que tudo d certo e funcione. Porque todos eles querem - acrescentou com um sorriso gentil - de formas diferentes, e cada qual a seu modo, basicamente a mesma coisa.
      Levantando-se, pegou um carto em sua pasta.
      - Voc pode ligar para mim a qualquer hora que queira. Coloquei o meu telefone de casa no verso do carto. No vejo nenhum motivo para voltar aqui, pelo menos 
em visita oficial, por algum tempo. Mas pode ser que eu volte para brincar um pouco com o cozinho. Boa sorte com a redao.
      Quando ela j ia se encaminhando para a porta, Seth arrancou o desenho de Bobalho do caderno, por impulso, e disse:
      - Pode levar o desenho para voc, se quiser.
      - Srio? - Ela pegou a folha e sorriu, olhando para o desenho. - Nossa, ele  lindo! Obrigada. - Seth se encolheu todo quando ela se inclinou para beij-lo 
no rosto, mas ela encostou os lbios em sua pele de leve, e a seguir esticou o corpo. Deu um passo para trs, ordenando a si mesma para manter a distncia emocional. 
- D boa-noite ao Bobalho por mim.
      Anna guardou com cuidado o desenho na pasta enquanto descia as escadas. Phillip estava dedilhando o piano e interpretava, de forma bem descontrada, um blues. 
Aquele era outro dom que Anna invejava. Era um constante desapontamento para ela no possuir nenhum talento especial.
      Ethan desaparecera por completo, e Cam andava de um lado para outro na sala, agitado.
      Anna reparou que aquilo bem que podia ser considerado como um resumo dos trs homens. Phillip passando o tempo de forma elegante, Ethan do lado de fora, em 
alguma jornada solitria, e Cam descarregando o excesso de energia.
      Com o garoto em seu quarto, desenhando e remoendo mil pensamentos.
      Cam olhou para cima e, quando seus olhos se encontraram com os dela, Anna sentiu uma bola de calor incendiar-lhe a barriga.
      - Cavalheiros, obrigada pelo maravilhoso jantar.
      - Ns  que temos que lhe agradecer. - Phillip se levantou e esticou a mo para receb-la ao p da escada. - J faz muito tempo que a gente no recebia uma 
mulher linda como voc para jantar. Espero que volte.
      Ora, ele  do tipo galanteador, notou Anna.
      - Gostaria muito - respondeu ela. - Diga a Ethan que ele  um gnio da culinria com caranguejos. Boa-noite, Cam.
      - Vou lev-la at o carro. Ela j esperava por aquilo.
      - Em primeiro lugar - disse para ele assim que colocaram o p fora de casa -, pelo que pude observar, o bem-estar de Seth est sendo bem mantido. Ele est 
com superviso apropriada, uma boa casa, apoio nos trabalhos da escola. Bem que poderia ganhar uns calados novos, mas imagino que esse  um problema de qualquer 
menino de dez anos.
      - Calados? O que h de errado com os dele?
      - Apesar de tudo isso - continuou ela, virando-se para ele ao chegarem ao carro -, todos vocs ainda tm alguns ajustes a fazer, e no h dvidas de que ele 
 uma criana muito problemtica. Suspeito que tenha sofrido abusos, fsica e talvez sexualmente.
      - Eu tambm j desconfiei disso - disse Cam na mesma hora. - No vai tornar a acontecer aqui.
      - Eu sei disso! - E colocou a mo em seu brao. - Se eu tivesse a mnima dvida a esse respeito, ele j no estaria mais aqui. Cam, ele precisa de orientao 
profissional. Vocs todos precisam.
      - Psiclogo? Isso  frescura! A gente no precisa despejar os podres em cima de um psiclogo municipal sub-remunerado.
      - Pois saiba que muitos psiclogos municipais sub-remunerados so muito bons em seu trabalho - reagiu ela em um tom seco. - J que eu mesma sou graduada em 
Psicologia, poderia ser considerada um desses psiclogos mal-remunerados, e sou muito boa no que fao.
      - timo! Voc est conversando com ele, e agora est conversando comigo. J estamos sendo orientados.
      - No torne as coisas difceis... - Sua voz estava deliberadamente baixa, porque ela j sabia que aquele assunto iria produzir fagulhas de aborrecimento em 
seus olhos. Era justo, pensou, j que ele tambm a deixara perturbada.
      - No estou tornando nada difcil. Cooperei com voc desde o princpio.
      Mais ou menos, avaliou ela, e para no deixar de ser justa, aquilo era mais do que ela esperara dele.
      - Vocs conseguiram comear algo de muito bom aqui, mas um conselheiro profissional poder ajudar todos vocs a alcanar a parte que est abaixo da superfcie, 
a fim de que consigam lidar com a raiz dos problemas.
      - No temos nenhum problema.
      Ela no imaginava que fosse encarar uma resistncia to elevada assim logo no incio, mas compreendeu que deveria ter esperado por aquilo.
      -  claro que vocs tm problemas. Seth tem medo de ser tocado.
      - Ele no tem medo de ser tocado por Grace.
      - Grace? - Anna apertou os lbios, pensativa. - Grace Monroe, da lista que voc me deu?
      - Essa mesmo. Ela est cuidando da casa para ns agora. O garoto  louco por Grace. Acho que tem at uma atrao especial por ela.
      - Isso  bom, ento.  saudvel. Mas  apenas um incio. Quando uma criana sofre abusos, isso deixa cicatrizes.
      Mas por que diabos ser que eles estavam conversando a respeito de tudo aquilo?, pensou ele com impacincia. Por que razo estavam falando de psiclogos, de 
cavar para desenterrar velhas feridas quando tudo o que ele queria era uns poucos minutos de flerte com uma linda mulher?
      - Meu velho me batia o tempo todo, me arrancava o couro - argumentou ele. - E da? Eu sobrevivi! - Cam detestava se lembrar daquilo, odiava estar ao lado da 
casa que transformara em seu santurio de redeno e se lembrar das surras do pai verdadeiro. - A me do garoto tambm enfiava a mo nele o tempo todo. Pois bem, 
ela no vai mais ter a chance de fazer isso. Esse captulo est encerrado.
      - Jamais fica encerrado - disse Anna com pacincia. - Qualquer que seja o novo captulo ao qual voc d incio em sua vida, tem sempre alguma base no outro 
que veio antes dele. Estou recomendando aconselhamento agora, e vou recomendar tambm no meu relatrio.
      - V em frente! - Ele no conseguia explicar o porqu de aquilo deix-lo to enfurecido s de imaginar. S pensou que no ia, de jeito nenhum, pedir a si mesmo 
ou a qualquer dos seus irmos para tornar a abrir aquelas portas trancadas h tanto tempo. - Pode recomendar o que bem entender. Isso no significa que a gente v 
ser obrigado a concordar.
      - Vocs tm que concordar com o que for melhor para Seth.
      - Qual ?... Como  que voc pode saber o que  melhor para Seth?
      -  o meu trabalho - respondeu ela, de modo frio dessa vez, porque seu sangue estava comeando a ferver.
      - Seu trabalho? Tudo o que voc tem  um diploma e um monte de formulrios. Somos ns que moramos aqui, que estamos vivenciando o problema. Voc no passou 
por nenhum desses problemas. Jamais esteve do lado de l. No sabe de nada a respeito disso, no sabe como  ter a sua cara arrebentada e no ser capaz de impedir. 
Ou encarar algum burocrata babaca que trabalha para o municpio e no sabe porcaria nenhuma do que ocorre na sua vida e dentro de voc.
      E ela no sabia, ento? Pensou na estrada escura e deserta, no terror de tudo o que se passara com ela. Na dor e nos gritos. Isso no pode se tornar pessoal, 
lembrou a si mesma, embora seu estmago reclamasse.
      - Sua opinio a respeito da minha profisso foi clara como cristal desde o incio.
      - Certo, mas eu cooperei. Contei tudo o que aconteceu, e todos ns fizemos mudanas em nossas vidas para que as coisas funcionassem. - Enfiou os polegares 
nos bolsos da frente da cala, em um gesto que Seth teria reconhecido de imediato. - Mesmo assim, tudo isso no parece ser suficiente. H sempre algo a mais.
      - Se no houvesse algo a mais - retrucou ela -, voc no estaria assim to zangado.
      -  claro que estou zangado! Estamos ralando muito aqui! Acabei de desistir da maior corrida da minha carreira... estou com um garoto nas mos que olha para 
mim em um momento como se eu fosse um inimigo e, logo depois, como se eu fosse a sua salvao.  duro!
      - E  ainda mais duro ser a salvao dele do que o inimigo. Acertou na mosca, pensou ele, com um ressentimento crescente.
      Como  que ela podia saber tanto assim das coisas?
      - Estou lhe dizendo, Anna, a melhor coisa para o garoto, e para todos ns,  sermos deixados em paz. Se ele precisa de sapatos ou tnis novos, eu compro a 
porcaria dos tnis para ele.
      - E o que vai fazer a respeito do fato de que ele morre de medo de ser tocado, mesmo quando a coisa acontece da forma mais casual, por voc ou pelos seus irmos? 
Voc tambm vai conseguir comprar o medo dele?
      - Ele vai superar isso. - Cam estava irredutvel agora, e se recusava a deixar que ela interferisse naquele assunto.
      - Vai superar? - Uma fria sbita deixou-a quase gaguejando enquanto continuava a argumentar. Ento, de repente, as palavras comearam a jorrar, quentes como 
lava, e fizeram a centelha de dor em seus olhos parecer ainda mais pungente: - Vai superar s porque voc quer? Porque vai dizer a ele que faa isso? Voc sabe, 
por acaso, como  conviver com esse tipo de terror dentro da gente? Uma vergonha assim to grande? Ter isso preso dentro de voc e sentir que pequenas gotas desse 
veneno escorrem at mesmo quando algum que voc ama o abraa?
      Abrindo a porta do carro com fora, ela jogou a pasta l dentro e terminou:
      - Pois eu sei. Sei exatamente como . - Cam agarrou o brao dela antes que Anna conseguisse entrar no carro. - E tira a mo de mim!
      - Espere um instante.
      - J falei para tirar a mo de mim!
      Ao ver que ela estava tremendo, ele tirou. Em algum ponto no meio da discusso ela mudara. Em vez de estar profissionalmente irritada, estava agora pessoalmente 
enraivecida. Cam no reparara o momento da mudana.
      - Anna, eu no vou deixar voc se sentar atrs desse volante sabendo que est assim to descontrolada. Recentemente perdi uma pessoa que representava muito 
para mim, e no vou deixar que isso acontea novamente.
      - Eu estou legal. - Embora ela estivesse quase mastigando as palavras, obrigou-se a respirar bem fundo para se acalmar. - Sou perfeitamente capaz de dirigir 
at em casa. Se quiser discutir a possibilidade de acompanhamento psicolgico para vocs de forma racional, pode ligar para o meu escritrio para marcarmos.
      - Por que no damos uma volta a p? Ns dois precisamos esfriar a cabea.
      - Eu estou perfeitamente calma. - Ao entrar no carro, quase esmagou os dedos dele ao bater a porta. - Voc, se quiser, pode dar a sua volta. Ali, bem junto 
da doca.
      Ele soltou um palavro quando ela saiu dirigindo e foi embora. Por um instante considerou a idia de ir atrs dela, forando-a a sair novamente do carro, a 
fim de exigir que eles terminassem com aquela droga de discusso. Seu pensamento seguinte, porm, foi voltar para dentro de casa e esquecer tudo aquilo. Esquec-la.
      Mas lembrou o olhar sofrido que surgira em seus olhos, o jeito que sua voz mudou ao dizer que ela sabia muito bem como era sentir medo e vergonha.
      Algum a magoara muito, compreendeu ento. E nesse momento todo o resto deixou de ter importncia.
      
      
      Anna bateu com fora a porta de seu apartamento ao entrar, arrancou os sapatos e os atirou longe. Sua raiva no era daquele tipo que aumentava, explodia e 
logo depois esfriava. Era mais parecida com uma panela que vai esquentando devagar, at ferver, borbulhar com fria e transbordar.
      Dirigir de volta para casa no a acalmara nem um pouco; simplesmente dera s emoes que se agigantavam dentro dela mais tempo para que atingissem o ponto 
mximo.
      Largando a pasta sobre o sof, despiu o palet e o jogou sobre a pasta. Sujeito ignorante com cabea-dura e mente estreita! Fechou as mos e pressionou as 
tmporas. O que a fizera achar que eles poderiam se entender em algum nvel? O que a fizera pensar que queria isso?
      Ao ouvir uma batida leve em sua porta, rangeu os dentes. J sabia que era a vizinha do outro lado do corredor, procurando-a para trocar novidades e fofocas.
      Ela no estava a fim.
      Determinada a ignorar a visita at onde pudesse, sem deixar de ser civilizada, comeou a tirar os grampos do cabelo. A batida na porta voltou, mais forte agora.
      - Vamos l, Anna. Abra a porcaria dessa porta!
      Nesse momento, tudo o que ela conseguiu fazer foi olhar com choque e fria, at seus ouvidos comearem a zumbir. Aquele sujeito a tinha seguido at em casa? 
Teve a cara-de-pau de dirigir toda aquela distncia at a sua porta e esperava ser bem recebido?
      Provavelmente achava que ela estava to cheia de teso que ia pular em cima dele e transar de forma selvagem ali mesmo, no cho da sala. Pois bem, ele ia ter 
uma grande surpresa.
      Andando a passos largos at a porta, Anna a abriu com violncia, dizendo:
      - Seu filho-da-me!
      Cam deu uma olhada naquele rosto afogueado e furioso, nos cabelos soltos que lhe cascateavam pelos ombros, nos olhos que faiscavam com desejo de vingana, 
e imaginou que talvez fosse algum tipo de perverso achar aquilo excitante.
      Mas o que podia fazer se era isso que sentia?
      Olhando para a mo fechada que ela levantou, avisou:
      - V em frente, pode bater! - convidou. - S que, se voc me agredir, vai ter que escrever uma redao de quinhentas palavras a respeito da violncia em nossa 
sociedade.
      Ela soltou um grunhido de raiva, baixinho, mas ameaador, e tentou bater a porta na cara dele. Cam, porm, foi mais rpido e espalmou a mo na porta que se 
fechava, com fora suficiente para faz-la se abrir de volta.
      - Eu s queria ter certeza de que voc chegou bem em casa - comeou a explicar, ainda lutando contra a porta. - E, j que eu estava por aqui mesmo, pensei 
em dar uma subidinha.
      - Quero que v embora! Para bem longe! Na verdade, quero que voc v daqui direto para o inferno!
      - J deu para perceber isso, mas, antes de comear a viagem, me d cinco minutinhos.
      - J dei a voc muito tempo! Pensando bem, j dei at tempo demais!
      - Ento, que diferena vo fazer mais cinco minutos? - Para acertar aquilo, ele continuou segurando a porta com uma mo s, o que a deixou ainda mais enfurecida, 
e entrou no apartamento.
      - Se no fosse por Seth, eu chamaria a polcia agora mesmo e teria o prazer de ver os guardas rebocarem a sua bunda at uma cela da priso.
      Ele concordou. J lidara com um monte de mulheres enfurecidas e sabia que chegava um instante em que era preciso ser cuidadoso.
      - Sim - disse ele -, j consegui sacar isso tambm. Agora escute...
      - No tenho tempo para ouvir mais nada de voc! - Com a palma da mo, ela empurrou o peito dele com fora. - Voc est me insultando, tem a cabea muito dura 
e est errado, portanto, eu no tenho que ouvir mais nada de voc.
      - Eu no estou errado - rebateu ele. - Voc  que est errada! Eu sei muito bem que...
      - Voc sabe muito bem todo tipo de coisa! - interrompeu ela. - Caiu aqui depois de ficar saracoteando pelo mundo inteiro, brincando de gostoso que no tem 
medo de nada, e de repente j sabe tudo sobre o que  melhor para um menino de dez anos que conhece h menos de um ms.
      - Eu no estava brincando de gostoso valente no. Estava fazendo disso uma carreira! - explodiu ele, vendo que sua proposta de conciliao para tentar fazer 
as pazes acabara de ir para o espao. - E era uma carreira muito boa! E eu sei sim o que  melhor para o garoto! Sou eu que tem estado ao lado dele, dia e noite. 
Voc passa umas duas horas com ele e j acha que sacou toda a situao melhor do que eu? S pode estar de sacanagem!...
      -  o meu trabalho ter uma viso completa de toda a situao.
      - Ento j deveria saber que cada caso  um caso. Talvez funcione para algumas pessoas despejar seus problemas em cima de um estranho e ter seus sonhos analisados. 
- Cam trabalhara no discurso com todo o cuidado, de forma lgica, a caminho dali. Estava determinado a ser absolutamente razovel. - No h nada de errado com isso, 
no tenho nada contra, se funciona com voc. Mas voc no pode rotular a mesma coisa para todo mundo. Tem que analisar as circunstncias e as personalidades envolvidas 
neste caso e, sabe, fazer alguns ajustes.
      Ela no conseguia manter a respirao sob controle. Ento parou de tentar, afirmando:
      - Eu no rotulo as pessoas que o departamento me envia para ajudar. Eu as estudo e avalio e, que droga, eu me importo! No sou uma burocrata babaca que no 
sabe porra nenhuma! Sou uma assistente social treinada, com seis anos de experincia, e consegui um bom treinamento e toda essa experincia por saber exatamente 
como  estar do outro lado, como  se sentir machucada, apavorada, sozinha e desamparada. Ningum cujo caso venha parar nas minhas mos  apenas um nome em um formulrio!
      Parou de falar de repente, em um silncio chocado. Rapidamente, deu um passo para trs, apertando a boca com uma das mos, levantando a outra para sinalizar 
a Cam que ele devia se manter longe. Sentiu uma sensao surgir por dentro dela e sabia que no ia conseguir impedi-la de escapar. - Saia daqui - conseguiu falar. 
- V embora daqui, agora!
      - No faa isso. - O pnico fez a sua garganta se fechar tambm ao ver as primeiras lgrimas grossas e quentes rolarem pelo rosto dela. Mulheres furiosas ele 
compreendia, e com elas ele conseguia lidar. As que choravam, porm, o desarmavam. - Vamos dar um tempo no jogo! Falta! Por favor, no faa isso, Anna!
      - Simplesmente me deixe em paz! - E se virou, pensando apenas em escapar, mas ele a envolveu em seus braos e enterrou o rosto entre seus cabelos.
      - Desculpe, sinto muito! Desculpe! - Ele teria pedido desculpas por qualquer coisa, por tudo, se pelo menos isso servisse para coloc-los de volta no mesmo 
nvel de antes. - Eu estava errado. Sa da linha, aceito qualquer coisa que voc diga, mas no chore, querida. - Ele a virou de frente para ele, puxando-a mais para 
junto dele. Pousou os lbios em sua testa, em sua tmpora. Suas mos acariciaram seus cabelos e suas costas.
      Ento sua boca estava colada  dela, com suavidade a princpio, apenas para confort-la e tranqiliz-la enquanto continuava a murmurar apelos e promessas, 
sem pensar. Mas os braos dela se levantaram, abraaram-lhe o pescoo, o seu corpo se pressionou contra o dele e seus lbios se abriram um pouco mais, com calor.
      As mudanas ocorreram muito depressa, e de repente ele estava perdido nela, mergulhando nela. A mo que acariciara suavemente os seus cabelos agora os apertava 
e puxava, enquanto o beijo se tornava abrasador.
      Leve-me para longe daqui, era tudo em que ela conseguia pensar. No me deixe racionalizar o que est acontecendo, no me deixe pensar. Simplesmente me tome. 
Ela queria as mos dele sobre ela, sua boca sobre a dela, queria sentir-lhe os msculos estremecerem, carentes, sob seus dedos. Com aquele sabor forte e semi-selvagem 
dele em sua boca, preenchendo-a por completo, ela podia se deixar abandonar de todo.
      Com o corpo estremecendo junto ao dele e trepidando em seus braos, ela emitiu um som contra a boca desesperada que esmagava a sua, e foi um som de quase lamria. 
Ele se afastou como se tivesse sido golpeado, e embora suas mos no estivessem completamente firmes manteve-a nos braos, prxima dele.
      - Isso no foi... - Ele teve que parar, dar a si mesmo um minuto. Sua mente estava embaada e no havia jeito de clarear se ela continuasse a olhar para ele 
com aqueles olhos escuros e midos, enevoados de paixo. - No acredito que eu estou dizendo isso, mas acho que essa no  uma boa idia - disse, e passou as mos 
para cima e para baixo pelos braos dela enquanto lutava para readquirir o controle. - Voc est muito chateada, provavelmente no est raciocinando direito. - Ele 
ainda conseguia sentir o gosto dela, e o sabor que ficara em sua lngua provocara uma fome escandalosa, que lhe agitava a barriga. - Nossa, eu preciso de um drinque!
      Aborrecida com ambos, ela passou as costas da mo sobre o prprio rosto, para sec-lo, anunciando:
      - Vou preparar caf.
      - Eu no estava falando de caf.
      - Eu sei, mas se estamos querendo ser sensatos e razoveis  melhor ficarmos s no caf.
      Ela foi para a cozinha e procurou se manter ocupada com a rotina familiar de moer os gros e coar a bebida. Todos os nervos de seu corpo estavam retesados, 
no limite. Toda a carncia que ela acumulara na vida ou imaginou ter algum dia havia sido brutalmente sacudida.
      - Se ns tivssemos ido at o fim, Anna, voc poderia achar, depois, que eu me aproveitei da situao.
      Ela balanou a cabea para a frente, continuando a preparar o caf e concordando:
      - Ou talvez eu mesma ficasse me perguntando depois se eu  que tinha me aproveitado. De qualquer modo, teria sido uma m idia.  muito importante, para mim, 
jamais misturar sexo e culpa. - Olhou para ele ento, de forma suave, mas firme. - Isso  vital para mim.
      Foi nesse momento que ele soube. E, ao saber, sentiu uma raiva impotente e um pesar incontido.
      - Meu Deus, Anna. Quando aconteceu?
      - Quando eu tinha doze anos.
      - Sinto muito. - Aquilo o fez se sentir enjoado, atingindo-o profundamente. - Sinto muito mesmo - repetiu de uma forma que lhe pareceu inadequada. - Voc no 
precisa conversar comigo a respeito disso...
      -  nesse ponto que a gente discorda... foi falar sobre o problema que finalmente me salvou. - Ele saberia ouvir, pensou ela, e a conheceria melhor. - Minha 
me e eu havamos ido passar o dia na Filadlfia. Eu andava querendo conhecer o Sino da Liberdade, porque estvamos estudando a Revoluo Americana na escola. Tnhamos 
um calhambeque caindo aos pedaos. Fomos at l, visitamos os lugares e os monumentos. Tomamos sorvete e compramos um monte de lembrancinhas.
      - Anna...
      - Voc est com medo de ouvir? - Ela levantou a cabea de repente, como um desafio direto.
      - Talvez. - Cam passou a mo pelo cabelo. Talvez ele estivesse realmente com medo de ouvir, com medo do que aquilo poderia trazer de mudanas entre eles. Era 
mais uma jogada dos dados, pensou ento, olhou para ela, que esperava pacientemente, e sentiu ento que precisava saber. - Continue...
      - Estvamos s ns duas. - Ela se virou e comeou a pegar as xcaras no armrio. - Sempre havia sido daquele jeito, apenas ns duas. Ela engravidara de mim 
quando estava com dezesseis anos e jamais quis contar a algum quem era o meu pai. Levar a gravidez em frente e me ter complicou a vida de minha me de uma maneira 
indescritvel, e deve ter lhe trazido grandes problemas, constrangimentos, necessidades e vergonha. Meus avs eram muito religiosos, muito antiquados. - Anna riu 
um pouco. - Muito italianos... Eles no excluram a minha me da vida deles, mas imagino que tudo aquilo a deixou muito pouco  vontade, pois ela se sentia como 
se estivesse na parte perifrica da vida deles. Assim, mudamos para um apartamento que era a quarta parte do tamanho deste aqui.
      Trazendo o bule para o balco, despejou nele o denso e escuro lquido.
      - Era um sbado de abril - continuou ela. - Minha me faltara ao trabalho para a gente poder fazer o passeio. Tivemos um dia maravilhoso e acabamos ficando 
at mais tarde do que ela previra, porque estvamos nos divertindo muito. Eu vinha cochilando no carro, na viagem de volta, e ela deve ter entrado em uma estrada 
secundria errada. O que sei  que a gente se viu perdida, mas ela continuou a levar aquilo na brincadeira. Foi ento que o carro enguiou. Rolos de fumaa comearam 
a sair do cap. Ela parou o carro na beira da estrada, ns saltamos e comeamos a rir. Que confuso, que furada! Cam sabia o que vinha a seguir, e se sentiu enjoado.
      - Talvez fosse melhor voc se sentar, Anna.
      - No, estou bem... Minha me achou que fosse o radiador que estivesse precisando de gua - continuou. Seus olhos pareceram ficar fora de foco enquanto ela 
revivia o passado. Conseguia se lembrar do calor que fazia, do silncio e de como a lua entrava e saa de trs de nuvens escuras esfumaadas. - Estvamos planejando 
pegar uma carona at a casa mais prxima, para ver se conseguamos alguma ajuda. Um carro passou e parou. Havia dois homens, e um deles se inclinou para fora e perguntou 
se estvamos com algum problema.
      Levantando a sua xcara, ela tomou um gole de caf antes de continuar. Suas mos j estavam firmes. Ela ia conseguir contar tudo mais uma vez e vivenciar tudo 
de novo.
      - Eu me lembro do jeito que a mo dela apertou a minha, com tanta fora que at doeu. Mais tarde eu compreendi que ela estava com medo. Eles estavam bbados. 
Minha me falou alguma coisa sobre no precisar de ajuda no, porque ela ia caminhar at a casa do irmo, que ficava ali perto, e que ns estvamos bem, mas eles 
saltaram do carro. Ela me empurrou para trs dela. Quando o primeiro deles a agarrou, ela berrou para mim, mandando que eu corresse. Mas eu no consegui. No consegui 
me mover! Ele estava rindo e passando a mo sobre ela, e ela estava lutando com ele. E quando ele a arrastou para fora da estrada e a colocou no cho, corri para 
cima dele e tentei tir-lo de cima dela.  claro que no consegui. O outro homem me agarrou por trs e rasgou a minha blusa.
      Uma mulher indefesa e uma criana frgil. As mos de Cam se apertaram e seus dedos se fecharam junto do corpo, enquanto a raiva e a sensao de impotncia 
inundavam-no por dentro. Ele queria poder voltar quela noite, naquela estrada deserta, e usar aqueles punhos de forma implacvel.
      
      - Ele continuou rindo - disse Anna, baixinho. - Consegui ver seu rosto com bastante clareza por um instante ou dois. Como se estivesse congelado diante do 
meu rosto. Continuava ouvindo minha me gritando, implorando a eles para que no me machucassem. Ele a estava estuprando, eu conseguia ouvir que ele a estava estuprando, 
mas ela continuava a implorar a eles que me deixassem em paz. E ela deve ter pressentido que isso no ia acontecer, porque comeou a lutar com mais fora. Eu podia 
ouvir o homem batendo nela e berrando para que ela calasse a boca. Nada me parecia real. Mesmo quando o outro comeou a me estuprar, nada daquilo parecia ser real. 
Era como se fosse um pesadelo que continuava e continuava, sem acabar.
      Anna respirou fundo e prosseguiu:
      - Quando eles j haviam acabado, cambalearam de volta para o carro e foram embora. Simplesmente nos deixaram ali. Minha me estava inconsciente. Ele batera 
muito nela. Eu no sabia o que fazer. Contaram-me que entrei em choque, mas no me lembro de mais nada at depois, quando j estava no hospital. Minha me jamais 
recuperou a conscincia. Ficou em coma por dois dias, e ento morreu.
      - Anna, eu no sei o que dizer a voc. No sei o que pode ser dito a voc.
      - Eu no lhe contei isso para ganhar a sua simpatia nem solidariedade - disse ela. - Minha me tinha vinte e sete anos, um ano a menos do que eu tenho agora. 
J se passou muito tempo, mas a gente no esquece. A lembrana jamais desaparece por completo. E eu me lembro bem de tudo o que aconteceu naquela noite e de tudo 
o que houve em seguida, depois que fui morar com os meus avs. Fiz tudo o que pude para mago-los, para machucar a mim mesma. Essa era a forma de lidar com o que 
acontecera comigo. Eu me recusei a receber aconselhamento psicolgico - disse de modo frio. - No ia contar nada daquilo para um psiquiatra de cara magra e enrugada. 
Em vez disso, me metia em brigas, vivia em busca de problemas e sempre os encontrava. Fiz sexo indiscriminadamente, usei drogas, fugi de casa e bati de frente com 
um monte de assistentes sociais.
      Pegando o palet que despira mais cedo, ela o dobrou com todo o cuidado, enquanto continuava:
      - Eu odiava todo mundo e a mim mesma principalmente. Era eu que tinha pedido  minha me para que ela me levasse at a Filadlfia. Era eu o motivo de ns termos 
estado l. Se eu no estivesse com minha me, ela teria conseguido fugir.
      - No. - Ele queria toc-la, mas tinha medo. No porque ela parecesse frgil, no era o caso. Parecia forte, de forma quase impossvel. - No, voc no teve 
culpa de nada do que aconteceu!
      - Mas sentia culpa. E quanto mais me culpava, mais descontava em todos e em tudo  minha volta.
      - s vezes isso  tudo o que resta para ns - murmurou ele. - Reagir com raiva, se rebelar contra tudo at tirar aquilo de dentro da gente.
      - s vezes no h nada contra o que lutar e nenhum lugar para fugir. Durante trs anos eu usei o que aconteceu naquela noite como desculpa para fazer o que 
me desse na telha. - Olhou para Cam novamente, com um rpido e irnico levantar de sobrancelha. - S que no soube escolher as coisas direito. Achava que era bem 
durona quando acabei no juizado de menores. Mas minha assistente social era ainda mais dura. Ela forou a barra, pegava no meu p e me atormentava. Por ter se recusado 
a desistir de mim, acabou conseguindo me endireitar. E pelo fato de meus avs tambm terem se recusado a desistir da neta, eu acabei me acertando.
      Com todo o cuidado, colocou o palet de volta sobre o brao do sof, completando:
      - Poderia ter sido diferente. Eu poderia ser apenas mais um nmero na estatstica dos casos perdidos do sistema. Mas no fui.
      Ele achou surpreendente o fato de ela ter transformado aquele horror em tanta fora. Era surpreendente tambm o fato de ela ter escolhido um trabalho no qual 
teria que conviver todos os dias com as coisas que haviam destrudo a sua vida.
      - Foi assim que voc decidiu dar o troco e buscou o tipo de trabalho que ajudara a dar uma guinada em sua vida - afirmou Cam.
      - Eu sabia que podia ajudar as pessoas. E, sim, eu me sentia em dbito, da mesma forma que voc se sente em dbito com o seu pai. Eu sobrevivi - disse ela, 
olhando fixamente para Cam de novo. - S que sobreviver no  o bastante. No foi o bastante para mim nem para voc. E no vai ser o bastante para Seth.
      - Uma coisa de cada vez - murmurou ele. - Quero saber se a polcia conseguiu pegar os canalhas.
      - No. - H muito tempo ela j aprendera a aceitar e a viver com aquilo. - Passaram-se semanas antes que eu estivesse falando coisas coerentes o bastante para 
fazer uma declarao. A polcia jamais os encontrou. O sistema nem sempre funciona, mas eu aprendi, e acredito nisso, que ele tenta fazer o melhor possvel.
      - Eu jamais pensei assim, e isso no muda a minha opinio. - Cam comeou a estender a mo, hesitou por um instante e acabou por coloc-la no bolso. - Sinto 
muito por ter magoado voc. Por ter dito coisas que fizeram com que voc se lembrasse de tudo.
      - As lembranas esto sempre l - disse ela. - Voc agenta firme e as coloca de lado por longos perodos da sua vida. Mas tudo volta, de vez em quando, porque 
na verdade jamais foi embora de vez.
      - Voc procurou ajuda psicolgica?
      - Com o tempo, sim. Eu... - Parou de falar, soltando um suspiro. - Tudo bem, no vou dizer que ajuda psicolgica faz milagres, Cam. O que estou dizendo  que 
pode ajudar, pode curar algumas marcas. Eu precisava dessa ajuda, e quando finalmente estava pronta para us-la me senti melhor.
      - Vamos fazer o seguinte... - E ele a tocou, colocando a mo sobre a dela, que continuava pousada no balco. - Vamos deixar isso como uma opo. Enquanto isso, 
vamos vendo como  que as coisas... rolam.
      - Vamos vendo como  que as coisas rolam - suspirou ela, cansada demais para discutir. Sua cabea doa e seu corpo se sentia vazio e fragmentado. - Concordo 
com isso, mas mesmo assim vou aconselhar ajuda psicolgica para vocs no meu relatrio.
      - No se esquea de falar dos calados que o menino precisa - disse ele, seco, e ficou muito aliviado quando ela caiu na risada.
      - No preciso mencionar os sapatos porque j sei que voc vai lev-lo s compras ainda esta semana.
      - Podemos fazer disso um compromisso. Pelo jeito eu estou ficando melhor nisso ultimamente.
      - Ento voc devia ser absurdamente obstinado antes.
      - A palavra que meus pais usavam era "cabea-dura".
      - Ah, como  bom ser compreendida! - E olhou para a mo que cobria a dela. - Se hoje voc pedisse para ficar, eu no conseguiria dizer no.
      - E eu quero ficar. Quero voc. S que no posso pedir isso hoje. O momento no tem nada a ver...
      Anna compreendia o modo com que alguns homens se sentiam diante de uma mulher sexualmente atacada no passado. Seu estmago se retorceu, formando ns. Mas era 
melhor saber de cara.
      - Voc est dizendo isso por eu ter sido estuprada?
      Ele no ia permitir que isso acontecesse. Recusou-se a aceitar que o que acontecera com ela afetasse o que poderia acontecer agora entre os dois.
      - No - assegurou ele. -  por voc no conseguir dizer no esta noite, e amanh pode acordar arrependida por ter cedido.
      - Voc nunca  exatamente o que eu esperava. - Levantando a cabea, surpresa, ela tornou a olhar para ele.
      Ele tambm no era exatamente o que esperava de si mesmo, pelo menos ultimamente.
      - O que est acontecendo entre ns, o que quer que seja, tambm no  o que eu esperava que fosse, Anna. Que tal um encontro no sbado  noite?
      - Tenho um encontro marcado para sbado. - Seus lbios se curvaram lentamente, formando um sorriso. Os ns no estmago haviam diminudo, e ela nem notara. 
- Mas vou desmarcar.
      - Sete horas. - Ele se debruou por sobre o balco, beijou-a, continuou com a boca junto do rosto dela e tornou a beij-la. - Vou querer levar isso adiante.
      - Eu tambm.
      - Bem - ele soltou um suspiro, encaminhando-se para a porta enquanto sabia que ainda podia agentar -, isso vai fazer com que a minha volta para casa seja 
bem mais fcil.
      Fazendo uma pausa, ele se virou para fit-la e disse:
      - Voc disse que sobreviveu, Anna, mas no foi bem assim. Voc triunfou! Tudo em voc  um testemunho  sua coragem e  sua fora.
      - Quando ela olhou fixamente para ele, obviamente espantada, Cam exibiu um sorriso. - Voc no consegue superar isso com a ajuda de uma assistente social ou 
de um psiclogo. Eles podem apenas ajudar a usar a fora que j havia a dentro. Imagino que voc herdou isso de sua me. Ela deve ter sido uma mulher admirvel.
      - Era, sim... - murmurou Anna, quase s lgrimas novamente.
      - E voc tambm . - Cam fechou a porta silenciosamente atrs de si.
      Decidiu que ia voltar para casa bem devagar. Tinha muitas coisas nas quais pensar.


  Captulo Onze
  
      Lindas manhs de sbado em plena primavera no haviam sido feitas para se passar em lugares fechados ou ruas apinhadas. Para Ethan, elas deviam ser curtidas 
sobre a gua. A idia de fazer compras, fazer compras de verdade, em um shopping era quase aterrorizante para ele.
      - No vejo por que a gente precisa fazer isso.
      Por ter entrado no jipe antes, Cam ia no banco da frente. Virou ligeiramente a cabea para lanar um olhar para Ethan e argumentar:
      - A gente precisa fazer isso porque estamos todos juntos nessa. O celeiro do velho Claremont est para alugar, no est? Pois bem... ns vamos precisar de 
um lugar grande, j que vamos construir barcos. Temos que conseguir um acordo com ele.
      - Isso  loucura - foi tudo o que Phillip teve a acrescentar enquanto entrava na rua do Mercado, no centro de St. Chris.
      - No d para a gente montar um negcio sem ter um lugar para ele funcionar - devolveu Cam. Ele achava aquele fato simples e lgico, sem contra-argumentos. 
- Sendo assim, a gente d uma olhada no lugar, faz um acordo com Claremont e comea a trabalhar.
      - Licenas, impostos, controle de materiais, pelo amor de Deus! - comeou Phillip. - Alm de ferramentas, propaganda, linhas de telefone, linhas de fax, livro-caixa 
e contadores.
      - Voc pode cuidar disso. - Cam encolheu os ombros, com ar descontrado. - Assim que a gente assinar o contrato de aluguel, vai comprar uns sapatos para o 
garoto, e depois disso voc faz o que quiser.
      - Eu posso cuidar disso? - reclamou Phillip, ao mesmo tempo em que Seth resmungava que no precisava de porcaria nenhuma de sapatos novos.
      - Ethan j conseguiu a nossa primeira encomenda, eu descobri a respeito do lugar, e voc, Phillip, cuida da papelada. Quanto a voc, Seth, vai ganhar a porcaria 
dos sapatos sim - avisou ao menino.
      - No sei por que voc consegue mandar em todo mundo por aqui.
      - Eu tambm no. - Cam conseguiu apenas dar um sorriso curto e sombrio.
      O prdio que pertencia a Claremont no era exatamente um celeiro, mas era to grande quanto um. Em meados dos anos 1700 havia servido de depsito de tabaco. 
Depois da Guerra da Independncia, os navios britnicos j no paravam em St. Chris trazendo sua imensa variedade de mercadorias. Os grandes negcios que haviam 
florescido na regio acabaram falindo.
      A revitalizao que ocorrera no final dos anos 1800 surgiu diretamente da baa. Com mtodos mais modernos para enlatar e empacotar, o mercado nacional para 
consumo de ostras acabou se abrindo para St. Chris e fez com que a cidade prosperasse mais uma vez. O antigo depsito de tabaco foi reformado e virou um local de 
empacotamento.
      Depois que a rpida prosperidade no mercado de ostras tambm acabou, a construo se transformara em um celebrado galpo para estocagem de diversos produtos. 
Nos ltimos cinqenta anos, ele estivera vazio em algumas ocasies e cheio em outras, de acordo com o que o mercado imobilirio necessitava.
      Vista por fora, era uma construo simples. Toda feita de tijolinhos aparentes que se mostravam desgastados pelo sol e pelo clima, com buracos no cimento das 
paredes onde dava para enfiar o polegar. O telhado, caindo aos pedaos, precisava desesperadamente de novas telhas. Das janelas que havia, algumas eram pequenas 
demais, a maioria estava quebrada e todas pareciam imundas.
      - Ora, puxa, isso me parece muito promissor! - J desgostoso, Phillip estacionou no terreno decadente e sujo que ficava ao lado do prdio.
      - Vamos precisar de espao - lembrou Cam. - O prdio no precisa ser bonito.
      - Ainda bem, porque ele est muito longe de ser bonito.
      Um pouco mais interessado agora, Ethan saltou do jipe. Indo at a janela mais prxima, usou o leno colorido que pegou no bolso de trs da cala para limpar 
a maior parte da imundcie do vidro, a fim de poder espiar.
      - O espao  muito bom. Tem portas largas para cargas grandes, nos fundos, e uma doca. Precisa de alguns reparos.
      - Alguns? - Phillip olhou pela janela, por cima do ombro de Ethan. - O piso est podre. Deve estar bichado! O lugar provavelmente est cheio de cupins e ratos.
      - Talvez seja uma boa idia mencionar esse fato para Claremont - sugeriu Ethan -, para manter o aluguel bem baixo. - Ouvindo o barulho de vidro se quebrando, 
viu que Cam dera uma cotovelada forte em uma janela j rachada. - Acho que a gente vai entrar.
      - Arrombamento e invaso de propriedade privada - resmungou Phillip, balanando a cabea. - Vamos comear com o p direito...
      Cam atirou longe o pattico fecho que segurava a janela e a levantou, afirmando:
      - J estava quebrada. D um tempo, Phillip! - Enfiando-se atravs da moldura da janela, desapareceu l dentro.
      - Legal! - decidiu Seth, e antes que alguma palavra pudesse ser dita para impedi-lo enfiou-se l dentro tambm.
      - Que grande exemplo estamos oferecendo a ele! - Phillip passou a mo no rosto e desejou ardentemente no ter parado de fumar.
      - Bem, veja de outro modo... voc podia ter apanhado as chaves, mas no fez isso.
      - Certo. Escute s, Ethan, temos que pensar melhor a respeito disso. No h motivos para que voc no possa... para que ns no possamos construir esse primeiro 
barco no terreno da sua casa. A partir do momento em que a gente comear a alugar galpes, abrir uma firma e preencher formulrios de impostos, estaremos comprometidos.
      - E qual  a pior coisa que pode acontecer? Perdermos um pouco de tempo e alguma grana. A mim, parece que a gente tem o bastante dos dois - disse, e ouviu 
a mistura das gargalhadas de Cam e Seth que vinham ecoando l de dentro. - At, quem sabe, vamos nos divertir um pouco com tudo isso.
      E comeou a se encaminhar para a porta da frente, sabendo que Phillip ia resmungar, mas o seguiria.
      - Eu vi um rato - anunciou Seth, com pura alegria, quando Cam escancarou a porta da frente. - Foi um barato!
      - Ratos... - Phillip avaliou o sombrio interior, antes de se aventurar l dentro. - Que adorvel!
      - Vamos precisar de alguns gatos por aqui - decidiu Ethan. - No, temos que arrumar fmeas... gatas. Elas so mais cruis com os ratos do que os machos.
      Olhando para cima, avaliou o teto, que era bem alto. Danos provocados pela gua eram bem visveis nas vigas e caibros. Havia um andar em cima, mas os degraus 
que levavam a ele estavam quebrados. Totalmente podres e, provavelmente, consumidos por ratos, que haviam comido no imundo piso de madeira.
      Aquilo ia exigir um bocado de trabalho, tanto para a limpeza quanto para os reparos, mas o espao era generoso. Ethan permitiu-se comear a sonhar.
      O cheiro da madeira sob os dentes do serrote e o aroma penetrante do leo, o barulho do martelo sobre os pregos, o brilho do lato, o rangido do cordame. Ele 
j conseguia ver o ngulo pelo qual a luz do sol iria penetrar atravs das janelas novas e limpas para banhar o esqueleto de uma corveta.
      - Podemos levantar algumas paredes ali para fazer um escritrio - dizia Cam. Seth corria de um lado para outro, explorando e soltando gritos e exclamaes 
empolgadas. - Afinal, vamos precisar de um local para desenhar as plantas dos barcos, esboos ou algo assim.
      - Este lugar  uma espelunca - assinalou Phillip.
      - Sim,  por isso que vai sair bem barato. Separando uns dois mil dlares para arrumar tudo, a gente...
      - Era melhor colocar tudo abaixo e comear do zero.
      - Phil, tente controlar esse otimismo exagerado. - Cam se virou para Ethan. - O que achou?
      - Vai servir.
      - Vai servir para qu? - Phillip levantou as mos. - Para despencar em cima de nossas cabeas? - Nesse momento, uma aranha, que Phillip estimava ter o tamanho 
de um cozinho chihuahua, comeou a escalar lentamente a ponta dos seus sapatos. - Peguem um revlver - murmurou ele.
      Cam simplesmente riu e deu-lhe um tapinha nas costas, dizendo:
      - Vamos l! Vamos conversar com Claremont.
      
      
      Stuart Claremont era um homem de pequena estatura e uma boca irrequieta. As pequenas pores da cidade de St. Christopher que ele possua estavam, na maioria 
dos casos, largadas, sem manuteno e decadentes. Quando os inquilinos reclamavam com muita insistncia, ele, ocasionalmente e com muita m vontade, mandava um bombeiro 
para consertar o encanamento, cuidar do aquecimento ou remendar um telhado.
      Ele acreditava em economizar os centavos para os dias de chuva da velhice. Na cabea de Claremont, jamais chovia o suficiente para ele se separar de uma moedinha 
que fosse.
      Mesmo assim, sua casa na travessa da Concha era um espetculo. Como qualquer um em St. Chris j sabia muito bem, sua mulher, Nancy, tinha um gnio miservel 
e era quem cantava de galo dentro de casa.
      O carpete no piso era macio e a sala era toda decorada com papel de parede. O padro dos tecidos das grossas cortinas combinava cuidadosamente com as poltronas, 
o sof e as almofadas, todos elegantes. Revistas estavam em exposio sobre a mesinha de centro em cerejeira envernizada, todas enfileiradas com um cuidado militar. 
A mesa central, por sua vez, formava conjunto com as duas mesinhas laterais, no mesmo material.
      Nada parecia fora do lugar no lar dos Claremont. Cada cmodo lembrava uma foto de uma revista de decorao de interiores. Eram parecidos com as fotos, avaliou 
Cam, mas nem um pouco com a vida real.
      - Ento, vocs esto interessados no celeiro. - Com um sorriso esticado que no deixava os dentes aparecerem, Claremont levou-os at o escritrio. Ali a decorao 
era em estilo aristocrtico ingls. As paredes, recobertas com madeira, exibiam gravuras de caadas. Havia ainda poltronas confortveis, estofadas em couro vinho, 
uma escrivaninha com puxadores de lato trabalhado e uma lareira de tijolos convertida para gs.
      A televiso de tela imensa parecia deslocada ali, como era de esperar.
      - Mais ou menos - disse-lhe Phillip. Os irmos haviam decidido pelo caminho que era Phillip quem iria conduzir as negociaes. - S estamos comeando a procurar 
por um local espaoso aqui na regio.
      - Pois aquele  um lugar fabuloso. - Claremont se sentou atrs da escrivaninha e ofereceu-lhes as poltronas. - Tem muita histria!
      - Estou certo que sim, mas no estamos interessados no passado histrico da construo. Vimos que tem muita coisa podre por l tambm.
      - Um pouco. - Claremont afastou a idia com a mo de dedos muito curtos. - Vocs moram por aqui, sabem como so as coisas, o que poderiam esperar? E ento, 
esto planejando montar algum tipo de negocio?
      - Estamos considerando a idia, mas continuamos ainda nos estgios iniciais, pensando nas possibilidades.
      - Uh-uh... - Claremont no pensava assim, pois de outro modo no estariam os trs ali, sentados diante da sua mesa. Enquanto considerava quanto iria conseguir 
arrancar deles de aluguel pelo que ele considerava um imvel que era no mais que apenas um irritante peso morto em seu patrimnio, olhou para Seth. - Bem, podemos 
discutir o assunto, ento. Talvez o menino queira ir brincar l fora.
      - No, no quer no - disse Cam, sem sorrir. - Estamos todos juntos para conversar sobre negcios.
      - Se  assim que vocs querem... - Ento, pensou Claremont, era verdade. Ele mal podia esperar para contar a Nancy. Afinal, ele tivera a chance de dar uma 
boa olhada, bem de perto, no garoto, e at um idiota cego poderia ver Ray Quinn naqueles olhos. O santo Ray, pensou com maldade. Pelo jeito, a fama do poderoso Ray 
rura, ora se no... e ele ia adorar espalhar para todo mundo em que p as coisas estavam.
      - Estou querendo um contrato de cinco anos - disse a Phillip, imaginando, acertadamente, que era ele o responsvel pela parte burocrtica do negcio.
      - E ns estamos querendo apenas um ano, no momento, com opo para sete.  claro que esperamos que alguns reparos sejam efetuados, a fim de que tenhamos condies 
de ocupar o imvel.
      - Reparos?! - Claremont recostou-se na cadeira. - Ora, aquele lugar  slido como, uma rocha!
      - E vamos exigir tambm inspeo sanitria para avaliao de cupins e seu extermnio. A manuteno regular ser,  claro, responsabilidade nossa.
      - Mas no h cupins l!
      - Bem, ento - sorriu Phillip, com suavidade -, o senhor ter que providenciar apenas a inspeo. Quanto est pedindo pelo aluguel?
      Por estar aborrecido com aquilo e por sempre ter menosprezado Ray Quinn, Claremont chutou um valor bem alto:
      - Dois mil dlares por ms!
      - Dois... - Antes de Cam ter chance de soltar os bichos em cima do homem e externar sua opinio, Phillip se levantou, dizendo:
      - No h razo para fazer o senhor perder seu tempo. Obrigado por nos receber.
      - Esperem! Esperem! - Claremont deu uma risada nervosa, tentando afastar a fisgada de pnico que sentiu ao ver um bom negcio escapar por entre seus dedos 
sequiosos de forma to rpida. - Eu no disse que esse valor era inegocivel. Afinal de contas, eu conhecia o pai de vocs... - E mirou o sorriso afetado diretamente 
para Seth. - Tive contato com ele por mais de vinte e cinco anos. No seria justo se eu no desse aos seus... filhos uma colher de ch.
      - timo. - Phillip voltou a se acomodar na poltrona, resistindo  tentao de esfregar as mos. Esqueceu-se at das objees que levantara a respeito do plano 
como um todo em troca da delcia que era a arte de negociar. - Vamos entrar num acordo, ento.
      
      
      * * *
      
      - Meu Deus, o que foi que eu fiz?! - Trinta minutos mais tarde,
      Phillip estava sentado em seu Land Rover, lanando a cabea sistematicamente de encontro ao volante.
      - Um tremendo acordo, eu diria. - Ethan lhe deu umas palmadinhas no ombro. Conseguira chegar ao carro antes de Cam dessa vez e se aboletara com cara de vencedor 
no banco da frente. - Cortou o valor cobrado pela metade, logo de cara, obrigou-o a concordar em pagar pela maior parte dos reparos, que ns mesmos vamos efetuar, 
e deixou-o confuso o bastante para faz-lo aceitar aquela clusula de... como  que ?... congelamento do valor do aluguel, caso a gente pegue a opo de sete anos.
      - O lugar  uma espelunca! Vamos gastar doze mil dlares por ano, sem contar os equipamentos e a manuteno... tudo isso por um buraco!
      - Sim, mas agora  o nosso buraco! - Satisfeito, Cam esticou as pernas ou pelo menos tentou. - Empurre um pouco esse banco para a frente, Ethan, estou espremido 
aqui atrs!
      - No! Phillip, se voc me deixar de volta no galpo, posso comear a fazer alguns clculos e projees. Depois arrumo uma carona para casa.
      - Ns vamos fazer compras - lembrou Cam.
      - Eu no preciso de porcaria de sapato nenhum - repetiu Seth, mais por reflexo do que por aborrecimento.
      - Voc vai ganhar a bosta dos sapatos, vai cortar a bosta dos cabelos, j que vamos estar l mesmo, e todos ns vamos  bosta do shopping.
      - Eu preferia levar uma tijolada na cabea a ir ao shopping em um sbado! - Ethan se encolheu no banco e puxou a aba do bon para cobrir os olhos. No agentava 
nem pensar naquilo.
      - Pois quando voc comear a trabalhar na ratoeira que  aquele galpo - comentou Phillip -, provavelmente vai ser atingido por uma tonelada de tijolos que 
vo despencar em sua cabea.
      - Se eu for obrigado a cortar o cabelo, todo mundo vai ter que cortar tambm - anunciou Seth.
      Cam olhou meio de lado para o rosto de Seth, que exibia um ar de motim.
      - Qual  a sua, garoto? T achando que isso aqui  uma democracia? Cai na real! Voc s tem dez anos!
      - Voc bem que est precisando cortar esse cabelo, Cam. - Phillip olhou para Cam pelo espelho retrovisor enquanto dirigia para o norte de St. Chris. - O seu 
est maior do que o de Seth.
      - Cale a boca, Phillip! E voc, Ethan, que droga, coloque o banco mais para a frente!
      - Eu detesto ir ao shopping! - Em um gesto de desafio, Ethan esticou as pernas e abaixou um pouco mais o encosto de seu banco. - Vive lotado! Pete ainda mantm 
a barbearia na rua do Mercado.
      -  verdade, e todo mundo que corta o cabelo com ele sai de l com cara de mauricinho. - Frustrado, Cam deu um chute com fora nas costas do banco de Ethan.
      - Ei, tira as patas do meu estofamento - avisou Phillip -, seno vai ter que ir at o shopping a p.
      - Ento diga a ele para me dar mais espao!
      - Se eu for obrigado a ganhar esses sapatos, eu  que vou escolher, e voc no vai dar palpite - anunciou Seth.
      - J que sou eu que vou pagar pelos sapatos, voc vai ter que usar o que eu gostar e o que eu mandar.
      - Ento eu mesmo compro esses sapatos fedidos. Tenho vinte dlares.
      - R!... - Cam deu uma gargalhada de deboche. - Voc precisa mesmo se ligar na real, meu chapa. Hoje em dia no d para comprar nem meias decentes por vinte 
dlares.
      - D sim, se no for algum modelo desses cheios de onda, com grife - rebateu Ethan. - A gente no est em Paris.
      -  por isso que voc no tem um sapato decente h dez anos - jogou Cam de volta. - E se voc no colocar a porra desse banco mais pra frente, eu vou...
      - Corta essa vocs dois! - explodiu Phillip. - Parem com isso agora mesmo ou eu juro que vou parar o carro e bater com a cabea de vocs dois uma contra a 
outra. Ai, meu Deus! - E tirou uma das mos do volante para passar sobre o rosto. - Olhem s! Estou parecendo a mame brigando com vocs. Podem esquecer o que eu 
disse. Esqueam! Podem se matar, podem se estrangular! Eu largo os corpos no estacionamento do shopping e vou dirigindo para o Mxico. Aprendo a tecer tapetes e 
vou vend-los na praia, em Cozumel. Vou estar bem, vou estar feliz, vou estar em paz! Troco meu nome para Raoul e ningum jamais vai desconfiar de que, no passado, 
eu tive alguma ligao com um bando de idiotas.
      Seth coou a barriga e se virou para Cam, perguntando:
      - Ele sempre fala essas coisas?
      - Sempre... quer dizer, quase sempre. s vezes ele vai se chamar Pierre, e pretende se mudar para um sto em Paris, mas d no mesmo.
      - Que cara estranho - foi o nico comentrio de Seth. Pegou um chiclete no bolso, desembalou-o com cuidado e o atirou na boca. Comprar sapatos novos estava 
se transformando em uma aventura.
      A coisa teria parado nos sapatos, se Cam no tivesse reparado que os fundilhos da cala de Seth estavam quase pudos. No que ele se incomodasse com aquilo, 
afirmou a si mesmo. Mas era melhor, j que eles estavam l, comprar uns dois pares de calas jeans para o garoto.
      Cam tinha certeza de que se Seth no tivesse reclamado tanto por ter de experimentar os jeans ele no teria se sentido compelido a empurrar camisas, shorts 
e um casaco. No fim, de algum modo, acabaram comprando ainda trs bons, um agasalho Orioles e um frisbee fosforescente.
      Ao tentar se lembrar exatamente do momento em que aquela primeira excurso comeou a escapar do controle, Cam viu tudo se misturar em um borro de araras para 
roupas, vozes que reclamavam em seu ouvido e o tilintar de caixas registradoras.
      Os ces fizeram a maior festa, recebendo-os com um entusiasmo selvagem e desesperado no minuto em que eles passaram pelo porto. Teria sido uma recepo comovente 
se no fosse pelo fato de que os dois animais estavam fedendo a peixe morto.
      Com mais xingamentos, empurres e ameaas, os humanos conseguiram fugir para dentro de casa, deixando os ces e seus sentimentos feridos do lado de fora. O 
telefone estava tocando.
      - Algum atende a, por favor - implorou Cam. - Seth, leve esse lixo todo l para cima e depois v dar banho naqueles cachorros fedidos.
      - Nos dois? - A idia o deixou empolgado, mas ele achou melhor reclamar: - Por que  que sou eu quem tem que fazer isso?
      - Porque eu estou mandando! - Ah, como Cam detestava cair no lugar-comum de uma frase como essa, to idiota, to adulta. - A mangueira est l nos fundos. 
Por Deus, eu preciso de uma cerveja!
      Por no ter energia nem mesmo para isso, deixou-se largar na poltrona mais prxima e ficou fitando o vazio, com os olhos vidrados. Se tivesse que enfrentar 
novamente um shopping como aquele na vida, prometeu a si mesmo, iria dar um tiro na cabea e resolver o problema.
      - Era a Anna - avisou Phillip ao voltar para a sala, caminhando devagar.
      - Anna? Hoje  sbado! - No conseguiu reprimir um gemido de estafa. - Preciso de uma transfuso.
      - Ela mandou dizer a voc que ela mesma cuidar do jantar.
      - timo, legal! Agora eu preciso me recuperar um pouco. O garoto vai ficar com voc e com Ethan hoje  noite.
      - S com Ethan - corrigiu Phillip. - Eu tambm tenho um encontro. - Mas se deixou afundar em outra poltrona e fechou os olhos. - No so nem cinco da tarde 
e tudo o que eu quero fazer  rastejar at a cama, cair no sono e me lanar no esquecimento. Como  que as pessoas fazem essas coisas consigo mesmas?
      - Agora ele tem roupa bastante para durar um ano. Se a gente tiver que fazer isso apenas uma vez por ano, at que no  to mau.
      Phillip abriu um olho.
      - Ele tem roupa para a primavera e o vero. E quando o outono chegar? Vo ser suteres, casacos e botas. E est arriscado a ele crescer depressa demais e perder 
antes do tempo toda essa porcaria de roupa que a gente comprou hoje.
      - No podemos deixar que isso acontea. Deve haver uma plula ou algo desse tipo que a gente possa dar para ele parar de crescer. E talvez ele j tenha um 
casaco pesado.
      - No, ele chegou aqui s com as roupas do corpo. Papai no conseguiu receber um pacote completo, mais uma vez...
      - Tudo bem, a gente pensa nisso mais tarde. Bem mais tarde. - Cam pressionou os dedos sobre os olhos. - Voc reparou no jeito com que Claremont olhou para 
ele, no reparou? Viu o jeito nojento com que aqueles olhinhos midos brilharam?
      - Vi. Ele vai espalhar coisas por a, vai cont-las do jeito que quiser, e no h nada que possamos fazer a respeito.
      - Voc acha que o garoto sabe de alguma coisa, de um jeito ou de outro?
      - No sei ao certo o quanto Seth conhece da histria. Posso tentar descobrir com ele. Mas vou arrumar uns investigadores, na segunda-feira, para averiguar 
e tentar localizar a me.
      - Vai arranjar problema.
      - Ns j estamos com problemas. A nica forma de lidar com eles  reunir informaes. Se ficar provado que Seth pertence  famlia Quinn por sangue, a ento 
a gente lida com o fato.
      - Papai jamais magoaria a mame dessa forma. Casamento no era apenas uma coisa  toa para ele. Era o grande lance na vida. E eles eram muito unidos.
      - Se ele tivesse pulado a cerca, teria contado a ela. - Nisso Phillip acreditava com firmeza. - Eles teriam analisado o problema e tentado super-lo. S que 
essa parte da vida deles no  da nossa conta, alis, continuaria a no ser da nossa conta se no fosse por Seth.
      - Ele jamais pularia a cerca - murmurou Cam, determinado a acreditar naquilo. - Vou lhe contar uma coisa que aprendi com eles. Se voc se casa, quando faz 
aquelas promessas, est decidido! Acho que  por isso que ns trs ainda continuamos solteiros.
      - Talvez. Mas no podemos ignorar os boatos e as suspeitas. E se a seguradora empacar nessa idia de no pagar o seguro de papai, isso vai colocar ns quatro 
em um grande rolo. Especialmente agora que a gente acabou de assinar um contrato de locao para aquele buraco caindo aos pedaos.
      - Vai dar tudo certo. A sorte est comeando a virar em nossa direo.
      - Ah, est? - perguntou Phil enquanto Cam se levantava. - E como foi que voc descobriu isso?
      - Porque eu estou a caminho de passar a noite com uma das mulheres mais sensuais do planeta e pretendo usar essa sorte para me dar muito bem. - Olhando para 
trs enquanto subia as escadas, avisou: - No me espere acordado, mano.
      Assim que entrou no quarto, Cam ouviu a barulhada que vinha do quintal. Foi at a janela e olhou para Seth e os ces. Simon estava sentado sobre as patas traseiras, 
com ar estico, enquanto Seth o ensaboava. Bobalho estava rodando em crculos como um idiota, latindo com empolgao e terror diante da mangueira que cuspia gua, 
onde ela havia sido jogada, descuidadamente, sobre a grama.
       claro que o garoto estava usando seus sapatos novinhos, que j estavam encharcados e enlameados. E ria como louco.
      Cam no supunha que o garoto fosse capaz de rir daquele jeito, analisou enquanto continuava olhando. Jamais imaginou que ele pudesse se sentir daquele jeito, 
to feliz, sem reservas, jovem e tolo.
      Simon se levantou e deu uma violenta sacudida no corpo, lanando gua e sabo para todos os lados. Recuando, Seth escorregou na grama molhada, caiu de bunda 
no cho e continuou a gargalhar, dando urros de alegria enquanto os dois ces pulavam em cima dele. Brincaram de brigar sobre a gua, a lama e o sabo at os trs 
ficarem completamente ensopados e imundos.
      No andar de cima, Cam simplesmente ficou apreciando o sorriso com um quilmetro de largura que continuava estampado no rosto do menino.
      A imagem pulou de volta em sua cabea quando Cam caminhava pelo corredor em direo ao apartamento de Anna. Estava louco de vontade de contar tudo a ela durante 
o jantar. Queria compartilhar aquilo e achou que isso serviria para diminuir a resistncia dela tanto quanto uma refeio tranqila  luz de velas em um restaurante.
      As rosas que comprara pelo caminho tambm no iam cair mal. Ele as cheirou. Se continuava a ser um conhecedor to bom da alma e do corao femininos como imaginava, 
era capaz de apostar que Anna Spinelli tinha um fraco por rosas amarelas.
      Antes mesmo de ter a chance de bater no apartamento de Anna, a porta do outro lado do corredor se abriu.
      - Ol para voc, deve ser o novo namorado...
      - Oi, Sra. Hardelman. Ns j nos conhecemos, h alguns dias.
      - No, ns no! Voc conheceu a minha irm.
      - Ah... - Cam sorriu com cautela. Ela parecia exatamente igual  mulher que colocara a cabea do lado de fora da outra vez, e estava at usando o mesmo roupo 
cor-de-rosa em chenile. - Bem... como vai a senhora?
      - Voc trouxe flores! Ela vai gostar disso. Meu namorado costumava me trazer flores, e o meu Henry, que Deus o tenha, me trazia lilases todo ms de maio. No 
ms que vem traga um ramo de lilases, meu rapaz, se Anna continuar a deixar voc visit-la. A maioria deles ela bota pra correr, mas talvez fique com voc.
      - ... - Cam conseguiu dar um sorriso, embora seu corao tenha parado de bater ao ouvir as palavras "fique com voc". - Talvez... - Por impulso, ele puxou 
uma das rosas e entregou-a  vizinha, com um floreio galante.
      - Oh!. - Um rubor de menina surgiu em seu rosto enrugado.
      - Puxa, minha nossa! - Seus olhos brilharam de prazer enquanto ela cheirava a rosa. - Que adorvel! Que gracinha! Olhe, se eu fosse uns quarenta anos mais 
nova, ia disputar com Anna para ficar com voc.
      - Piscou, flertando abertamente. - E aposto que ia vencer.
      - No, sem disputas! - Retribuiu-lhe o sorriso luminoso sorrindo tambm e dando uma piscadela. - H... diga ol para a sua... irm.
      - E vocs tenham uma noite bem gostosa. Podiam ir danar... - sugeriu ela, enquanto fechava a porta.
      - Boa idia. - Rindo para si mesmo, Cam bateu na porta.
      Quando Anna atendeu, parecendo sexy o bastante para ser devorada em trs rpidas dentadas, Cam decidiu que a sesso de dana devia comear de imediato. Agarrou-a 
pela cintura e girou com ela ao som latejante da batida bsica de uma cano clssica de Bruce Springsteen e a E Street Band que vinha do som. Ento lanou o corpo 
de Anna para baixo e para trs, enquanto ela ria e tropeava.
      - Ora, ol... - Adorando se sentir ligeiramente tonta, deu uma gargalhada. - Coloque-me em p, voc me deixou desequilibrada.
      -  exatamente como eu quero voc... desequilibrada. - E baixou a boca de encontro  dela, fundindo-as em um beijo que a fez sentir todos os seus ossos derreterem. 
Com a cabea girando, ela agarrou os ombros dele.
      - A porta ainda est aberta - conseguiu dizer, e lanou a mo para a frente com um esforo, para fech-la.
      - Bem pensado. - Ele a levantou lentamente, centmetro por centmetro, com a boca ainda trabalhando agitadamente sobre a dela. - Sua vizinha disse que eu devia 
lev-la para danar.
      - Ah... - Ela estava surpresa por no ver vapor saindo dos seus poros. - Ento isso foi uma dana?
      - No, apenas uma amostra - disse, e prendeu o lbio inferior dela entre seus dentes, apertou-o mais um pouco e depois o liberou. - Quer danar um tango, Anna?
      - Acho melhor deixar para depois. - Mas pressionou a mo sobre o corao para mant-lo no lugar, enquanto se desvencilhava dos braos dele. - Voc me trouxe 
flores! - E enterrou o rosto nelas ao peg-las da mo dele. - Achou que eu era louca por botes de rosa, no foi?
      - Foi.
      - Pois acertou. - E sorriu por entre as flores. - Vou coloc-las na gua. Enquanto isso, voc pode nos servir um pouco de vinho. Tem uma garrafa que eu deixei 
decantando em cima do balco. Os clices esto bem do lado.
      - Certo. Eu... - Cam olhou para trs dela, viu uma panela brilhante com algo borbulhante, sobre o fogo, e uma tigela com canaps e aperitivos sobre o balco. 
- O que significa tudo isso?
      - Jantar - disse, e procurou um vaso para as flores na parte de baixo do armrio da cozinha. - Phillip no lhe deu o meu recado?
      - Quando ele disse que voc ia cuidar do jantar, achei que j tinha escolhido um lugar para jantar e havia at feito as reservas. - Pegou um canap de champignon 
na bandeja de tira-gostos, experimentou e suspirou, em puro xtase gustativo. - No achei que voc fosse cozinhar para mim.
      - Eu gosto de cozinhar - disse ela com naturalidade, enquanto enchia um vaso rosa-beb com gua. - E tambm queria ficar a ss com voc.
      - Difcil rebater esse argumento. - E engoliu em seco. - O que vamos comer?
      - Lingini, com o famoso molho especial da famlia Spinelli. Ela se virou para pegar o clice de Merlot que ele lhe oferecera. Seu rosto parecia ligeiramente 
afogueado pelo calor da cozinha. O vestido que escolhera era da cor de pssegos maduros, e moldava seu corpo como as mos de um amante. Seus cabelos estavam soltos, 
em cachos abundantes, e seus lbios estavam com um batom quase da mesma cor que o vinho que tomava.
      Cam decidiu que, se planejava ter uma conversa de mais de trs segundos com ela antes de tornar a agarr-la, era melhor permanecer do outro lado do balco.
      - O cheiro est fantstico!
      - E o sabor, melhor ainda.
      Sua pulsao estava martelando em toda parte de seu corpo ao mesmo tempo. O jeito com que ele olhara para ela, apenas um longo, intenso e significativo fixar 
de olhos antes de sorrir, a deixara carente, com uma espcie de dor insistente de pura necessidade, que latejava sem parar. Por puro impulso, virou-se para trs 
e apagou o fogo sob a panela. Mantendo os olhos nos de Cam, caminhou em volta do balco na direo dele.
      - Ento vamos l - disse-lhe ela. Deixou o clice de lado, depois pegou o dele e o colocou sobre o balco tambm. Balanou os cabelos, jogando-os para trs, 
levantou ligeiramente o rosto em direo ao dele e sorriu suavemente, dizendo:
      - Venha me experimentar...


  Captulo Doze
  
      Seu sangue j pulsava com fora, uma batida primitiva, forte e animal, quando Cam deu um passo  frente. Olhou bem fundo nos olhos dela, esperando guardar 
cada mudana e lampejo de emoo.
      - Vou querer fazer mais do que simplesmente experimentar. Portanto, prepare-se...
      s vezes, pensou ela, a pessoa tinha de seguir seus instintos, seus desejos. Naquele momento os dela, todos eles, estavam centrados nele.
      - Voc no estaria aqui esta noite se eu no estivesse preparada. Com um leve curvar dos lbios que formava um sorriso, ela esticou o brao e enrascou os cabelos 
dele entre seus dedos. Ela saberia como lidar com ele, estava certa disso.
      Cam colocou as mos sobre os quadris dela. Aquela no era uma modelo de corpo fino e reto como o de um menino e sim uma mulher. E ele a desejava. Sorriu de 
volta. Ele saberia como lidar com ela, estava certo disso.
      - Voc gosta de fazer apostas, Anna?
      - De vez em quando.
      - Ento, vamos atirar os dados.
      Ele a trouxe para junto de si com um puxo brusco, que fez sua respirao parar e depois seguir, um instante antes de a sua boca estar sobre a dela. O beijo 
foi rpido, desesperado, extremamente faminto, com as lnguas se entrelaando e os dentes mordiscando. Os pequenos gemidos que sua garganta emitiu subiram direto 
 cabea dele, como usque puro.
      Ela puxou a camisa dele para fora das calas e enfiou as mos por baixo. Carne e msculos, ela precisava sentir aquilo. Com um murmrio de prazer, ela amassou, 
apertou, arranhou e golpeou, at que aquela carne pareceu-lhe queimar os dedos, e os msculos se tornaram duros como ferro.
      Anna queria aquela fora e aqueles msculos esmagados contra os dela.
      Ele tateou por trs do vestido dela, em busca de um zper, e ela riu, quase sem flego, com a boca junto da garganta dele.
      - No tem zper - avisou ela, e enterrou os dentes em seu queixo, sem se preocupar em ser gentil. - Voc vai ter que... arriar o vestido.
      - Nossa! - Ele apertou o tecido colante dos ombros dela, puxando-o para baixo e substituindo-o por seus dentes enquanto o desejo pelo sabor de carne, da carne 
dela, deixava-o zonzo.
      Comearam a girar como bailarinos, embora seu ritmo estivesse distante do dedilhado onrico do preldio de Chopin que vinha agora do aparelho de som. Ele tirou 
os sapatos. Ela abriu, vida, os botes da sua camisa. A cabea dele flutuava quando eles entraram, cambaleantes, pela porta do quarto. Ela tornou a rir, mas o som 
se transfigurou em um gemido no momento em que ele lhe puxou o vestido com fora at a cintura e quando aqueles olhos da cor de ao escovado acompanharam o movimento 
de suas mos para, a seguir, abaixar a cabea e comear a devorar a pele que estava junto da renda preta de seu suti.
      Sua lngua deslizou por baixo da borda rendada, excitando-a e saboreando-a at que seus joelhos ficaram frouxos e sua cabea se encheu de luzes piscantes e 
coloridas. Ela pressentira que ele era capaz de fazer isso com ela, lev-la at o limite entre a razo e a insanidade.
      
      E queria que ele fizesse isso. Mais... ela queria carreg-lo at l junto com ela.
      O desejo era imenso, impiedosamente pungente, impulsivo e primitivo. E naquele instante, para ambos, era tudo o que importava.
      Murmurando sem sentir, ela arrancou a camisa dele e enterrou as unhas na curva dura dos seus ombros. O peito dele era largo e firme, a carne quente e macia 
sob suas mos errantes. Havia cicatrizes sob o ombro e ao longo das costelas. O corpo, pensou ela, de um homem que gostava de correr riscos, algum que s jogava 
para ganhar.
      Com um leve girar de seus dedos experientes, ele abriu o fecho da frente e fez os seios dela saltarem e encherem suas mos sedentas. Ela era magnfica. Pele 
dourada e curvas exuberantes. Ele achou que seu corpo era quase impossivelmente perfeito. No entanto, era eroticamente real, suave, porm firme, liso e perfumado. 
Ele queria se enterrar dentro dela, mas, quando ela tentou puxar as calas dele para baixo, Cam balanou a cabea.
      - H, h. Eu quero voc na cama. - E trouxe as mos dela de volta para cima, at que elas lhe envolveram o pescoo, trazendo-lhe a boca para perto, at que 
o beijo se tornou selvagem e atordoante. - Quero voc por baixo, de mim, por cima de mim, com as pernas em volta de mim.
      Anna tirou um dos sapatos, tentando se equilibrar enquanto eles oscilavam para a frente e para trs em direo  cama.
      - E eu quero voc dentro de mim! - E chutou o outro sapato para longe enquanto os dois caam sobre o colcho.
      Ela rolou por cima dele primeiro, montando nele com as pernas uma para cada lado. A luz do dia j havia quase desaparecido. Apenas a plida luz amarela do 
sol que se punha escorria atravs das janelas. As sombras mudaram de lugar. Os lbios dela estavam famintos, irrequietos, percorrendo-lhe todo o rosto e a garganta. 
Embora ela j tivesse desejado outros homens antes, naquele momento sentiu uma ferocidade e um desejo primai inund-la por dentro, de um jeito que jamais experimentara. 
Ela ia tom-lo, era s o que conseguia pensar. Ia tomar o que queria e aplacar aquela necessidade quase insuportvel.
      Quando ela se arqueou para trs e a parte de cima de seu corpo formou uma silhueta diante daquela luz frgil, o ar pareceu ficar preso dentro dos pulmes dele. 
Cam a queria com uma urgncia que no se lembrava de ter sentido por ningum mais, nem por nada na vida. O desejo de ter, de tomar e de possu-la acelerou com violncia 
a sua corrente sangnea, j totalmente agitada.
      Ele elevou o prprio corpo, agarrando o cabelo dela com uma das mos e puxando a sua cabea para trs, a fim de expor aquela longa curva da garganta, que envolveu 
com a boca. Ele toparia qualquer coisa com ela. Queria ter tudo.
      Foi mais rude do que planejara ao empurr-la de volta sobre a cama. Sua respirao j estava ofegante no instante em que enganchou as mos nas dela. Seus olhos 
estavam brilhando, um pouco mais escuros. O tipo de olhos, pensou ele, nos quais um homem era capaz de mergulhar. Seus cabelos se espalharam em uma massa embaraada 
de seda negra contra o fundo da colcha em tom de bronze. O perfume dela era mais do que um convite provocante. Era uma exigncia que ardia lentamente.
      Possua-me, o aroma parecia dizer... Se voc tem coragem.
      - Eu poderia devorar voc viva - murmurou ele, e mais uma vez esmagou a boca de encontro  dela.
      Manteve-a presa  cama, sabendo que se ela conseguisse se soltar tudo acabaria depressa demais. Rpido, por Deus, ele queria que fosse rpido, mas tambm no 
queria que acabasse nunca. Pensou que poderia viver toda a sua vida bem ali, naquela cama, com o corpo vibrante de Anna se contorcendo por baixo do seu.
      As mos dela se flexionaram sob as dele, e seu corpo se arqueou para cima quando ele cobriu um de seus mamilos com a boca. Ele podia sentir-lhe o corao descompassado 
enquanto usava os dentes, a lngua e os lbios para saborear, levando prazer a ambos.
      Quando ele j tinha se preenchido por completo com ela e se alimentado dela, soltou-lhe um pouco as mos, para que ela pudesse tocar e ele ser tocado.
      Rolaram novamente sobre a cama, tateando e arrancando as roupas que ainda permaneciam entre eles. A respirao de ambos estava acelerada, ofegante, pontuada 
por meios gemidos e murmrios baixos que mostravam emoes turbulentas e delrios ocultos. Com as sensaes escorrendo umas por cima das outras, novas camadas trmulas 
foram se acumulando em direo ao delrio. Ela estremeceu sob as mos dele e quase chorou enquanto novos golpes de prazer a atingiam por dentro, cada um deles penetrante 
e nico.
      Anna lutou, tentando trazer para ele a mesma dor excruciante e prazerosa.
      Sua mo se fechou sobre a dela, e ela se sentiu quente, mida e pronta. Seu corpo tornou a se arquear e suas unhas se enterraram nas costas dele uma vez mais, 
enquanto todo o seu corpo pareceu explodir, chegando ao pico.
      Ento os dois enlouqueceram.
      Ela iria se lembrar apenas de que queria mais. E mais... mais ainda. Era sexo animal e selvagem, um desejo puro de acasalar. Mos vidas que escorregavam sobre 
a pele mida, bocas sedentas que se buscavam. Ela gozou mais uma vez, e seu grito de libertao foi um semi-soluo de triunfo e desamparo.
      A luz se fora de todo, mas ele ainda conseguia v-la. O brilho daqueles olhos escuros, o formato generoso daquela boca maravilhosa. O sangue bombeou com mais 
fora, rugindo em sua cabea, no seu corao, entre suas virilhas. Tudo o que ele conseguia pensar era agora, e se lanou com fora dentro dela, com toda a determinao 
e profundidade.
      Sua viso se embaou e sua mente se revirou. Eles se mantiveram equilibrados por um momento, trmulos, unidos, acasalados. Ele no estava nem mesmo consciente 
de que suas mos buscavam as dela e de que seus dedos se dobravam, formando punhos fechados.
      Ento comearam a se mover em uma corrida j cheia de velocidade e urgncia. Ouviam o barulhinho bom e saudvel de carne molhada se esfregando em carne molhada. 
Seus olhares se encontraram e permaneceram fixos um no outro. Ele observou os olhos dela parecerem cegos e opacos enquanto ela se encrespava toda, e ouviu o gemido 
que saiu de seus lbios, rasgando tudo, um instante antes de ele fechar os lbios sobre os dela para engolir o som.
      Os quadris dele bombeavam-na como se fossem pistes, arrebatando-o cada vez mais, levando-o cada vez mais perto de seus prprios limites esgarados. Ele se 
projetava com fora dentro dela, parecendo se segurar na beira de um abismo pelas pontas dos dedos. Observando-a, sentiu a necessidade de se soltar, apertar-lhe 
por dentro, de forma cruel. Ento, o corpo dela ficou sem foras, como um arco dobrado pelo choque e pelo prazer.
      Foi o ltimo grito dela que ele engoliu ao se aliviar.
      Ele no via condies de se mover. Cam parecia certo de que se algum empunhasse uma arma junto da sua cabea naquele momento ele iria simplesmente continuar 
deitado ali, esperando a bala. Pelo menos morreria satisfeito.
      No conseguia imaginar nenhum lugar melhor para estar do que estirado sobre o corpo curvilneo de Anna, com o rosto enterrado em seus cabelos. E se ele permanecesse 
ali por algum tempo seria bem capaz de partir para o segundo tempo.
      A msica mudara novamente. Quando sua mente conseguiu ficar clara o bastante, reconheceu uma das baladas de Paul Simon, com uma linda melodia. Quase cochilou 
enquanto ouvia a cano.
      - Se voc pegar no sono em cima de mim, vou ter que dar um soco em voc.
      Ele arrematou toda a energia que tinha para sorrir.
      - No vou dormir no... estava s pensando em fazer amor com voc novamente.
      - Ah... - E apertou as mos sobre ele, descendo por suas costas at os quadris. -  mesmo?
      - ... preciso apenas de alguns minutos.
      - Eu lhe daria esse tempo, se conseguisse respirar.
      - H?... - De forma preguiosa, ele se levantou meio de lado, apoiando-se nos cotovelos, e olhou para ela. - Sinto muito.
      - No, no sente no. - E simplesmente sorriu. - Voc est  todo convencido. Mas eu tambm estou; ento, tudo bem.
      - Foi uma grande transa.
      - Sim, foi uma grande transa - concordou ela. - S que agora eu tenho que terminar de fazer o jantar. Vamos precisar de combustvel, se quisermos tentar fazer 
tudo aquilo de novo.
      Deliciado e meio desnorteado, ele balanou a cabea.
      - Voc  uma mulher fascinante, Anna. Sem jogos, sem desculpas. Com esse seu jeito e seu corpo,  capaz de ter os homens que quiser se atropelando para chegar 
a voc.
      Ela lhe deu um pequeno empurro para conseguir se soltar e disse:
      - E o que faz voc pensar que eu j no fao isso? Voc est exatamente onde eu queria, no est? - Sorrindo, ela se levantou e caminhou nua at o closet.
      - Voc tem um corpao, Srta. Spinelli!
      Ela olhou por sobre o ombro enquanto vestia um roupo vermelho bem curto.
      - Voc tambm, Quinn.
      E saiu em direo  cozinha, cantarolando baixinho enquanto tornava a ligar o fogo sob o molho e enchia uma panela com gua para colocar a massa. Nossa, era 
maravilhoso, pensou ela, se sentir to solta, to flexvel, to liberada. Por mais imprudente que fosse ela tomar Cameron Quinn como amante, os resultados compensavam 
todos os riscos.
      Ele a fizera tomar conscincia de cada centmetro de seu corpo e de cada centmetro do dele. Ele a fez se sentir incrivelmente viva. E o melhor de tudo, refletiu, 
enquanto pegava o po que queria torrar de leve,  que ele parecia compreend-la.
      Uma coisa era ser desejada por um homem e ser satisfeita por um homem. Mas o que aquecia o seu corao era ter a afeio do homem que a desejava.
      Ela se virou e pegou o clice de vinho no instante em que Cam saiu do quarto. Ele vestira as calas, mas no se dera ao trabalho de fech-las. Anna bebia vagarosamente 
enquanto o analisava por sobre a borda do clice. Ombros largos, peito firme, uma cintura que se afunilava at chegar aos quadris estreitos e pernas compridas. Ele 
certamente possua um corpo fabuloso.
      E, por ora, ele era todo dela.
      Pegando um canap de pimenta da bandeja de aperitivos, ela o colocou diante dos lbios dele.
      - Isso  muito picante - disse Cam ao sentir a fora do condimento encher sua boca de saliva.
      - Hum-humm... eu gosto de coisas picantes - disse, e pegou o clice dele, entregando-lhe. - Est com fome?
      - Para falar a verdade, sim.
      - No vai demorar muito. - E como reconheceu o olhar em seu rosto foi novamente para trs do balco a fim de misturar bem o molho. - A gua j est quase fervendo.
      - Voc sabe o que se costuma dizer sobre panelas vigiadas. - E caminhou em volta do balco, indo na direo dela. Foi o desenho que viu pregado na porta da 
geladeira que o distraiu e o fez se esquecer do plano semiformado de agarr-la e t-la novamente ali, no cho da cozinha. - Ei, esse aqui se parece com o Bobalho.
      - E  o Bobalho mesmo. Foi Seth que desenhou.
      - Ah, no brinca! - E enfiou um polegar no bolso da cala enquanto olhava mais de perto. - Srio? O desenho est muito bem feito, no est? Eu no sabia que 
o garoto sabia desenhar.
      - Pois saberia se passasse mais tempo com ele.
      - Eu passo muito tempo com ele, todos os dias - murmurou Cam. - Ele nunca me falou xongas a esse respeito. - Cam no sabia explicar de onde viera aquela vaga 
sensao de aborrecimento, mas tambm no queria saber. - Como foi que voc conseguiu isso dele?
      - Pedindo... - disse ela simplesmente, e colocou o lingini na gua fervendo.
      Cam mudou de posio, afastando os ps, e falou:
      - Escute, estou fazendo o melhor que posso com o garoto.
      - Eu no disse que voc no est fazendo. S acho que voc vai fazer ainda melhor com um pouco mais de prtica e um pouco mais de esforo.
      Anna arrumou o cabelo para trs. No pretendia tocar naquele assunto. Seu relacionamento com Cam era para ter dois compartimentos separados, sem que seus contedos 
se misturassem.
      - Voc est fazendo um bom trabalho - continuou ela. - Estou sendo sincera. Mas h um longo caminho a percorrer, Cam, para ganhar a confiana dele e sua afeio. 
E para voc ter afeio por ele tambm, de volta. Ele  uma obrigao que voc est cumprindo, e isso  admirvel. S que ele tambm  um menino ainda pequeno. Precisa 
de amor. Voc tem sentimentos por ele, j testemunhei isso - e sorriu, olhando para trs -, apenas no sabe ainda o que fazer com eles.
      - Ento, agora eu preciso conversar com ele a respeito de desenhar ces? - Fez uma careta para o desenho.
      Anna suspirou e se virou para pegar o rosto de Cam e emoldur-lo entre as mos.
      - No, simplesmente converse com ele. Voc  um homem bom, com um bom corao. O resto vem por si s.
      Novamente aborrecido, ele apertou os punhos dela. No conseguia explicar por que a compreenso que havia na voz de Anna e a compaixo com ar divertido que 
via em seus olhos o deixavam nervoso, e afirmou:
      - Eu no sou um homem bom! - Apertou-a um pouco mais, o bastante para fazer com que os olhos dela se estreitassem. - Sou egosta, impaciente. Corro atrs de 
emoes porque  isso que curto. Pagar suas dvidas de gratido no tem nada a ver com ter um bom corao. Eu sou um tremendo filho-da-me e gosto de ser assim.
      - Ora,  sempre uma coisa sbia conhecer a si mesmo - disse ela simplesmente, levantando uma sobrancelha.
      - Provavelmente eu vou magoar voc, Anna, antes de tudo isso terminar. - Sentiu uma fisgada de pnico na garganta, mas tentou ignor-la.
      - Pois eu acho que talvez eu o magoe primeiro - afirmou ela, colocando a cabea meio de lado. - Est disposto a correr esse risco?
      Ele no sabia se ria ou soltava um palavro diante disso, e acabou puxando-a para dentro de seus braos para um beijo ardente, sugerindo:
      - Vamos comer na cama.
      - Esse tambm era o meu plano - disse ela.
      
      A massa j estava quase fria quando eles conseguiram com-la, mas isso no os impediu de devor-la com avidez.
      Sentaram-se com as pernas cruzadas sobre a cama, com os joelhos de um batendo nos do outro, e sob a luz de meia dzia de velas que Anna acendera. Cam se empanturrou 
de lingini e fechou os olhos, demonstrando puro prazer e elogiando:
      
      - Puxa vida, isso est bom demais!
      - Ento voc devia experimentar a minha lasanha. - Anna enrolou a massa com habilidade em volta do garfo e colocou-a na boca.
      - Estou contando com isso. - Relaxado e com ar de preguia, ele partiu ao meio um pedao do po crocante que ela colocara em uma cestinha de vime e entregou 
a ela.
      O quarto, ele notou, era diferente do resto do apartamento. Ali ela no buscara o prtico nem o convencional. A cama em si era larga e coberta com lenis 
cor-de-rosa bem claros e um confortvel edredom em tom de ouro velho. A cabeceira da cama era um arco romntico todo em ferro trabalhado, cheia de curvas, bem comum 
e cercada por um monte de almofadas coloridas.
      Ele reconheceu que a cmoda era uma antigidade, uma pesada pea de mogno que fora restaurada e recoberta por um verniz rosado. Estava cheia de lindas garrafinhas, 
tigelas e uma escova com a parte de trs em prata. O espelho sobre o mvel era comprido, em formato oval.
      Havia ainda uma penteadeira com puxadores brilhantes de lato e uma banqueta em frente cheia de babados. Por alguma razo, ele sempre achara aquele tipo de 
moblia incrivelmente sexy.
      Um vaso cilndrico de cobre estava cheio de flores com hastes compridas, as paredes cobertas de gravuras e quadros, e as molduras das janelas eram pintadas 
no mesmo tom de ouro velho do edredom.
      Aquele, pensou Cam, distrado, era o quarto de Anna. O resto do apartamento era no estilo Srta. Spinelli. Um lado prtico, e o outro, sensual. Os dois combinavam 
com ela.
      Ele se esticou para o lado de fora da cama a fim de pegar a garrafa de vinho que deixara no cho e completou o clice dela.
      - Voc est tentando me colocar bbada?
      Ele lanou-lhe um sorriso cintilante. Os cabelos dela estavam emaranhados, o roupo solto o bastante para deixar um dos ombros nus. Seus olhos escuros pareciam 
rir de tudo aquilo.
      - No pretendia fazer isso, mas at que seria bem interessante.
      - Por que no me conta como foi o seu dia? - Sorriu, encolhendo o ombro e tomando o vinho, afinal.
      - Hoje? - E sacudiu o ombro. - Foi um pesadelo!
      - Srio? - E enroscou mais massa com o garfo, colocando-o na boca de Cam. - Quero detalhes.
      - Compras no shopping. Sapatos. Coisa abominvel! - Quando ela riu, ele sentiu um sorriso se espalhar em seu rosto tambm. Nossa, ela tinha uma risada linda. 
- Obriguei Ethan e Phillip a irem comigo. De jeito nenhum ia encarar essa sozinho. Tivemos quase que algemar o garoto para obrig-lo a ir. Quem passasse ia pensar 
que estvamos indo comprar uma camisa-de-fora em vez de sapatos novos.
      - Muitos homens no apreciam as alegrias, os desafios e as nuances sutis de ir ao shopping.
      - Ento da prxima vez v voc!... Enfim, eu j estava de olho em um galpo  beira d'gua. Passamos l para dar uma olhada, antes de irmos ao shopping. Vai 
servir.
      - Vai servir para qu?
      - Para o nosso negcio. Construo de barcos.
      - Vocs esto pensando nisso a srio mesmo? - Anna abaixou o garfo.
      - Totalmente a srio... o lugar vai dar para o gasto. Precisa de alguns reparos, mas o aluguel ficou em um valor razovel, especialmente depois que a gente 
quase obrigou o senhorio a pagar pela maior parte dos consertos bsicos.
      - E voc quer construir barcos...?
      -  algo que vai me tirar de casa e me manter longe das ruas. - Quando viu que ela no riu da piada, Cam simplesmente encolheu os ombros. - Bem, acho que eu 
posso vestir a camisa dessa idia... pelo menos por agora. Vamos preparar a primeira encomenda, um barco para um cliente com quem Ethan j havia se comprometido, 
e depois a gente v no que d.
      - Ento vocs j assinaram um contrato de locao?
      - Exato. Por que razo ficar adiando?
      - Alguns diriam que o motivo seria cautela ou considerao com os detalhes.
      - Eu deixo a cautela e a considerao com Ethan, e os detalhes com Phillip. Se no der certo, tudo que vamos perder  alguma grana e o nosso tempo.
      Era estranho o modo como aquele temperamento meio espinhoso combinava bem com ele, avaliou Anna. E combinava melhor ainda com aquele jeito aborrecido de "que 
se dane", to tpico dele.
      - E se a coisa der certo? - perguntou ela. - Voc j pensou a respeito?
      - Como assim?
      - Se tudo der certo, voc vai ter que assumir mais um compromisso. Vai acabar virando um hbito. - E riu dele, pela expresso de aborrecimento e surpresa que 
apareceu em seu rosto. - Vai ser divertido tornar a perguntar como voc se sente a respeito daqui a uns seis meses - disse, e se inclinou a fim de beij-lo de leve. 
- Que tal uma sobremesa agora?
      A preocupao chata que a palavra "compromisso" colocara em sua expresso desapareceu lentamente enquanto os lbios dela roavam os dele.
      - O que voc tem para sobremesa?
      - Cannoli - disse ela, enquanto colocava os pratos usados no cho.
      - Parece bom.
      - Ou... - olhando para ele, desfez o lao do roupo e o deixou escorregar pelos ombros - ... eu.
      - Parece melhor ainda - disse ele, e deixou-se puxar na direo dela.
      
      
      Passava um pouco das trs horas da manh quando Seth ouviu o carro chegando. Ele chegara a dormir um pouco, mas tivera sonhos. Sonhos maus, onde se viu de 
volta em um daqueles cmodos fedorentos em que as paredes eram manchadas, mais finas do que papel e deixavam todos os sons passarem atravs delas.
      Sons de sexo. Grunhidos, gemidos, camas rangendo e a gargalhada assustadora de sua me quando estava drogada. Reviver aquilo, ainda que apenas em sonhos, o 
deixou suado. s vezes ela entrava no quarto dele quando precisava de conforto e dormia sobre o sof bolorento. Se estivesse com bom astral, seria capaz de sorrir 
para ele e lhe dar alguns abraos apertados, acordando-o de um sono eternamente interrompido para traz-lo de volta aos cheiros e sons do mundo para o qual ela o 
arrastara.
      Se estivesse de mau humor, ela iria soltar palavres e esbofete-lo para depois, muitas vezes, acabar sentada no cho, chorando sem parar.
      De qualquer jeito, aquilo representava para ele mais uma noite miservel.
      O pior, porm, centenas de vezes pior, era quando um dos homens que ela levara para cama saa do quarto dela de mansinho, entrava no quarto entulhado em que 
ele dormia e tentava toc-lo.
      No acontecera com muita freqncia, e quando ele acordava aos berros, dando socos para todo lado, aquilo os fazia desistir. Mas o medo morava dentro dele 
como um demnio vermelho. Ele aprendera a dormir no cho, atrs do sof, quando ela trazia um homem para casa.
      Daquela vez, porm, Seth no acordara do pesadelo para encarar algo pior. Tentou tirar a mente para fora do sonho que o deixara encharcado de suor e se viu 
sobre lenis limpos, com um cozinho que ressonava todo encolhido ao seu lado.
      Chorou um pouco, porque se sentiu sozinho e no havia ningum a quem procurar. Ento se enroscou em Bobalho, sentindo-se mais calmo pelo suave e compassado 
respirar do co e seu plo macio. O som do carro chegando o impediu de mergulhar novamente no sono.
      Seu primeiro pensamento foi: E a polcia! Eles haviam chegado para lev-lo dali, carreg-lo para longe. Ento disse a si mesmo, enquanto o corao pulava tanto, 
que parecia chegar  garganta, que ele estava raciocinando como um beb. Mesmo assim, saiu da cama sem fazer barulho e foi, p ante p, at a janela para olhar.
      Ele j preparara um esconderijo para o caso de precisar de um.
      Era o Corvette. Seth disse a si mesmo que teria reconhecido o som do motor se no estivesse semi-adormecido. Viu Cam saltar e o ouviu assobiar baixinho, parecendo 
satisfeito.
      Deve ter ido cutucar e transar com alguma mulher, decidiu Seth com um ar de escrnio. Os adultos eram to previsveis. Quando se lembrou, porm, de que Cam 
havia sado para ir jantar com a assistente social, seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu.
      Caramba, puxa, cara!, pensou ele. Cam andava transando com a Srta. Spinelli! Aquilo era to... esquisito. To esquisito que ele no sabia nem como se sentir 
a respeito. Uma coisa era certa, compreendeu ele enquanto Cam continuava a caminhar em direo  porta: Cam estava se sentindo muito bem e parecia todo prosa a respeito 
daquilo.
      Ao ouvir a porta da frente se fechar, foi se esgueirando at a entrada do quarto. Queria dar uma espiada rpida, mas, quando ouviu o som de passos subindo 
a escada, mergulhou de volta na cama. S para garantir.
      O cozinho ganiu baixinho, comeou a se mexer e Seth fechou os olhos bem apertados enquanto a porta se abria.
      Quando os passos se aproximaram lentamente na direo de sua cama, seu corao comeou a martelar no peito. O que  que ele ia fazer?, pensou, j sentindo 
um pnico doentio. Deus, o que ele ia fazer? Bobalho comeou a abanar o rabo com fora sobre a cama, e Seth se encolheu ainda mais,  espera do pior.
      - Acho que voc se deu bem, hein, garoto, ficando por a de bobeira o dia todo, enchendo a pana e com uma cama macia e gostosa para dormir  noite, no ? 
- murmurou Cam.
      Sua voz estava meio arrastada, talvez pela falta de sono, mas para Seth aquilo pareceu ser efeito de bebida ou drogas. Lutou para manter a respirao lenta 
e constante, enquanto o corao continuava a socar seu peito como um bate-estacas, enquanto a cabea pulsava.
      - Sim, voc se deu realmente bem, no foi, garoto? E no precisou fazer nada para ganhar tudo isso... seu cachorro com cara de pateta... - Seth quase piscou, 
compreendendo que Cam estava falando com Bobalho e no com ele. - Vai ser um problema, viu, quando voc crescer demais e comear a ocupar mais espao na cama do 
que o seu dono...
      Com cautela, Seth entreabriu os olhos, apenas o suficiente para ver entre os clios. Viu a mo de Cam descer e fazer um carinho descontrado na cabea de Bobalho. 
Ento, sentiu os lenis e o cobertor serem puxados para cima e ajeitados em volta de seu pescoo. A mesma mo fez um carinho leve na cabea de Seth.
      Quando a porta tornou a se fechar, Seth ainda esperou uns bons trinta segundos antes de se arriscar a abrir os olhos. Viu-se cara a cara com Bobalho. O cozinho 
parecia estar sorrindo para ele, como se tivessem acabado de compartilhar uma experincia que era s deles. Sorrindo para o co, Seth atirou um brao em torno do 
corpo gorducho dele.
      - Acho que voc se deu bem mesmo, hein, garoto? - sussurrou ele.
      Como se concordasse, Bobalho deu uma lambida no rosto de Seth e depois, soltando um enorme bocejo, ajeitou-se para tornar a dormir.
      Dessa vez, quando Seth acabou pegando novamente no sono, no houve mais pesadelos para assombr-lo.
Captulo Treze
      
      - Voc parece que anda tremendamente feliz esses dias. Cam recebeu o comentrio sagaz de Phillip com um levantar de ombros e continuou a assobiar enquanto 
trabalhava. Estavam fazendo bastante progresso no que Cam chamava, brincando, de "estaleiro particular" deles. Era um trabalho pesado, suarento e sujo.
      Todas as vezes que Cam comparava aquilo com a tarefa de lavar roupa, agradecia a Deus.
      Embora as janelas que no estavam quebradas tivessem sido abertas de todo, o ar ainda carregava um leve cheiro de produtos qumicos. Por insistncia de Phillip 
eles acabaram comprando uma batelada de aerossis contra insetos e encheram o lugar com uma fumaa assassina. Quando a nvoa se dissipou, a limpeza foi pesada. Levaram 
quase metade de um dia de trabalho s para recolher os animais mortos.
      As janelas quebradas iam ser substitudas e estavam para ser entregues naquele dia. Claremont reclamara amargamente por causa da despesa, apesar do vantajoso 
acordo que fizera com o cunhado, que era gerente de uma companhia de madeiras em Cambridge e as vendera para ele a preo de custo. S pareceu um pouco mais tranqilo 
quando se lembrou de que os prprios Quinn iam arrancar fora as velhas janelas e instalar as novas, evitando assim a despesa extra de contratar operrios para o 
servio.
      Se ele percebeu que os melhoramentos no prdio iam aumentar o valor do imvel, guardou essa pequena satisfao para si mesmo.
      Eles haviam arrancado ou destrudo a socos e pontaps as tbuas podres e as levaram para o lado de fora do prdio, fazendo uma pilha de refugos que crescia 
de forma constante. O corrimo de metal que acompanhava as escadas que levavam ao andar de cima estava totalmente enferrujado, e eles o arrancaram fora. Claremont 
teve a fineza de conseguir as licenas exigidas pela Prefeitura, de forma que os Quinn estavam colocando abaixo duas paredes internas para construir um banheiro.
      Como considerava aquele tipo de trabalho um hobby, algo que gostava de fazer, e como voltava na maior parte das noites para uma casa limpa, alm de ter uma 
linda mulher disposta a danar o tango com ele sempre que os horrios e as circunstncias permitiam, Cam achou que tinha todo o direito de se sentir feliz.
      Ora, o garoto estava at mesmo fazendo os deveres de casa na maior parte dos dias. J entregara a to temida redao e estava a meio caminho de se livrar do 
perodo de observao da diretoria sem outros incidentes.
      Cam reparou que sua sorte estava mudando para melhor em um ritmo constante a partir das duas semanas anteriores.
      No que dizia respeito a Phillip, aquelas haviam sido as piores semanas de toda a sua vida. Quase no estivera em seu apartamento, perdera o seu par favorito 
de sapatos Magli para os dentes roedores de Bobalho, no vira nenhum restaurante por dentro, nem sequer unzinho que fosse apenas quatro estrelas, e no chegara 
perto de uma mulher nem o suficiente para sentir seu perfume.
      A no ser que considerasse a Sra. Wilson, no mercado, e  claro que essa no contava.
      Em vez disso, vivia lidando com detalhes, fazendo malabarismos com nmeros e problemas sobre os quais os outros nem mesmo imaginavam, alm de estar com as 
mos cheias de bolhas devido ao uso constante do martelo. Passava as noites tentando descobrir onde fora parar a vida que ele conhecera at ali.
      O fato de saber que Cam estava fazendo sexo regularmente o deixava ainda mais revoltado.
      Quando uma das tbuas que levantara presenteou-o com uma imensa farpa no polegar, xingou com todas as letras:
      - Mas que merda! Por que no contratamos carpinteiros?
      - Porque voc mesmo, que  o guardio de nossos mgicos oramentos, afirmou que era muito mais barato desse jeito. Alm do mais, Claremont nos deu o primeiro 
ms de aluguel de graa se ns mesmos fizssemos os servios de reparao. - Cam pegou a tbua das mos do irmo, colocou-a no lugar e comeou a martelar um prego 
nela. - Voc disse que era um bom acordo.
      - Devia estar sofrendo de insanidade nesse dia! - Rangendo os dentes, ele arrancou a farpa e chupou o dedo que doa.
      Phillip, ento, deu um passo para trs, colocou as mos nos quadris, acima do seu cinto de ferramentas, e inspecionou a rea. Estava imunda. Sujeira, serragem, 
um monte de material de refugo, pilhas de tbuas, lminas de plstico. Aquela no era a vida dele, tornou a pensar, enquanto o martelo de Cam descia sobre a tbua 
no mesmo compasso de um rock de sucesso de Bob Seger que tocava no rdio, explodindo em seus tmpanos a todo o volume.
      - Eu s posso ter tido um acesso de insanidade. Este lugar est uma zona!
      - ...
      - Montar esse negcio idiota vai devorar todo o nosso capital.
      - Sem dvida!
      - Vamos afundar em seis meses.
      - Pode ser...
      Phillip olhou com cara feia e esticou o brao para pegar uma jarra de ch gelado, acusando:
      - E voc no est dando a mnima!
      - Se for tudo pro espao, tudo bem, que v!... - Cam enfiou o martelo de volta na haste do cinto e pegou o metro. - No vai adiantar nada desistir antes do 
tempo. E se a gente conseguir se dar bem, mesmo que as coisas fiquem meio tumultuadas por algum tempo, vamos conseguir o que precisamos.
      - Que na verdade ...?
      - Um negcio montado. - Cam pegou a tbua seguinte, analisou o comprimento dela fechando um dos olhos e a colocou sobre a bancada onde ficava a serra eltrica. 
- Um negcio que Ethan vai poder administrar depois que a poeira assentar. Pode contratar uns dois operrios em regime de meio expediente, na poca da baixa temporada 
para a pesca, e d para construir trs ou quatro barcos por ano para manter o negcio numa boa.
      Fez uma pausa longa o bastante para marcar a tbua e ligou a serra. Poeira voou para todo lado e o barulho era horrvel. Cam desligou o motor da serra ao acabar 
e testou o peso da tbua. Depois de coloc-la no lugar, continuou:
      - Eu posso dar uma mozinha para ele de vez em quando, e voc vai cuidar do fluxo de grana. Isso vai nos dar espao para retomarmos nossa vida, pelo menos 
em parte. Eu posso disputar algumas corridas por ano e voc volta ao seu trabalho de convencer os consumidores a comprar coisas atravs de anncios sofisticados. 
- Tornou a pegar o martelo. - No fim, todo mundo vai ficar feliz.
      - Voc andou refletindo sobre tudo isso... - Phillip entortou um pouco a cabea e coou o queixo.
      - Exato!
      - E quando voc avalia que essa maravilhosa volta  normalidade vai acontecer?
      - Quanto mais depressa a gente colocar este lugar em condies e funcionando, mais depressa a gente consegue terminar o primeiro barco. - Cam enxugou o suor 
da testa com as costas da mo.
      - O que explica o fato de estarmos aqui ralando a minha bunda e a sua de tanto trabalhar. Mas o problema : e depois?...
      - Tenho muitos contatos, o suficiente para nos conseguir uma segunda encomenda, at mesmo uma terceira. - Pensou em Tod Bardette, o canalha, que estava naquele 
mesmo instante treinando uma equipe para a One-Ton Cup. , ele podia convencer Bardette a encomendar um barco das Embarcaes Quinn. E ainda havia outros, um monte 
deles, que tinham condies de pagar, e pagar bem. - Eu acho que a minha maior contribuio para este empreendimento vo ser os contatos. Seis meses - afirmou. - 
Vamos ter que segurar as pontas por uns seis meses.
      - Eu volto a trabalhar na segunda - avisou Phillip, preparando-se para uma discusso. - Tenho que voltar. Estou escalonando os meus horrios para ficar em 
Baltimore s de segunda a quinta.  o melhor que posso fazer.
      - T legal... - considerou Cam. - Por mim tudo bem, mas voc vai ter que ralar muito aqui nos fins de semana.
      Por seis meses, pensou Phillip. Mais ou menos. Ento, bufou, dizendo:
      - H um fator que voc no incluiu no seu plano. Seth.
      - O que tem ele? Seth vai ficar aqui. Ele tem um lugar para morar. Vou usar a casa como uma espcie de base para mim.
      - E quando voc estiver fora, quebrando recordes e coraes em Monte Cario?
      - Qual ? O garoto no precisa nem quer ficar dentro do meu bolso o tempo todo, grudado. - Cam fez uma cara azeda e comeou a bater no prego com mais fora 
do que a necessria. - Vocs vo estar por perto quando eu no estiver. O garoto vai estar sempre com algum tomando conta dele.
      - E se a me dele voltar? Os investigadores at agora no conseguiram encontr-la. Ela sumiu. Eu me sentiria melhor se a gente soubesse onde ela est e o que 
anda tramando.
      - No estou nem pensando nela. Ela est fora dessa histria. - E tem que ficar, insistiu Cam consigo mesmo, lembrando o olhar de puro terror que vira no rosto 
de Seth. - Ela no vai querer encarar a gente de frente.
      - Mesmo assim, gostaria de saber onde ela est - repetiu Phillip. - E queria saber tambm que diabos ela representava para papai.
      Cam tirou aquilo da cabea. Sua maneira de lidar com pontas soltas era amarr-las juntas e se esquecer delas. O problema mais imediato, pelo que via, era colocar 
o prdio em ordem, comprar equipamentos, ferramentas e suprimentos. Se o negcio era apenas um meio de alcanar um fim especfico, as coisas tinham que ter incio.
      Cada dia que passava trabalhando no galpo era um dia a menos para a volta da sua liberdade. Cada dlar que gastava em suprimentos e equipamentos era um investimento 
para o futuro... o seu prprio futuro.
      Estava cumprindo a sua promessa, afirmou para si mesmo. Do seu jeito.
      Com o sol castigando suas costas e uma bandana azul desbotada amarrada em volta da cabea, arrancava as telhas quebradas do telhado. Ethan e Phillip trabalhavam 
logo atrs dele, substituindo as telhas. Seth parecia estar se divertindo atirando as telhas descartadas de cima do telhado para o cho, e uma pilha imensa estava 
se formando abaixo deles.
      Aquele era um lugar legal para se estar, na opinio de Seth. No alto do telhado, com o sol esquentando tudo em cima e em volta, uma gaivota passava voando 
perto deles de vez em quando. Dava para ver tudo ao redor dali de cima. A cidade, com suas ruas retas e quarteires quadrados. As velhas rvores que pareciam brotar 
da grama como estacas. E as flores, que tambm eram muito bonitas. Dali do alto pareciam borres e pontos isolados em cores fortes. Algum aparava grama ao longe, 
e o som chegava at ele sob a forma de um zumbido constante.
      Dava para ver a margem do rio, com diversos barcos atracados ou navegando pelas guas. Dois meninos velejavam em um pequeno esquife com velas azuis, e, como 
sentiu uma sbita inveja deles, Seth desviou o olhar novamente para as docas.
      Havia gente ali fazendo compras, caminhando com descontrao ou almoando em um dos restaurantes com mesas externas cobertas com imensos pra-sis. Os turistas 
observavam o show que os caadores de caranguejo ofereciam. Seth gostava de esnobar os turistas; quando os esnobava, j no tinha tanta inveja dos meninos com seu 
barquinho esperto.
      Ficou com vontade de ter ali com ele os binculos que Ray lhe dera, para que pudesse enxergar ainda mais longe. Gostaria tambm de poder ficar ali sentado 
de vez em quando com o seu caderno de desenhos.
      Tudo parecia to... limpo ali de cima. O cu e o mar eram to azuis, a grama e as folhas das rvores to verdes... dava at para sentir o cheiro da gua se 
a gente respirasse fundo e tambm dava para sentir um cheiro de salsichas de cachorro-quente sobre a grelha em algum lugar.
      Aquele aroma fez seu estmago roncar de fome. Deslocou-se um pouco para o lado e olhou para Cam com o rabo do olho. Cara, ele gostaria de ter msculos fortes 
como os dele. Com msculos como aqueles dava para a gente fazer qualquer coisa, e no havia ningum que pudesse impedir. Quando um cara tinha msculos como aqueles, 
jamais precisava ter medo de nada nem de ningum durante toda a vida.
      Testando os prprios bceps com os dedos, ficou longe de se sentir satisfeito. Pensou que se ele ajudasse um pouco no trabalho com as ferramentas talvez conseguisse 
endurec-los um pouco.
      - Voc disse que eu podia arrancar algumas dessas telhas - lembrou-lhe Seth.
      - Depois...
      - Voc j disse depois antes...
      - E estou tornando a dizer. - Aquele era um trabalho pesado, quente, chato, e Cam queria acabar com aquilo bem depressa tanto quanto queria respirar. J ficara 
com a camiseta toda suada e a despira. Suas costas reluziam de suor e sua garganta parecia seca como o deserto. Arrancando mais algumas telhas, observou Seth, que 
as varejava l para baixo.
      - Voc est jogando todas elas na mesma pilha?
      - Estou. Foi isso que voc me mandou fazer.
      Cam olhou com ateno para o garoto. Seu cabelo saa em tufos debaixo do bon dos Orioles, o famoso time de beisebol de Baltimore. Cam comprara aquele bon 
para Seth quando eles foram assistir a um jogo deles na semana anterior. Pensando bem, Cam chegou  concluso de que no vira o garoto sem aquele bon desde ento.
      A ida deles ao jogo acontecera por impulso, pensava ele naquele instante, uma daquelas coisas que pintam de repente. Mas servira para lhe dar algumas fisgadas 
de emoo ao ver os olhos de Seth se arregalarem diante do estdio do time, o Camden Yards. E o modo como ele ficara sentado l, com um cachorro-quente apertado 
entre os dedos completamente esquecido, enquanto observava atentamente cada movimento em campo.
      E Cam morrera de rir no momento em que Seth emitiu uma opinio sria a respeito da experincia, afirmando: "Ver na televiso  uma merda comparado a estar 
aqui!"
      Observando Seth, que jogava mais uma telha l para baixo, Cam se perguntou se deveria ensinar ao garoto como lanar uma bola de beisebol. Na mesma hora, o 
fato de ter tido um pensamento como aquele o deixou irritado, e ele reclamou:
      - Voc no est nem olhando para onde est jogando essas telhas!
      - Mas sei onde elas esto caindo. Se voc no est gostando do meu jeito de trabalhar, voc mesmo pode atir-las l embaixo. Alm do mais, voc me disse que 
eu podia arrancar algumas.
      No vale a pena, disse Cam para si mesmo. No vale a pena discutir.
      - T legal! Quer aprender a arrancar as telhas da porra do telhado? Olhe aqui, veja como  que se faz. Voc usa essa parte aqui do martelo, que serve para 
arrancar pregos, e depois...
      - Eu estou vendo voc fazer isso h mais de uma hora. No  preciso ser um gnio para arrancar telhas.
      - timo - respondeu Cam, falando entre dentes. - Ento faa! - Empurrou o martelo nas mos vidas de Seth. - Vou descer um pouco. Preciso beber alguma coisa, 
estou morrendo de sede.
      Cam desceu as escadas parecendo um rob, tentando se convencer de que os garotos de dez anos de idade eram todos uns melequentos p-no-saco. E quanto mais 
telhas o garoto conseguisse arrancar, menos iam sobrar para ele arrancar depois. Se sobrevivesse quele dia, teria outro daqueles encontros de sbado  noite com 
Anna. Queria aproveitar o melhor que pudesse.
      Aquilo  que era mulher!, pensou, enquanto pegava uma jarra de gua gelada e a despejava goela abaixo. Praticamente a mulher perfeita! Embora, ocasionalmente, 
ele sentisse uma sensao estranha na barriga por pensar nela daquela forma, a verdade  que era difcil encontrar defeitos em Anna.
      Linda, inteligente, sexy... e com aquela risada gostosa que ela dava de vez em quando. Alm dos olhos maravilhosos, quentes e compreensivos. E o esprito livre 
e selvagem que ela escondia por baixo das roupas prticas de servidora pblica.
      E ainda sabia cozinhar!
      Rindo consigo mesmo, pegou no bolso outro leno para enxugar o rosto.
      Ora, se ele fosse o tipo do homem que est a fim de se acomodar com uma mulher, no a deixaria escapar, a agarraria na mesma hora. Colocaria uma aliana em 
seu dedo, recitaria todos os "eu aceito" que fossem necessrios e a traria para morar com ele na sua casa... na sua cama... em definitivo.
      - Comida quente, sexo quente.
      Conversas, risos. Sorrisos suaves ao acordar pela manh. Olhares cmplices que diziam mais do que um monte de palavras.
      Ao se ver olhando para o infinito, com a jarra de gua pendurada em um dos dedos e um sorriso idiota no rosto, ele se recomps na mesma hora e soltou um longo 
suspiro.
      O sol devia ter cozido seus miolos, decidiu. "Em definitivo" no era do seu estilo. Nunca fora. E casamento... s a palavra j o fazia estremecer... era para 
as outras pessoas.
      Graas a Deus por Anna no estar em busca de nada mais do que ele. Um relacionamento fcil, descontrado, sem amarras nem enfeites. Era o que servia para ambos.
      Para se assegurar de que sua mente no ia fumegar com aquelas idias de novo, despejou gua gelada sobre a cabea. Seis meses, prometeu a si mesmo enquanto 
voltava para o lado de fora do galpo. Seis meses e ele ia comear a se transferir novamente para o seu prprio mundo. Um mundo de competio, velocidade, festas 
suntuosas e mulheres que estavam  procura apenas de uma transa rpida.
      Quando sentiu que esse pensamento caiu em um vazio e que a imagem de tudo aquilo o deixou com um buraco por dentro, soltou um palavro. Era aquilo o que ele 
queria da vida, droga! Era o que ele sabia fazer. O mundo ao qual pertencia. Ele no era talhado para passar a vida construindo barcos para outras pessoas velejarem, 
criar um garoto e se preocupar com as meias dele, se combinavam ou no.
      Claro que ele poderia ensinar o menino a receber uma bola ou rebater com preciso um arremesso para o alto, em curva, mas isso no era nada de mais. Talvez 
Anna Spinelli estivesse firmemente enganchada em seu crebro, mas isso no precisava ser necessariamente um problema tambm.
      
      Ele precisava de espao, precisava de liberdade. Precisava competir, correr com seus barcos.
      Seus pensamentos estavam fervilhando ao sair do galpo. A escada extensora de alumnio quase despencou em sua cabea. A praga que ia soltar e o grito abafado 
que veio do alto pareceram um som s.
      Ao olhar para cima, seu corao simplesmente parou de bater.
      Seth estava pendurado pelas pontas dos dedos na moldura quebrada de uma clarabia, mais de seis metros acima. No tempo em que seu corao bateu trs vezes, 
Cam viu o desenho das solas dos tnis novos de Seth, os laos desamarrados e as meias largas. Antes de retomar o flego, tanto Ethan quanto Phillip j estavam se 
debruando sobre o buraco do telhado, lutando para alcanar Seth.
      - Segure firme! - berrou Ethan. - Escutou?
      - No consigo... - O pnico fez a voz de Seth ficar mais fina e ele pareceu muito, muito criana. - Est escorregando.
      - No d para alcan-lo de onde a gente est! - A voz de Phillip parecia completamente sob controle, mas seus olhos, ao se fixarem nos de Cam, estavam brilhando 
de medo. - Torne a levantar a escada, depressa!
      Cam tomou a deciso em segundos, embora lhe parecesse uma eternidade. Calculou o tempo que perderia para recolocar a escada no lugar, para depois subir por 
ela ou algum descer at o ponto em que Seth estava pendurado. Aquilo ia levar tempo demais, foi tudo o que conseguiu pensar, e se colocou com firmeza, abrindo as 
pernas, bem embaixo de onde o garoto esperneava.
      - Pode largar, Seth. Simplesmente solte as mos. Eu agarro voc aqui embaixo.
      - No, no consigo fazer isso! - Seus dedos j estavam doendo e sangrando, e quase se soltaram quando ele balanou a cabea com firmeza. Sentiu o pnico rastejar 
rapidamente por sua espinha acima como se fossem ratos famintos. - Voc no vai conseguir me pegar.
      - Voc consegue, e eu vou pegar voc sim! Feche os olhos e se deixe soltar. Estou bem aqui. - Cam abriu as pernas ainda mais e ignorou o prprio corao, que 
disparara. - Estou bem aqui embaixo!
      - Estou apavorado!
      - Eu tambm. Vamos logo com isso. Solte! - disse ele, com a voz to firme que os dedos de Seth se soltaram por instinto.
      Pareceu-lhe que a queda estava durando uma eternidade. O suor porejava e escorria pelo rosto de Cam. O ar recusava-se a entrar nos pulmes de Seth. Embora 
seus olhos estivessem ardendo por causa do sol e do suor salgado, Cam no piscou e os manteve fixos no menino. Seus braos estavam l, agarrados um no outro e firmes 
quando Seth caiu sobre eles.
      Cam ouviu a exploso da respirao, a sua ou a de Seth, ele j nem sabia de quem, enquanto os dois caram no cho com fora. Cam usou o prprio corpo para 
amortecer a queda do menino e caiu com as costas nuas no cho, com violncia. Um instante depois, porm, j estava de volta, apoiando-se nos joelhos. Girou Seth 
na direo dele e abraou o garoto, colando-o junto de seu corpo.
      - Deus! Ah, meu Deus!
      - Ele est bem? - berrou Ethan l de cima.
      - Sim... no sei. Voc est legal?
      - Acho que sim... estou. - Ele tremia muito, estava com os dentes batendo, e quando Cam o afastou um pouco para trs, o suficiente para olhar para o seu rosto, 
viu que ele estava com uma palidez mortal e olhos imensos e vidrados. Sentando-se no cho, colocou Seth em seu colo e empurrou a cabea do garoto para baixo, a fim 
de coloc-la entre os joelhos.
      - Ele est apenas abalado - berrou para os irmos l em cima.
      - Grande pegada! - Phillip se sentou novamente no telhado, passou as mos sobre o rosto suado e imaginou que seu ritmo cardaco iria voltar ao normal logo, 
talvez em um ou dois anos. - Nossa, Ethan, onde  que eu estava com a cabea para pedir ao garoto que descesse para pegar um pouco d'gua pra gente?
      - No foi culpa sua. - Na esperana de tranqilizar a ambos, Ethan apertou o ombro de Phillip. - No foi culpa de ningum. Ele est legal... ns estamos bem. 
- Tornou a olhar l para baixo, com a inteno de pedir a Cam que colocasse a escada novamente no lugar. Mas viu que o irmo estava abraado ao garoto, com a bochecha 
colada no topo da cabea do menino.
      A escada podia esperar.
      - Respire fundo - ordenou Cam. - Puxe o ar bem devagar. Voc ficou completamente sem flego, apenas isso.
      - Eu estou bem. - Mas manteve os olhos fechados, aterrorizado e com medo de vomitar e pagar o maior mico. Seus dedos estavam ardendo, mas ele estava at com 
medo de olhar. Quando finalmente sentiu que estava sendo abraado, e era um abrao apertado, no sentiu aquele pnico doentio e viu que no era o velho nojo trmulo 
que o percorria por dentro.
      Era gratido, e um doce e quase desesperado alvio.
      Cam fechou os olhos tambm. E aquilo foi um erro. Viu Seth caindo novamente, caindo e caindo, s que daquela vez ele no foi rpido o bastante, nem forte o 
bastante. Ele nem estava l.
      O medo foi vencido pela fria. Girou Seth, colocando-o face a face com ele, e o sacudiu.
      - Que diabos voc estava fazendo? O que estava pensando em fazer? Seu idiota, podia ter quebrado o pescoo!
      - Eu estava s... - Sua voz ficou mais aguda, fazendo-o se sentir humilhado. - Eu estava s... sei l. Meu tnis desamarrou. Eu devo ter pisado errado. Eu 
apenas...
      Mas o resto das palavras foi abafado de encontro ao peito forte e suado de Cam, que puxou o garoto para junto de si novamente. Seth conseguiu ouvir o corao 
descompassado de Cam, como se fosse um trovo debaixo da sua orelha. E tornou a fechar os olhos. E lentamente, como se estivesse testando, seus braos se arrastaram 
em volta do corpo de Cam para abra-lo.
      - Tudo bem, tudo bem... - murmurou Cam, ordenando a si mesmo para se acalmar. - No foi culpa sua. Voc quase me fez borrar as calas.
      Cam reparou que estava com as mos tremendo. Estava fazendo papel de idiota. Deliberadamente, empurrou Seth para trs e sorriu, perguntando:
      - E ento, que tal o salto mortal?
      - Eu achei superlegal. - Seth conseguiu dar um sorriso de leve.
      - Foi realmente de desafiar a morte! - E ao ver que os dois estavam se sentindo pouco  vontade, ele se afastou lentamente, com cautela. - Sorte voc ainda 
ser to magricela. Se estivesse mais gordo ou forte, poderia ter me derrubado feio.
      - Que cagada, hein? - reagiu Seth, porque no conseguiu pensar em mais nada para falar.
      - Voc machucou um pouco as mos. - Cam franziu a testa, olhando com ateno para as pontas dos dedos do menino, arranhadas e sangrando. - Acho melhor a gente 
chamar o resto da equipe aqui pra baixo, a fim de consertar isso.
      - No  nada... - Estava ardendo como fogo.
      - De que adianta voc ficar sangrando at morrer? - E pelo fato de que suas mos no estavam muito firmes, Cam resolveu coloc-las para trabalhar e levantou 
a escada, pondo-a de volta no lugar. - V l dentro e pegue a caixinha de primeiros socorros - ordenou ele. - Parece que Phil acertou em cheio ao nos obrigar a comprar 
aquela porcaria. J que ela est aqui mesmo, vamos us-la em voc.
      Depois de ver Seth entrar e sair de sua vista, Cam simplesmente encostou a testa na lateral da escada. Seu estmago continuava a pular, e uma dor de cabea 
que no notara at aquele instante comeou a rugir em suas tmporas como um trem de carga.
      - Voc est bem? - Ethan colocou a mo sobre o ombro de Cam no minuto em que ps os ps no cho.
      - Fiquei at sem saliva. Minha boca est completamente seca. Nunca na vida me senti to apavorado.
      - Ento somos trs... - Phillip olhou em volta. Como seus joelhos ainda tremiam, sentou-se em um dos degraus da escada. - As mos dele ficaram muito machucadas? 
Ser que no era melhor lev-lo a um mdico?
      - Os dedos ficaram um pouco arranhados. Nada de grave. - Ao ouvir o som de um carro entrando no terreno do galpo, rodando sobre o cascalho, Cam se virou para 
ver quem era, e seu estmago j agitado pareceu afundar ainda mais. - Ah, que timo! Perfeito! A assistente social chegando...
      - O que ela veio fazer aqui? - Ethan enterrou ainda mais o bon sobre a cabea. Odiava ter mulheres por perto quando estava suado.
      - Sei l! Marcamos um encontro para hoje, mas no antes das sete horas. Garanto que ela vai ter alguma reclamao bem feminina para fazer a respeito de ns 
estarmos com o garoto l em cima do telhado, pra comear...
      - Ento a gente no conta nada pra ela - murmurou Phillip ao mesmo tempo em que lanava um sorriso charmoso de boas-vindas.
      - Ora, agora o dia ficou mais brilhante. Nada melhor do que ver uma mulher maravilhosa aps uma pesada manh de trabalho.
      - Cavalheiros... - E simplesmente sorriu quando Phillip pegou em sua mo e a trouxe aos lbios. Um arrepio divertido passou por dentro dela. Trs homens, trs 
irmos, trs reaes. A de Phillip, sempre muito educado, o aceno de cabea vagamente embaraado de Ethan e a careta irritada de Cam.
      E no havia nenhuma dvida de que todos os trs, cada um a seu modo, estavam com uma aparncia incrivelmente mscula e atraente, todos suados e com cintos 
cheios de ferramentas.
      - Espero que no se importem.  que eu queria conhecer o galpo, e resolvi passar aqui com presentes. H uma cesta de piquenique no meu carro. Comida de homens 
- acrescentou ela - para quem quiser fazer uma pausa para o almoo.
      - Puxa, isso foi muito gentil de sua parte. Obrigado. - Ethan trocou os ps de posio. - Eu vou l no carro para pegar.
      - Obrigada. - Ela examinou o prdio, colocou os culos escuros com armao grande e redonda em cima da testa e tornou a avaliar o espao com ateno. Tudo 
o que conseguiu pensar foi que estava satisfeita por ter se vestido de forma casual para aquela visita improvisada, com jeans surrados e uma camiseta. No havia 
jeito de entrar l dentro, imaginou ela, e sair limpa. - Ento, esse  o local que vocs alugaram...
      - O comeo do nosso imprio - comeou Phillip, tendo acabado de lembrar que era melhor lev-la em um tour por volta de todo o prdio para dar a Cam tempo suficiente 
para limpar Seth e mand-lo ficar de bico calado quando o menino voltasse l de dentro.
      A cor voltara ao seu rosto, que ainda estava sujo de suor, sujeira e o sangue que espalhara nas bochechas com os dedos. Sua camiseta branca estava nas mesmas 
condies, e ele carregava a caixa de primeiros socorros com a mo levantada, agitando-a como se fosse uma bandeira.
      Uma onda de alarme surgiu nos olhos de Anna. Logo ela j estava correndo na direo de Seth, agarrando-o com carinho pelos ombros antes que Cam e Phillip tivessem 
tempo de pensar em uma histria convincente.
      - Oh, querido, voc est todo machucado. O que aconteceu?
      - Nada - comeou Cam. - Ele apenas...
      - Eu despenquei do telhado! - explicou Seth, aumentando o volume da voz. Conseguira se acalmar enquanto estava l dentro e passara da fase dos joelhos bambos 
para a de orgulho desenfreado.
      - Despencou do... - Chocada a ponto de se sentir tonta, Anna comeou na mesma hora, por instinto, a apalpar o menino em busca de ossos quebrados. Seth ficou 
com o corpo tenso e depois relaxou, mas ela continuou a examin-lo com ar srio, at ficar satisfeita. - Meu Deus! E o que est fazendo, andando solto por a? - 
E virou o rosto por tempo suficiente para lanar um olhar furioso na direo de Cam. - Vocs j chamaram uma ambulncia?
      - Ele no precisa de ambulncia nenhuma.  bem tpico de mulher ficar a se desmanchando toda.
      - Me desmanchando toda! - Mantendo a mo de forma protetora sobre o ombro de Seth, ela se virou, furiosa. - Me desmanchando toda!... E vocs trs ficam circulando 
por a feito um bando de babunos apalermados... a criana pode estar com ferimentos internos. Ele est sangrando!
      - S nos dedos. - Seth os estendeu, admirando-os. Cara, ele ia fazer o maior sucesso na escola na segunda-feira. - Eu escorreguei da escada quando estava descendo, 
mas consegui me agarrar na moldura da janela, l em cima. - E apontou para mostrar a Anna, enquanto a cabea dela ficou tonta s de pensar na altura em que ele estava. 
- Ento, Cam me disse para largar a janela e me soltar no ar, que ele ia me agarrar aqui embaixo. Eu fiz isso e ele me pegou.
      - Esse garoto no fala mais de duas palavras na metade do tempo
      - sussurrou Cam para Phillip -, e na outra metade no consegue ficar de boca fechada. - Ele est bem! - assegurou, elevando a voz.
      - Levou s um susto.
      Anna nem sequer se deu ao trabalho de responder, simplesmente lhe lanou um olhar longo e fulminante antes de se virar de novo, olhando para Seth e sorrindo:
      - Por que no me deixa dar uma olhada em suas mos, querido? Vamos lav-las agora para ver se voc precisa levar pontos. - E empinou o queixo, mas os culos 
escuros no conseguiram esconder a fria que havia em seus olhos. - E depois eu quero conversar com voc, Cameron.
      - Aposto que quer - resmungou ele, enquanto a via levar Seth em direo ao carro.
      Seth sentiu que no se importava de ser paparicado um pouco. Era uma experincia nova ver uma mulher toda preocupada s por causa de um pouquinho de sangue. 
Suas mos eram gentis, e sua voz tranqilizadora. E mesmo que seus dedos estivessem latejando e ardendo, era um preo pequeno a pagar pelo que agora j lhe parecia 
uma aventura gloriosa.
      - Foi um caminho bem longo at chegar aqui embaixo - comentou ele.
      - Sim, eu sei. - Pensar naquilo s serviu para fazer o bolo que se formara em seu estmago aumentar ainda mais. - Voc deve ter ficado apavorado!
      - Fiquei s um pouco assustado, por um momento - disse, e mordeu o lado de dentro da bochecha para no gemer enquanto ela enrolava as suas mos cuidadosamente 
com uma gaze. - Outros garotos teriam berrado feito meninas e mijado nas calas.
      Ele no estava bem lembrado se gritara ou no, essa parte estava enevoada, mas deu uma conferida em suas calas e no viu nada molhado; portanto, estava tudo 
bem com elas.
      - Cam ficou muito pau da vida - continuou ele. - At parecia que eu tinha chutado a escada debaixo do meu p de propsito.
      - Ele gritou com voc? - A cabea dela se levantou para olhar para ele.
      Ele ia comear a descrever a cena com detalhes, mas sentiu algo nos olhos dela que tornava difcil contar uma mentira completa.
      - Bem, isso foi s por um instante - respondeu ele. - O resto do tempo ele ficou meio apatetado e sentimental com o lance. At parecia que eu tinha perdido 
o brao, pelo jeito com que ele me carregou, me abraou para me acalmar e tudo o mais.
      E encolheu os ombros, embora lembrasse bem como tinha sido a sensao de um ponto quentinho na barriga quando foi abraado e apertado com carinho.
      - Alguns caras, sabe como ... no agentam ver um pouco de sangue.
      O sorriso de Anna ficou mais relaxado e ela esticou o brao para ajeitar os cabelos do menino para trs.
      - Sim, eu sei... bem, voc me parece em muito boa forma para um cara que gosta de dar mergulhos do alto do telhado. No torne a fazer isso. Voc me promete?
      - Uma vez j  o bastante.
      - Fico feliz em ouvir. Tem galinha frita na cesta que eu trouxe... a no ser que eles j tenham comido tudo.
      - Legal! Cara,  capaz de eu comer uns doze pedaos. - Comeou a se preparar para sair correndo, mas ento sentiu um aperto na conscincia. Aquela era outra 
sensao rara, e fez com que ele se virasse e a olhasse bem nos olhos. - Cam disse que ia me segurar quando eu pulasse, e ele fez isso mesmo. Ele foi muito legal!
      Ento correu em direo ao galpo, berrando para Ethan, pedindo que ele guardasse alguns pedaos para ele.
      Anna simplesmente suspirou. Ficou sentada na ponta do banco do carona, enquanto arrumava a caixa de primeiros socorros. Quando viu uma sombra no cho ao lado 
dela, continuou a mexer na caixa. Conseguia sentir o cheiro dele, doce, msculo, e o aroma j quase imperceptvel do sabonete de seu banho matinal. Ela j conhecia 
o cheiro dele to bem agora, bem como o modo com que ele se misturava com o cheiro dela, que conseguiria encontr-lo em uma sala cheia de homens, mesmo vendada e 
algemada.
      E embora fosse verdade, de certa forma, que ela estava curiosa para ver o galpo, aquilo fora apenas uma desculpa cmoda para dirigir de Princess Anne at 
ali s para ver Cam.
      - Acho que no h necessidade de eu lhe dizer que meninos na idade de Seth no deveriam estar subindo e descendo por escadas compridas como aquela sem a superviso 
de um adulto - comeou ela.
      - No, no h necessidade.
      - Ou lembrar a voc que meninos nessa idade so descuidados, muitas vezes desajeitados e estabanados.
      - Ele no  estabanado! - reagiu Cam com um pouco de raiva. -  gil como um macaquinho.  claro que - acrescentou ele com um ar de desdm na voz -, considerando 
que o resto de ns forma um bando de babunos apalermados, tudo se encaixa.
      Anna fechou a caixa de primeiros socorros, levantou-se e entregou-a a ele.
      - Pelo jeito, sim - concordou ela. - Por outro lado, acidentes acontecem, no importa o cuidado que a gente tenha nem o quanto a gente faa de tudo para preveni-los. 
 por isso que se chamam acidentes.
      Olhou para o rosto dele. A irritao continuava estampada l. Irritao com ela, com as circunstncias. E,  claro, aquela raiva sutil que jamais parecia desaparecer 
por completo estava naquele momento muito, muito prxima da superfcie.
      - Ento... - perguntou ela, com a voz suave - ... quantos anos o susto desse pequeno evento roubou da sua vida?
      - Umas duas dcadas - respondeu ele, soltando o ar com fora. - Mas o garoto se saiu muito bem. - E se virou ligeiramente, a fim de olhar para trs, na direo 
do prdio. Foi nesse instante que Anna viu as manchas de sangue em suas costas. Manchas, compreendeu ela, depois do primeiro impacto, que haviam sido feitas pelos 
dedos ensangentados de Seth. O menino tinha sido abraado, notou ela. E abraara Cam tambm.
      Ele se virou, pegou-a sorrindo e perguntou:
      - O que foi?
      - Nada... bem, j que eu estou aqui e vocs todos esto comendo a minha comida, acho que mereo um tour completo pelo local.
      - Quanto do que aconteceu aqui voc vai ter que colocar em um dos seus relatrios?
      - No estou aqui a servio! - disse-lhe ela, de forma mais agressiva do que pretendia. - Achei que estava aqui apenas fazendo uma visita a amigos.
      - No falei por mal, Anna.
      - No mesmo? - Ela se levantou, rodeou a porta do carro e a empurrou com as mos para trs. Droga, ela fora ali para v-lo, para estar com ele, e no para 
aproveitar a chance e dar uma incerta. - O que vou colocar no meu prximo relatrio, a no ser que perceba algo em contrrio,  que, na minha opinio, Seth est 
se entrosando muito bem com seus guardies, e eles com o menino. Vou me lembrar de mandar uma cpia para voc. O tour vai ficar para outra hora. Voc pode mandar 
me entregar de volta a cesta de piquenique quando quiser, no h pressa.
      Ela achou que aquela era uma grande sada de palco, andando com passos largos em torno do carro enquanto lanava seu texto. Estava fumegando de raiva, mas 
conseguia manter um ar de autocontrole. Foi nesse instante que ele a agarrou, assim que ela se preparava para abrir a porta do carro, e estragou toda a cena.
      Ela se virou com rapidez e com o punho fechado para atingi-lo, mas ele escorregou em seu peito suado e perdeu o impacto.
      - Tire as mos de mim! - avisou ela.
      - Para onde voc vai? Espere apenas um minuto.
      - No tenho que esperar por nada e no quero que voc fique me segurando. - Ela o empurrou com as duas mos. - Nossa, voc est imundo!
      - Se voc ficar quieta e me escutar...
      - Escutar o qu? Pensa que eu no percebi? Voc acha que eu no saquei ao olhar para voc e ver o que pensou assim que eu parei o carro? "Ai, que saco! L 
vem a assistente social! Segurem firme, rapazes!" - Deu-lhe as costas. - Bem, fodam-se vocs todos!
      Ele poderia ter negado aquilo, podia fazer uma cara de "eu no sei do que voc est falando" e talvez conseguisse ser convincente. Mas os olhos dela tiveram 
sobre ele o mesmo efeito que tiveram sobre Seth. Eles no conseguiram faz-lo pensar em uma mentira decente para dizer.
      - Tudo bem, voc tem razo. Mas eu s falei aquilo por reflexo.
      - Pelo menos voc tem a decncia de ser honesto. - O tamanho da mgoa que aquilo provocou nela a deixou to enfurecida quanto surpresa.
      - No sei por que voc ficou to esquentadinha.
      - No sabe? - Colocou os cabelos para trs. - Ento me deixe explicar melhor... Eu olhei para voc e vi apenas um homem que por acaso  meu amante. Voc olhou 
para mim e viu apenas um smbolo de um sistema social no qual no confia nem respeita. Agora que deixei tudo bem claro, saia da minha frente!
      - Desculpe. - Ele arrancou a bandana, porque sua cabea estava quase rachando. - Voc tem razo novamente, sinto muito por isso.
      - Eu sinto muito tambm. - E abriu a porta do carro.
      - Quer me dar uma droga de um minutinho ao menos? - Em vez de colocar a mo nela novamente, passou as mos pelos prprios cabelos. No foi o tom de impacincia 
que a fez parar, mas o desgaste emocional que ele demonstrou com o gesto.
      - Tudo bem... - Ela largou a maaneta do carro. - Voc tem um minuto.
      Cam sentiu que no havia nenhuma outra mulher em todo o planeta para a qual ele estivesse disposto a dar explicaes, a no ser aquela que continuava parada 
diante dele, olhando com a testa meio franzida.
      - Ns todos estvamos meio abalados naquela hora. O momento da sua chegada no poderia ter sido pior. Que droga, minhas mos ainda estavam tremendo!
      Ele detestava ter que admitir aquilo, detestava. Para reunir algum controle, virou-se para o outro lado, deu alguns passos, voltou e continuou:
      - Eu me envolvi em um acidente uma vez. Uns trs anos atrs, no Grand Prix. Bati na canaleta da pista, calculei mal e comecei a rodar. O carro estava se partindo 
ao meio enquanto eu rodava. O pior medo  o do vapor invisvel do combustvel. De repente, tive uma rpida viso de mim mesmo em chamas, at ficar carbonizado. Aconteceu 
apenas por um segundo, mas foi uma imagem bem vivida.
      Enrolou a bandana na mo at transform-la em uma bola e depois a abriu, alisando-a.
      - Pode acreditar, Anna, juro para voc... ficar em p ali bem debaixo daquele garoto e ver os cadaros soltos do seu tnis balanando no ar foi uma sensao 
pior do que a da corrida. Muito pior!
      Como  que ela podia continuar com raiva? E como  que poderia deixar de enxergar que ele tinha uma imensa quantidade de amor para dar se pelo menos ele conseguisse 
se soltar? Ele dissera que provavelmente a magoaria, mas ela no imaginou que aquilo aconteceria to depressa ou viria daquela direo.
      Ela no havia olhado para a direo certa. No percebeu que estava comeando a se apaixonar por ele.
      - Eu no posso fazer isso - disse ela quase que para si mesma, e cruzou os braos com fora, como se quisesse aquec-los. Uma sensao de frio penetrou-lhe 
por dentro, embora ela estivesse sob um sol escaldante. Quantos passos ela j dera em direo ao amor, pensou consigo mesma, e quantos precisaria retroceder para 
salvar a si mesma?
      - Eu no sei o que estava pensando. Estar envolvida com voc em nvel pessoal s serve para complicar o nosso interesse mtuo pela criana.
      - No se afaste de mim, Anna. - Ele experimentava agora um outro patamar de medo, um que jamais conhecera antes. - Tudo bem, a gente deu alguns passos errados, 
mas podemos tornar a alcanar o equilbrio. Ns nos damos bem juntos.
      - Nos damos bem na cama - disse ela, e piscou ao ver o que lhe pareceu mgoa cintilar nos olhos dele.
      - S na cama?
      - No... - disse ela devagar, enquanto ele vinha em sua direo - ... no s na cama, mas...
      - Eu sinto uma coisa aqui dentro por voc, Anna. - Esquecendo que suas mos estavam sujas, ele as colocou em cima dos ombros dela. - Nunca usei esse sentimento 
at agora, mas o que posso lhe dizer  que essa coisa que sinto por voc...  uma das primeiras vezes na vida em que eu no quis sair desabalado para alcanar a 
linha de chegada.
      Eles ainda acabariam chegando l, compreendeu Anna. E ela teria de estar preparada para o momento em que ele alcanasse essa linha e a cruzasse na frente dela.
      - Jamais confunda o que eu fao com quem eu sou, Cam - pediu ela baixinho. - Voc tem que ser honesto comigo, seno o resto no vai significar nada.
      - Mas eu tenho sido mais honesto e aberto com voc do que jamais fui com nenhuma outra mulher em toda a minha vida, e sei muito bem quem voc ...
      - Tudo bem. - Ela colocou a mo em seu rosto quando ele se inclinou para beij-la. - Vamos ver o que acontece em seguida.
      
  Captulo Quatorze
  
      Era uma linda tarde de primavera. O ar estava agradvel, o vento bom e havia nuvens finas o suficiente para filtrar o sol e evitar que ele cozinhasse a pele 
em ritmo lento. Quando Ethan manobrou o seu barco de trabalho para atracar na doca, as margens estavam cheias de turistas que tinham vindo para apreciar os pescadores 
trabalhando e os dedos geis dos que pegavam os caranguejos.
      Ele j alcanara a sua cota do dia mais cedo, o que era bom. Os reservatrios de gua sob o toldo listrado de seu barco, j desbotado, estavam lotados de caranguejos 
muito agitados e aborrecidos, que iam acabar nas panelas antes do anoitecer. Ele pretendia entregar sua carga e deixar seu companheiro cuidando das mquinas. As 
coisas estavam comeando a ficar um pouco apertadas. Ethan planejara ir at o galpo pessoalmente, a fim de ver como ia a instalao dos encanamentos.
      Estava louco para ver tudo pronto, e Ethan Quinn no era homem de ter essa pressa toda ou, pelo menos, no se permitia achar que fosse. Mas o negcio de construo 
de barcos era um pequeno sonho particular que ele j vinha acalentando h algum tempo. Agora, parece que a idia estava bem madura.
      Simon soltou um latido forte e alegre quando o barco bateu contra os pilares da doca. Quando Ethan se preparava para amarrar as cordas no cais, viu que as 
mos de algum j as haviam agarrado. Mos que ele reconheceu antes mesmo de levantar os olhos para ver a quem pertenciam. Mos compridas, lindas, que no usavam 
anis nem esmalte.
      - J peguei, Ethan!
      - Obrigado - disse ele, olhando para cima e sorrindo para Grace. - O que est fazendo aqui nas docas no meio do dia?
      - Pegando caranguejos. Betsy no estava muito bem hoje de manh, e eles acabaram ficando desfalcados. E minha me queria mesmo passar algumas horas com Aubrey.
      - Voc devia separar algum tempo para si mesma, Grace.
      - Ah... - Ela segurou as cordas do barco com habilidade e esticou o corpo enquanto passava a mo pelos cabelos muito curtos. - Qualquer dia desses eu penso 
nisso. Vocs j acabaram com a caarola de presunto que deixei pronta no outro dia?
      - Teve at briga para ver quem pegava o restinho. Estava uma delcia. Obrigado. - Agora que ele j acabara com o estoque de frases usuais e simples e estava 
em p na doca ao lado dela, no sabia o que fazer com as mos. Para compensar, acariciou a cabea de Simon. - Pegamos um bocado de peixe e caranguejo hoje.
      - Estou vendo... - Mas o sorriso que exibiu no chegava aos olhos, e Grace parecia estar mordendo o lbio. Um sinal certo, pensou Ethan, de que havia algum 
problema em sua mente.
      - H algo errado?
      -  que eu detesto alugar seu tempo quando voc est ocupado, Ethan - disse, e olhou em torno. - Ser que voc poderia dar uma volta comigo um instante?
      - Claro. Bem que eu preciso tomar alguma coisa bem gelada. Jim, voc pode dar conta do recado a partir daqui, no pode?
      - Claro, capito.
      Com o co quase correndo entre eles, Ethan enfiou as mos nos bolsos. Acenou com a cabea quando uma voz familiar o cumprimentou e passou quase sem reparar 
nos dedos velozes dos caadores de caranguejo, que ofereciam um tremendo espetculo com o seu trabalho. Reparou apenas nos cheiros, porque os adorava: gua, peixe, 
o sal que havia no ar. E a fragrncia sutil do sabonete e do xampu que Grace usava.
      - Ethan, eu no queria trazer nenhum aborrecimento, nem para voc nem para sua famlia.
      - Nem querendo voc conseguiria fazer isso, Grace.
      - Pode ser que voc j saiba.  que se trata de uma coisa que me deixa to chateada... Eu detesto isso. - Sua voz ficou mais baixa, fervendo com uma raiva 
que Ethan sabia que era rara. Notou que seu rosto estava srio, sua boca tensa, e decidiu abrir mo da bebida gelada e lev-la para outro lugar fora das docas.
      -  melhor me contar logo, para tirar isso da cabea.
      - E colocar na sua - disse ela com um suspiro. Detestava fazer aquilo. Ethan estava sempre disponvel quando ela tinha um problema ou precisava de um ombro 
amigo. No passado ela chegou a desejar que ele pudesse lhe oferecer mais do que um ombro... mas aprendera a aceitar as coisas do jeito que eram.
      -  melhor que vocs saibam logo - disse ela, quase que para si mesma. - No vo poder lidar com as coisas, a no ser que saibam o que est acontecendo. H 
um investigador da companhia de seguros conversando com as pessoas, fazendo perguntas a respeito do seu pai, e a respeito de Seth tambm.
      Ethan colocou a mo sobre o ombro dela com delicadeza. J estavam longe o bastante das docas, das lojas para turistas na beira do cais e do tumulto de gente 
passando de um lado para outro. Ele achava que tudo aquilo j havia terminado.
      - Que tipo de perguntas? - quis saber.
      - Sobre o estado de esprito do seu pai nas semanas que antecederam o acidente. Perguntas a respeito de seu pai ter trazido Seth para casa. Ele veio me ver 
hoje, logo de manh cedo. Achei que era melhor conversar com ele do que me recusar a isso. - E olhou para Ethan, aliviado quando ele fez que sim com a cabea. - 
Contei a ele que Ray Quinn era um dos melhores homens que eu j conheci e lhe dei uma esculhambao por ele estar andando por a tentando pescar fofocas nojentas.
      Ao ver que Ethan riu ao ouvir isso, seus lbios tambm se abriram em um sorriso.
      - Bem,  que ele me deixou to louca com tudo aquilo... Argumentou que estava apenas fazendo o trabalho dele, e seu jeito era mais suave do que leite desnatado. 
Mas me deixou muito chateada, especialmente quando me perguntou se eu sabia alguma coisa a respeito da me de Seth ou de onde ele tinha vindo. Eu lhe disse que no 
fazia idia e que isso tambm no importava. Falei que Seth estava exatamente onde deveria estar e pronto! Espero que tenha feito a coisa certa.
      - Voc fez muito bem.
      Seus olhos estavam da cor de mares bravios agora, enquanto as emoes fervilhavam dentro dela.
      - Ethan, sei que vai magoar vocs se algumas pessoas falarem, se algumas delas disserem coisas que no lhes dizem respeito. Mas isso no significa nada - continuou 
ela, tomando a mo dele entre as suas.
      - No significa nada para qualquer pessoa que conhea a sua famlia.
      - Ns vamos superar isso. - Apertou as mos dela de leve. Em seguida, ficou sem saber se as continuava segurando ou largava. - Fico feliz por voc ter me contado. 
- E largou, mas ficou olhando para o rosto dela, durante tanto tempo que um rubor comeou a surgir na face de Grace. - Voc no anda dormindo bem - afirmou ele.
      - Seus olhos parecem cansados.
      - Ah... - Sem graa e chateada, ela passou as pontas dos dedos sob eles. Por que ser que ele s reparava nela quando alguma coisa estava errada? -  que Aubrey 
passou uma noite meio agitada. Agora tenho que ir - disse, falando depressa, e fez um carinho na cabea do paciente Simon. - Vou passar em sua casa amanh para fazer 
a faxina.
      E saiu apressada, refletindo, sem esperanas, que um homem que s reparava quando ela parecia cansada ou com problemas jamais prestaria ateno nela como mulher.
      Mas Ethan observou-a indo embora e pensou que ela era bonita demais para trabalhar daquele jeito, como uma mula.
      
      
      O nome do inspetor era Mackensie, e era ele que estava fazendo as investigaes. At agora suas anotaes continham descries de um homem que era um santo 
com uma aurola to larga e brilhante quanto o sol. Um samaritano desprendido que no s adorava os vizinhos como alegremente ajudava a carregar seus fardos; um 
sujeito que, ao lado da fiel esposa, salvou grande parte da humanidade e manteve o mundo a salvo para a democracia.
      Outras das suas anotaes denominavam Raymond Quinn de pomposo, intrometido, enxerido, metido a ser melhor do que os outros e que colecionava garotos de m 
fama da mesma forma que outros colecionavam selos, e os usava para usufruir de trabalho escravo, um blsamo para o ego e, possivelmente, lascivos favores sexuais.
      Embora Mackensie tivesse que admitir que a segunda verso era muito mais interessante, essa viso fora fornecida por poucas pessoas espalhadas pela cidade.
      Como sendo um homem ligado a detalhes e cauteloso, compreendeu que a verdade provavelmente estava em algum ponto entre o santo e o pecador.
      Seu objetivo no era canonizar nem condenar Raymond Quinn, aplice nmero 005-678-LQ2. Estava ali simplesmente para reunir os fatos, e eram esses fatos que 
iriam determinar se o seguro deveria ser pago ou disputado na Justia.
      De um modo ou de outro, Mackensie receberia o pagamento pelo tempo e o esforo gastos.
      Resolveu dar uma parada e pegou um sanduche para viagem em um pequeno lugar ensebado chamado Lanchonete Bay Side. Tinha um fraco por gordura, caf de m qualidade 
e garonetes com nomes do tipo Lulubelle.
      Esse era o motivo de, aos cinqenta e oito anos, ele estar mais de dez quilos alm do peso ideal... uns doze, na verdade, quando no colocava o ponteiro da 
balana do banheiro alguns pontos antes do zero, antes de subir nela, sem falar no problema crnico de indigesto. Alm disso, j havia se divorciado duas vezes.
      Para piorar, estava ficando careca, vivia com o dedo do p inchado e tinha um dente canino que s vezes o incomodava tanto quanto uma vadia excitada. Mackensie 
sabia que no era nenhum Apoio, mas conhecia bem o seu trabalho, j estava na Seguradora True Life h trinta e dois anos e tinha a ficha to limpa quanto corao 
de freira.
      Estacionou seu Ford Taurus no esburacado terreno coberto de cascalho que ficava ao lado do galpo. Seu ltimo contato, um pequeno verme chamado Claremont, 
lhe indicara o caminho. Ele iria encontrar Cameron Quinn ali, assegurara Claremont com um sorriso reprimido.
      Mackensie antipatizara com Claremont em menos de cinco minutos em sua companhia. O inspetor j lidara com gente durante muitos anos, o bastante para reconhecer 
ganncia, inveja e simples malcia, mesmo quando tudo isso se apresentava debaixo de uma camada de charme. Claremont no tinha nenhuma camada desse tipo, pelo que 
Mackensie reparara. Era totalmente desprezvel como ser humano.
      Arrotando uma lembrana dos picles condimentados com endro com os quais ele se fartara durante o almoo, balanou a cabea e pegou o comprimido de Zantac que 
consumia de hora em hora. Havia um caminho tipo picape no terreno, um sed velho e um Corvette clssico sofisticado.
      Mackensie gostou do visual do Corvette, embora no se visse atrs do volante de uma daquelas mquinas mortferas nem por amor nem por dinheiro. De jeito nenhum. 
Mas admirava o carro, e ficou analisando-o por algum tempo, enquanto saa de seu veculo.
      Ele era capaz de apreciar o aspecto de um homem tambm, refletiu, quando viu dois deles saindo do galpo. No o mais velho, com camisa xadrez vermelha e gravata. 
Aquele era um burocrata, notou de imediato. Era muito bom em reconhecer os diferentes tipos de pessoas.
      O mais novo tinha o corpo esbelto, um ar voraz, olhos penetrantes e astutos demais para pertencerem a um burocrata. Podia no trabalhar com as mos, pensou 
Mackensie, mas tinha tudo para isso. Alm do mais, parecia um homem que sabia o que queria, e sempre arrumava um jeito de conseguir.
      Se aquele era Cameron Quinn, decidiu Mackensie, Ray Quinn deve ter cortado um dobrado com ele quando estava vivo.
      Cam reparou em Mackensie assim que saiu para acompanhar o inspetor dos encanamentos at o seu carro. Estava se sentindo muito bem devido  rapidez com que 
as coisas estavam avanando. Calculava que ia levar mais uma semana para terminar a construo do banheiro, mas ele e Ethan podiam continuar sem aquele conveniente 
espao por muito mais tempo.
      Queria logo comear a trabalhar, e j que as instalaes eltricas estavam prontas e tambm haviam passado pela inspeo no havia mais necessidade de esperar.
      Cam achou que Mackensie tinha cara de agente de apostas. Vasculhou a memria, tentando se lembrar se marcara de receber mais algum naquele dia, mas chegou 
 concluso de que no. Deve estar vendendo alguma coisa, imaginou, enquanto o inspetor e Mackensie passaram um pelo outro.
      O sujeito trazia uma pasta, reparou Cam com ar desanimado. Quando as pessoas chegavam com pastas, isso significava que havia algo que logo seria retirado l 
de dentro.
      - O senhor deve ser o Sr. Quinn - disse Mackensie com voz afvel e olhos que avaliavam tudo.
      - Devo ser.
      - Meu nome  Mackensie, da Seguradora True Life.
      - J temos seguro. - Ou, pelo menos, ele supunha que sim. - Meu irmo, Phillip,  o responsvel pelos detalhes desse tipo. - Ento, algo fez o crebro de Cam 
se ligar, e ele trocou o ar descontrado por uma postura defensiva. - O senhor disse Seguradora True Life?
      - Essa mesmo! Sou investigador da companhia. Precisamos esclarecer algumas dvidas antes que a aplice de seu pai seja paga.
      - Ele est morto! - disse Cam de forma direta. - Era essa a sua dvida, Mackensie?
      - Meus psames. Sinto muito pela sua perda.
      - Imagino que a companhia esteja sentindo  pelo fato de desembolsar essa grana. Pelo que me consta, meu pai pagou pela aplice com toda a boa-f. O nico 
detalhe desagradvel  que a pessoa tem que morrer para levar a grana. Ele morreu.
      Estava quente ali fora, sob o sol, e o pastrami com centeio acompanhado de mostarda picante no estava caindo muito bem no estmago de Mackensie, que bufou 
pesadamente e disse:
      - H questionamentos a respeito do acidente.
      - Um carro bate de frente em um poste telefnico. O poste vence a disputa. Fim de jogo. Isso  muito comum de acontecer. Pode acreditar, porque eu dirijo muito 
e sei...
      Sob outras circunstncias, Mackensie at apreciaria o tom direto e sem rodeios de Cam. Simplesmente fazendo que sim com a cabea, disse:
      - O senhor deve estar a par de que a aplice tem uma clusula a respeito de suicdio.
      - Meu pai no cometeu suicdio, Mackensie. E j que voc no estava dentro do carro junto com ele no momento do acidente vai ser muito difcil provar o contrrio.
      - Seu pai estava sob grande estresse e perturbao emocional.
      - Meu pai criou trs delinqentes e lidou com um punhado de garotos pentelhos, dando aulas na faculdade. Levou a vida sob grande estresse e passou por muitas 
perturbaes emocionais.
      - E acabara de pegar mais um para criar.
      - Isso mesmo! - Cam enfiou os polegares nos bolsos da frente da cala e sua postura se transformou em uma ameaa muda. - Esse fato no tem nada a ver nem com 
o senhor nem com a sua companhia.
      - Mas pesa sobre as circunstncias do acidente do seu pai. Existe a possibilidade de que ele estaria sofrendo chantagem, alm de uma sria ameaa  sua reputao. 
Tenho uma cpia da carta encontrada no carro aps a sua morte.
      Assim que Mackensie abriu a pasta, Cam deu um passo  frente, afirmando:
      - Eu j vi essa carta. Tudo o que ela prova  que existe uma mulher por a com os instintos maternais de uma gata de beco. Se voc est insinuando que Ray 
Quinn atirou o prprio carro contra um poste porque tinha medo de uma vadia barata, eu acabo com a sua companhia de seguros.
      Uma fria que ele julgava haver superado ressurgiu com toda a fora, com dentes arreganhados e pronta para dar o bote.
      - Mackensie, eu estou cagando e andando para a porra da sua grana. Somos capazes de ganhar honestamente o nosso prprio dinheiro. Se a True Life quer dar calote 
e fugir pela tangente, isso  assunto para ser tratado com o meu irmo e com o advogado. Agora, se voc, ou algum por a, comear a cagar a imagem e a reputao 
do meu pai, a a coisa vai ser resolvida comigo!
      O sujeito era uns vinte e cinco anos mais novo do que ele, calculou Mackensie, era forte como um touro e estava enfurecido como um lobo faminto. Assim, decidiu 
que seria melhor mudar de ttica.
      - Sr. Quinn, no tenho interesse nem desejo de manchar a reputao de seu pai. A True Life  uma companhia sria, trabalhei nela a maior parte da minha vida 
- disse, e tentou exibir um sorriso de vencedor. - Isso tudo  apenas rotina...
      - No gosto da sua rotina!
      - Compreendo que no goste. A rea obscura nesse caso refere-se ao acidente em si. Os relatrios mdicos confirmam que seu pai estava em excelente forma fsica. 
No h evidncia de enfarte, derrame ou qualquer outro evento fsico que o tivesse levado a perder a direo do veculo. Foi um acidente envolvendo apenas um carro, 
que aconteceu em uma reta, com a estrada vazia, seca e em um dia claro. Os resultados da equipe de especialistas que reconstituiu o acidente so inconcluentes.
      - Isso  problema de vocs. - Cam avistou Seth caminhando pela estrada, vindo da escola. E aquele problema ali, pensou na hora,  meu. - No posso ajud-lo 
em nada. O que posso lhe assegurar  que meu pai enfrentava os problemas de frente. Jamais escolheu o caminho mais fcil. Agora me desculpe, mas tenho muito trabalho 
a fazer. - Deixando o assunto como estava, Cam se afastou e foi andando em direo a Seth.
      Mackensie esfregou os olhos, que ardiam por causa do sol. Quinn deve ter achado que no acrescentara nada de til para o relatrio dele, mas estava errado. 
Quanto mais no fosse, aquilo servira para Mackensie adquirir a certeza de que os Quinn iam brigar pelo dinheiro do seguro at o fim. Mesmo que no fosse pela quantia, 
seria por honra  memria de seu pai.
      - Quem  aquele cara? - perguntou Seth ao ver Mackensie caminhando de volta ao carro.
      - Um babaca da companhia de seguros. - Cam acenou com a cabea para a parte baixa da rua, onde dois garotos circulavam a meio quarteiro de distncia. - E 
aqueles dois caras ali, quem so?
      Seth deu uma olhada despreocupada para trs, por cima dos ombros, e levantou o ombro em sinal de desdm, respondendo:
      
      - Sei l! Apenas garotos l da escola, ningum importante.
      - Eles estavam importunando voc?
      - No, qual ?... Vamos trabalhar no telhado hoje?
      - No, o telhado ficou pronto - murmurou Cam e olhou com ar divertido os dois garotos que vinham se chegando como quem no quer nada, tentando fingir desinteresse. 
- Ei, garotos, vocs dois!
      - O que est fazendo? - sussurrou Seth, morto de vergonha.
      - Calma, fique frio!... Ei, garotos, venham at aqui! - ordenou Cam, enquanto os dois meninos ficaram paralisados de repente, como esttuas.
      - Para que voc est chamando aqueles dois? So apenas dois babacas l da escola.
      - Estamos precisando de alguns babacas para servir de mo-de-obra - afirmou Cam com a voz calma. Tambm acabara de lhe ocorrer que Seth devia ter alguns companheiros 
de sua idade. Ficou esperando enquanto Seth se encolhia e os dois meninos trocavam idias rapidamente, aos sussurros. Por fim, o mais alto dos dois se empinou todo, 
esticando os ombros, e veio caminhado com ar arrogante pela rua com seu par de Nike bem surrado.
      - A gente no tava fazendo nada! - disse o menino, com um tom de desafio que perdia um pouco o efeito pelo sibilar de sua voz ao passar pelo buraco de um dente 
que faltava.
      - Eu j percebi isso. E esto a fim de fazer alguma coisa?
      O menino olhou meio de lado para o garoto mais novo, depois olhou para Seth e ento, com cautela, levantou o olhar para Cam, respondendo:
      - Talvez.
      - E vocs tm nome?
      - Claro. Eu sou o Danny. Esse aqui  o meu irmo caula, Will. Fiz onze anos na semana passada. Ele tem s nove.
      - Mas vou fazer dez daqui a dez meses! - defendeu-se Will, dando uma cotovelada no irmo.
      - Ele ainda est na quinta srie... - explicou Danny, com um risinho de desdm que compartilhou generosamente com Seth. -  uma turma para bebs.
      - Eu no sou beb!
      Como os punhos de Will j estavam fechado e se levantando para socar o irmo, Cam o segurou e ento apertou de leve os bceps do garoto.
      - Seus msculos me parecem bem fortes - elogiou ele.
      - Eu sou forte mesmo! - confirmou Will, sorrindo em seguida com um charme quase angelical.
      - Isso  o que vamos descobrir!... Esto vendo todo esse lixo espalhado em pilhas por aqui? Telhas velhas e quebradas, pedaos de madeira com piche derretido 
e lixo? - Cam passou os olhos por todo o terreno. - timo, agora esto vendo aquela caamba para lixo bem ali? Muito bem, o lixo vai para a caamba e vocs ganham 
cinco pratas.
      - Cinco dlares para cada um? - Danny se empertigou e seus olhos castanho-claros brilharam no rosto muito sardento.
      - No me faa rir, garoto. Mas olhe... ofereo dois dlares de bnus se vocs fizerem o trabalho todo sem eu precisar vir at aqui fora para separar brigas. 
- E apontou para Seth com o polegar. - Quem vai coordenar os trabalhos  ele.
      No minuto que Cam os deixou sozinhos, Danny se virou para Seth. Avaliaram um ao outro estreitando os olhos, em silncio.
      - Eu vi o soco que voc deu em Robert - disse o menino para Seth.
      - E da? - Seth afastou um pouco as pernas para se equilibrar melhor. Eram dois contra um, calculou, mas ele estava preparado para enfrent-los.
      - Foi muito legal! - disse Danny enquanto comeava a recolher telhas quebradas.
      Will sorriu alegremente, olhando para Seth e concordando com o irmo:
      - Robert  um bundo gordo e desengonado, e Danny me contou que quando voc socou o nariz dele o cara sangrou sem parar...
      - Parecia um porco esfaqueado... - Seth se pegou sorrindo de volta.
      - Oinc! Oinc"... - completou Will, deliciado. - Depois que a gente acabar aqui, pode pegar a grana e ir at o Crawfords tomar um sorvete.
      - ... podemos... - Seth comeou a juntar lixo tambm, com Will trabalhando alegremente bem atrs dele.
      Anna no estava em um de seus melhores dias. Comeara a manh desfiando o ltimo par de meias-calas antes mesmo de alcanar a porta da rua. O po acabara, 
o iogurte tambm e, admitiu ela, estava praticamente sem comida alguma em casa, porque passara tempo demais com Cam ou pensando em Cam e acabara se esquecendo da 
sua rotina.
      Ao parar na caixa de correio para depositar uma carta que escrevera para os avs, lascou uma unha na ranhura. O telefone j estava tocando no momento em que 
colocou os ps em sua sala s oito e meia, e uma mulher histrica do outro lado da linha estava querendo satisfaes sobre seu carto mdico que ainda no chegara.
      Anna acalmou a mulher e assegurou-lhe que iria averiguar o motivo da demora pessoalmente. Ento, aparentemente s por ela j ter chegado, a telefonista passou 
outra ligao de um velho ranzinza que comeou a reclamar indignado, insistindo que as crianas da casa ao lado sofriam abusos dos pais, pois estes permitiam que 
os filhos vissem televiso o dia inteiro.
      - A televiso - explicou ele -  a ferramenta da esquerda comunista. Eles s passam cenas de sexo e assassinatos, sexo e assassinatos, e tudo isso so mensagens 
subliminares para as crianas. J li tudo a respeito.
      - Vou averiguar o caso com ateno, Sr. Bigby - prometeu ela, abrindo a gaveta de cima de sua mesa, onde guardava a aspirina.
      -  bom mesmo! J tentei a polcia, mas eles no fizeram nada. Aquelas crianas esto condenadas. Vai ser preciso desprogramar a cabea delas.
      - Obrigada por nos chamar a ateno para esse fato.
      -  o meu dever de cidado americano.
      - Aposto que sim - murmurou Anna depois que ele desligou. Sabendo que estava com hora marcada na vara de famlia s duas horas da tarde, ligou o computador 
com a inteno de repassar os seus relatrios e anotaes. Quando apareceu uma mensagem alarmante em sua tela avisando que o programa estava com problemas e tinha 
de ser desativado, ela nem se deu ao trabalho de gritar de desespero. Simplesmente se recostou, fechou os olhos e aceitou o fato de que seu dia estava fadado a ser 
muito atribulado. E as coisas foram piorando.
      Ela sabia que seu testemunho no tribunal era uma pea-chave para o caso. O arquivo dos Higgins pousara em sua mesa h quase um ano. Os trs meninos, com idades 
de oito, seis e quatro anos, haviam sofrido abusos fsicos e emocionais em casa. A me, com apenas vinte e cinco anos, era um caso clssico de esposa agredida. Abandonara 
o marido inmeras vezes ao longo dos anos, mas sempre acabava voltando.
      Seis meses antes, Anna trabalhara duro e tentara com determinao lev-la, junto com os filhos, para um abrigo. A mulher ficou l, devidamente protegida, por 
menos de trinta e seis horas, antes de mudar de idia. Embora Anna se comovesse com a histria dela, a coisa chegara a um ponto em que o bem-estar das crianas estava 
em jogo.
      Os rostos e corpos marcados por belisces e cheios de marcas roxas, o medo e, o que era pior, a resignada aceitao que Anna via nos olhos das crianas a atormentavam. 
Acabaram ficando em uma casa de adoo provisria, com um casal que era generoso e rico o bastante para acolher a todos. Ao ver os pais adotivos defendendo aqueles 
trs meninos to sofridos, Anna jurou que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para mant-los l.
      - Aconselhamento psicolgico foi recomendado em janeiro do ano passado, quando este caso chegou s minhas mos pela primeira vez - afirmou Anna no banco das 
testemunhas. - Recomendei terapia familiar e individual. O conselho no foi seguido. A situao persistiu em maio do mesmo ano, ocasio em que a Sra. Higgins foi 
hospitalizada com o maxilar deslocado e outros ferimentos, e em setembro, quando Michael Higgins, o irmo mais velho, teve a mo quebrada. Ainda no ano passado, 
em novembro, a Sra. Higgins e seus dois filhos mais velhos foram parar no pronto-socorro, sendo todos tratados de diversos ferimentos. Abri uma notificao e encaminhei 
a Sra. Higgins e seus filhos para um local seguro, em um abrigo para mulheres agredidas. Ela ficou no local menos de dois dias.
      - A senhorita foi a assistente social designada para cuidar desse caso durante mais de um ano. - O advogado estava em p diante dela, sabendo por experincia 
que no era necessrio conduzir sua testemunha.
      - Sim, acompanhei o caso por mais de um ano... - E sentiu de forma aguda uma sensao de fracasso.
      - Qual  a situao atual do caso?
      - Em 6 de fevereiro deste ano, uma radiopatrulha chamada por um vizinho encontrou o Sr. Higgins sob forte influncia de lcool. A Sra. Higgins estava histrica, 
segundo o relatrio policial, e necessitava de tratamento mdico para marcas de soco no rosto, alm de vrios arranhes. Curtis, a criana mais nova, estava com 
o brao quebrado. A Sra. Higgins foi levada sob custdia. Nessa ocasio, como responsvel pelo acompanhamento do caso, fui notificada do ocorrido.
      - A senhorita esteve com a Sra. Higgins e os filhos nesse dia? - perguntou o advogado.
      - Sim, fui eu que os levei de carro at o hospital. Conversei com a Sra. Higgins. Ela me assegurou que Curtis havia cado da escada. Devido  natureza de seus 
ferimentos e sua histria pregressa, no acreditei nela. O mdico que os atendeu no pronto-socorro concordou comigo. As crianas foram levadas para uma casa de adoo 
provisria, onde permanecem desde aquele dia.
      E continuou a responder s perguntas a respeito da situao atual do caso e sobre as crianas em si. Em um determinado momento, conseguiu arrancar um sorriso 
do menino do meio, ao falar sobre o time de futebol do qual o jovem estava participando.
      Ento, Anna preparou o esprito para a irritao e o tdio das perguntas do advogado oponente.
      - A senhorita est a par do fato de que o Sr. Higgins se inscreveu voluntariamente em um programa de reabilitao para alcolatras?
      Anna fixou o olhar longamente no advogado, fornecido gratuitamente pelo Estado, que estava defendendo o casal Higgins, e ento fitou o pai direto nos olhos, 
dizendo:
      - Estou a par de que, s no ano passado, o Sr. Higgins afirmou ter entrado em um programa de reabilitao desse tipo por pelo menos trs vezes.
      Anna viu o dio e a fria surgirem, sombrios, no rosto do pai. Deixe que ele fique com dio de mim, pensou ela. Quero ser mico de circo se ele colocar a mo 
de novo naquelas crianas.
      - Estou a par tambm - completou ela - que ele jamais completou o programa.
      - O alcoolismo  uma doena, Srta. Spinelli. O Sr. Higgins est em busca de tratamento para a sua doena. A senhora no concorda que a Sra. Higgins tambm 
 uma vtima da doena do marido?
      - Concordo que ela sofreu muito tanto fsica quanto emocionalmente em suas mos.
      - E a senhorita no acha que seria um sofrimento ainda maior perder os filhos, e eles a ela? Ser que consegue acreditar que esta corte vai arrancar as crianas 
e mant-las longe da me?
      A escolha, Anna pensou, era dela. De um lado, o homem que a espancava e aterrorizava os filhos, de outro a integridade fsica, a sade e a segurana desses 
mesmos filhos.
      - Acredito que ela vai sofrer ainda mais at tomar uma deciso final que modifique suas circunstncias. E na minha opinio profissional, a Sra. Higgins  incapaz 
de cuidar de si mesma e muito menos de seus filhos neste momento.
      - Mas tanto o Sr. Higgins quanto a esposa esto com emprego fixo agora - continuou o advogado. - A Sra. Higgins declarou, sob juramento, que ela e o marido 
j se reconciliaram e continuam a trabalhar no intuito de resolverem suas diferenas matrimoniais. Separar a famlia, como ela mesma afirmou, servir apenas para 
trazer mais dor e problemas emocionais para todos os envolvidos.
      - Eu sei que ela acredita nisso. - Seu olhar para a Sra. Higgins era de compaixo, mas a voz era firme. - E acredito que h trs crianas neste caso cuja segurana 
fsica e bem-estar esto em perigo. Acompanhei os relatrios mdico-psiquitricos e as fichas policiais. Nos ltimos quinze meses estas trs crianas foram atendidas 
por mdicos em situao de emergncia em um total de onze vezes!
      Olhou para o advogado naquele momento, perguntando-se como ele conseguia se manter diante de uma corte de justia, a fim de lutar pelo que era, certamente, 
a destruio de trs meninos to novos.
      - Estou ciente de que o bracinho de uma criana de quatro anos foi quebrado como se fosse um graveto - continuou Anna. - Recomendo com firmeza que estes meninos 
permaneam sob cuidados supervisionados na casa de adoo provisria na qual j esto instalados, a fim de assegurar a segurana fsica e emocional dos trs.
      - Nenhuma queixa foi feita na polcia contra o Sr. Higgins.
      - No, nenhuma queixa foi feita, oficialmente... - Anna desviou o olhar para a me, e o deixou ficar sobre aquele rosto cansado. - Isso  outro crime - murmurou.
      Ao terminar, Anna passou ao lado dos Higgins sem lhes lanar sequer uma olhada. Atrs do parapeito de madeira, porm, o pequeno Curtis estendeu-lhe a mo, 
pedindo:
      - Voc tem um pirulito? - sussurrou ele, fazendo-a sorrir.
      Ela costumava carregar pirulitos na bolsa para as crianas. O menino adorava pirulitos, especialmente os de cereja.
      - Talvez eu tenha algum comigo. Vamos ver...
      Estava procurando pelo pirulito dentro da bolsa quando ouviu a exploso de dio atrs dela:
      - Tire as mos do que me pertence, sua piranha!
      Ao comear a se virar, Higgins a atingiu com toda a fora, empurrando-a e fazendo-a girar desequilibrada para acabar caindo no cho, levando Curtis com ela, 
enquanto surgia um clamor de gritos e reclamaes. Sua cabea parecia badalar como se tivesse sinos l dentro, e estrelas apareceram diante de seus olhos. Dava para 
ouvir os gritos e xingamentos enquanto ela tentava se levantar do cho, ainda de quatro.
      Sua bochecha doa muito no lugar em que ela batera ao cair, de encontro  madeira do assento de uma cadeira. As palmas de suas mos ardiam depois de terem 
escorregado sobre o piso de lajotas, na tentativa de se apoiar na queda. E - droga! - a meia nova que comprara para substituir a que desfiara de manh estava rasgada 
na altura dos joelhos.
      
      
      - Fique quieta! - ordenou Marilou. Ela estava agachada, dentro da sala de Anna. Cuidava dos arranhes com ar srio.
      
      - Eu estou bem! - De fato, os ferimentos eram bem leves. - Valeu a pena! Aquela pequena demonstrao de violncia em pleno tribunal vai garantir que ele no 
consiga nem mesmo chegar perto das crianas por algum tempo.
      - Voc me deixa preocupada, Anna. - Marilou olhou para cima com seus olhos pretos e brilhantes. - Estou quase achando que voc gostou de ser derrubada por 
aquele idiota com quase cem quilos.
      - Gostei foi dos resultados disso. Ai, Marilou! - E bufou quando a supervisora se levantou para examinar a marca roxa no rosto de Anna. - Adorei dar queixa 
de agresso contra ele, e acima de tudo adorei ver aqueles garotos voltarem para casa com os pais adotivos.
      - Foi um bom dia de trabalho, ento?... - Balanando a cabea, Marilou deu um passo para trs. - O que me preocupa, tambm,  que voc se deixa aproximar demais 
das pessoas envolvidas em seus casos.
      - No d para ajudar de longe. Grande parte do nosso trabalho consiste em lidar com papelada, Marilou. Formulrios e protocolos. Mas de vez em quando a gente 
consegue fazer algo de concreto, nem que seja ser atacada por um idiota com cem quilos. E a vale a pena.
      - Se voc se envolver demais, vai acabar com algo pior do que marcas roxas e um joelho arranhado.
      - Se eu no me envolver demais,  melhor arranjar outro tipo de trabalho.
      Marilou bufou. Era difcil argumentar com Anna, porque ela prpria sentia exatamente a mesma coisa.
      - V para casa, Anna.
      - Ainda falta uma hora para o fim do expediente.
      - V para casa mesmo assim. Considere isso um prmio pela sua combatividade.
      - J que voc quer colocar dessa forma... Essa hora livre veio a calhar. Vou para o supermercado, porque no tenho nada em casa para comer. Se souber de mais 
alguma coisa a respeito do... - parou de falar de repente, ao ouvir a batida no umbral de sua porta aberta. Seus olhos se arregalaram. - Cameron!...
      - Srta. Spinelli, eu queria saber se posso tomar um minuto do seu tempo para... - Seu sorriso de saudao se transformou em uma cara de raiva. A luz em seus 
olhos se tornou penetrante e quente como uma espada flamejante. - Que diabos aconteceu aqui? - E entrou na sala como um vendaval, agitando tudo e quase atropelando 
Marilou em sua nsia de chegar at Anna. - Quem agrediu voc?
      - Ningum exatamente,  que eu estava...
      Em vez de dar a ela uma chance de explicar o que ocorrera, ele girou o corpo e olhou para Marilou. Sentindo-se fascinada e divertida com aquilo, Marilou recuou 
levantando as mos com as palmas para a frente.
      - No fui eu no, campeo. Eu s ataco meus funcionrios com o olhar. Jamais coloquei um dedo em cima de nenhum deles.
      - Houve um tumulto no tribunal, s isso. - Anna se levantou, tentando manter a frieza e o esprito profissional apesar das pernas nuas e os ps descalos. 
- Marilou, este  Cameron Quinn. Cameron, Marilou Johnston, minha supervisora.
      -  um prazer conhec-lo, apesar das circunstncias. - Marilou estendeu-lhe a mo. - Fui aluna do seu pai, um milho de anos atrs. Eu simplesmente o adorava.
      - Sim, obrigado. Quem agrediu voc? - insistiu ele, olhando para Anna.
      - Algum que neste exato momento est do lado errado de uma cela. - Rapidamente, Anna enfiou os ps em seus sapatos de salto baixo. - Marilou, vou aceitar 
a sua sugesto para ir embora mais cedo. - Seu nico pensamento naquele instante era levar Cam para fora dali, para longe dos olhos curiosos e observadores de Marilou. 
- Cameron, se voc precisa conversar comigo a respeito de Seth, pode me dar uma carona at em casa - disse, e vestiu o palet cinza-claro, ajeitando-o nos ombros. 
- No moro longe daqui. Posso lhe oferecer uma xcara de caf.
      - Certo... Claro. - Quando ele segurou o queixo dela com a mo, um cabo-de-guerra entre prazer e preocupao comeou a ser disputado dentro de Anna. - Vamos 
conversar ento.
      - A gente se v amanh, Marilou.
      - Claro... - Marilou sorriu com satisfao quando Anna pegou, apressada, a sua pasta. - Ns duas vamos conversar tambm.


  Captulo Quinze
  
      Anna manteve a boca fechada com firmeza at os dois estarem fora do prdio e a salvo de olhares alheios no estacionamento. - Cam, pelo amor de Deus!
      - Pelo amor de Deus o qu?
      - Este  o meu local de trabalho! - Ela parou ao lado do carro e se virou para olhar de frente para ele. -  o lugar onde eu trabalho, voc se lembra? No 
pode entrar ventando daquela maneira em minha sala, como um amante ultrajado.
      Ele tornou a pegar o queixo dela com a mo e inclinou o rosto para olhar mais de perto, afirmando:
      - Eu sou um amante ultrajado e quero saber o nome do filho-da-me que colocou as mos em voc.
      Ela no podia se permitir o sentimento de empolgao pela violncia que saa dele sob a forma de centelhas. Aquilo seria, lembrou a si mesma enquanto o estmago 
dava um delicioso pulinho de alegria, uma atitude completamente antiprofissional.
      - A pessoa em questo est detida junto s autoridades policiais. E voc no tem permisso para se mostrar como amante, nem ultrajado nem de nenhum outro tipo, 
durante o meu horrio de expediente.
      - Ah, ? Pois tente me impedir! - desafiou ele e, levado pelo seu gnio forte, beijou-a ardentemente.
      Ela tentou se desvencilhar por um momento. Qualquer um no prdio poderia dar uma olhadinha para fora da janela e peg-los em flagrante. O beijo era quente 
e impetuoso demais para um estacionamento  luz do dia.
      Mas era tambm quente e impetuoso demais para ela resistir. Cedendo a ele e a si mesma, Anna enroscou os braos em volta dele.
      - Agora, quer parar com isso? - murmurou ela de encontro  boca que no queria se afastar.
      - No.
      - Tudo bem ento, mas vamos levar esse fogo todo para um lugar fechado.
      - Boa idia! - Com a boca ainda colada na dela, ele esticou o brao para trs, a fim de abrir a porta do carro.
      - No posso entrar, a no ser que voc me largue!
      - Bem lembrado... - Ele a liberou, e logo em seguida a surpreendeu ao passar os lbios de leve e com carinho sobre a marca roxa em sua face. - Est doendo 
muito?
      - Um pouquinho... - Com o corao ainda pulando, ela entrou no veculo, pegando o cinto de segurana com todo o cuidado, mantendo os movimentos firmes, de 
forma eficiente e casual.
      - O que aconteceu? - perguntou Cam enquanto Anna acabava de se ajeitar ao lado.
      - Um pai que cometia abusos contra os trs filhos, espancava a mulher e no apreciou muito o meu depoimento contra ele, em uma audincia na vara de famlia. 
Empurrou-me com toda a fora. Eu estava de costas para ele... Se no fosse por isso, teria dado um chute em seu saco. Do jeito que foi, acabei perdendo o equilbrio 
e dei de cara no assento de uma cadeira, antes de cair, o que seria embaraoso, e s no foi pelo fato de que ele agora est preso e as crianas esto com a famlia 
adotiva.
      - E a esposa?
      - No posso ajud-la... - Anna deixou a cabea que latejava recostar no banco. - Cada um tem que lutar as prprias batalhas.
      Cam no disse nada ao ouvir isso. Andara pensando a mesma coisa. Foi por isso que decidiu largar trs garotos com Ethan e ir at l para v-la. Resolveu contar 
a ela a respeito da investigao da companhia de seguros, das especulaes a respeito da ligao de Seth com o seu pai e da busca que Phillip contratara, com o intuito 
de encontrar a me de Seth.
      Resolveu contar-lhe tudo, pedir conselhos e ver o que ela achava de tudo. Naquele instante, porm, se pegou reavaliando o assunto, e imaginando se aquele era 
o caminho mais sensato para ela, para ele e para Seth.
      De qualquer forma, o problema ia ter que esperar, disse a si mesmo, e racionalizou o adiamento: ela acabara de passar por maus bocados e precisava de um pouco 
de ateno.
      - Ento voc apanha muito em seu ramo profissional?
      - Hein?... No. - Ela riu da pergunta enquanto ele estacionava o carro diante do seu edifcio. - De vez em quando, algum tenta dar um soco ou joga alguma 
coisa em cima da gente, mas, na maior parte das vezes,  s abuso verbal e xingamentos.
      - Puxa, que trabalho divertido!
      - Tem seus momentos bons. - Anna segurou a mo dele e foi caminhando ao seu lado. - Voc sabia que a televiso  a ferramenta da esquerda comunista?
      - No, nunca ouvi falar disso.
      - Ainda bem que eu estou aqui para lhe contar. - Abriu a caixa de correspondncia e pegou cartas, contas e uma revista de moda. - Vila Ssamo e outros programas 
infantis so apenas um disfarce.
      - Aquele pssaro imenso todo amarelo nunca me enganou...
      - No, no, ele  s a fachada. O cabea de todo o movimento  o sapo. - Ela colocou o dedo indicador na frente dos lbios enquanto se aproximavam da porta. 
Entraram no apartamento sorrateiramente, como dois alunos matando aula. -  que eu no quero que as duas irms a de frente fiquem em cima de mim, me zoando.
      - E se importa se eu ficar em cima de voc?
      - Isso depende de uma definio melhor para o que pretende.
      - Podemos comear a demonstrao aqui mesmo. - Enlaando-a pela cintura, tocou os lbios dela com os dele.
      - Acho que d para agentar isso... - E o ajudou a aumentar a intensidade do beijo. - O que est fazendo aqui, Cam?
      - Estava com um monte de coisas na cabea. - Seus lbios acariciaram a marca roxa novamente e depois foram descendo lentamente at o queixo de Anna. - A principal 
era voc. Queria ver voc, estar com voc, conversar com voc. Fazer amor com voc.
      - Tudo ao mesmo tempo? - Seus lbios abriram um sorriso por baixo dos dele.
      - Por que no? Estava com idia de lev-la para jantar... mas agora estou achando que talvez fosse melhor a gente pedir uma pizza.
      - Perfeito - disse ela com um suspiro. - Por que no serve um pouco de vinho para ns, enquanto eu troco de roupa?
      -  que tem mais uma coisa... - Levantou a boca para sussurrar no ouvido dela. - Uma coisa que eu venho sonhando em fazer. Tenho pensado muito em como seria 
ajudar a Srta. Spinelli a despir um daqueles ternos do tipo "servidora pblica dedicada" que ela usa.
      -  mesmo?
      - Desde a primeira vez em que vi voc.
      - Ento esta  a sua oportunidade. - Sorriu ela com malcia.
      - Eu estava torcendo para voc dizer isso. - Colou a boca novamente sobre a dela, de forma mais faminta agora, e mais possessiva. Dessa vez seu suspiro se 
transformou em um gemido trmulo enquanto ele lhe abria o palet e o puxava um pouco para baixo por trs das costas, prendendo-lhe os braos. - Desejo voc o tempo 
inteiro, Anna... dia e noite.
      - Acho que isso  muito bom, j que eu quero ter voc o tempo todo tambm... - Sua voz estava um pouco rouca agora, baixa de tanto desejo.
      - Isso no a apavora?
      - Nada que acontea entre ns dois me apavora.
      - E se eu dissesse que quero que voc me deixe fazer o que quiser com voc? Tudo?...
      - Eu responderia "quem  que o est impedindo?". - Seu corao pareceu pular do peito at a garganta, mas os olhos se mantiveram firmes.
      Com um perigoso ar de luxria nos olhos, ele baixou a cabea e depois tornou a levant-la, sussurrando:
      - Vivo louco para saber o que  que a Srta. Spinelli usa por baixo daquelas blusinhas formais.
      - No creio que um homem como voc v permitir que alguns botezinhos o impeam de descobrir.
      - Tem razo! - Ele tirou a mo do palet e a colocou sobre a blusa de algodo bem passada. E a rasgou! Viu os olhos dela se arregalarem, chocados... e estimulados. 
- Se voc quer que eu pare, eu paro. No vou fazer nada que voc no queira.
      Ele rasgara a blusa dela, e isso a deixara excitada. Esperou, olhando para ela, para que ela o mandasse parar ou ir em frente. E isso a excitou ainda mais. 
Compreendeu ento que no fora totalmente sincera ao dizer que nada a respeito deles a apavorava. Naquele momento, ela temia pelo que pudesse estar acontecendo com 
o seu corao.
      Ali, porm, em matria de amor fsico, ela conseguia acompanh-lo.
      - Quero todas as coisas. Tudo... - gemeu ela.
      O sangue dele acelerou. Mesmo assim, ele manteve o toque leve, sensual, deixando correr as costas da mo suavemente sobre a superfcie lisa e branca do suti 
meia-taa.
      - Srta. Spinelli... - falou ele, com a voz arrastada, enquanto os dedos escorregavam por dentro do cetim at chegar ao seu mamilo endurecido - ... quanto voc 
agenta?
      Os pequenos belisces que sentiu fizeram sua cabea girar e inundaram seu corpo por dentro. Em volta, o ar j estava mais denso quando ela respondeu:
      - Acho que estamos prestes a descobrir.
      Lentamente, mantendo os olhos em seu rosto, ele a encostou contra a parede.
      - Vamos comear por aqui. Prepare-se - murmurou ele, e lanou a mo por baixo de sua saia, rasgando a calcinha rendada que encontrou. A respirao dela explodiu, 
quase a fazendo rir. Ento, acariciando-a, ele penetrou-a com dois dedos, enviando uma onda de prazer em estado bruto atravs de todo o seu sistema desprevenido. 
O orgasmo rasgou-a por dentro, esvaziando-lhe a mente e roubando-lhe o flego. Quando seus joelhos se dobraram, ele simplesmente continuou apertando-a de encontro 
 parede.
      - Goze mais! - Ele estava louco para v-la sentir aquele prazer ntimo plenamente, observar a excitao chocada tomar conta de seu rosto e acompanhar a transformao 
naqueles olhos maravilhosos, que ficaram ainda mais arregalados e em xtase.
      Ela enterrou os dedos nos ombros dele em uma tentativa de manter o equilbrio. Com a cabea atirada para trs, dava para ele ver o pulsar em sua garganta, 
que aumentou rapidamente, e o fez se sentir compelido a sabore-la bem ali. Ela gemeu sob os seus lbios, movimentou o corpo na direo do dele, e a respirao tornou-se 
ainda mais ofegante no instante em que ele acabou de lhe arrancar o palet e atirar longe o que restara de sua blusa.
      Ela estava indefesa e seu corpo estava mole. O ataque aos seus sentidos a deixara com as pernas bambas e o corao disparado. Ela disse o nome dele, ou pelo 
menos tentou, mas o som foi engolido por um arfar sbito no momento em que ele a girou de costas para ele. As palmas das mos dela, muito suadas, pressionaram a 
parede.
      Ele arrancou o boto de trs de sua saia. Ela sentiu quando a presso do tecido diminuiu em volta dela e tremeu quando a roupa escorregou aos poucos pelos 
seus quadris, amontoando-se aos seus ps. As mos dele estavam em seus seios, segurando-os por trs e moldando-os suavemente, enquanto os dedos escorriam do cetim 
do suti para a pele sensvel e depois de volta ao suti. Ento ele o rasgou tambm, e ela se excitou ainda mais ao ouvir o som do delicado material que cedia sob 
aquelas mos decididas.
      Os dentes dele mordiscaram-lhe o ombro, e suas mos... ah, suas mos estavam em toda parte, deixando-a enlouquecida de prazer e lanando-a mais alm. Eram 
mos calejadas sobre sua pele lisa e fina, com dedos ousados que apertavam, invadiam e deslizavam por toda a superfcie do seu corpo.
      A respirao que estava descompassada e passava sibilante por entre seus lbios comeou a se estabilizar. O prazer era intenso, como uma sombra no meio da 
noite. Ela se sentiu deslizar para um mundo paralelo, totalmente ertico, onde s as sensaes existiam.
      Escorregadias, atordoantes e pecaminosas.
      A parede lhe pareceu lisa e fria. As mos dele no... o contraste era insuportavelmente arrebatador.
      Quando ele a virou de frente novamente, os olhos dela foram atingidos pela luz do pr-do-sol. Ele ainda estava totalmente vestido, e ela completamente nua. 
Aquilo lhe pareceu incrivelmente ertico, e no conseguiu dizer nada no momento em que ele, lentamente, levantou-lhe as mos acima da cabea e pareceu grampear seus 
dois pulsos com apenas uma das mos.
      Observando-a, veio descendo com a outra mo por dentro de seus cabelos, com fora, soltando os grampos que encontrava pelo caminho.
      - Quero ver voc gozar mais! - Ele mal conseguia falar. - Diga que voc quer mais!
      - Sim, eu quero mais!
      Ele pressionou o corpo contra o dela, o algodo macio e o brim rude de sua roupa indo de encontro  carne nua e mida. E o beijo que ele roubou dela a deixou 
com a cabea girando.
      Ento, sua boca desceu lentamente e comeou a trabalhar em seu corpo trmulo.
      Ele queria experimentar todos os sabores dela, o mel espesso em sua boca, a seda mida em seus seios, chegar  textura quase cremosa de sua barriga e ao cetim 
polido de suas coxas.
      At alcanar o calor, a fornalha que parecia um vulco com lava escorrendo de dentro dela, enquanto ele lambia e desbravava cada centmetro de carne entre 
as suas pernas.
      Ele queria tudo, era s o que conseguia pensar. E depois ainda ia querer mais!
      Suas mos agarraram-no pelos cabelos, puxando seu rosto mais para junto dela, fazendo-a alcanar um novo pico de prazer. Foi o clamor dela, o seu grito abafado 
que quebrou o ltimo elo do controle que ele exercia sobre si mesmo. Tinha de ser agora!
      Ele se libertou de todas as roupas e se pressionou contra ela.
      - Preciso preencher voc por dentro - disse ele, muito ofegante. - Quero que voc olhe para mim enquanto fao isso...
      E se lanou dentro dela naquele mesmo instante, em p, e seus gemidos gmeos se entrelaaram no ar.
      Depois de tudo, carregou-a para a cama e se deitou ao lado dela. Ela se aconchegou junto dele como uma criana no tero, um gesto que ele achou to doce que 
se sentiu surpreso. Ficou observando-a enquanto ela dormia. Trinta minutos, depois uma hora. No conseguia parar de toc-la, passava a mo por seus cabelos, as pontas 
dos dedos sobre a marca roxa em seu rosto, dava um empurro de leve sobre a curva de seu ombro.
      Ele dissera que sentia algo diferente por ela. Comeou a se preocupar com o que aquele algo poderia ser. Jamais se sentira compelido a permanecer assim, junto 
de uma mulher, depois do sexo. Jamais sentira a necessidade de simplesmente ficar ali, olhando para seu rosto, enquanto ela dormia, ou de toc-la simplesmente pelo 
prazer do toque e no apenas para excit-la.
      Perguntou a si mesmo que nvel estranho e voltil era aquele que ambos haviam atingido.
      Nesse momento ela se mexeu, soltou um suspiro longo e seus olhos piscaram de leve at se focarem nele. Ao sorrir, seu corao pareceu dar uma cambalhota dentro 
do peito.
      - Oi... - sussurrou ela. - Eu peguei no sono?
      - Parece que sim - e tentou fazer uma observao improvisada, algo leve e frvolo, mas tudo o que conseguiu exclamar foi o nome dela... "Anna". E abaixou a 
cabea at que sua boca e a dela se encontraram mais uma vez. De forma terna, suave e amorosa.
      O ar de sono desaparecera dos olhos dela quando os dois se afastaram, mas ele no conseguiu ler o que estava escrito neles. Ela respirou fundo uma vez, devagar, 
e depois deixou o ar escapar, perguntando:
      - O que foi tudo isso que aconteceu ainda h pouco?
      - No fao idia... - Ambos recuaram com cautela. - Acho que  melhor pedir aquela pizza.
      Alvio e desapontamento comearam a travar uma batalha dentro dela. Anna fez todo o esforo possvel para que o alvio vencesse, dizendo:
      - Boa idia. O nmero est ao lado do telefone da cozinha. Se voc no se importa de fazer o pedido, eu queria tomar uma chuveirada rpida e vestir uma roupa.
      - Tudo bem. - Em um gesto de intimidade casual, ele acariciou-lhe o quadril. - Voc vai querer pizza de qu?
      - De tudo o que eles tiverem. - E esperou que ele acabasse de rir ficando aliviada ao ver que ele rolou para fora da cama antes dela. Precisava de mais um 
minuto sozinha.
      - Vou pegar o vinho - anunciou ele.
      - Que bom! - No instante em que se viu sozinha, enfiou a cabea no travesseiro e soltou um grito abafado de frustrao. Recuar?, pensou furiosa consigo mesma. 
Onde  que ela arrumara a idia idiota de que poderia recuar alguns passos no envolvimento com ele a qualquer hora que quisesse? Estava completamente apaixonada!
      A culpa  minha, lembrou a si mesma, e o problema  meu tambm. Sentando-se, apertou o peito com a mo, pressionando o corao traidor. E esse vai ser tambm 
o meu pequeno segredo, decidiu.
      
      
      Anna se sentiu um pouco melhor depois de se vestir e colocar uma camada bem leve de maquiagem. Conversara longamente consigo mesma debaixo do chuveiro. Talvez 
estivesse apaixonada por ele, mas isso no tinha de ser necessariamente uma coisa ruim. Pessoas se apaixonam e desapaixonam o tempo todo, e as mais espertas e mais 
estveis simplesmente relaxavam e curtiam o passeio. Ela ia conseguir ser esperta e estvel.
      Certamente no estava em busca do velho "viveram felizes para sempre", nem de um cavalo branco com um prncipe encantado. Anna j se libertara dos sonhos de 
contos de fada h muito tempo, e toda a sua inocncia fora firmemente cimentada s margens de uma estrada deserta aos doze anos de idade.
      Ela aprendera a se fazer feliz porque durante muitos anos aps o estupro pareceu ser incapaz de fazer qualquer coisa a no ser trazer infelicidade para si 
mesma e para todos  sua volta.
      Conseguira sobreviver a coisas piores, no havia dvida de que poderia enfrentar um corao ligeiramente machucado.
      De qualquer modo, jamais permitira se apaixonar antes. Desviara-se daquele sentimento, outras vezes passara direto ou se contorcera para se livrar dele, mas 
jamais o encarara de frente. Aquilo poderia ser uma aventura maravilhosa, e certamente seria uma experincia com a qual aprenderia algo.
      Alm do mais, para qualquer mulher, o fato de conseguir um amante como Cameron Quinn j estava de bom tamanho.
      Ela estava sorrindo ao voltar para a sala de estar, onde encontrou Cam bebendo vinho e olhando para a capa da revista de moda que chegara. Ele colocara uma 
msica para tocar no som. Eric Clapton estava no ar, suavemente chamando por Laylah.
      Quando ela chegou por trs dele e tascou-lhe um beijo na nuca, no esperava a reao de susto nem o pulo que ele deu.
      Era sinal de culpa, pura e simples, e Cam detestou aquilo. Quase deixou entornar o vinho e teve que fazer um esforo para manter o rosto impassvel.
      O rosto sedutor na capa da revista que estava em suas mos pertencia a uma certa modelo francesa muito esbelta, de nome Martine.
      - Eu no quis assustar voc... - E levantou uma sobrancelha ao olhar para a capa da revista nas mos dele. - Estava absorvido pelas novas tendncias em tons 
pastis para o vero?
      - No, s passando o tempo... A pizza deve estar chegando a qualquer momento. - Ele fez meno de colocar a revista sobre a mesinha, embora quisesse na verdade 
enterr-la embaixo das almofadas do sof, mas Anna j a agarrara, afirmando:
      - Eu costumava odiar essa mulher.
      - Hein?... - Sua garganta se mostrou desconfortavelmente seca.
      - Bem, no exatamente Martine, a Magnfica, mas modelos como ela, de forma geral. Magras, louras, perfeitas... Eu sempre fui mais para gordinha, e tinha cabelos 
escuros demais. Isso aqui... - acrescentou, puxando algumas pontas do cabelo molhado e encaracolado - .. . me deixava louca quando eu era adolescente. Tentei de 
tudo para deixar os cabelos lisos.
      - Eu adoro o seu cabelo. - Ele gostaria de colocar a porcaria da revista com a capa para baixo. - Voc  duas vezes mais bonita do que ela. No tem nem comparao!
      - Que bonitinho voc dizer isso... - Seu sorriso saiu rpido e sedutor nos cantos da boca.
      - Estou falando srio! - confirmou ele, quase desesperado para convenc-la, mas achou melhor no informar que j havia estado diante das duas nuas em plo 
e sabia muito bem do que estava falando.
      - Muito bonitinho mesmo. Apesar disso, eu era doida para ser magra, loura e menos cadeiruda.
      - Voc  real - disse ele, sem conseguir se segurar. Pegou a revista e a atirou para trs por sobre os ombros. - Ela no !
      - Essa  uma forma de abordar a questo. - Divertindo-se com a conversa, ela jogou a cabea para o lado. - Parece-me que tipos internacionais como voc, que 
participam de corridas pelo mundo todo, normalmente preferem as supermodelos. Elas parecem to  vontade, penduradas nos braos dos homens.
      - Eu mal a conheo...
      - Quem?
      - Ningum... qualquer uma... - Caramba, ele estava se enrolando todo. - Pronto, chegou a pizza! - exclamou com grande alvio ao ouvir a campainha. - Seu vinho 
est em cima do balco. Vou pegar a encomenda.
      - timo. - Sem fazer idia do que o deixara to estranho de repente, Anna foi caminhando at a cozinha para pegar o seu clice.
      Cam reparou que a revista cara com a capa para cima, de forma que lhe pareceu que Martine estava apontando aqueles arrasadores olhos azuis diretamente para 
ele. Aquilo lhe trouxe de volta  lembrana as imagens de uma bofetada e uma mulher furiosa. Lanou o olhar para Anna. Aquela era uma experincia que ele no fazia 
questo de repetir.
      Enquanto Cam pagava ao rapaz da entrega, Anna levou o vinho para fora, onde havia uma pequena sacada.
      - Est uma noite gostosa... - comentou. - Vamos comer aqui fora.
      Ela ajeitou as duas cadeiras e uma mesinha dobrvel que havia na varanda. Gernios cor-de-rosa e no-me-toques brancos enfeitavam o lugar, saindo de vasinhos 
de cermica.
      - Se um dia eu conseguir juntar dinheiro bastante para comprar uma casa, vou querer uma varanda. Uma bem grande! Como aquela que vocs tm em volta de toda 
a casa. - Voltou para dentro, a fim de pegar pratos e guardanapos. - Vou querer um jardim tambm. Qualquer dia desses vou comear a aprender a cuidar de flores.
      - Uma casa, jardim, varanda... - Sentindo-se mais confortvel ali fora, no ar fresco, Cam se acomodou. - Eu imaginava voc como uma garota de cidade grande.
      -  o que eu sempre fui. No estou bem certa se morar em um bairro residencial muito cheio de casas ia me satisfazer. Cercas brancas e vizinhos pendurados 
nelas. Isso se parece muito com morar em apartamento, na minha opinio, sem a vantagem da privacidade. - Colocou uma fatia de pizza no prato. - No fundo, o que eu 
queria mesmo era tentar comprar uma casa, mas uma que ficasse no campo... Um dia, quem sabe? O problema  que eu no consigo economizar dinheiro.
      - Voc?... - Cam se serviu tambm. - Mas a Srta. Spinelli me parece to prtica...
      - Ela tenta. Meus avs se contentavam com muito pouco, eram obrigados a ser assim. Eu fui criada desse jeito, contando os centavos. - Deu uma mordida e respirou 
fundo, com ar pensativo, antes de falar, com a boca cheia de queijo e molho de tomate. - Agora, basicamente, eu s vejo os centavos irem embora da minha mo.
      - Qual  o seu ponto fraco para compras?
      - Em primeiro lugar? - suspirou. - Roupas!
      Ele olhou por cima do ombro, atravs da porta at o lugar onde as roupas dela estavam empilhadas de forma irregular no cho.
      - Ento eu acho que estou devendo uma blusa para voc... e uma saia tambm, sem falar na roupa de baixo.
      - Acho que est me devendo sim... - E riu com vontade, esticando as longas pernas, sentindo-se confortvel dentro dos leggings azuis e da camiseta GG. - Este 
foi uma dia horroroso! Fiquei feliz por voc ter aparecido e mudado tudo.
      - Por que no volta para a minha casa comigo?
      - O qu?...
      De onde ser que tinha vindo aquela idia?, perguntou-se ele. Os pensamentos mal haviam acabado de chegar em sua mente quando as palavras saltaram para fora. 
Mas a idia j devia estar l, escondida em algum canto.
      - Para ficar o fim de semana todo com a gente - explicou ele. - Passe o fim de semana em nossa casa.
      Anna levou a pizza de volta aos lbios e mordeu, com todo o cuidado.
      - Acho que isso no seria muito sensato. H um menino muito pequeno e facilmente influencivel em sua casa.
      - Ele j sabe de tudo o que est acontecendo entre ns - comeou ele, e ento notou o olhar, o olhar do tipo Srta. Spinelli, em seu rosto. - Tudo bem, eu posso 
dormir no sof da sala. E voc pode trancar a droga da porta l em cima.
      - E onde  que voc guarda a chave? - Seus lbios se abriram.
      - Nesse fim de semana vou guard-la dentro do meu bolso. O caso... - continuou ele ao ver que ela caiu na risada - ...  que voc realmente pode dormir no 
meu quarto. Pelo lado profissional, isso vai lhe dar a oportunidade de passar mais tempo com o garoto. Ele pode passear conosco, Anna... quero lev-la para velejar.
      - Eu apareo l no sbado, ento, e a gente pode ir velejar.
      - No, v na sexta  noite. - Pegou a mo dela, trazendo os ns de seus dedos e passando-os de leve sobre os lbios. - E fique at o domingo.
      - Vou pensar nisso - murmurou ela, e puxou a mo. Gestos romnticos como aquele iam acabar convencendo-a. - E acho que se voc est convidando algum para 
ser hspede de vocs deveria primeiro consultar os seus irmos. Pode ser que eles no queiram ficar sob a sombra de uma mulher por um fim de semana inteiro.
      - Mas eles adoram mulheres. Especialmente mulheres que sabem cozinhar.
      - Ah, ento sou eu quem vai ter que cozinhar?
      - Talvez apenas uma panelinha de lingini... ou um pirex de lasanha.
      - Vou pensar nisso - repetiu, sorrindo e pegando outra fatia de pizza. - Agora, conte-me a respeito de Seth.
      - Ele fez dois novos amigos hoje de manh.
      -  mesmo? Que legal!
      Os olhos dela se acenderam com tanto prazer e interesse que Cam o se fez de rogado:
      - Foi sim... e eu os mandei todos para cima do telhado, para ficar treinando agarr-los enquanto eles se atiravam l de cima.
      - Muito engraado, Quinn... - E fez uma cara feia depois de fechar a boca, que se abrira de espanto.
      - Voc acreditou por um segundo! Um dos garotos  da turma de Seth na escola, e o outro  o seu irmo caula. Eu os peguei para us-los como mo-de-obra escrava, 
por apenas cinco mangos. Caram direitinho no golpe e acabaram ficando l em casa para jantar. Ento eu os empurrei para Ethan tomar conta e fui v-la no trabalho.
      - Voc deixou Ethan tomando conta de trs meninos? - Anna arregalou os olhos.
      - Ele vai se ajeitar. Eu consegui, por algumas horas, hoje de tarde - e lembrou-se de que no havia sido to ruim assim. - Tudo o que ele tem a fazer  aliment-los 
e se certificar de que no vo tentar se matar. A me deles ficou de ir peg-los s sete e meia.  a Sandy McLean... bem, Sandy Miller agora. Freqentei a escola 
com ela.
      - Dois filhos e uma minivan para toda a famlia - continuou ele, balanando a cabea, com ar de surpresa. - Jamais imaginei que isso pudesse acontecer com 
a Sandy...
      - As pessoas mudam - murmurou ela, surpresa por se ver de repente com inveja de Sandy Miller e sua minivan. - Ou, s vezes, as pessoas no eram exatamente 
o que a gente imaginava que fossem, desde o incio.
      - Talvez... Os garotos dela so uns capetas!
      Ao ver que ele falava isso com ar de bom humor, ela tornou a sorrir e disse:
      - Bem, acho que descobri por que voc apareceu em meu trabalho. Queria manter a sanidade.
      - Foi sim, mas o que eu queria, principalmente, era rasgar as suas roupas e deixar voc nua. - Pegou mais uma fatia de pizza. - Acabei conseguindo as duas 
coisas.
      E pensou, enquanto bebia mais um gole de vinho e observava o sol acabar de se pr com Anna ao seu lado. Ele se sentia muito satisfeito com aquilo.

Captulo dezesseis
  
      Desenhar no era um dos pontos fortes de Ethan. Para os outros barcos que construra ele usara esboos muito mal feitos e medidas detalhadas. Para o primeiro 
barco que fizera para aquele mesmo cliente, ele bolara uma plataforma elevada, e achou que trabalhar de cima dela era mais fcil e mais preciso.
      O primeiro esquife que construra e vendera era um modelo bem bsico, com alguns toques pessoais que ele acrescentara. Conseguira acompanhar o projeto completo 
na cabea com facilidade, e no teve dificuldades para visualizar a lateral ou o interior.
      Compreendia, porm, que dar incio a um negcio exigia todos os formulrios que Phillip o mandara assinar e sabia que era necessria tambm uma atitude mais 
formal, mais profissional. Eles precisavam criar uma reputao de qualidade e boa qualificao artesanal, e bem depressa, se pretendiam prosperar.
      Assim, passava horas incontveis durante as noites sobre a sua escrivaninha, lutando com as plantas e os projetos do primeiro trabalho das Embarcaes Quinn.
      Quando desenrolou seus esboos completos sobre a mesa da cozinha, parecia satisfeito e orgulhoso do trabalho.
      - Isto - disse ele, prendendo com as mos as pontas que teimavam em permanecer enroladas - era o que eu tinha em mente.
      Cam olhou por cima do ombro de Ethan, tomou um gole da cerveja que acabara de abrir e falou com voz grave:
      - Imagino que isso seja um barco.
      - Gostaria de ver voc tentar fazer melhor, Rembrandt - debochou Ethan sentindo-se ligeiramente insultado, mas no particularmente surpreso pelo comentrio 
do irmo.
      Cam encolheu os ombros e se sentou. Olhando mais de perto e assumindo uma atitude neutra, admitiu que no conseguiria fazer melhor. Isso, porm, no fazia 
com que a tentativa de desenho da corveta se parecesse mais com um barco.
      - Acho que o esboo no tem muita importncia, contanto que a gente no mostre esse projeto artstico para o cliente. - Colocando o desenho do barco pronto 
para o lado, passou a observar as plantas. Ali, a preciso de Ethan e a sua pacincia para colocar tudo no papel transpareceram. - Agora sim... estou vendo que voc 
planejou um revestimento liso, de encaixes, sem pregos aparentes.
      - Sai mais caro - argumentou Ethan -, mas traz algumas vantagens. Vamos ter um barco mais forte e mais rpido quando acabarmos.
      - Eu j andei em alguns barcos construdos dessa forma - murmurou Cam. - Voc tem que ser muito bom para construir um deles.
      - E ns vamos ser os melhores!
      - . - Cam teve de sorrir.
      - O problema - continuou Ethan, empurrando ainda mais para longe o esboo do barco pronto, por uma simples questo de orgulho -  que a gente precisa de habilidade 
e preciso para fazer um barco de revestimento liso, todo sem pregos. Qualquer um que manje um pouco de barcos sabe disso. Esse cara  um marinheiro de fim de semana, 
sabe pouco mais alm de bombordo e estibordo. Simplesmente tem grana... mas ele convive com pessoas que conhecem barcos muito bem.
      - Sendo assim, a gente vai poder usar este primeiro trabalho para construir a nossa reputao - concluiu Cam. - Bem pensado! - Analisou os valores, os desenhos, 
os cortes frontais e laterais. Ia ficar uma beleza, avaliou. Tudo o que eles tinham de fazer era constru-lo. - Ns podamos fazer um modelo elevado.
      - , podamos...
      Construir um modelo elevado era um estgio mais avanado e respeitvel em se tratando de construo de barcos. Madeiras de mesma espessura poderiam ser encaixadas 
juntas e modeladas at tomarem a forma desejada para o casco. Ento, o modelo poderia ser todo desmontado, a fim de que as molduras pudessem ser projetadas. A partir 
da, os construtores tinham condio de encaixar as tbuas, ou moldes, j levando em conta a relao verdadeira entre as foras que atuariam entre eles.
      - Podamos comear a planejar um sistema de plataformas areas para a construo - props Cam.
      - Imaginei que a gente pudesse comear a trabalhar nisso ainda esta noite e continuar amanh.
      Isso significava marcar o formato do casco em tamanho natural sobre a plataforma, j dentro da oficina, no galpo. Seria um trabalho bem detalhado, mostrando 
o corte dos moldes, e tais cortes poderiam ser testados fazendo-se as projees das curvas longitudinais e as linhas que ficariam sob a gua.
      - , por que esperar mais? - Cam levantou a cabea e viu Seth passando, a caminho da geladeira. - Pensando bem, talvez fosse melhor se a gente tivesse algum 
que soubesse desenhar de forma decente - falou em tom casual, fingindo no perceber o sbito interesse de Seth.
      - Contanto que a gente tenha as medidas exatas e o trabalho seja de primeira classe, isso no tem importncia. - Defendendo seu trabalho, Ethan alisou a folha 
onde desenhara a sua interpretao do barco.
      - S estou comentando que seria melhor se pudssemos exibir ao cliente um desenho bem-feito, de causar impacto. - Cam encolheu os ombros. - Phillip chamaria 
isso de marketing.
      - No me interessa o nome que Phillip daria a isso. - Uma marca funda que indicava teimosia comeou a aparecer entre as sobrancelhas de Ethan, um sinal seguro 
de que ele ia fazer p firme em relao quilo.
      - O cliente ficou muito satisfeito com o meu outro trabalho, e no vai ficar criticando um desenho. Ele quer a droga de um barco e no um quadro para pendurar 
na parede.
      - Estava s pensando... - Cam deixou o assunto no ar, enquanto Ethan, visivelmente irritado, se levantou para pegar uma garrafa de cerveja. - Muitas vezes, 
nas oficinas para construo de barcos que j conheci, as pessoas vm chegando como quem no quer nada, s para dar uma olhada. Gostam de ver os barcos sendo construdos, 
especialmente as pessoas que no entendem xongas a respeito do assunto, mas acham que entendem. A gente consegue at arrumar novos clientes desse jeito.
      - E da? - Ethan abriu a garrafa e comeou a beber. - No vou ligar se as pessoas gostarem de me ver encaixando tbuas. - Ele ligava sim,  claro, mas no 
achava que aquilo fosse acontecer de fato.
      - Seria interessante, estou aqui pensando, se a gente tivesse bons desenhos emoldurados pendurados nas paredes, tipo "os barcos que j construmos".
      - Mas ainda no construmos barco nenhum!
      - Ora, construmos o seu barco de pesca - assinalou Cam. - Construmos o outro barco de trabalho. Temos aquele que voc j construiu para o nosso primeiro 
cliente. E eu gastei muito do meu tempo ajudando a construir uma escuna de dois mastros no Maine, h alguns anos, alm de um pequeno esquife muito bem transado em 
Bristol.
      Ethan bebeu mais um gole, considerando a idia.
      - Talvez ficasse legal, mas no sou a favor de contratar um artista s para pintar barcos prontos. Estamos com uma lista enorme de equipamentos para comprar, 
e Phil ainda est terminando de redigir o contrato para a construo deste barco.
      - Foi s uma idia. - Cam se virou. Seth continuava em p diante da porta escancarada da geladeira. - Quer que eu lhe mostre o cardpio do que tem a dentro, 
garoto?
      Seth deu um pulo e agarrou a primeira coisa que viu na prateleira. O potinho de iogurte de amora no era exatamente o que ele tinha em mente para tomar como 
lanche, mas ficou envergonhado demais para devolv-lo  geladeira. Segurando o que chamava de "lixo saudvel de Phillip", pegou uma colher.
      - Tenho umas coisas pra fazer l em cima - murmurou, e saiu correndo.
      - Aposto dez dlares como ele vai dar aquele iogurte para o cachorro comer - disse Cam, de forma descontrada, imaginando quanto tempo ia levar at que Seth 
comeasse a desenhar barcos.
      
      
      Ele j havia desenhado um esboo bem detalhado e at romntico do barco de pesca de Ethan na manh seguinte. Nem precisava da presena de Phillip na cozinha 
logo cedo para lembr-lo de que era sexta-feira, a vspera da liberdade. Ethan j sara para trabalhar. Devia estar, naquele instante, verificando as armaes de 
pegar caranguejos e recolocando as iscas. Embora Seth tivesse tentado armar um esquema para reunir os trs ao mesmo tempo, simplesmente no conseguira bolar um jeito 
de atrasar a sada de Ethan logo que amanheceu. De qualquer modo, dois juntos dos trs, avaliou ao passar pela mesa onde Cam estava olhando com cara de sono, em 
silncio, para o caf, no era assim to mau.
      Levava pelo menos o tempo de duas xcaras de caf, antes que qualquer um dos homens na casa dos Quinn conseguisse se comunicar sem ser atravs de grunhidos. 
Seth j estava habituado, e por isso no disse nada ao chegar e pousar a mochila no cho. Estava com o caderno de desenhos na mo, com os dedos enfiados entre as 
pginas. Colocou o caderno em cima da mesa como se no estivesse nem ali para aquilo, e ento, com o corao aos pulos, foi procurar uma tigela para colocar os flocos 
de milho.
      Cam viu o desenho na mesma hora. Sorrindo enquanto olhava para o caf, no disse nada. Estava analisando atentamente a torrada que conseguira transformar em 
uma placa de carvo quando Seth voltou para a mesa com uma caixa de sucrilhos e uma tigela nas mos.
      - A bosta dessa torradeira est com defeito - anunciou Cam.
      - E que voc colocou o boto no mximo novamente - explicou Phillip, enquanto acabava de bater uma omelete s com claras e cebolinha.
      - No me lembro de ter feito isso... voc vai preparar quantos ovos mexidos a?
      - No estou preparando nenhum ovo mexido! - Phillip deixou as claras batidas escorregarem para dentro da frigideira especial para omeletes que trouxera de 
sua prpria cozinha em Baltimore. - Prepare os seus prprios ovos mexidos, se quiser.
      Puxa, ser que o cara era cego?, perguntou Seth a si mesmo. Despejou o leite sobre os sucrilhos e disfaradamente empurrou o caderno de desenhos alguns centmetros 
mais para perto de Cam.
      - Sua mo no ia cair no cho s por colocar mais uns dois ovos na tigela, j que voc estava batendo uma omelete mesmo. - Cam quebrou um pedao da torrada 
carbonizada. Estava quase aprendendo a gostar de torradas daquele jeito. - Afinal, eu preparei o caf.
      - A gosma preta - corrigiu Phillip. - No vamos comear com mania de grandeza por aqui.
      Cam suspirou pesadamente e se levantou para pegar uma tigela. Apanhou a caixa de flocos de milho e se sentou ao lado do caderno de desenhos de Seth que continuava 
aberto. Dava quase para ouvir o garoto ranger os dentes, enquanto ele se recostava na cadeira e derramava o leite na tigela. -  possvel que a gente tenha companhia 
para o fim de semana.
      - Quem? - perguntou Phillip, enquanto se concentrava em dourar a omelete a ponto da perfeio.
      - Anna. - Cam deixou a tigela quase transbordar de tanto leite. - Vou lev-la para velejar, e acho que consegui convenc-la a preparar o jantar.
      Tudo o que o cara conseguia pensar se resumia em garotas e encher a pana, decidiu Seth, desgostoso. Usou o cotovelo para empurrar o caderno ainda mais para 
perto. Cam nem levantou os olhos da sua tigela de sucrilhos.
      Ao ver que Phillip estava deixando a omelete escorregar da frigideira para o prato, achou que j estava na hora de agir. Seth j exibia uma cara de fria agonizante.
      - O que  isso aqui? - perguntou Cam, distrado, virando a cabea para ver melhor o desenho que estava, a essa altura, bem debaixo do seu nariz.
      Seth olhou para cima, desesperado. J no era sem tempo!
      - Nada - murmurou o menino, continuando a comer, mais animado.
      - Parece o barco de Ethan. - Cam pegou o caf e olhou para Phillip. - No parece?
      Phillip estava em p, levando  boca a primeira garfada de omelete e aprovando o sabor.
      -  - disse ele. - Um bom desenho esse... - Curioso, olhou para Seth. - Foi voc que fez?
      - Estava s brincando de desenhar. - Um rubor de satisfao vinha subindo pelo seu pescoo e deixou-lhe o estmago apertado.
      - Olhe, eu trabalho com caras que no sabem desenhar to bem assim. - Phillip deu alguns tapinhas de congratulaes no ombro de Seth. - Bom trabalho!
      - No foi nada... - disse Seth, levantando um dos ombros enquanto a empolgao tomava conta dele.
      - Gozado, Ethan e eu estvamos justamente conversando sobre a possibilidade de usar desenhos emoldurados dos barcos que fizermos para enfeitar a nossa pequena 
fbrica. Voc sabe, Phil, tipo uma divulgao do nosso trabalho.
      - Voc teve essa idia? - Phillip estava concentrado na omelete, mas levantou uma sobrancelha em sinal de surpresa e aprovao. - Isso me espanta! E  uma 
tima idia! - Avaliou o desenho mais de perto, enquanto acabava de comer. - Coloque uma moldura rstica, arranque a folha e deixe as pontas do papel sem cortar 
com a tesoura. O quadro tem que ficar com cara de trabalho masculino, e no todo bonitinho.
      - S que apenas um desenho no vai dar para mostrar muita coisa aos clientes. - Cam soltou um som gutural, como se estivesse matutando sobre a idia. Em seguida, 
franziu a testa, olhando para Seth. - Acha que conseguiria outros desenhos desse tipo, como o do barco de trabalho de Ethan, por exemplo? Ou desenhar a partir de 
fotos, se eu trouxer algumas dos barcos que j ajudei a construir?
      - No sei... - Seth lutava para no deixar a empolgao transparecer na voz. Quase conseguiu manter os olhos com ar entediado ao se virar para Cam, mas pequenos 
pontos brilhantes de prazer danavam alegremente neles. - Talvez.
      No levou muito tempo para Phillip sacar tudo. Pegando o desenho, esticou a mo para pegar o caf e concordou com a cabea.
      - ... uma apresentao bem-feita como essa ia servir muito bem para afirmar a qualidade do trabalho. Os clientes que vierem nos procurar vo poder ver os 
diferentes tipos de barco que a gente j construiu. Seria legal tambm ter um bom esboo daquele que est comeando a ser construdo.
      - Ethan rabiscou um esboo pattico. - Cam soprou o ar com desdm. - Parece at um daqueles desenhos de jardim-de-infncia. No sei o que podemos fazer a respeito 
disso. - E ento olhou para Seth, estreitando os olhos. - Talvez voc pudesse dar uma olhada nele.
      Seth sentiu o riso quase transbordar, mas o engoliu, balanando a cabea.
      - Acho que sim - concordou.
      - timo! Agora voc tem menos de noventa segundos para pegar o nibus da escola, garoto, seno vai ter que ir andando at l.
      - Merda! - Seth pulou da cadeira, agarrou a mochila e saiu correndo, fazendo um barulho com os tnis.
      Quando a porta da frente bateu, Phillip se recostou.
      - Bom trabalho, Cam.
      - Tenho meus momentos inspirados.
      - Muito de vez em quando. Como  que voc descobriu que o garoto sabia desenhar?
      - Ele deu a Anna um desenho que fez do cozinho.
      - Humm... e ento, qual  o lance com ela?
      - Lance? - Cam voltou  sua torrada lamentvel e tentou evitar a inveja que sentiu da omelete de Phillip.
      - ... essa histria de ela vir aqui para passar o fim de semana, velejar, preparar o jantar. No vejo voc farejar nenhuma outra mulher com tanto interesse 
desde que ela apareceu em cena. - Phillip riu para o prprio caf. - Est me parecendo coisa sria. Quase... domstica.
      - Ih... se liga, cara, sai dessa! - O estmago de Cam reagiu com um pulinho de desconforto - A gente esta s curtindo um ao outro.
      - No sei no... ela me parece o tipo de mulher que gosta de casinha afastada e rodeada por uma cerquinha branca e um rio ao fundo.
      - Que nada,  mulher de fazer carreira no trabalho - debochou Cam. -  esperta, ambiciosa e no est a fim de arrumar complicaes na vida. - Embora quisesse 
uma casinha no campo, Cam lembrou, junto da gua e com um quintal onde pudesse plantar flores.
      - As mulheres vivem em busca de complicaes - afirmou Phillip, com ar positivo. -  melhor ter cuidado para ver onde pisa.
      - Eu sei para onde estou indo, e sei como chegar l.
      -  o que todos os homens dizem.
      
      
      Anna estava fazendo o melhor que podia para no procurar nem encontrar complicaes. Essa foi uma das razes de ela ter decidido contra a idia de se encontrar 
com Cameron na sexta  noite. Apresentou o trabalho como desculpa e se comprometeu com ele de que apareceria em sua casa bem cedinho no sbado de manh, para irem 
velejar. Quando ele tentou convenc-la do contrrio, sua determinao se enfraqueceu e ela prometeu preparar uma lasanha.
      Aquela poro dela que sentia tanto prazer em observar os outros comerem o que ela mesma preparava foi herana da sua av. Anna acreditava que aquilo era algo 
para sentir orgulho.
      Embora no tivesse se comprometido a passar a noite, ambos sabiam que era algo que ficara subentendido.
      Anna separou a noite para cuidar de si mesma, dispensando o terninho de trabalho e colocando uma cala larga de moletom. Colocou para tocar no som algumas 
de suas msicas favoritas, misturando Billie Holiday com Verdi e Cream. Depois, serviu-se de um clice de um bom vinho tinto e ficou observando o sol se pr.
      J estava na hora, bem sabia, talvez mais do que na hora, at de pensar naquilo seriamente, analisar os fatos com objetividade. Conhecera Cameron Quinn h 
poucas semanas e, no entanto, se permitira ficar mais envolvida com ele do que com qualquer outro homem que cruzara a sua vida.
      Este nvel de envolvimento no estava em seus planos. E ela normalmente planejava as coisas to bem... Os passos que dava, tanto em nvel profissional quanto 
pessoal, eram cuidadosamente pesados. Anna sabia que aquela era uma atitude de proteo, algo que decidira seguir com frieza, quando ainda era bem nova. Se avaliasse 
com cuidado aonde cada passo a estava levando ou poderia levar, recuasse por impulso e confiasse no intelecto, seria muito mais difcil cometer um erro.
      Sentia que cometera muitos erros, alguns anos atrs. Se tivesse continuado pelo caminho que tomara s cegas, aps perder a prpria inocncia e a me, estaria 
condenada.
      Aprendera a no se repreender pelas coisas que fizera durante aquele perodo escuro em sua vida, e a no se permitir chafurdar em culpa pelas mgoas e problemas 
que causara s pessoas que a amavam. Culpa era uma emoo negativa. Anna preferia aes positivas, resultados, rumos.
      O caminho que escolhera profissionalmente e no qual fora bem-sucedida era um tributo aos seus avs,  sua me e quela criana aterrorizada curvada sobre si 
mesma no acostamento de uma estrada escura.
      Levou muito tempo, uma longa temporada de cura, at ela descobrir que, embora tivesse perdido a me, seus avs haviam perdido a nica filha. Uma filha que 
eles amavam. E, apesar de seu luto e sua dor, abriram as portas de sua casa para Anna. E depois, a despeito de suas atitudes destrutivas, seus coraes jamais hesitaram.
      Finalmente ela aprendera a aceitar a perda e os horrores pelos quais passara. Mais do que isso, aprendera a aceitar que tudo o que fizera nos dois anos que 
se seguiram quela noite foi resultado de uma alma muito ferida. Era afortunada por ter tido pessoas que a amavam o bastante para ajudar a cur-la.
      No momento em que encontrou o caminho certo novamente, prometeu a si mesma que nunca mais seria precipitada.
      O impulso ela guardava para usar em coisas tolas e sem importncia. Gastando horas longas e divertidas em seu carro, dirigindo para lugar algum. Havia se tornado 
to importante para ela permanecer basicamente prtica, motivada e racional que acabara por enterrar aquela tendncia  precipitao que havia em seu corao. Agora, 
pensou, havia sido esse mesmo corao que a levara a isso.
      Amar Cameron Quinn era ridiculamente precipitado. E ela sabia que isso teria um preo.
      Mas suas emoes eram responsabilidade apenas dela mesma, decidiu. Era uma coisa que ela aprendera do modo mais difcil. Conseguiria lidar com elas e iria 
sobreviver a tudo.
      S que era tudo muito estranho, admitiu, e se encostou na porta do ptio, que estava aberta, a fim de sentir no rosto um pouco da brisa suave da noite que 
se iniciava. Ela sempre acreditara que se algum dia experimentasse o amor ficaria bem alerta, atenta a todos os estgios do sentimento. Tinha esperana de curtir 
tudo, a lenta descida que imaginara, e o conhecimento mtuo dos sentimentos que se aprofundavam.
      S que no acontecera uma descida gradual, no fora uma queda suave no caso de Cam. Fora mais uma queda brusca e repentina. Em um instante ela sentia atrao, 
interesse e empolgao. Ento, antes que tivesse chance de piscar, j mergulhara de cabea no amor.
      Imaginava que isso iria deix-lo apavorado, e ele ia fugir dela como se precisasse salvar a prpria pele. A imagem a fez sorrir de leve. Nesse ponto, eles 
tambm combinavam, decidiu ela. Bem que ela tambm gostaria de escapar de tudo aquilo, correndo na direo oposta. Estava preparada para ter um caso, mas no um 
caso de amor.
      Portanto, analise as coisas com calma, ordenou a si mesma. O que  que havia nele que fazia tanta diferena? Sua beleza? Soltando um pequeno murmrio de prazer, 
fechou os olhos. No havia dvida de que fora aquilo que atrara a ateno dela logo de cara. Que mulher no pararia para olhar duas vezes e depois tornar a olhar 
para aquele homem moreno e perigoso? Os olhos irrequietos, da cor de ao, a boca firme que era to atraente sorrindo quanto soltando resmungos irritados. E seu corpo 
era a perfeita fantasia feminina de msculos fortes, mos viris e silhueta elegante.
       claro que ela se sentira atrada. E a rapidez com que sua mente funcionava a havia deixado intrigada. Assim como a sua arrogncia, admitiu, embora fosse 
uma caracterstica desabonadora. Foi o corao dele, porm, que fizera tudo mudar. Ela no esperava encontrar um corao to generoso, impulsivamente generoso. Ele 
tinha tanto a dar, e estava to pouco consciente disso...
      Cam se achava egosta, duro, at mesmo frio. E ela imaginava que ele podia realmente ser tudo isso. Mas, no ponto que contava mais, ele era acolhedor e generoso. 
Anna achava que ele nem sequer suspeitava do quanto estava oferecendo a Seth ou do quanto o relacionamento entre eles estava se modificando.
      Ela duvidava sinceramente de que ele compreendesse de todo o quanto amava o menino. E Anna soube ento que foi esse ponto cego em Cam, para o bem dele, que 
a conquistara.
      Anna supunha, quando a anlise chegava a esse ponto, que se apaixonar por ele tinha sido a coisa mais sensata e compreensvel.
      Permanecer apaixonada por ele  que seria desastroso. Ela precisava trabalhar naquilo.
      O telefone tocou, distraindo-a. Levando o seu vinho, ela voltou e atendeu o telefone sem fio que estava sobre a mesinha lateral.
      - Al...
      - Srta. Spinelli, est trabalhando? - Era ele.
      - Tentando resolver um assunto importante, sim - respondeu Anna, sem conseguir evitar o sorriso. Uma ria vinha do estreo no momento em que ela se sentou, 
colocando os ps sobre a mesinha de centro. - E voc?
      - Ethan e eu temos mais umas coisinhas para acertar ainda esta noite. Depois disso no vou nem pensar em trabalho at segunda-feira.
      Ele tambm estava usando um telefone sem fio, e fora para o lado de fora da casa para conseguir um pouco de privacidade. Era o dia de Seth lavar os pratos, 
e Cam ouviu mais um prato cair no cho e se espatifar.
      - Parece que vai fazer um tempo lindo amanh.
      - Vai? Que bom!
      - Voc bem que podia pegar o carro e vir para c ainda hoje... Era tentador, mas ela j cedera a impulsos demais no que se referia a Cam.
      - Vou chegar bem cedinho amanh de manh.
      - No creio que voc tenha um biquni vermelho.
      - No, no tenho mesmo. - Ela empurrou a bochecha com a lngua. - O meu  azul.
      - Pois no se esquea de traz-lo - lembrou-lhe ele depois de um segundo.
      - Se eu levar o biquni, e se resolver dormir a, eu fico com a chave do quarto.
      - Voc  to rigorosa! - disse, e observou uma pequena gara que planava sobre a gua at se acomodar em um ninho construdo sobre um dos pilares do pequeno 
cais. O pssaro voltava para casa e estava se ajeitando.
      - Rigorosa no... apenas cautelosa, Quinn. E muito esperta. Como est indo o empreendimento dos barcos?
      - Est indo... - murmurou ele. Gostava de ouvir a voz dela enquanto sentia a noite chegar suave como um beijo sobre a gua e as rvores. - Vou mostrar tudo 
a voc neste fim de semana.
      Queria mostrar a ela o desenho de Seth. Ele mesmo o emoldurara naquela tarde, e queria compartilhar aquele momento com... algum que fosse importante para 
ele. - Provavelmente j vamos comear a construir o primeiro barco na semana que vem.
      -  mesmo? To rpido assim?
      - Por que esperar mais? J est na hora de a gente apostar a grana e ver como  que os dados rolam. Venho me sentindo com sorte ultimamente. - De dentro da 
casa, atrs dele, ouviu o cozinho latir loucamente, acompanhado pelo ladrar em um tom mais grave de Simon. Ento ouviu a voz de Phillip, meio gritando e meio rindo, 
ecoar, junto com o som raramente ouvido da gargalhada de Seth.
      Isso o fez se virar para trs e olhar para a casa. A porta dos fundos se abriu e os dois ces saram porta afora como balas, atropelando-se ao descerem os 
degraus. E atrs deles, emoldurado pelo portal da cozinha e iluminado por trs, estava o menino, ainda rindo.
      O que quer que tenha pulado dentro de seu corao naquele instante pulou com fora. Por um momento, apenas por um momento louco, pensou ter ouvido o rangido 
da cadeira de balano da varanda e a risada baixa de seu pai.
      - Caramba, isso  esquisito - murmurou.
      - O que  esquisito? - perguntou Anna, ao sentir que a ligao ficou cheia de esttica e rudos, enquanto ele caminhava.
      - Tudo. - E se viu apertando o fone com mais fora, e um anseio de que ela estivesse ali, um desejo quase desesperado de estar com ela. - Voc devia estar 
aqui. Estou com saudades...
      - No estou conseguindo ouvir voc.
      Cam reparou que andara se afastando ainda mais da casa, em uma espcie de negao reflexa da sensao de se achar sendo sugado.
      Voltando para um lar... acomodando a vida...
      Balanando a cabea com fora, voltou alguns passos para trs, at que a ligao melhorou, e agradeceu a Deus pelos caprichos da tecnologia.
      - Eu perguntei o que voc est vestindo.
      Ela riu baixinho, olhou para sua cala de moletom e a camiseta folgada.
      - No estou vestindo muita coisa - ronronou ela, e os dois entraram na fase do flerte suave pelo telefone, o que trouxe aos dois algumas sensaes de alvio.
      
      
      Algum tempo depois, Cam pousou o telefone nos degraus da escada da varanda e foi caminhando devagar at o cais. A gua lambia carinhosamente o casco do barco. 
Os pssaros noturnos estavam se agitando, e o profundo pio em dois tons de uma coruja ao longe, no bosque, liderava o coro. A gua estava com um tom azul-escuro 
sob a luz frgil de uma lua minguante.
      Havia trabalho a fazer. Cam sabia que Ethan devia estar esperando por ele, mas precisava ficar ali sentado  beira d'gua por mais alguns instantes. Ficar 
sentado em silncio, enquanto as estrelas comeavam a piscar e a coruja piava sem parar, chamando, pacientemente, pelo seu companheiro.
      No pulou de susto ao ouvir o movimento atrs dele. Estava comeando a ficar acostumado com aquilo. No dava para contar as vezes em que ele se sentara naquele 
mesmo cais, debaixo daquele mesmo cu, com seu pai. Ocorreu-lhe que devia haver uma pequena diferena em sentar ali acompanhado pelo fantasma de seu pai, mas e da? 
Nada em sua vida era exatamente o mesmo de antes.
      - Eu sabia que voc estava aqui - disse-lhe Cam baixinho.
      - Gosto de ficar de olho nas coisas. - Ray vestia as velhas calas de pescador e uma camiseta de mangas curtas que Cam se lembrava de ter tido um dia, um tom 
forte de azul. Sentou-se ao seu lado e atirou uma linha de pescar na gua.Algum tempo depois, Cam pousou o telefone nos degraus da escada da varanda e foi caminhando 
devagar at o cais. A gua lambia carinhosamente o casco do barco. Os pssaros noturnos estavam se agitando, e o profundo pio em dois tons de uma coruja ao longe, 
no bosque, liderava o coro. A gua estava com um tom azul-escuro sob a luz frgil de uma lua minguante.
      Havia trabalho a fazer. Cam sabia que Ethan devia estar esperando por ele, mas precisava ficar ali sentado  beira d'gua por mais alguns instantes. Ficar 
sentado em silncio, enquanto as estrelas comeavam a piscar e a coruja piava sem parar, chamando, pacientemente, pelo seu companheiro.
      No pulou de susto ao ouvir o movimento atrs dele. Estava comeando a ficar acostumado com aquilo. No dava para contar as vezes em que ele se sentara naquele 
mesmo cais, debaixo daquele mesmo cu, com seu pai. Ocorreu-lhe que devia haver uma pequena diferena em sentar ali acompanhado pelo fantasma de seu pai, mas e da? 
Nada em sua vida era exatamente o mesmo de antes.
      - Eu sabia que voc estava aqui - disse-lhe Cam baixinho.
      - Gosto de ficar de olho nas coisas. - Ray vestia as velhas calas de pescador e uma camiseta de mangas curtas que Cam se lembrava de ter tido um dia, um tom 
forte de azul. Sentou-se ao seu lado e atirou uma linha de pescar na gua.
      - J faz algum tempo desde a ltima vez em que vim pescar aqui,  noite.
      Cameron decidiu que se Ray conseguisse fisgar um peixe agitado, isso era capaz de atir-lo de vez para o outro lado da sanidade.
      - Gosta de ficar de olho nas coisas a que distncia? - perguntou Cam, pensando em Anna e no que os dois faziam no escuro.
      - Eu sempre respeitei a privacidade dos meus meninos, Cam - -respondeu Ray, dando uma risada. - No se preocupe com isso. Ela  mesmo uma belezura - comentou, 
em tom casual. - Tenta esconder tudo quando est trabalhando, mas um homem com bom olho consegue ver atravs das roupas... E voc sempre teve um bom olho para as 
damas.
      - E quanto a voc? - Cam detestou perguntar-lhe aquilo. Aquela era uma noite plcida, perfeita... s que ele jamais sabia quanto aquelas visitas, alucinaes 
ou seja l o que fossem iriam durar. Tinha que perguntar: - Como era o seu olho para as damas, papai?
      - Um olho de lince! Acabei pousando em sua me, no foi? - Ray suspirou. - Jamais toquei em nenhuma outra mulher depois que fiz meu juramento de casamento 
diante de Stella, Cam. Eu olhava, apreciava, curtia, mas jamais tocava.
      - Voc tem que me contar tudo a respeito de Seth.
      - No posso. No  assim que as coisas devem acontecer, filho. Voc fez uma boa coisa com o menino, transformando-o em parte do negcio que vocs esto montando 
ao usar seus desenhos. Ele precisa sentir que tem participao nas coisas. Gostaria de ter tido mais tempo para passar com ele, com todos vocs. Mas tambm no era 
assim que as coisas estavam destinadas a acontecer.
      - Papai...
      - Sabe do que eu sinto mais falta, Cam? Das coisas simples, das coisas bobas... ver vocs trs brigando por causa de alguma coisa sem importncia. Houve algumas 
vezes em que sua me e eu achamos que voc ia nos levar  loucura, mas sinto falta disso tambm agora. Uma pescaria de manh bem cedinho, quando o sol est comeando 
a evaporar a nvoa que se espalhou sobre a superfcie da gua,  noite. Sinto falta de dar aulas... sinto falta daquele olhar que a gente v no rosto de um aluno 
quando uma coisa que voc disse, uma simples frase, faz alguma coisa se conectar em sua mente e abrir a sua cabea. Sinto falta de ver as lindas jovens desfilando 
pela rua em seus vestidinhos leves de vero e tambm de ficar deitado de barriga para cima s trs da manh ouvindo a chuva tamborilar no telhado.
      Nesse momento, virou o rosto para Cam e sorriu. Seus olhos eram to brilhantes e profundamente azuis quanto a camiseta um dia fora.
      - Vocs deviam apreciar essas pequenas coisas enquanto as tm, mas nunca fazem isso. No completamente. Esto sempre ocupados demais, tocando a vida pra frente. 
De vez em quando, deviam tentar parar para apreciar as pequenas coisas. Aos poucos, elas vo adquirir cada vez mais importncia, se agirem assim.
      - Nesse exato momento, estou com muitas coisas na cabea para pensar na chuva no telhado.
      - Eu sei. Est com um problemo nas mos, mas est conseguindo resolver as coisas. S precisa ainda descobrir o que quer, do que precisa e o que existe a 
dentro de voc. H mais em seu corao do que voc supe.
      - Quero respostas. Preciso de respostas.
      - Voc vai obt-las - disse Ray, de forma complacente -, no momento em que desacelerar.
      - Diga-me uma coisa: Ethan e Phillip sabem que voc est... aqui?
      - Sabero... - Ray tornou a sorrir - ... quando chegar o momento. Amanh vai fazer um belo dia para velejar. Curta essas pequenas coisas - terminou ele, e 
desapareceu.

Captulo dezessete
  
      Ele olhava para o relgio ao esperar por ela. Cam descobriu que era mais uma coisa que estava acontecendo em sua vida pela primeira vez. Ele jamais vigiara 
o relgio ao esperar por uma mulher, pelo menos no se lembrava disso. Mesmo quando era adolescente, eram elas que corriam atrs dele. Viviam telefonando, dando 
uma passadinha em sua casa, circulando perto do seu armrio na escola. Pelo jeito, ele se habituara com isso, e acabara ficando mal acostumado.
      Jamais sentira o tpico terror masculino de convidar uma garota para o primeiro encontro. Ele  que tinha sido convidado, aos quinze anos, pela voluptuosa 
Allyson Brentt, uma mulher mais velha, de dezesseis. Ela at mesmo fora apanh-lo na porta de casa, com o Chevrolet Impala 72 de seu pai. Ele no estava certo de 
como se sentia, rodando pela cidade em um carro guiado por uma garota. At que Allyson estacionara em um canto da rodovia do Caranguejo Azul e sugeriu que eles dois 
fossem para o banco de trs.
      Ele no se importou nem um pouco com isso.
      Perder a virgindade para a linda Allyson e suas mos geis aos quinze anos foi uma experincia suada e deliciosa. E a partir da Cam jamais olhara para trs.
      Gostava das mulheres, gostava de tudo que tinha relao com elas, at mesmo as partes irritantes. Eram essas que as faziam femininas, e ele chegara  concluso 
de que os homens  que acabavam ficando com a melhor parte da brincadeira. Tinham s de olhar, tocar e cheirar. E, a no ser que fossem completos idiotas, conseguiam 
se desvencilhar dos braos macios que os enlaavam e seguir em frente para outros braos sem grandes problemas.
      Ele jamais fora um idiota.
      Mas estava ali, vigiando o relgio e esperando ansioso por Anna. E se perguntando o que havia de to especial nela que o fazia ter menos vontade de se desvencilhar.
      Talvez fosse a falta de presso, avaliou ele, enquanto vagava do cais e ia at a frente pela lateral da casa tentando ouvir o barulho de seu carro. Mais uma 
vez. Talvez fosse a falta de qualquer tipo de expectativa. Ela era um ser alegremente sexual, e no parecia estar em busca de armadilhas romnticas. Viera de uma 
infncia dolorosa, e mesmo assim superara os traumas e se transformara em uma pessoa forte e ntegra.
      Ele admirava isso.
      O jeito com que conseguia acentuar ou disfarar sua esplndida aparncia o deixava fascinado. Essa dualidade o mantinha se perguntando quem seria ela na verdade. 
E, no entanto, ambas as partes combinavam de tal maneira, juntas, que um homem mal conseguia ver o ponto em que se encontravam.
      Quanto mais ele pensava nela, mais a desejava.
      - O que est fazendo?
      Cam quase deu um pulo de um metro de altura pelo susto que levou quando Seth apareceu por trs dele. Ele estava distrado, olhando para a estrada, louco para 
ver Anna aparecer. Agora, enfiava as mos nos bolsos, mortificado.
      - Nada. S dando uma volta.
      - Mas voc no estava andando - observou Seth.
      - Porque tinha parado bem aqui. Agora estou andando novamente... viu?
      
      Seth jogou os olhos para o alto, pelas costas de Cam, e apertou o passo para acompanh-lo.
      - O que eu tenho que fazer? - perguntou o menino.
      - A respeito de qu? - Cam fingiu interesse ao olhar para as tulipas vermelhas que estavam sob o sol, junto  lateral da casa.
      - De qualquer coisa. Ethan saiu com o barco de trabalho e Phillip est l em cima, trancado no escritrio, fazendo uns troos no computador.
      - E da? - Agachou-se para arrancar uma erva daninha - pelo menos ele achava que era uma erva daninha. Por onde, diabos, estava Anna? - Onde  que esto aqueles 
garotos com quem voc anda brincando?
      - Foram obrigados a sair para ir almoar com a av deles. - Seth fez um ar de desdm ao pensar naquilo. - Estou sem nada para fazer.  chato...
      - Bem, v... arrumar o seu quarto ou algo desse tipo.
      - Ah, qual ?
      - Ora, cacete, e o que eu sou, seu diretor social?... A tev est pifada?
      - No passa nada de bom nos sbados de manh, s desenhos merdas para crianas.
      - Voc  uma criana! - lembrou Cam, e com grande alvio ouviu o som de um carro que se aproximava. - V ensinar alguns truques para aquele seu cachorro palerma.
      - Ele no  palerma! - Sentindo-se insultado, Seth se virou e assobiou, chamando o co. - Olhe s!... - Bobalho surgiu na mesma hora, correndo com o que parecia 
ser uma lata de cerveja na boca.
      - T vendo... Mastigando alumnio. Isso  mesmo muito esperto! Olhe, eu no... - Mas Cam parou de falar na mesma hora, ao ver Seth estalar um dedo, apontar 
e Bobalho largar tudo e se sentar, ereto.
      - Ele faz isso por comando de voz tambm - explicou Seth para acentuar o feito enquanto fazia um carinho na cabea do co, como recompensa. - S que eu prefiro 
que ele responda a sinais de mo. - -Esticou a mo com a palma para cima e Bobalho o acompanhou, levantando a pata.
      - Isso  muito bom. - Orgulho e surpresa se misturaram em sua voz. - Quanto tempo voc levou para ensinar isso a ele?
      - S algumas horas, entre um momento vago e outro.
      Os trs viram Anna chegar e entrar pelo porto. Bobalho foi o primeiro a correr para cumpriment-la.
      - Ele no aprendeu muito bem a ordem de "parado!", ainda - confidenciou Seth. - Mas "tambm a gente ainda no trabalhou muito nisso...
      E o co parecia no responder muito bem ao comando "no pule!" tambm. No instante em que Anna colocou os ps para fora do carro, ele j estava aos saltos 
em cima dela, ganindo, com a lngua para fora, pronto para comear a lamb-la.
      Cam refletiu que o co demonstrava saber qual era a idia certa em uma situao como aquela. Teve vontade de pular em Anna tambm e comear a lamb-la toda, 
ali mesmo. Ela usava jeans desbotados, em um tom de azul bem plido e uma camiseta vermelho sangue enfiada por dentro das calas. Uma roupa simples que juntava o 
prtico e o sensual.
      E fez a boca de Cam se encher d'gua.
      - Ela fica diferente com o cabelo solto - comentou Seth.
      - Fica... - Tudo o que ele queria era colocar as mos nela, apenas isso.
      Ela estava agachada, acariciando o cozinho, que se jogara de costas para ter sua barriga cocada. Anna levantou a cabea, e mesmo com os culos escuros Cam 
sentiu seus olhos se arregalarem ao v-lo e perceber seus impulsos, para a seguir tomar uma atitude cautelosa, desviando o olhar para a criana que estava ao lado 
dele.
      Ignorando o sinal, ele a pegou e quase a levantou no ar, dando-lhe um amasso que a fez tropear no cozinho e perder o equilbrio, e a seguir lanou sua boca 
sobre a dela, para acabar com o protesto gaguejante que ela tentou emitir.
      Foi como ser engolida pelo sol, era tudo o que Anna conseguiu pensar. O calor foi imenso e ela j estava a ponto de incandescer antes mesmo de conseguir tornar 
a respirar. Uma carncia inquieta e voraz parecia ser bombeada dele e a atingia com uma velocidade alarmante. O batucar selvagem de um pica-pau em busca de seu caf 
da manh ecoou pelo ar parado e entrou em compasso com o bater frentico de seu corao. Tudo o que Anna conseguiu fazer foi tentar se segurar, at que ele j tivesse 
devorado o bastante do que queria para se sentir satisfeito.
      Quando ele a soltou, aqueles lbios geis se curvaram em um sorriso orgulhoso do qual ela ia reclamar assim que sua cabea se encaixasse novamente nos ombros.
      - Bom-dia, Anna.
      - Bom-dia. - E pigarreou, recuando um passo e obrigando-se a olhar para trs dele em direo ao local em que Seth esperava. O menino estava com um ar mais 
entediado do que chocado, e Anna tentou sorrir para ele. - Bom-dia, Seth.
      - ... oi...
      - O seu co est crescendo! - Como precisava de uma distrao, olhou para Bobalho e esticou a mo. Ele se sentou sobre as patas de trs e levantou uma das 
patas da frente, o que a deixou encantada. - Ora, voc  muito esperto! - Ela se agachou de novo, pegando sua pata para cumpriment-lo e acariciando suas orelhas. 
- O que mais voc sabe fazer?
      - Estamos treinando mais alguns truques. - Bobalho j acabara com todo o seu repertrio, mas Seth no queria confessar isso.
      - Vocs dois formam uma boa dupla. Trouxe algumas coisas para a gente comer. Esto no carro... - disse ela de forma casual. - Ingredientes para o jantar. Voc 
pode me dar uma mozinha?
      - Certo, t legal... - Lanou um olhar ressentido para Cam. - No tenho mais nada para fazer mesmo...
      - Mas ns vamos todos velejar, no vamos? - E falou isso com a voz alegre, divertindo-se ao ver Cam abrir a boca, sem poder protestar, enquanto Seth olhava 
para ela com os olhos brilhantes e interessados.
      - Eu vou tambm?
      - Claro! - Ela se virou, abriu a porta do carro e entregou-lhe uma sacola de compras. - Assim que a gente guardar tudo isso na cozinha. Espero que eu aprenda 
depressa. No entendo quase nada a respeito de barcos.
      - No  nem um pouco difcil. - Animado, Seth apoiou as sacolas sobre os quadris para dar mais equilbrio. - ... S que voc devia ter trazido um chapu. - 
Aconselhando isso, levou as sacolas para dentro de casa.
      - Eu estava planejando esse passeio s para ns dois - disse-lhe Cam. Ele fantasiara lev-la at uma curva calma do rio e fazer amor com ela no fundo do barco, 
ao balano das guas.
      - Estava? - Anna pegou uma maleta com coisas para passar a noite e a empurrou nas mos dele. - Tenho certeza de que vai ser divertido do mesmo jeito com ns 
trs no barco.
      Bateu a porta do carro, deu um tapinha na bochecha de Cam e foi caminhando com toda a calma do mundo at entrar na casa, atrs de Seth.
      
      
      No final, foram quatro dentro do barco. Seth insistiu em levar Bobalho, e com Anna apoiando-o o tempo todo, Cam perdeu a votao.
      Era difcil ficar chateado quando sua tripulao parecia to contente. Bobalho se sentou em um dos bancos, usando um surrado salva-vidas canino que pertencera 
a um dos numerosos ces que Ray e Stella tiveram ao longo dos anos, e latia alegremente para as ondas e para os pssaros.
      J mastigando um dos sanduches que pegara no isopor, Seth explicava a Anna, com detalhes, os mistrios do cordame.
      Ela parecia to bonita, pensou Cam, com um dos velhos e amarrotados bons dos Orioles sobre a cabea, assistindo  aula com toda a ateno, enquanto Seth identificava 
para ela cada uma das cordas do barco.
      Cam manobrou a embarcao atravs dos canais, passando devagar pelas bias sinalizadoras at chegar ao ponto que os habitantes do local denominavam o funil 
do rio, um brao de mar chamado Tangier, e, a partir da, at o centro da baa de Chesapeake.
      O mar estava um pouco encapelado, e Cam olhou para trs, para ver como  que Anna estava se sentindo. Ela estava ajoelhada na popa, debruada sobre o peitoril 
do barco, mas ele constatou com um sorriso que no era devido a enjo. Seu sorriso era imenso e ela apontava com empolgao para os topos das rvores e os brejos 
que circundavam a ilha Smith.
      Cam chamou por Seth e pediu para ele iar as velas.
      Aquele era um momento que Anna jamais iria esquecer. A vida na cidade no a preparara para os sons, o movimento, a viso das velas brancas sendo iadas e inflando 
sob o chicote do ar que se movia em torno para a seguir se arredondarem grvidas, com o vento.
      Por um instante o barco pareceu levantar vo, com o vento batendo em suas faces com mais intensidade e enchendo ainda mais a lona at parecer que ia arrebent-la. 
As guas se agitavam ainda mais no rastro do barco, e ela sentiu um gosto de sal no ar.
      Queria olhar para todos os lados ao mesmo tempo, para as ondas que se levantavam da gua azul-esverdeada, para o mar de velas brancas em torno, os pedaos 
de terra e pequenas ilhas. E o homem com o menino, trabalhando to integrados, de forma to competente, quase sem precisarem trocar palavras para se comunicar.
      Passaram ao lado de um lugar que Seth identificou como uma palhoa para caranguejos. Era pouco mais do que um amontoado de tbuas envelhecidas empilhadas e 
se destacando da superfcie da gua, amarradas a uma pequena doca instvel. As bias em cor laranja que flutuavam em volta marcavam os pontos onde ficavam as armaes 
para pegar caranguejos e enchiam a superfcie de pontos coloridos. Ela observou um barco de pesca balanando com a mar enquanto um pescador, parecendo uma pintura 
com seus jeans desbotados, um bon muito usado e botas brancas, levantava uma das armadilhas de arame.
      Fez uma ligeira pausa em seu trabalho, apenas o tempo suficiente para tocar a aba do bon em uma saudao rpida, antes de jogar dois caranguejos que se mexiam 
sem parar dentro do tanque sobre o deque.
      Era a vida no mar, pensou Anna, enquanto via o barco passar para a bia seguinte.
      - Aquele  o Pequeno Donnie - informou-lhe Seth. - Ethan diz que as pessoas continuam chamando por ele assim mesmo depois de adulto porque seu pai  o Grande 
Donnie. Esquisito...
      Anna riu. Pareceu-lhe que o Pequeno Donnie pesava mais de cem quilos.
      - Acho que  desse jeito que as coisas so quando a gente mora em uma cidade pequena. Deve ser maravilhoso viver e trabalhar no mar daquele jeito.
      -  legal... - Seth levantou um dos ombros. - Mas eu gosto mais de velejar, simplesmente.
      Ao levantar o rosto para sentir o vento, refletiu que o menino tinha razo. Simplesmente velejar, veloz e livre, sentindo o barco subir e descer sobre as ondas, 
com gaivotas circundando acima dele. Cam parecia to  vontade no leme, pensou ela, com suas pernas compridas plantadas com firmeza, ligeiramente abertas para compensar 
o balano do barco, as mos firmes e os cabelos escuros soltos ao vento... Quando ele virou a cabea e olhou para ela, era de admirar que seu corao tenha dado 
um pulo? E quando ele lhe estendeu a mo era de estranhar a determinao com que ela se levantou e foi com cautela por sobre o deque pouco familiar at conseguir 
chegar at ele?
      - Quer segurar o leme?
      - Acho melhor no - disse ela, desesperada, tentando ser prtica. - No vou saber o que estou fazendo.
      - Pode deixar que eu sei. - E apertou-a diante de seu corpo, colocando as mos sobre as dela. - Aquele  o Pocomoke. - Mostrou-lhe, apontando com a cabea 
para um canal estreito. - Se voc quiser que a gente diminua a velocidade, podemos seguir por ele e conferir algumas armaes de pegar caranguejo.
      O vento brincava em seu rosto. Anna observou uma gaivota dar um mergulho em direo  superfcie, agit-la e a seguir alar vo novamente, soltando o pio tpico 
que misturava um grito com uma gargalhada. Que se danem as coisas prticas, pensou, afirmando:
      - No, no quero diminuir a velocidade.
      - Isso, garota! - Ela ouviu a risada dele atrs de sua orelha.
      - Para onde estamos indo? O que vamos fazer?
      - Estamos indo em direo ao sul, ou sudoeste, ao sabor da brisa - respondeu-lhe ele. - Seguindo o vento.
      - Seguindo? Parece que estamos no meio dele! Eu no pensei que pudssemos alcanar tanta velocidade velejando.  maravilhoso!
      - timo. Agente aqui, s um instante.
      Para desespero seu, Cam deu um passo atrs e chamou Seth para ajud-lo a fazer alguns ajustes nas velas. Com as mos grudadas no leme e os ns dos dedos brancos, 
ela os ouviu rindo. Ouviu o barulho dos mastros e o silvo trmulo da lona das velas que mudavam de posio. O pior  que o barco pareceu adquirir ainda mais velocidade. 
Anna tentou relaxar. Afinal, no havia nada  frente deles, a no ser gua.
      Ela podia ver  direita... estibordo, corrigiu a si mesma, um pequeno barco a motor saindo de um dos muitos rios e canais. Longe demais, avaliou ela, para 
haver perigo de engarrafamento ou acidentes.
      Bem na hora em que ela se convencera de que podia enfrentar a nova tarefa sem problemas, o barco se inclinou de repente. Ela abafou um grito e quase puxou 
o leme bruscamente na direo contrria, mas as mos de Cam cobriram as dela novamente e mantiveram o leme firme.
      - Ns vamos virar!
      - Que nada!... O barco est bem assentado, com bom equilbrio. Mais velocidade!
      - Voc me deixou aqui sozinha no leme - reclamou ela, com o corao na garganta.
      - As velas precisavam de um ajuste. O garoto sabe como lidar com elas. Ethan lhe ensinou muitas coisas, e ele aprende rpido.  um tremendo marinheiro!
      - Mas voc me deixou sozinha no leme! - repetiu.
      - E voc se saiu muito bem! - E pousou um beijo rpido no alto de sua cabea. - Aquela  a ilha Tangier, logo ali adiante. Vamos rode-la e depois tomar o 
rumo norte. H alguns recantos bem sossegados, perto do rio Little Choptank. Vamos conseguir chegar a ele l pela hora do almoo.
      Parece que eles no estavam virando, afinal, pensou ela, com um suspiro de alvio. E j que ela no fizera nada de errado nem levara o barco a ficar encalhado 
relaxou o bastante para se recostar em Cam.
      Abriu ligeiramente as pernas, como Cam fez, e deixou o corpo se deixar levar pelo movimento do barco. Sua mais nova ambio era ter uma pequena corveta, uma 
chalupa, um esquife, no importava o nome que tivesse, assim que finalmente conseguisse aquela casa bem perto da gua.
      Poderia pedir aos irmos Quinn que construssem a embarcao para ela, decidiu, como se estivesse sonhando.
      - Se eu possusse um barco, faria isso que estamos fazendo em todas as oportunidades que pintassem.
      - Ento vamos ter que ensinar a voc as coisas bsicas. Logo, logo vamos ver voc em um trapzio.
      - Eu? Balanando pendurada no mastro, vestindo um colante cheio de lantejoulas?
      - No  bem assim... - Embora a imagem tivesse um bom apelo, pensou Cam. - Voc usa a retranca, uma pea longa presa a uma adria da vela, que parece um trapzio, 
e fica pendurada nela, sobre a gua.
      - Por diverso?
      - Bem, eu gosto - disse ele com uma risada. - Mas a finalidade  aumentar a velocidade e equilibrar a fora.
      - Ficar pendurada em cima da gua - avaliou ela, olhando para bombordo. - Pode ser que eu goste disso tambm.
      Ele a deixou manejar a bujarrona, sob o olhar cuidadoso de Seth. Anna gostou da sensao da corda em sua mo e de saber que estava no comando, mais ou menos, 
da vela branca que drapejava. Circundaram a pequena restinga arenosa da ilha Tangier, e Anna foi brindada com a viso do rpido trabalho de equipe e das manobras 
necessrias para cambar, girar e manter a velocidade do barco sem mudar de curso.
      Cam tirara a camisa e ficara s com um short jeans desfiado nas pontas, e sua pele brilhava com o sol, o suor e a gua. Mesmo com as mos doendo um pouco, 
pelo trabalho pouco familiar, Anna no reclamava. Em vez disso, sentiu um arrepio tolo quando Cam comentou que ela era uma grande auxiliar de tripulao.
      Almoaram no riacho Hudson, junto do rio Little Choptank, e bem perto de um embarcadouro abandonado, tendo apenas os pssaros e a languidez da gua como companhia. 
O sol estava forte, o cu muito azul, e a temperatura passava dos trinta graus, oferecendo uma prvia do vero, que s chegaria oficialmente dali a semanas.
      Acompanhados pela msica que vinha do rdio, todos deram um mergulho refrescante. Bobalho ficou nadando, balanando as patinhas sem parar, enquanto Seth mergulhou 
bem fundo na superfcie espelhada e nadou por baixo d'gua como um verdadeiro golfinho.
      - Ele nunca se divertiu tanto - murmurou Anna. A camada pesada que cobria o menino zangado com olhar desafiador com quem ela conversara pela primeira vez na 
escola desaparecera por completo. Ela se perguntou se ele tinha conscincia disso.
      - Ento eu no posso me mostrar to chateado por voc ter insistido em traz-lo.
      Anna sorriu. Ela prendera o cabelo no alto da cabea, em uma tentativa malsucedida de mant-lo seco. Com Seth e o cozinho espalhando gua para todo lado, 
nada ficava seco.
      - Acho que voc, no fundo, no se incomodou. Alm do mais, eu jamais teria aquela oportunidade de ficar no leme se ele no estivesse a bordo.
      - Isso  verdade, mas h certas vantagens em virar com o barco e se molhar todo. - Abriu as guas com as mos, nadando at onde ela estava e abraando-a.
      - Nada de empurrar minha cabea para dentro d'gua! - Anna segurou os ombros dele, em um gesto automtico de defesa.
      - E voc acha que eu seria capaz de fazer algo assim to previsvel? - Seus olhos estavam opacos de tanta alegria. - Especialmente quando o que vou fazer agora 
 muito mais divertido. - E virou a cabea ligeiramente para beij-la.
      Os lbios dele estavam muito molhados e escorregadios, e a pulsao de Anna disparou diante da sensao de sua boca deslizando sobre a dela, para afinal captur-la 
e prend-la com fora. A gua fria pareceu se aquecer enquanto as pernas dos dois se entrelaavam. Ela se sentiu sem peso, suspirando enquanto se deixava flutuar, 
levada pelo beijo.
      De repente, viu-se dentro d'gua.
      Voltou  superfcie espalhando gua para todos os lados, tentando tirar os cabelos molhados da frente dos olhos. A primeira coisa que ouviu foi a gargalhada 
de Seth, e a primeira coisa que viu foi o sorriso de Cam.
      - No consegui resistir - explicou ele, e acabou engolindo gua quando ela levantou o corpo e deu um mergulho de barriga, jogando uma catarata em seu rosto.
      - E voc  o prximo! - avisou a Seth, que estava to atnito diante da idia de um adulto brincando com ele de igual para igual que foi fcil para Anna peg-lo 
desprevenido e dar-lhe um caldo.
      Ele se remexeu todo, cuspiu um pouco d'gua, mas acabou engolindo o resto ao rir, reclamando:
      - Ei, eu no fiz nada!
      - Riu de mim! Alm do mais, pelo que estou vendo, vocs dois trabalham em equipe. Provavelmente a idia foi sua.
      - No mesmo! - Conseguiu se livrar e teve a brilhante idia de mergulhar e pux-la para baixo pelos tornozelos.
      Foi gua para todo lado, e quando eles estavam exaustos concordaram em considerar a luta empatada. Foi apenas nesse instante que notaram que Cam j no estava 
mais na gua e sim sentado confortavelmente no deque do barco, comendo um sanduche.
      - O que est fazendo a em cima? - berrou Anna enquanto jogava os cabelos ensopados para trs.
      - Observando o espetculo... - E ajudou o sanduche a descer com um grande gole de Pepsi - ... dois mans espalhando gua.
      - Mans? - Olhou meio de lado para Seth, e, por acordo tcito, os dois inimigos se transformaram em aliados. - S estou vendo um man aqui na rea, e voc, 
Seth?
      - S um - concordou com ela, comeando a nadar lentamente at o barco.
      Qualquer idiota podia ver o que os dois estavam tramando. Cam chegou a pensar em levantar as pernas da gua, mas ento decidiu entrar na pilha e os deixou 
puxarem-no de volta para a gua, espalhando o mximo de borrifos e respingos que conseguiu.
      Passaram-se horas antes de Seth reparar que Anna e Cam estavam passando as mos nele o tempo todo. E ele no ficara apavorado em nenhum momento.
      
      
      Depois de o barco estar de volta, devidamente ancorado, com as velas recolhidas e o deque limpo, Anna resolveu colocar mos a obra e foi trabalhar na cozinha. 
Sua misso era fornecer aos Quinn uma refeio que jamais conseguiriam esquecer. No mar, ela podia ser marinheira de primeira viagem, mas ali era cozinheira de mo-cheia.
      - O cheiro est glorioso! - elogiou Phillip ao passar, como quem no quer nada.
      - Pois o sabor est ainda melhor - garantiu ela, montando as camadas da lasanha com um toque de artista. -  uma velha receita de famlia.
      - So as melhores - concordou ele. - Eu tambm tenho uma receita secreta que era de meu pai para fazer waffles. Vou preparar um pouco para voc amanh de manh.
      - Eu adoraria. - Levantou a cabea, a fim de sorrir para ele, e notou o que lhe pareceu preocupao nos olhos de Phil. - Est tudo bem?
      - Claro. S uns probleminhas meio enrolados no trabalho. - Sua preocupao no tinha nada a ver com trabalho e sim com o ltimo relatrio do investigador particular 
que contratara. A me de Seth fora avistada em Norfolk, e isso era perto demais dali. - Voc est precisando de alguma ajuda na cozinha, Anna?
      - No, obrigada, est tudo sob controle. - E deu um toque final no prato que preparara, cobrindo-o com uma fina camada de mussarela antes de enfi-lo no forno. 
- Se quiser, pode abrir o vinho.
      De forma casual, Phillip pegou a garrafa que abrira e deixara decantando sobre o balco, e na mesma hora seu interesse foi estimulado.
      - Nebbiolo, o melhor vinho tinto italiano - informou ele.
      - Acho que sim, e posso garantir que a minha lasanha  preo para ele.
      Phillip sorriu ao servir dois clices. Os olhos dele tinham um tom dourado que, por algum motivo, lhe trouxeram  mente a imagem de arcanjos.
      - Anna, meu amor, por que no se livra do seu Cam e foge comigo?
      - Porque ela sabe perfeitamente que eu ia perseguir os dois at o fim do mundo para mat-los - afirmou Cam, entrando na cozinha. - Fica longe da minha mulher, 
mano, antes que eu seja obrigado a machucar voc. - Embora a frase tivesse sido dita de forma leve, Cam no estava inteiramente convencido de que era apenas uma 
piada. E no ficou muito satisfeito ao sentir uma leve fisgada de cime. Afinal, ele no era do tipo ciumento.
      - Esse a no sabe nem a diferena entre um Barolo e um Chianti
      - continuou Phillip, enquanto servia mais um clice. - Voc vai se dar muito melhor comigo.
      - Minha nossa - disse ela, com um razovel sotaque sulista. - Eu adoro ser disputada por dois homens fortes. E vem chegando mais um... - acrescentou quando 
viu Ethan entrar pela porta dos fundos.
      - Voc quer participar do duelo para ver quem fica comigo, Ethan?
      Ele piscou e coou a cabea. Mulheres o deixavam confuso, mas ele tinha quase certeza de que aquilo era algum tipo de piada.
      - Depende...  voc que est preparando essa coisa que eu estou cheirando?
      - Com minhas prprias mozinhas - assegurou-lhe Anna.
      - Ento vou l fora pegar minha arma para encarar esse duelo. Quando ela riu, ele lhe lanou um sorriso meio sem graa e saiu depressa da cozinha para limpar 
os peixes que pescara.
      - Puxa, voc viu, Cam? Ethan praticamente flertou com uma mulher. - Estupefato, Phillip levantou o clice, propondo um brinde.
      - Vamos ter que manter voc por perto, Anna.
      - Se algum colocar a mesa enquanto eu preparo uma salada rpida, talvez eu fique por aqui o bastante para deix-los experimentar o meu cannoli.
      - Est na vez de quem pr a mesa? - Cam quis saber, olhando para Phillip.
      - Eu no sou. Deve ser a sua vez.
      - No mesmo!... eu coloquei a mesa ontem. - Os dois se olharam por mais um momento, e ento, ao mesmo tempo, se viraram para a porta e berraram, chamando Seth 
em unssono.
      Anna simplesmente balanou a cabea. Irmos mais novos, ela imaginava, foram feitos para serem explorados em certas horas.
      Ela soube que o jantar foi um sucesso quando viu Seth traar o terceiro prato. J perdera aquela magreza de gato de beco, reparou. E a palidez. Talvez seus 
olhos ainda mostrassem desconfiana de vez em quando, espiando por trs das pestanas, como se na expectativa pelo golpe que desde muito novo aprendera a receber. 
Mas com mais freqncia, pensou Anna, era humor que havia em seus olhos. Era um menino brilhante, aprendendo a se divertir com as pessoas.
      Seu linguajar era rude, e ela no esperava grandes progressos naquela rea, j que ele morava em uma casa s de homens. Apesar disso, reparou que Cam lhe dava 
algumas botinadas por baixo da mesa de vez em quando, quando ele exagerava nos palavres.
      Eles estavam fazendo a coisa funcionar. A princpio, ela tinha muitas dvidas de que trs homens adultos, j com as vidas formadas e bem acomodados, pudessem 
arrumar um jeito de se ajustar, ou abrir espao para um menino. E especialmente abrir os coraes para um garoto que lhes havia sido imposto.
      Mas eles realmente estavam fazendo a coisa funcionar. Quando fosse preparar seu relatrio na semana seguinte a respeito do caso Quinn, iria declarar que Seth 
DeLauter estava em casa; exatamente no lugar ao qual pertencia.
      Levaria algum tempo para a guarda ser trocada de temporria para definitiva, mas ela ia pressionar um pouco. Nada aquecia o seu corao de forma to profunda 
quanto ver o jeito com que Seth olhou para Cam, depois de levar outro chute por baixo da mesa e sorrir exatamente como um menino normal de dez anos ao ser apanhado 
fazendo algo errado.
      Cam ia se transformar em um pai formidvel, pensou. Bravo na medida certa, com seu jeito meio rude, mas tambm divertido. Seria o tipo de homem que carrega 
o filho por a montado nos ombros e brinca de luta no quintal. Ela quase podia ver a cena: um lindo menininho de cabelos escuros e uma linda menina com as bochechas 
rosadas.
      - Voc est na profisso errada, Anna - comentou Phillip ao se recostar na cadeira, alisando a barriga e pensando em afrouxar o cinto em um ou dois furos.
      - Estou? - perguntou ela, piscando e quase ficando vermelha ao notar que estivera longe dali por alguns instantes, perdida em devaneios.
       - Voc devia dirigir um restaurante. Em qualquer tempo, se resolver mudar de ruma na sua vida, quero ser o primeiro na fila de investidores. - Ele se levantou 
com a inteno de ligar a sua mquina de fazer cappuccino, a fim de complementar a sobremesa. Aproveitando que estava em p, atendeu ao telefone que acabara de tocar, 
logo aps o primeiro toque.
      Ao ouvir uma voz rouca de mulher, com forte sotaque italiano, levantou as sobrancelhas, dizendo:
      - Sim, ele est aqui sim. - E/passou a lngua sobre os dentes da frente, esticando o fone na direo de Cam. - ...  para voc, meu chapa.
      Cam pegou o fone e, depois de ouvir uma certa frase sussurrada em seu ouvido, reconheceu quem falava.
      - Oi, lindona... - respondeu ele, tentando se lembrar do nome da amiga. - Come va?
      Porque amava de verdade o irmo, Phillip fez o possvel para distrair Anna.
      - Comprei essa cafeteira especial h pouco tempo, tem menos de seis meses - disse-lhe ele, puxando um pouco a cadeira dela para que Anna pudesse se levantar 
da mesa, e j planejando lev-la para longe do telefone. -  uma maravilha!
      -  mesmo? - Anna no estava nem um pouco interessada no funcionamento de uma cafeteira sofisticada. Principalmente depois de reparar a forma carinhosa com 
que Cam cumprimentara a pessoa que ligara e que, obviamente, era uma mulher.
      Nem passou pela cabea de Cam diminuir o volume da voz ou censurar o contedo da conversa. Acabara de se lembrar do nome e lig-lo  voz sussurrante: Sophia, 
a morena cheia de curvas e olhar do tipo "vamos para a cama", e estava batendo papo furado a respeito de amigos em comum. Ela gostava de corridas - qualquer tipo 
de corrida -, e era muito quente, uma verdadeira dinamite na cama.
      - No, no... vou dispensar o resto da temporada este ano - explicou a Sophia. - No sei quando vou poder voltar a Roma. Claro, voc vai ser a primeira a saber, 
bella - respondeu, quando ela lhe perguntou se ele iria avis-la de sua volta. - Claro, claro que me lembro... a pequena trattoria perto da Fontana di Trevi... sim, 
com certeza!
      Cam se encostou no balco. A voz dela lhe trouxe lembranas. No dela, particularmente, pois mal conseguia se lembrar do seu rosto.
      Eram lembranas de Roma em si, das ruas estreitas e movimentadas, dos aromas, dos sons, das emoes... Das corridas.
      - O qu? - A pergunta que ela lhe fez a respeito do seu Porsche o trouxe de volta para o presente. - Sim,  verdade, ele est guardado em uma garagem em Nice 
at... - Parou de falar, com os pensamentos se espalhando em vrias direes enquanto ela lhe perguntava se ele estava querendo vender o carro. Havia um amigo dela, 
Cario... Ele se lembrava de Cario, no lembrava? Cario queria saber se Cam tinha interesse em vender o carro, uma vez que j estava h tanto tempo nos Estados Unidos.
      - Eu no havia pensado nisso. - Vender o carro? Uma fisgada de pnico o atingiu como uma faca. Seria o mesmo que admitir que no ia mais voltar. No s para 
a Europa, mas para a sua antiga vida.
      Sophia falava depressa, de forma persuasiva, com o italiano e o ingls se misturando e deixando-o confuso. Ele tinha o nmero dela, si? Podia ligar a qualquer 
hora. Ela ia dizer a Cario que ele estava pensando sobre o caso. Todos l estavam com saudades de Cam. Roma ficava to noiosa sem ele. Ela ouvira dizer que ele recusara 
uma grande corrida na Austrlia e temia que havia uma mulher por trs de tudo, que o estava segurando... Ser que ele finalmente havia se apaixonado?
      - Sim... no... - Sua cabea girava. -  meio complicado pra explicar, docinho, mas eu vou manter contato. - Ento ela o fez rir mais uma vez ao sussurrar 
uma sugesto sobre o modo de eles passarem a primeira noite, depois que ele voltasse a Roma. - Pode deixar que eu no vou me esquecer do convite. Claro que no! 
Querida, como eu poderia esquecer? T legal. Ciao!
      Phillip, bastante atarefado enquanto batia o leite, tentava, com ar de desespero, envolver Anna em uma conversa sobre os diversos tipos de gros de caf. Ethan, 
com aguado instinto de sobrevivncia, j desertara da cozinha. E Seth continuava sentado  mesa, amassando um pedacinho de po de alho para dar a Bobalho, que 
se mantinha escondido embaixo da cadeira.
      Sem desconfiar de coisa alguma, Cam levantou a sobrancelha, com ar desconfiado, ao olhar para a mquina de fazer cappuccino.
      - Eu vou querer caf comum - avisou ele, e sorriu ao ver Anna se aproximar. - Vou cobrar o seu cannoli quando... - Sentiu o ar ser sugado de seus pulmes quando 
ela o golpeou com um soco na barriga. Antes que conseguisse respirar de volta, ela passou por ele e foi direto para fora de casa, batendo a porta.
      - Que foi? - Massageando o estmago, Cam arregalou os olhos para Phillip. - Puxa, o que foi que voc disse para ela?
      - Voc  um imbecil mesmo - murmurou Phillip, servindo a primeira xcara com muita habilidade.
      - Ela me pareceu muito pau da vida - comentou Seth, cheirando o ar. - Posso experimentar um pouco desse lixo que voc est preparando?
      - Claro! - Phillip preparou um cappuccino a latte, com bastante leite, enquanto Cam ia l para fora.
      Ele conseguiu avistar Anna no cais, onde ela parecia estar fumegando, com os braos cruzados com fora sobre o peito.
      - Por que diabos voc fez isso? - quis saber ele.
      - Ah, sei l, Cam... porque me deu vontade! - Ela girou o corpo para ficar de frente para ele. - Mulheres so criaturas muito peculiares. Ficam chateadas quando 
o homem que teoricamente est com elas comea a flertar ao telefone, bem na sua cara, com uma vadia italiana qualquer.
      Tudo comeou a ficar claro na cabea de Cam, porm, para tentar consertar as coisas, ele se encolheu todo, dizendo:
      - Ora, doura, pare com isso... - E parou de falar, sem saber se achava graa ou se se amedrontava quando a viu levantar novamente o punho, dizendo:
      - No me chame de doura, eu tenho nome! Voc acha que sou alguma idiota? Docinho, doura, lindona, gatinha... esses so os nomes que os homens usam quando 
no conseguem nem mesmo lembrar o nome da mulher que est debaixo deles na cama.
      - Ei, droga, espere um minuto!
      - No, droga, voc espere um minuto! Ser que faz idia de como  insultante ter que ficar ali parada, ouvindo voc marcar um encontro com a sua italiana lindona 
em Roma quando a minha lasanha mal acabou de chegar  sua barriga?
      Pior ainda, pensou ela, muito pior foi ele ter feito isso poucos segundos depois de ela ter construdo aqueles tolos castelos no ar, imaginando os dois j 
com crianas... Seus filhos... Ah, era de matar! Era de deixar qualquer uma enfurecida!
      - Eu no estava marcando encontro nenhum - defendeu-se ele, e logo em seguida parou de falar, fascinado ao ouvir um monte de palavres em italiano ser despejado 
da boca de Anna. - Ei, voc no aprendeu esses a com seus avs. - Ao ver que ela rangeu os dentes e bufou, Cam no conseguiu evitar o sorriso. - Voc est com cime!
      - No  uma questo de cime.  uma questo de falta de elegncia... sua! - E jogou a cabea para trs, tentando se acalmar. Estava conseguindo apenas se mostrar 
ainda mais sem graa com a sbita exploso de clera, compreendeu. Mas o pior  que ainda no colocara tudo para fora. - Voc  um homem livre, Cameron, e eu sou 
livre tambm. Sem fingimentos, sem promessas entre ns... tudo bem. Mas no vou tolerar voc fazendo sexo pelo telefone enquanto estou bem do lado no mesmo aposento.
      - No era sexo por telefone, era s uma conversa!
      - E a pequena trattoria perto da Fontana di Trevi? - perguntou ela, com a voz mais fria agora. - Como  que eu pude esquecer? Voc no seria o primeiro... 
fatalmente ia querer arrumar alguma zucchera italiana quando estivesse em Roma, Cam, esse  o seu lance. S no quero que torne a fazer isso na minha cara. - Ela 
respirou fundo para depois levantar a mo, impedindo-o de falar. - Sinto muito ter dado aquele soco em voc.
      - No, no sente no... - reagiu ele, colocando em dvida seu pedido de desculpas, de forma agitada, embora tentasse permanecer calmo.
      - Certo, voc tem razo, eu no sinto mesmo... voc mereceu!
      - O que aconteceu ao telefone no significou nada, Anna.
      Significou sim, pensou ela, sentindo-se cansada,  claro que significou. Para ela significou muito. E a culpa toda era dela mesma, seu pequeno desastre pessoal.
      - Foi uma falta de respeito, Cam.
      - Boa educao nunca foi meu ponto forte. Eu no estou interessado nela. Nem consigo me lembrar direito de como era a cara dela!
      - Voc acredita honestamente que uma declarao como essa vai ajud-lo de alguma forma? - perguntou Anna, deixando a cabea pender ligeiramente para o lado.
      Mas que diabos ela queria que ele falasse?, perguntou a si mesmo, com um ofegar de impacincia. As vezes a verdade era o melhor argumento.
      -  o seu rosto, Anna, que eu no consigo tirar da cabea.
      - Olha a... agora voc est tentando me distrair do assunto - disse, e suspirou.
      - Est funcionando?
      - Talvez. - Suas emoes, ela lembrou a si mesma, eram um problema s dela. - Vamos apenas deixar bem claro que mesmo os relacionamentos casuais como o nosso 
tm limites que no devem ser ultrapassados.
      Ele no estava bem certo se a palavra "casual" era a correta para descrever o que estava acontecendo entre eles. Naquele momento, porm, qualquer coisa que 
a deixasse feliz servia para ele.
      - Certo - concordou com ela. - A partir de agora voc vai ser a nica gata italiana com quem eu vou flertar. - Seu olhar afvel sem sombra de humor o levou 
a sorrir de leve. - A lasanha estava demais! Nenhuma das minhas outras gatas sabia cozinhar.
      Ela desviou o olhar para a gua, e depois de volta para ele, parecendo ter idias. Em seguida, olhou novamente para a gua, como se estivesse considerando 
alguma possibilidade. Cam tinha certeza de que estavam comeando a aparecer sinais de humor em seus olhos e avisou:
      - Pense bem... ns dois vamos acabar dentro d'gua... s que eu no me importo com isso, se voc tambm no se importar.
      - Acho que, pesando as coisas, prefiro permanecer seca. - E olhou em direo  casa, onde uma msica vinha atravs das janelas abertas, enchendo o ar. - Quem 
est tocando violino?
      - Deve ser Ethan. - Era uma melodia rpida e animada, uma das favoritas dos seus pais. Um piano entrou, acompanhando o violino, e Cam sorriu. - E esse deve 
ser Phillip.
      - E voc, toca o qu?
      - Um pouco de violo. 
      - Eu gostaria de ouvir. - Em um gesto de paz, estendeu-lhe a mo. Ele a pegou, puxando-a mais para perto dele e levando seus dedos aos lbios.
      -  voc que eu quero, Anna.  s em voc que eu penso.
      Por ora, aquilo bastava, pensou ela, e o deixou faz-la escorregar para dentro dos seus braos. Aquele momento era tudo o que importava.

Captulo Dezoito
  
      Anna no tinha certeza de como se sentiu ao ver Cam franzir a testa, concentrando-se, enquanto afinava um velho violo Gibson. Aquela era uma faceta dele que 
ela jamais imaginara.
      Ficou surpresa e satisfeita ao ver a forma suave e descontrada com a qual os trs homens interagiram e passaram a executar uma velha cano. Vozes fortes, 
avaliou, dedos geis e competentes. Trabalho de equipe, mais uma vez. E laos de famlia inquebrveis.
      Sem dvida houve muitas noitadas como aquela na vida dos irmos no passado. Dava para imaginar os trs, bem mais novos, fundindo a sua arte e o som de suas 
msicas, diante das duas pessoas especiais que sentavam naquela mesma sala junto com eles. Os pais que os ensinaram a tocar trouxeram uma finalidade para suas vidas 
e lhes proporcionaram a chance de ter uma famlia.
      Anna levou aquela imagem e a msica para o andar de cima quando finalmente foi para a cama. Para a cama de Cam.
      Lembrando a si mesma de que havia uma criana na casa, trancou a porta para o caso de Cam resolver se levantar de sua cama improvisada no sof da sala e subir 
nas pontas dos ps para ficar com ela. E decidiu que no ia abrir a porta se ele viesse bater l de leve. No importa o quanto ele lhe pareceu sexy ao dedilhar aquele 
velho violo, trazendo-o de volta  vida.
      Quase todas as msicas eram velhas baladas irlandesas e canes tpicas de bar que Anna no conhecia. Ela as achou um pouco tristes e melanclicas, mesmo quando 
as melodias que envolviam as letras eram animadas. Eles misturaram um pouco de rock e olharam com desdm para Seth quando o menino sugeriu que eles tocassem alguma 
coisa deste sculo.
      Foram momentos doces e harmoniosos, pensou Anna, enquanto se despia. Eles jamais veriam isso dessa forma, e ficariam horrorizados se algum encarasse aqueles 
instantes como aucarados. Mas doura, suavidade, foi isso, exatamente, o que ela sentira. Quatro homens... quatro irmos... no de sangue, mas de corao. Era fcil 
perceber o quanto eles compreendiam uns aos outros, e como haviam conseguido no apenas aceitar o menino que chegara em suas vidas, mas principalmente se integrar 
com ele.
      Quando Seth comentou que violino era um instrumento para meninas e maricas, Ethan simplesmente riu e passou na mesma hora para um ritmo quente e agitado, tentando 
captar o interesse e a imaginao de Seth. E o seu comentrio seco sobre "quero ver se um maricas consegue um som de arrasar como esse" foi recebido por Seth com 
um levantar de ombro e um sorriso cmplice.
      Quando Seth pegou no sono, eles o deixaram bem ali onde estava, esparramado sobre o tapete, com a cabea do cozinho recostada em seu traseiro. Mais um quadro 
harmonioso, avaliou Anna.
      Ela vestiu uma camisola de algodo larga e comprida e pegou sua escova de cabelos. Aquela casa era um lugar que fornecia s pessoas um tranqilo sentimento 
de harmonia. Quartos grandes e simples, moblia muito usada, canos barulhentos. Percebeu alguns toques femininos na decorao que no havia na casa antes. Um brilho 
mais forte no polimento dos mveis, um vaso cheio de flores primaveris. Detalhes introduzidos pela arrumadeira, imaginou Anna, e que provavelmente no foram sequer 
notados pelos ocupantes da casa.
      Se aquela casa fosse dela, no modificaria quase nada, decidiu, voltando a sonhar acordada enquanto passava a escova pelos cabelos. Talvez levasse apenas um 
pouco mais de cor para o lugar, um toque aqui e ali com a ajuda de almofades coloridos e flores mais chamativas. Com certeza iria cuidar melhor dos jardins e expandi-los. 
Andara lendo algumas coisas sobre plantas que floresciam o ano inteiro, quais as que se davam melhor no sol e quais as que preferiam a sombra. Havia um recanto simptico 
no quintal que as rvores haviam comeado a invadir. Anna achou que lrios-do-vale, alguns copos-de-leite e uns arbustos de murta-das-noivas ficariam muito bem ali 
para aproveitar o espao e atrair a ateno.
      No seria maravilhoso, refletiu, passar uma manh inteira de sbado mexendo com terra, enfileirando lindas mudas uma ao lado da outra, planejando a combinao 
certa de cores, texturas e plantas com as alturas mais harmoniosas?
      E depois observ-las e ajud-las a crescer, espalhar-se e florescer ano aps ano?
      Um leve movimento do lado de fora da janela chamou a sua ateno pelo espelho. O corao quase lhe veio na garganta quando viu uma sombra se movimentando por 
trs do vidro opaco. Quando ouviu a janela ranger e ser levantada, Anna se virou devagar e segurou a escova com fora na mo, como se fosse uma arma.
      Foi quando Cam pisou o peitoril.
      - Oi - disse ele. Andara espiando enquanto ela penteava os cabelos, e detestava interromper a cena. - Trouxe um presente para voc.
      E estendeu-lhe um pequeno buqu de violetas para as quais ela olhou desconfiada, perguntando:
      - Como foi que voc conseguiu subir at aqui?
      - Escalando... - E deu um passo em direo a ela, que deu um passo para trs.
      - Escalando o qu?
      - A lateral da casa, basicamente. Antigamente eu trepava pelo cano e me agarrava na calha do telhado, mas naquela poca tinha muito menos peso. - E chegou 
mais perto, fazendo-a ir mais para trs.
      - Muito esperto!... E se voc tivesse despencado l embaixo?
      Ele j escalara rochas ngremes em Montana, no Mxico e na Frana, mas sorriu triunfante diante da preocupao dela.
      - Voc ia sentir muito e ficaria preocupada comigo se eu tivesse cado?
      - Acho que no. - J que ele conseguira chegar at a um passo dela, Anna agarrou as flores meio amassadas. - Obrigada pelas violetas. Agora, boa-noite!
      Interessante, notou ele. A voz e a expresso dela pareciam formais, apesar do fato de ela estar diante dele usando apenas uma camisola comprida de algodo 
fino. Por algum motivo ele achou o tecido bem prtico e ridiculamente sexy. Pelo jeito, ia finalmente ter a chance de seduzi-la.
      - Eu no consegui pegar no sono. - Esticando o brao, desligou o interruptor do quarto, deixando aceso apenas o suave abajur da mesinha-de-cabeceira, que lanava 
uma luz embaada, dourada e ligeiramente quente.
      - Aposto que nem tentou - disse ela, tornando a ligar o interruptor da luminria do teto.
      - Tentei sim, parecia que j estava deitado h horas. - E levantou a mo, fazendo os dedos deslizarem pelo seu brao, do pulso at o cotovelo. Sua pele parecia 
mais morena, como se estivesse bronzeada, em contraste com o branco imaculado da camisola comprida. - No conseguia pensar em mais nada, a no ser em voc, a maravilhosa 
Anna... - disse baixinho - ... com esses olhos.
      Seus dedinhos dos ps pareceram se curvar para cima em resposta quela mo que a acariciava e se movimentava lentamente, agora acompanhando a curva de seu 
maxilar. Seu corao comeou a se agitar. No, era o estmago... No, era tudo...
      - Cam, h um menino dentro desta casa.
      - Sim, e ele est dormindo feito pedra. - Seus dedos tocaram-lhe a garganta, testando a rpida pulsao que sentiu ali. - ... Est at roncando no tapete da 
sala.
      - Voc devia t-lo carregado para a cama.
      - Por qu?
      - Porque... - Devia haver alguma boa razo, mas como  que ela podia pensar com clareza quando ele estava ali, olhando para ela com aqueles olhos cinzentos 
parecendo rocha viva focados com intensidade em seu rosto? - Voc planejou isso... - disse com a voz fraca.
      - No exatamente. Primeiro, pensei em convenc-la a dar um passeio pelo bosque assim que a casa ficasse em silncio. E a eu faria amor com voc l fora, ao 
ar livre... - e pegou a mo dela, virou a palma para cima e pressionou os lbios sobre ela - ... sob a luz das estrelas. S que vai chover...
      - Chover? - Olhando na direo da janela, Anna viu as cortinas se inflando de leve sob o efeito da brisa refrescante. Ao olhar de volta para ele, Cam j estava 
mais perto, com os braos em volta dela, as mos largas e geis acariciando-lhe as costas.
      - E, para falar a verdade, eu queria ter voc na cama. Na minha cama. - Cutucou-a com a cabea, aplicando-lhe beijos beliscados ao longo do maxilar, at chegar 
ao ponto atrs da orelha onde a pele era mais fina, frgil como gua. - Quero voc, Anna... dia e noite.
      - Amanh... - tentou ela.
      - Hoje... esta noite... amanh tambm... - E a palavra "sempre" chegou  ponta da lngua no instante em que sua boca se encontrou com a dela.
      Ela murmurou um som que parecia de agonia quando a lngua dele forou a passagem entre seus lbios entreabertos para tornar o beijo ainda mais profundo. E 
foi mais fundo e mais fundo, at que ela no teve outra escolha seno a de se deixar submergir na sensao. As pequenas violetas caram como se estivessem em cmera 
lenta quando seus dedos ficaram moles e sem energia.
      Ele s a beijara daquela forma uma vez antes, com uma ternura to indescritvel que pareceu deixar-lhe a alma nua. Se tivesse conseguido formar as palavras, 
ela teria balbuciado o amor que sentia por ele. Mas seus joelhos pareciam gelia, seu corao andava perdido e as palavras estavam alm de suas foras.
      Ele quase no a tocou, havia apenas aquelas mos amparando de leve as suas costas, enquanto sua boca sugava tudo o que havia dentro dela, desmontando-a.
      - Dessa vez no  uma corrida - ele se ouviu murmurar, sem saber ao certo se falava para ele ou para ela. Tudo o que sabia  que a queria de forma lenta, dolorosamente 
lenta, infinitamente lenta, a fim de conseguir saborear cada instante, cada movimento, cada gemido. Esticando o brao, ele apagou a luz, murmurando:
      - Quero este pedacinho de pele aqui... - e deixou a boca percorrer-lhe a pele frgil que ficava por baixo do maxilar - ... e este aqui... - foi descendo pela 
elegante coluna formada pela sua garganta, onde seu perfume era mais quente e inebriante.
      Quando deu um passo para trs e arrancou a prpria camisa por cima da cabea, ela parou de respirar. Tentou se firmar novamente sobre os ps e resolveu oferecer 
de volta um pouco do que ele estava lhe dando. Esticou o corpo, colocando-se nas pontas dos ps, at seus olhos e bocas ficarem na mesma altura.
      Mas ele beijou suas tmporas, suas sobrancelhas e seus olhos quando eles se fecharam, trmulos.
      - Adoro olhar para voc - disse-lhe ele, e pegando a ponta da camisola entre os dedos comeou a levant-la lentamente, centmetro por centmetro. - Gosto de 
olhar tudo em voc. Mesmo quando voc no est perto, tenho uma imagem completa de voc na minha cabea.
      Quando a camisola foi arrancada de todo e jogada no cho, ele manteve os olhos sobre os dela e a levantou com os braos, sentindo-a estremecer.
      E soube, no instante exato em que o ar lhe fugiu, que jamais desejara outra mulher tanto quanto desejava Anna. Dessa vez, quando a pousou com suavidade sobre 
a cama, foi ele que se deixou mergulhar perdidamente no beijo.
      No precisava ordenar s suas mos que fossem gentis e se arrastassem lentamente. No era necessrio segurar a urgncia de possu-la. Nada disso era preciso, 
pois ela suspirava suavemente sob o toque dele, se movia lnguida e fluida sob suas mos e se entregava por completo antes mesmo de ele pedir.
      Ele a explorava com uma espcie de assombro, parecendo maravilhado, como se estivessem a ponto de fazer amor pela primeira vez. A primeira mulher, a primeira 
carncia. De algum modo tudo era novo, como aquele anseio de prolongar o momento... sorver aos poucos em vez de engolir tudo de uma vez s... deslizar em lugar de 
correr.
      Quando as mos dela o tocaram em toda parte, sua pele estremeceu e pareceu aquecer-se.
      Nenhum dos dois ouviu os primeiros pingos grossos da chuva nem o gemido longnquo e pungente do vento.
      Anna elevou o corpo, como se estivesse cavalgando uma onda alta e agitada, e deixou-se cair novamente at se sentir flutuando enquanto sussurrava o nome dele.
      O prazer era lquido, suave como o orvalho da manh, imenso como o mar escuro. Ela podia sentir o xtase deslizar por dentro dela, movendo-se, alargando-se, 
elevando-a at a crista de uma onda ainda mais alta que se avolumava e onde apenas ele existia.
      Ela pressionou a boca de encontro  garganta dele, mordeu-lhe os ombros, e o teria absorvido todo para dentro da prpria pele se ao menos soubesse como fazer 
isso. Ningum jamais a levara to longe, de forma to plena. E quando lhe emoldurou o rosto entre as mos, trazendo sua boca de encontro  sua, deixando-se despejar 
toda no beijo, sentiu que ele a acompanhava e que era todo seu.
      Quando Cam arremeteu e a preencheu, foi s mais um elo que se moldou entre eles. Ela deixou-se abrir, tomou-o por completo e tambm se deu. Os dois comearam 
a se mover de forma lenta e ritmada, com as respiraes se entrelaando e os olhares fixos um no outro. Continuaram se movendo, deslizando um de encontro ao outro 
como seda, as pulsaes de ambos completamente sincronizadas para extrair todo o prazer possvel.
      A sensao se avolumou ainda mais, deixando-a zonza e ofuscada, fazendo seus lbios se abrirem em um sorriso ao mesmo tempo em que seus olhos pareciam flutuar 
em um mar de brilho.
      - Beije-me! - exigiu ela em um ltimo e trmulo arfar.
      Ento suas bocas se encontraram e se acoplaram, enquanto a ltima onda estourava sobre os dois, inundando-os.
      Ele no falou nada, nem sequer ousou, quando as mos dela pareceram desfalecer sobre a cama. Ele sentiu como se tivesse despencado de um precipcio e atingido 
o cho direto com o corao. Sentiu ento o corao inchado e completamente exposto. E era todo dela.
      Talvez aquilo fosse amor, e ele estava apavorado.
      Mesmo assim, no conseguia se mover dali, no podia deix-la ir embora. Tudo parecia estar no lugar certo. Ela por baixo dele e seu prprio corpo fraco, saciado, 
sua mente quase vazia. S seu corao parecia estar ainda pulsando, trmulo.
      Cam resolveu que se preocuparia com aquilo mais tarde.
      Sem dizer nada, absolutamente nada, saiu de cima dela. Puxou-a mais para junto dele, de forma possessiva, e deixou que a chuva o embalasse at adormecer.
      
      
      Anna acordou com o sol batendo em seus olhos e se assustou ao notar que ainda estava abraada a Cam. Seus braos continuavam a segur-la com firmeza, e os 
dela estavam confortavelmente enlaados a ele. Suas pernas estavam entrelaadas, e a perna direita dela parecia estar enganchada nos quadris dele, como uma ncora.
      Se sua mente estivesse mais alerta, teria lhe ocorrido que mesmo os dois afirmando que seu caso era informal e fortuito, ainda que de forma sofisticada, quando 
dormiam, seus corpos afirmavam o contrrio.
      Ela puxou o p um pouco para baixo, na tentativa de desfazer o n de suas pernas, mas ele simplesmente se mexeu e tornou a apert-la com mais fora.
      - Cam - sussurrou ela, sentindo-se tola e culpada. Ao ver que no recebeu resposta, desvencilhou-se dele e falou com mais firmeza: - Cameron, acorde!
      Ele grunhiu, aninhou-se mais perto dela e murmurou algo para seus cabelos.
      Ela suspirou e, decidindo que no havia escolha, levantou ligeiramente a perna que ficara presa entre as dele, at fazer com que seu joelho apertasse com firmeza 
o espao entre suas virilhas. Ento, deu-lhe uma rpida cutucada.
      - Ei... que foi?
      - Acorde!
      - Estou acordado! - E seus olhos recm-abertos exibiram um ar aborrecido. - Voc se incomodaria de afastar o joelho do meu... - quando sentiu a presso diminuir, 
soltou o ar que estava preso em seus pulmes. - Obrigado.
      - Voc tem que sair daqui - voltou a sussurrar. - No devia ter passado a noite toda comigo no quarto.
      - Por que no? - sussurrou ele de volta. - Estou na minha cama.
      - Voc sabe do que eu estou falando - sibilou ela. - Um dos seus irmos pode acordar a qualquer momento.
      Ele fez um esforo para levantar a cabea alguns centmetros, a fim de espiar o relgio na mesinha-de-cabeceira.
      - J passa das sete horas - informou. - Ethan j se levantou e a essa altura j deve ter esvaziado a primeira armao de pegar caranguejos. E por que a gente 
est cochichando?
      - Porque voc no devia estar aqui.
      - Mas eu moro aqui! - Um sorriso sonolento apareceu em seu rosto. - Puxa, voc  linda demais, com a cara assim toda amarrotada e o cabelo despenteado. Est 
me dando vontade de transar mais uma vez com voc...
      - Pare com isso! - Ela quase caiu na risada, at o momento em que sua mo deslizou por baixo dela e cobriu-lhe o seio. - Agora no.
      - Mas a gente est aqui, j estamos nus e tudo... alm do mais, voc est to macia e quentinha. - Enfiou o nariz em seu pescoo.
      - No comece!
      - Tarde demais... j sa na frente e estou no meio da primeira volta.
      E realmente, quando ele se mexeu um pouco, ela percebeu que o tiro de largada j havia sido disparado. Ele j estava dentro dela com um movimento gil, e tudo 
pareceu to suave, to natural e adorvel que tudo o que ela fez foi suspirar.
      - Sem gemidos! - disse ele, soltando uma risada no ouvido dela. - Assim voc vai acabar acordando meus irmos.
      Anna deu uma gargalhada e, pega entre a surpresa e a excitao, girou o corpo e se colocou por cima dele. Cam pareceu sonolento, perigoso e estimulante. Quase 
sem flego, ela prendeu a cabea dele entre as mos. Abaixando o rosto e se inclinando, sugou o lbio inferior dele com ardor.
      - Certo, espertinho, vamos ver quem vai gemer primeiro - disse e, arqueando o corpo para trs, comeou a cavalg-lo.
      Depois de tudo, os dois decidiram que houve um empate.
      Ela o obrigou a descer novamente pela janela, o que ele assegurou que era ridculo. Mas isso a fez se sentir um pouco menos depravada. A casa estava em silncio 
quando Anna desceu as escadas, com toda a calma, depois de tomar um banho refrescante. Estava se sentindo muito  vontade, usando calas caqui e uma camiseta. Seth 
continuava dormindo sobre o tapete. Bobalho se mantinha de guarda ao seu lado.
      Assim que avistou Anna, o cozinho se remexeu todo, ganindo baixinho enquanto a seguia at a cozinha. Ela imaginou que seu problema devia ser barriga vazia 
ou bexiga cheia. Assim que abriu a porta dos fundos, ele voou para fora de casa como uma bala, mostrando que seu aperto era do segundo tipo ao se aliviar demoradamente 
em um arbusto de azalia que comeava a florescer.
      Pssaros gorjeavam alegremente, emitindo sons fortes e melodiosos. O orvalho cobria a grama, que precisava ser aparada. Ainda havia uma leve nvoa acima da 
linha d'gua, mas estava se desfazendo rapidamente, como fumaa, e atravs dela dava para ver pequenos diamantes cintilando no reflexo do sol sobre a gua calma.
      O ar refrescara com a chuva que cara  noite, e as folhas pareciam mais verdes e mais cheias do que na vspera.
      Anna imaginou uma pequena fantasia que inclua caf fumegante e um passeio at o pequeno cais. No instante em que entrou na cozinha, pensando em preparar o 
caf, Cam tambm entrou pela outra porta, vindo do corredor.
      Ele no fizera a barba, ela notou, e achou que a barba por fazer combinava com a imagem que tinha de um domingo preguioso no campo. Ele levantou uma sobrancelha.
      Anna pegou duas canecas no armrio e ento levantou uma delas em saudao.
      - Bom-dia, Cameron.
      - Bom-dia, Anna. - Resolvendo levar a brincadeira em frente, aproximou-se dela e deu-lhe um casto beijo na testa. - Como passou a noite? Dormiu bem?
      - Muito bem, e voc?
      - Dormi como uma pedra. - Ele enroscou um cacho de seus cabelos entre os dedos. - No achou o ambiente silencioso demais para voc?
      - Silencioso?
      - Sabe como , garota da cidade encontra o silncio da vida no campo.
      - Ah... no, eu gostei. Na verdade, acho que jamais havia dormido to bem.
      Os dois estavam rindo um para o outro no instante em que Seth entrou, cambaleando de sono e esfregando os olhos.
      - Tem alguma coisa a pra gente comer?
      - Phillip andou se gabando dos waffles que sabe preparar. V at l acord-lo - respondeu Cam, mantendo os olhos grudados em Anna.
      - Waffles? Legal! - Saiu correndo, com os ps descalos fazendo barulho no piso de madeira.
      - Phillip no vai gostar nem um pouco disso - comentou Anna.
      - Foi ele que veio com essa histria de waffles.
      - Eu poderia prepar-los.
      - No, voc fez o jantar. A gente aqui faz rodzio de tarefas.  para evitar o caos e o derramamento de sangue. - Um terrvel baque surdo ecoou em cima de 
suas cabeas e fez Cam sorrir. - Por que no pegamos esse caf puro e damos uma volta por a para ficar de fora da linha de fogo?
      - Estava pensando a mesma coisa.
      Por impulso, ele pegou uma vara de pescar, dizendo:
      - Segure isso aqui! - E depois de uma pequena caada por dentro da geladeira conseguiu pegar um pedao do queijo brie de Phillip.
      - Eu pensei que a gente ia comer waffles.
      - E vamos. Isso aqui  para usar como isca. - Enfiou o pedao de queijo no bolso e pegou a caneca de caf.
      - Voc usa queijo brie como isca?!...
      - A gente pega o que est mais  mo. Quando um peixe est a fim de morder,  capaz de abocanhar qualquer coisa. - Entregou a ela a outra caneca de caf. - 
Vamos ver o que conseguimos agarrar.
      - Eu no sei pescar - avisou ela, enquanto se encaminhavam para fora da casa.
      -  moleza! Voc espeta uma minhoca, ou, nesse caso, um queijo metido a besta, e espera para ver o que acontece.
      - Ento por que  que vocs, homens, inventam de comprar todo aquele equipamento caro e complicado, alm dos chapus engraados?
      - So s enfeites. No vamos caar peixes-voadores em alto-mar. Vamos s atirar uma linha na gua. Se no conseguirmos arrumar pelo menos uns dois gatos at 
a hora em que Phillip acabar de preparar os waffles,  porque eu realmente devo estar fora de forma.
      - Gatos?! - Por um momento de assombro, Anna se sentiu completamente horrorizada. - Voc no vai usar gato como isca, vai?
      Ele piscou ao olhar para ela e notou que ela continuava com a cara totalmente sria, e ento quase se dobrou de tanto rir.
      - Claro que vou. A gente levanta o gato pela cauda, faz um buraco com a faca na barriga dele e joga na gua. - Cam s comeou a ficar com pena dela quando 
viu que ela empalidecera por completo. Mas isso no impediu que ele continuasse a rir. - Peixe-gato, querida. Ns vamos pescar alguns peixes-gato antes do caf, 
aqueles com bigodes compridos ao lado da boca. Em alguns lugares so conhecidos como bagres.
      - Muito engraado - fungou ela, e recomeou a caminhar. - Esses peixes so muito feios. J vi em fotos.
      - Voc est me dizendo que jamais provou peixe-gato, ou bagre?
      - E por que provaria? - Sentindo-se um pouco irritada e meio ofendida, Anna se sentou na beira do cais, com os ps balanando e a caneca presa pelas duas mos.
      -  s frit-los, deix-los bem sequinhos e voc vai ver que no existe nada melhor. Sirva com uns pezinhos de milho tambm fritos com cebola e especiarias, 
junte umas espigas de milho cozidas e voc vai ter um banquete.
      Ela olhou de lado para ele, que se sentou ao seu lado e comeou a prender o pedao de brie no anzol. Seu queixo estava cheio de pontas de barba, os cabelos 
em desalinho e os ps descalos.
      - Bagre frito com pezinhos de milho e espigas? - zombou ela.
      - Isso vindo do arrojado Cameron Quinn? O homem que arrasa nas corridas de barco, arrasa nas estradas e destri os coraes da Europa? Acho que a sua pequena 
guloseima que mora em Roma no conseguiria reconhec-lo.
      - No vamos comear com essa histria novamente, vamos? - perguntou ele, de cara feia, enquanto jogava a linha na gua.
      - No... - respondeu ela, rindo e se inclinando para beijar-lhe o rosto. - Eu quase no me reconheo tambm, mas acho que estou gostando.
      - Bem, voc certamente no se parece com uma funcionria pblica sbria e dedicada esta manh, Srta. Spinelli.
      -  que aos domingos eu tiro folga. E agora, se um peixe fisgar, o que eu fao?
      - Puxe a linha, enrolando-a.
      - Como?
      - Eu ensino quando acontecer. - E se inclinou para puxar a armao para caranguejos que estava amarrada em um dos pilares do cais, bem perto deles. Dois bichos 
com cara de zangados fizeram Cam abrir um sorriso. - Bem, pelo menos passar fome hoje  noite a gente no vai...
      As pinas dos caranguejos, que comearam a fazer barulho, fizeram Anna levantar os ps, disfaradamente, at deix-los um pouco acima da linha d'gua. Mas 
ela se sentia contente por estar sentada ali, bebendo caf enquanto assistia  manh se abrir como uma flor. Quando Mame Pata e seus seis patinhos cobertos por 
uma fina penugem passaram nadando diante deles, ela teve o que Cam considerava a tpica reao de uma garota da cidade.
      - Ah, olhe, olhe ali... Patinhos! Eles no so uma gracinha?
      - Eles fazem ninho bem ali na curva, junto do bosque, todo ano. - E ao ver que ela estava com olhar sonhador no resistiu e completou:
      - Vo nos proporcionar uma boa caada quando chegar o inverno.
      - Caada? - murmurou ela, ainda encantada e j imaginando como seria colocar uma daquelas coisas fofinhas na palma da mo. De repente, seus olhos se arregalaram, 
horrorizados. - Voc atira naqueles patinhos? 
      - Bem, no inverno eles j esto bem maiores, no so mais patinhos. - Cam jamais atirara em um pato nem em qualquer outro animal em toda a sua vida. - A gente 
fica sentado bem aqui e derruba uns dois antes do caf.
      - Voc devia ter vergonha disso!
      - Sua criao de menina da cidade est aparecendo...
      - Eu chamo de humanidade. Se eles fossem os meus patos, no deixaria ningum mat-los. - O risinho que ele deu a fez estreitar os olhos. - Voc estava s querendo 
me zoar, no ?
      - E funcionou. Voc fica linda quando se encrespa toda de indignao. - Beijou-lhe o rosto para acalm-la. - O corao de minha me tambm era mole demais 
para permitir a caa aos patos por aqui. Pescaria nunca a incomodou. Dizia que era uma covardia menor. Alm do mais, detestava armas.
      - Como ela era?
      - Era... estvel, muito equilibrada - decidiu ele, depois de pensar um pouco. - Era muito difcil a gente conseguir deix-la abalada. Quando isso acontecia, 
porm, tinha um temperamento bravo, mas era raro ela chegar a esse ponto. Adorava o trabalho que fazia, adorava os filhos... Tinha um monte de pontos fracos. Chorava 
 toa ao ver filmes ou ler livros, e no suportava nos ver limpando peixe. Quando surgia algum problema, no entanto, era firme como uma rocha.
      Ele tomara a mo de Anna entre as suas, sem perceber, entrelaando os dedos.
      - Assim que eu cheguei aqui estava muito mal, tinha sido espancado pra valer... Ela cuidou de mim. Eu vivia planejando escapar, assim que conseguisse ficar 
em p novamente. Ficava dizendo a mim mesmo que aqueles dois eram um casal completamente idiota e que, se eu quisesse, podia roub-los bem debaixo do nariz deles 
e depois fugir para onde bem entendesse. Planejava ir para o Mxico.
      - Mas acabou no fugindo... - disse Anna baixinho.
      - No... me apaixonei por ela. Foi no dia em que cheguei em casa, depois de velejar pela primeira vez com papai. Todo esse mundo acabara de se abrir para mim. 
Estava ainda meio apavorado com tudo, mas foi assim. Ele foi l para o escritrio, a fim de corrigir umas provas, eu acho. Eu continuava reclamando e xingando por 
ter sido obrigado a usar aquele colete salva-vidas que eu achava idiota e enchendo o saco de quem estivesse me ouvindo. Ela me tomou pela mo e me empurrou de cara 
na gua. Disse que, j que era assim, eu devia aprender logo a nadar... e ela me ensinou. Eu descobri que a amava a uns trs metros daqui de onde a gente est. A 
partir daquele momento, ningum mais ia conseguir me arrastar daqui.
      Comovida, Anna levantou as mos dos dois, que continuavam entrelaadas, e as passou no prprio rosto.
      - Gostaria de ter tido a chance de conhec-la... de ter conhecido os dois.
      Ele se mexeu, desconfortvel, notando de repente que acabara de contar a Anna uma histria que jamais compartilhara com ningum. E se lembrou do dia em que 
estivera sentado bem ali, na outra noite, conversando com o pai morto.
      - Anna, voc... ahn... acredita que as pessoas possam voltar?
      - Voltar de onde?
      - Voc sabe... fantasmas, espritos, aquelas histrias tipo Alm da Imaginao!
      - Bem, eu no desacredito - disse ela, depois de pensar um instante. - Depois que a minha me morreu, havia momentos em que eu sentia o seu perfume. Vinha 
assim, sem mais nem menos, espalhado pelo ar, e aquele cheiro era to... dela... talvez fosse real, talvez apenas a minha imaginao, mas isso me ajudou a ir em 
frente.  isso que importa no fim.
      - Sim, mas...
      - Ai!!! - Ela quase deixou a vara escapar-lhe das mos ao sentir um puxo. - Peguei alguma coisa! Puxe!
      - Foi, pegou mesmo! - Cam resolveu que a interrupo no papo tinha sido para melhor. Mais um ou dois minutos e ele poderia ter feito papel de completo idiota 
contando tudo a ela. Esticando a mo, tentou firmar a vara que se mexia sem parar na mo dela. - Solte um pouco e deixe-o se debater por algum tempo. Isso... no, 
no tora a linha, mantenha-a solta, mas segure firme.
      - Puxa, parece grande! - Seu corao estava martelando em seus ouvidos. - Grande mesmo! 
      - Eles sempre parecem grandes. Agora voc j o pegou de jeito, v puxando a linha bem devagar. - Ele se levantou para pegar um pu que ficava sempre pendurado 
na ponta do cais. - Traga-o para fora, agora, bem devagar, e depois puxe-o aqui pra cima.
      Anna inclinou o corpo para trs, e os olhos semicerrados se arregalaram quando viram o peixe surgir brilhando da gua, refletindo a luz do sol e se remexendo 
muito.
      - Ai, meu Deus!
      - No solte a vara, pelo amor de Deus! - Sacudindo-se todo de tanto rir, Cam agarrou-a pelos ombros antes que ela acabasse caindo na gua. Inclinando-se para 
a frente, pegou o bagre com o pu. - Muito bem!
      - E agora, o que eu fao? O que fao agora?
      Com habilidade, Cam soltou o peixe do anzol, e ento, para horror de Anna, entregou-lhe o pu. - Segure s um instantinho...
      - No me deixe sozinha com essa coisa! - Olhou meio de lado, e assim que viu os bigodes do peixe e seus olhos saltados fechou os dela. - Cam, volte aqui e 
pegue esse troo horrvel!
      Ele pegou um balde, encheu-o de gua e o colocou sobre o cais. Depois, pegou o pu e deixou o peixe escorregar para dentro do balde.
      - Garota da cidade!... - zombou ele.
      - Talvez - concordou ela, dando um suspiro de alvio enquanto olhava para dentro do balde. - Argh! Jogue isso de volta na gua...  medonho!
      - Voc  besta, nem pensar!... - brincou ele. - Tem uns dois quilos, brincando...
      Quando ela se recusou a tocar novamente na vara de pescar, ele usou todo o resto do brie de Phillip e se ajeitou, aceitando o fato de que ia ter que pescar 
o resto do jantar sozinho.
      A recepo entusiasmada que Anna recebeu de Seth pelo seu trabalho matinal mudou a sua atitude. Impressionar um menino daquela forma s por pegar um peixe 
inquestionavelmente horroroso e possivelmente gluto era um tipo novo de triunfo para ela. No momento em que estava dirigindo o carro, com Cam ao seu lado, indo 
para o pequeno estaleiro em que se transformara o galpo alugado, decidiu que um dos seus prximos projetos seria ler tudo sobre a arte de pescar.
      - Acho que, se tivesse uma isca mais apropriada, eu conseguiria pescar algo muito mais atraente do que um bagre.
      - Est a fim de desenterrar alguns rastejadores noturnos, tambm conhecidos como minhocas, no prximo fim de semana?
      - Esses a se parecem com o nome que tm? - perguntou Anna, colocando os culos escuros na ponta do nariz.
      - Pode apostar que sim.
      - Ento, acho que no - afirmou, colocando os culos de volta no lugar. -  mais fcil voc me ver saindo por a toda enfeitada com plumas e coisas desse tipo, 
que nem uma louca... - E tornou a olhar para ele. - E ento, afinal voc conhece a receita secreta de seu pai para preparar waffles?
      - No. Ele no confiava em mim para me passar a receita. Sacou bem depressa que eu era um desastre na cozinha.
      - Que tipo de suborno funciona melhor com Phillip, para ele me dar a receita?
      - Voc no conseguiria arrancar esse segredo dele nem trazendo uma gravata Hermes de presente. Ela s pode ser ensinada para outro Quinn.
      Isso  o que veremos, decidiu ela, tamborilando com os dedos no prprio joelho. E continuou batendo com os dedos na perna at chegarem ao estacionamento que 
ficava do lado do velho prdio de tijolos aparentes. Ela no sabia que reao ele esperava dela. Pelo que conseguia ver, houve poucas mudanas desde que estivera 
ali da ltima vez. O lixo fora recolhido e as janelas quebradas substitudas, mas a construo continuava parecendo velha e abandonada.
      - Vocs fizeram uma faxina. - Aquilo lhe pareceu uma reao segura e serviu para satisfaz-lo quando os dois saram do carro.
      - O cais, nos fundos, vai precisar de alguns reparos - comentou ele. - Phillip deve ser capaz de lidar com isso. - Pegou as chaves, to brilhantes quanto a 
nova fechadura da porta da frente. - Acho que a gente vai precisar de um letreiro ou algo assim - disse, meio para si mesmo, enquanto soltava as travas do cho, 
por dentro da porta dupla. Quando as abriu, de par em par, Anna sentiu de imediato o cheiro de serragem, bolor e caf velho. Mas o sorriso educado que fixara no 
rosto se alargou com a surpresa que sentiu assim que colocou os ps l dentro.
      Cam acendeu as luzes, e a claridade intensa a fez piscar. As lmpadas eram muito fortes acima deles, pendiam das traves e no tinham globos. O piso recm-restaurado 
estava perfeitamente limpo ou quase. Uma parede lisa fazia um ngulo no canto perto da entrada, formando outro espao em separado. As escadas haviam sido substitudas, 
e o corrimo, em madeira lisa, fora envernizado. O espao aberto do segundo andar continuava a parecer perigoso, mas ela comeou a enxergar o potencial de tudo aquilo.
      Viu roldanas e andaimes, imensas serras eltricas com dentes ameaadores, um mvel de metal cheio de gavetas que ela imaginou que escondiam ferramentas surpreendentes. 
Novos fechos de ao brilhavam nos fundos, instalados nas largas portas que levavam ao cais.
      - Isso  maravilhoso, Cam. Vocs trabalharam muito rpido!
      - Velocidade  o meu ramo de trabalho - disse ele, de forma descontrada, mostrando-se satisfeito ao ver que ela estava impressionada de verdade.
      - Devem ter ralado muito, que nem uns condenados, para conseguir aprontar tudo isso em to pouco tempo. - Embora ela quisesse olhar tudo, foi a imensa plataforma 
no centro do galpo que atraiu sua ateno. Desenhadas com cuidado em cima dela, em lpis preto e giz colorido, havia curvas, linhas e ngulos.
      - No estou entendendo esses traos. - Fascinada, circulou em volta das marcas e linhas. - Isso  uma espcie de barco?
      -  um barco. O barco. Isso  uma projeo. A gente desenha o casco, em tamanho natural. Tira o molde das sees e das formas transversas. Depois testa tudo, 
desenhando algumas curvas longitudinais, como o corte do casco, e marca algumas medidas para a altura da linha-d'gua.
      Ele estava de joelhos sobre a plataforma enquanto falava, usando as mos para explicar tudo a ela, que continuava sem entender nada.
      Mas no importava se ela entendia as informaes tcnicas que ele estava lhe passando ou no. Ela o compreendia. Talvez Cam ainda no tivesse reparado, mas 
j estava apaixonado por aquele lugar e pelo trabalho que realizaria ali.
      - Ainda vamos ter que acrescentar as linhas em arco e traar as diagonais. Pode ser que a gente queira usar esse projeto novamente, mais tarde, e essa  a 
nica maneira de reproduzi-lo com preciso. E  um projeto muito bom, espetacular. Depois eu vou acrescentar alguns detalhes estruturais, quando tudo estiver em 
tamanho natural. Quanto mais detalhes houver, melhor o barco.
      Ele levantou a cabea e a viu sorrindo para ele, balanando os culos escuros pela haste.
      - Desculpe... - disse ele. - Voc no dever estar entendendo nada do que eu estou falando.
      - Estou achando tudo maravilhoso. Srio!... Vocs esto construindo mais do que apenas barcos aqui.
      - Bem, a idia bsica  fazer barcos. - Ligeiramente envergonhado, ele se levantou e pulou da plataforma com agilidade. - Venha dar uma olhada nesses desenhos.
      Pegando-a pela mo, ele a levou at a parede oposta. J havia dois desenhos emoldurados, um do amado barco de pesca de Ethan e o outro do barco que estava 
comeando a ser construdo.
      - Foi Seth que fez os desenhos. - O orgulho em sua voz era visvel, embora ele nem reparasse. - Ele  o nico de ns quatro que consegue desenhar alguma coisa 
que preste. Phil at que engana um pouco, mas o garoto  o mximo! Ele est desenhando o outro barco de Ethan, o de trabalho pesado, e depois vai fazer uma corveta. 
Eu arrumei algumas fotos de uns barcos que ajudei a construir, para que ele possa copi-los. Vamos pendurar todos os trabalhos aqui e acrescentar desenhos de todos 
os outros barcos que formos construindo. A idia  formar uma espcie de galeria. Vai ser a nossa marca registrada.
      Havia lgrimas nos olhos de Anna quando ela se virou para envolv-lo em seus braos. A fora com que ela o agarrou deixou-o surpreso, mas ele retribuiu o abrao.
      - Mais do que barcos - murmurou ela, e depois se afastou um pouco para emoldurar o rosto dele entre suas mos. -  maravilhoso! - repetiu, e puxou a sua boca 
para baixo, de encontro  dela.
      O beijo fez o corpo de Cam formigar todo por dentro, inundando-o e roubando-lhe o equilbrio. Tudo em volta dela, em volta deles, comeou a girar em seu corao. 
Perguntas, mil perguntas zumbiam como abelhas em seus ouvidos. E a resposta, a resposta simples e definitiva para todas elas, estava ali, bem ao seu alcance.
      Ele pronunciou o nome dela, uma s vez, e depois a afastou dele, de forma desajeitada. Precisava olhar para ela, olhar de verdade, mas nada nele parecia estar 
em perfeito equilbrio.
      - Anna - repetiu ele. - Espere s um momento.
      Antes de conseguir tornar a se firmar diante da resposta que descobrira, antes de conseguir sentir o cho debaixo dele novamente, a porta da frente se escancarou, 
deixando o sol entrar.
      - Desculpe, pessoal - disse Mackensie, de forma gentil. -  que eu vi o carro de vocs aqui fora.

Captulo dezenove
  
      A primeira reao de Cam foi de pura irritao. Algo muito importante estava acontecendo ali, algo de monumental, e ele no queria interrupes de nenhum tipo.
      - Ainda no inauguramos, Mackensie. - E manteve as mos apertando os braos de Anna, dando as costas para o homem que considerava apenas um burocrata talhado 
para empestear as pessoas.
      - No imaginei que voc estivesse por aqui. - Com a voz ainda suave e amigvel, Mackensie foi entrando, devagar. Em seu campo de trabalho, raramente recebia 
boas-vindas. - A porta estava destrancada... Puxa, isso vai ser um tremendo local de trabalho!
      Ele adorava trabalhar com ferramentas, e a viso de todas aquelas serras e equipamentos poderosos o deixou empolgado. - Vocs conseguiram instalar um equipamento 
topo-de-linha aqui.
      - Se quiser encomendar um barco, volte amanh, e ento poderemos conversar.
      - No, eu sofro de enjo - confessou Mackensie, fazendo uma careta de desgosto. - No consigo nem ficar em p sobre um cais sem comear a me sentir nauseado.
      - Isso  mau. Caia fora!
      - Mas aprecio muito os diversos tipos de barco. S que no posso dizer que alguma vez pensei no que era preciso para constru-los. Aquela ali  uma serra eltrica 
do modelo mais recente. Deve ter custado uma nota!
      Dessa vez Cam acabou se encrespando, com a fria estampada em seus olhos lanando tantas ameaas quanto uma arma engatilhada.
      - A forma como eu gasto meu dinheiro s diz respeito a mim! Assustada com o rumo da conversa, Anna colocou a mo sobre o brao de Cam. No a surpreendeu o 
fato de ele estar sendo rude, pois j o vira ser rude antes, mas a rispidez e os dentes cerrados pelo que parecia ser apenas um estorvo casual a deixaram intrigada.
      Se aquela era a forma com a qual pretendia receber clientes em potencial, era melhor fechar as portas antes mesmo de abrir.
      Antes de conseguir pensar em um modo apropriado de acalm-lo com palavras, Cam se desvencilhou dela, dirigindo-se ao visitante.
      - Que diabos voc quer de mim agora?
      - S mais algumas perguntas. Como vai a senhora?... - cumprimentou Anna educadamente, acenando com a cabea. - Sou Larry Mackensie, investigador da Seguradora 
True Life.
      Completamente no escuro a respeito do assunto, Anna automaticamente aceitou a mo que lhe era estendida.
      - Muito prazer, Sr. Mackensie. Sou Anna Spinelli. Mackensie fez uma rpida pesquisa em seu arquivo mental. Levou apenas um instante para identific-la como 
a assistente social responsvel pelo acompanhamento do caso de Seth DeLauter. Como ela surgira em cena depois da morte do segurado, no houve necessidade de entrar 
em contato com ela, mas seu nome estava em seus relatrios. E a pequena e aconchegante cena que presenciara assim que entrara serviu para alert-lo de que ela estava 
bastante ligada a pelo menos um dos Quinn. No tinha certeza se aquela informao seria de alguma ajuda, mas ele ia fazer uma anotao sobre o assunto, s por garantia.
      - O prazer  meu, senhorita.
      - Se vocs tm algum assunto a tratar - comeou Anna -, posso esperar l fora.
      
      - No tenho nada a tratar com ele, nem agora nem depois. V preencher seu relatrio, Mackensie. J resolvemos tudo.
      - Quase tudo. Imaginei que o senhor gostaria de saber que j estou voltando para o escritrio central. Consegui muitas informaes conflitantes em minhas entrevistas, 
Sr. Quinn. Embora muito poucas delas possam ser chamadas de fatos concretos. - E tornou a olhar para a serra eltrica, desejando por outro breve instante ter condies 
de comprar uma daquele tipo. - Temos a carta que foi achada no carro do seu pai, e isso nos leva ao seu estado de esprito. Um acidente envolvendo apenas um veculo, 
com um motorista em bom estado de sade, sem traos de lcool ou drogas... - Levantou os ombros. - Alm disso, h o fato estranho de o segurado ter aumentado o valor 
da aplice e ter acrescentado um beneficirio, tudo isso pouco antes do acidente. A companhia questiona em profundidade esse tipo de coisa.
      - Pois v em frente e questione - a voz de Cam estava mais baixa agora, como o grunhido de advertncia de um co prestes a atacar -, mas no aqui! No na minha 
presena!
      - Estou apenas lhe comunicando o p em que as coisas esto. Dar incio a um novo negcio - continuou Mackensie, em tom casual - exige um bocado de capital. 
Vocs j estavam planejando estabelecer a fbrica h muito tempo?
      - Seu filho-da-me! - Cam deu um pulo com rapidez, voando em cima de Mackensie e levantando-o pela lapela, at ele ficar na ponta dos seus sapatos de amarrar 
bem engraxados.
      - Cam, pare com isso! - A ordem foi rpida, pungente, e Anna a intensificou dando um passo  frente e intervindo entre os homens, colocando as mos entre eles 
para separ-los. Foi como se colocar entre um lobo e um touro, mas ela se manteve firme. - Sr. Mackensie, acho que o senhor devia se retirar agora.
      - J estou indo. - Sua voz estava bem firme, apesar da linha de suor frio que surgira em sua nuca e que j estava comeando a lhe escorrer pelas costas abaixo. 
- So apenas detalhes, Sr. Quinn. A companhia me paga para recolher todos os detalhes.
      Mas ele no era pago, lembrou a si mesmo enquanto saa do galpo, inspirando fundo para pegar um pouco de ar fresco, para ser surrado ou transformado em gelia 
por um beneficirio furioso.
      - Canalha... canalha filho-da-me! - Cam queria desesperadamente bater em alguma coisa, qualquer coisa, mas s havia ar  sua volta. - Ser que ele acredita 
realmente que meu pai atirou o carro contra um poste de propsito, s para a gente poder construir barcos? Eu devia t-lo nocauteado... Maldio! Primeiro, todo 
mundo comea a fofocar, espalhando que ele fez isso porque no conseguia enfrentar o escndalo, agora ele se matou porque queria que a gente recebesse uma montanha 
de dinheiro. Podem ir para o inferno com o dinheiro deles! Eles no conheciam o meu pai! No conheciam nenhum de ns!
      Anna o deixou desabafar e no o seguiu quando ele circulou em volta do galpo em busca de algo para destruir. Seu corao se endureceu como um bloco de gelo 
dentro do peito. Estavam suspeitando de suicdio, pensou atordoada. Uma investigao estava sendo feita.
      E Cam sabia disso, devia estar sabendo desde o incio.
      - Esse homem  um investigador da companhia com a qual seu pai contratou uma aplice de seguro de vida pelo que eu entendi?
      - Esse homem  um tremendo babaca! - reagiu Cam, girando o corpo e soltando mais pragas. Ento percebeu o rosto de Anna, firme e frio demais. - No  nada! 
Foi s um aborrecimento. Vamos embora daqui.
      - Existe a suspeita de que o seu pai cometeu suicdio.
      - Ele no se matou!
      Anna levantou a mo. Precisava manter a mgoa enterrada agora e lidar com a parte prtica.
      - Ento voc j conversara com Mackensie antes... e eu imagino que voc, ou o seu advogado, sei l... j tem estado em contato com a companhia de seguros a 
respeito desse assunto h algum tempo.
      - Phillip  que est lidando com o problema.
      - Mas voc sabia e no me contou nada.
      - Isso no tem nada a ver com voc nem com o seu trabalho. No, sentiu ela, no era possvel manter toda a mgoa represada.
      - Entendo... - reagiu ela. Aquilo era um assunto pessoal, lembrou a si mesma. Ela ia lidar com isso mais tarde. - At que ponto isso pode afetar Seth?
      - Ele no sabe de nada a respeito disso. - A fria surgiu novamente dentro dele, parecendo apertar-lhe a garganta.
      - Se voc realmente acredita nisso, est se enganando. A fofoca corre solta e depressa em cidades pequenas e comunidades fechadas. E crianas pequenas ouvem 
muita coisa em casa.
      Agora era a assistente social falando, reconheceu Cam, com um ressentimento que aumentava pouco a pouco. S faltava ela estar usando a pasta bonita e vestindo 
uma daquelas roupas formais.
      - Tudo no passa de fofoca, Anna! No tem importncia alguma.
      - Pelo contrrio... fofoca pode ser muito nociva. Seria mais sbio de sua parte se mostrar aberto com Seth, ser honesto. Mesmo que isso seja difcil para voc.
      - No distora as coisas para jogar a culpa em mim, Anna. Trata-se apenas de uma droga de seguro. No  nada!
      - Trata-se do seu pai! - corrigiu ela. - Trata-se da reputao dele. No creio que haja outra coisa que signifique mais para voc. - Ela respirou fundo. - 
Porm, como voc assinalou to bem, no tem nada a ver comigo, em nvel pessoal. Acho que podemos encerrar esse assunto.
      - Espere um instante! - Ele deu um passo e se colocou na frente dela, bloqueando-lhe a passagem. Sentiu uma desesperadora impresso de que se ela se afastasse 
dele naquele momento iria para muito mais longe do que o local onde estava o carro.
      - Por qu? - voltou ela. - Voc pode me explicar? No se trata de um assunto de famlia? Eu no sou parte da famlia. Voc tem toda a razo. - Cam ficou surpreso 
ao ver a voz dela to calma, to pouco envolvida, to completamente razovel, mesmo vendo que ela estava fervilhando por dentro. - Imagino que voc achasse que o 
melhor a fazer era manter o assunto fora do conhecimento da assistente social de Seth. Seria muito mais esperto mostrar a ela apenas o lado positivo das coisas e 
esconder o negativo.
      - Meu pai no se matou. No preciso defend-lo para voc nem para qualquer outra pessoa.
      - No, no precisa. Nem eu jamais lhe pedi para fazer isso. - Desviando dele, ela seguiu em direo  porta. Ele a segurou antes que ela sasse, mas ela j 
esperava por isso e se virou com toda a calma. - No h motivo para discusses, Cam, quando ns estamos essencialmente de acordo.
      - Ento tambm no h motivo para voc ficar pau da vida - retrucou ele. - Estamos lidando com o problema da companhia de seguros... e estamos lidando com 
a fofoca sobre Seth ser filho verdadeiro do meu pai, fora do casamento, pelo amor de Deus!
      - O qu? - Atnita, Anna colocou as mos na cabea. - Existe tambm a especulao de que Seth  filho ilegtimo de seu pai?
      - Nada alm de mentiras de gente com mente curta - replicou Cam.
      - Meu Deus, e voc j considerou, ao menos por um momento, como Seth vai ser afetado se ouvir esse tipo de disse-me-disse? J considerou, ao menos por um momento, 
que isso era uma coisa que eu precisava saber desde o princpio, a fim de avaliar e ajudar Seth da forma mais apropriada?
      - J, j considerei tudo isso - e enfiou os polegares nos bolsos dianteiros da cala -, e mesmo assim preferi no lhe contar, porque estamos lidando com o 
problema. Estamos falando a respeito do meu pai agora.
      - E tambm estamos falando a respeito de um menor que est sob os cuidados de vocs.
      - Ele est sob os meus cuidados! - reagiu Cam no mesmo tom. - Estou fazendo o que acho que  o mais certo o tempo todo. No quis lhe contar a respeito do lance 
com a seguradora nem das fofocas porque  tudo mentira.
      - Talvez sejam, mas ao no abrir o jogo comigo voc mentiu tambm.
      - Eu no ia ficar por a alimentando a idia de que o garoto  um filho bastardo do meu pai.
      Ela concordou lentamente, afirmando:
      - Bem, mesmo que Seth seja filho bastardo de outro homem, isso no o diminui como pessoa.
      - Eu no quis dizer que diminua... - comeou ele, tentando explicar melhor, e tentou segur-la, mas ela j estava indo embora. - No faa isso! - explodiu 
ele, correndo e prendendo-a pelo brao. - No se afaste de mim... pelo amor de Deus, Anna, minha vida virou de cabea para baixo, por completo, nos ltimos dois 
meses, e eu nem sei quanto tempo ainda vai levar antes de eu conseguir coloc-la de volta nos trilhos. Tenho o garoto para me preocupar, tenho o negcio que estamos 
montando, tenho voc... Mackensie andou pintando por aqui, as pessoas esto alegremente especulando a respeito da moral do meu pai enquanto compram frutas no supermercado, 
a piranha da me de Seth est aqui perto, em Norfolk...
      - Ei, espere a!... - Ela no se afastou devagar dessa vez e sim puxou com toda a fora o brao que ele segurava. - A me de Seth entrou em contato com voc?
      - No... no. - Nossa, sua cabea estava pegando fogo. - Ns contratamos um detetive para seguir os passos dela. Phillip achou que seria melhor saber por onde 
ela anda e o que pretende.
      - Entendo... - Seu corao se partiu ao meio, um lado pela mulher, o outro pela profissional. Ambos os lados sangravam. - Ento ela est em Norfolk, mas voc 
nem se deu ao trabalho de me colocar a par disso, tambm.
      - No, eu no lhe contei... - Ele recuara, e agora se via encurralado, compreendeu. E sem sada. - S soubemos que ela estava l uns dois dias atrs.
      - O Servio Social do governo esperava ser notificado de uma informao relevante como essa.
      - Acho que sim... - Mantendo os olhos nos dela, ele concordou com a cabea, lentamente. - O erro foi meu.
      Agora havia uma barreira entre eles, avaliou Anna... Uma barreira muito grande e marcada de forma bem definida.
      - Obviamente voc no me tem em grande conta... nem a si mesmo, por falar nisso. Deixe-me explicar-lhe uma coisa: independentemente do que eu possa estar sentindo 
por voc em nvel pessoal neste momento, na minha opinio profissional voc e seus irmos so os guardies mais adequados para Seth.
      - Certo, ento...
      - Preciso levar a informao que voc acabou de me passar em considerao - continuou ela. - Isso vai ter que ser documentado.
      - Tudo o que vai conseguir com isso  estragar as coisas para o garoto. - Ele detestava o fato de sentir o estmago apertado s de pensar nisso. Detestava 
a idia de testemunhar aquela palidez de pavor no rosto de Seth mais uma vez. - Eu no vou deixar que fofocas doentias como essa esculhambem com a cabea dele.
      - Bem, nesse ponto ns concordamos. - Anna conseguira o seu intento, e de certa forma compreendeu o que Cam dissera. Estivera por perto o suficiente para ver 
o quanto Seth se tornara importante para ele. O problema  que estivera por perto durante tempo demais, pensou com ar sombrio.
      -  minha opinio profissional que Seth est sendo bem cuidado, tanto fsica quanto emocionalmente. - Sua voz era direta agora, profissional. - Ele est feliz 
e comeando a se sentir seguro. Alm do mais, devemos acrescentar o fato de que ele ama voc, e voc o ama, embora nenhum dos dois tenha ainda se conscientizado 
totalmente do fato. Continuo insistindo que sesses de aconselhamento psicolgico trariam benefcios a todos, e isso tambm ser reafirmado em meu relatrio, apenas 
como recomendao, quando a vara de famlia determinar a guarda permanente. Como disse a voc desde o princpio, a minha preocupao, a minha principal preocupao, 
 com o bem-estar da criana.
      Ela os estava apoiando de forma incondicional e Cam finalmente compreendeu isso. E teria apoiado no importa o que ele lhe tivesse ou no contado. A culpa 
o atingiu como uma bofetada.
      - Eu jamais deixei de ser totalmente honesta com voc - disse ela antes que ele conseguisse falar.
      - Droga, Anna...
      - Ainda no acabei - interrompeu ela com frieza. - No tenho dvidas de que voc vai se assegurar de todas as formas para que Seth fique bem acomodado, e que 
este novo negcio esteja funcionando de vento em popa antes de, como voc mesmo disse, voltar  sua vida normal. O que eu imagino que signifique retomar a sua carreira 
de piloto na Europa. Acredito que voc v ter que fazer alguns malabarismos com as suas necessidades, mas isso no  da minha conta. Pode ser que surja um momento 
em que a guarda seja contestada, se realmente a me de Seth surgir de volta  cena. Nessa ocasio, o caso ser reavaliado. Se ele continuar feliz e bem cuidado sob 
a sua guarda, vou fazer o que for possvel para mant-lo com voc. Estou do lado dele, o que, a meu ver, me coloca do seu lado tambm. Isso  tudo. 
      Uma camada de vergonha se colocou sobre a culpa, e uma leve sensao de alvio se espremeu entre elas.
      - Anna, eu reconheo o quanto voc j fez por ns, e sou grato por isso.
      - No estou me sentindo muito amigvel com relao a voc neste momento - balanou a cabea quando ele levantou a mo para alcan-la - e tambm no quero 
ser tocada.
      - Certo, ento eu no toco em voc. Vamos procurar algum lugar onde possamos nos sentar e resolver o resto dessa histria, colocar tudo para fora.
      - Eu achei que tnhamos acabado de fazer isso.
      - Agora voc est sendo teimosa.
      - No, agora estou sendo realista. Voc dormia comigo, mas no confiava em mim. O fato de eu ter sido honesta com voc e voc no ter sido honesto comigo  
meu problema. O fato de eu ter ido para a cama com um homem que me via como divertimento por um lado e como obstculo por outro foi o meu erro.
      - No foi assim que as coisas aconteceram! - Seu temperamento comeou a esquentar novamente, bombeado por puro pnico. - No  assim que as coisas so!...
      - Pois esse  o jeito que eu as vejo. Agora preciso de algum tempo para ver como me sinto a respeito de tudo isso. Agradeceria muito se voc me levasse de 
volta, a fim de eu pegar o meu carro.
      E se virou, andando na frente dele.
      
      
      Ele preferia fogo em vez de gelo, mas no conseguiu penetrar atravs do escudo glido no qual ela encapsulou sua raiva. Aquilo o assustava, e essa era uma 
sensao da qual no gostava. Ela foi perfeitamente educada, at mesmo amigvel com Seth e Phillip, ao retornar  casa para pegar suas coisas.
      Foi absolutamente educada com Cam, to educada que ele imaginou que sentiria aquela frieza durante dias.
      Disse a si mesmo que nada daquilo importava, e que ela ia acabar superando tudo. Estava apenas irritada por ele no ter aberto sua alma e compartilhado todos 
os nfimos detalhes de sua vida com ela. Era uma coisa bem tpica de mulher.
      Afinal, foram as mulheres que inventaram a frieza e a indiferena, s para que os homens se sentissem como vermes.
      Resolveu dar a ela uns dois ou trs dias. Ia deix-la fumegar um pouco, at cair na real. Ento lhe levaria flores.
      - Ela saiu daqui revoltada com voc - comentou Seth ao ver Cam parado na porta da frente, olhando para fora.
      - Como  que voc sabe?
      - Ela est revoltada - repetiu Seth, distrado com o seu caderno de desenhos, sentado com as pernas cruzadas na varanda da frente. - No deixou voc beij-la 
quando foi embora, e vocs passam o tempo todo trocando beijinhos...
      - Ah, no enche!
      - O que foi que voc fez?
      - No fiz nada. - Cam chutou a porta aberta e saiu para a varanda, cheio de raiva. - Isso  frescura de mulher! Ela est apenas sendo feminina.
      - Voc aprontou alguma. - Seth olhou para ele com olhos de coruja. - Ela no  uma panaca!
      - Mas vai superar tudo. - Cam se largou sobre a cadeira de balano. No ia se preocupar com aquilo. Jamais se preocupava com mulheres.
      
      
      Mas perdeu o apetite. Como  que ia conseguir comer peixe frito sem se lembrar do jeito que Anna e ele haviam sentado no cais naquela manh?
      Perdeu o sono. Como poderia dormir na prpria cama sem lembrar que eles haviam feito amor sobre aqueles mesmos lenis?
      No conseguiu se concentrar no trabalho. Como era possvel se ligar em detalhes e projees diagonais sem recordar o jeito com que ela sorrira para ele ao 
ver a plataforma elevada?
      No meio da tarde, desistiu e foi dirigindo at Princess Anne, mas sem levar flores. Agora era ele que estava revoltado. 
      Passou direto pela recepo, e seguiu em frente at a sala dela, nos fundos. Soltou fumaa quando viu que a sala estava vazia. Era bem tpico, foi s o que 
conseguiu pensar. Sua sorte tinha mudado para pior de vez.
      - Sr. Quinn? - Marilou estava parada no portal, com as mos cruzadas. - H algo que eu possa fazer pelo senhor?
      - Estou procurando por Anna, isto , pela Srta. Spinelli.
      - Desculpe, mas ela no est no momento.
      - Ento eu espero...
      - Vai ser uma longa espera... ela s vai voltar na semana que vem.
      - Semana que vem? - Seus olhos se estreitaram e fizeram Marilou pensar em ao com pontas finas e capazes de matar. - Como assim ela s volta na semana que 
vem?
      - A Srta. Spinelli est tirando a semana toda de folga. - E Marilou entendeu que a sensao que sentiu devia-se aos golpes que estava recebendo naquele instante, 
vindo de olhos furiosos. Ela sentira o mesmo quando Anna entregou seu relatrio naquela manh e pedira uma semana de descanso. - Estou bem familiarizada com o caso, 
se houver algo em que possa ajudar.
      - No,  um assunto pessoal. Para onde ela foi?
      - No posso lhe fornecer esta informao, Sr. Quinn, mas o senhor sinta-se  vontade para deixar um recado por escrito ou gravado na secretria. Claro que, 
se ela ligar para mim, poderei tambm avis-la de que o senhor gostaria de falar com ela.
      - Sim, eu agradeo.
      Ele saiu o mais rpido que pde. Ela provavelmente estava enfiada em seu apartamento, decidiu ao entrar no carro. Talvez muito aborrecida. Sendo assim, ele 
deixaria que ela gritasse com ele para desabafar tudo o que quisesse. Ento ele a convenceria a ir para a cama, a fim de deixar para trs aquele episdio ridculo.
      Ignorou o nervoso que sentiu embrulhando-lhe o estmago enquanto caminhava pelo corredor em direo ao seu apartamento. Bateu com fora e enfiou as mos nos 
bolsos. Bateu novamente, com mais fora, socando a porta com o punho.
      - Mas que droga, Anna, abra a porta. Isso  bobagem! Vi o seu carro parado a na porta... 
      A porta atrs dele se abriu com um rangido e uma das irms espiou. O som agitado de um programa de prmios na tev encheu o corredor.
      - Ela no est em casa, Sr. Amigo de Anna.
      - Mas o carro dela est a em frente.
      - Ela pegou um txi para sair.
      Cam quase soltou um palavro, mas moldou um sorriso charmoso e atravessou o corredor, perguntando:
      - E para onde ela foi?
      - Para a estao de trens... ou ser que foi o aeroporto?... - E abriu um sorriso imenso para ele. Puxa, aquele era mesmo um rapaz muito bonito. - Ela me avisou 
de que ia ficar fora por alguns dias. Prometeu telefonar para saber se eu e minha irm estvamos bem.  um doce de moa, no , se preocupando com a gente at mesmo 
quando sai de frias?
      - E ela saiu de frias para ir at...?
      - Ser que ela comentou? - A mulher mordeu o lbio inferior e seus olhos saram de foco enquanto tentava se lembrar. - No, acho que ela no mencionou o local 
no... Estava com uma pressa danada, mas bateu aqui mesmo assim, para dizer que no precisvamos ficar preocupadas com a sua ausncia.  uma jovem to atenciosa...
      - ... - A jovem doce e atenciosa o deixara completamente na mo e no escuro.
      Ela no devia ter pego aquele avio at Pittsburgh; a passagem faria um buraco enorme em seu oramento. S que ela queria ir at l. No minuto em que entrou 
na apertada casinha geminada, o peso que sentia nos ombros caiu pela metade.
      - Anna Louisa! - Theresa Spinelli era uma mulher mida e magra, com os cabelos grisalhos muito ondulados e um rosto que se desdobrava em um monte de rugas 
suaves, alm de um sorriso maior que o mar Mediterrneo. Anna precisou se abaixar para ser abraada e beijada. - Al... Al! Nossa bambina est aqui!...
      -  bom estar em casa, Nana.
      Alberto Spinelli veio correndo at a porta. Ele era uns trinta centmetros mais alto do que o metro e sessenta de sua mulher, tinha um peito largo e uns pneuzinhos 
na barriga que se pressionaram de encontro a Anna quando os dois se abraaram. Seu cabelo era ralo, todo branco, e os olhos escuros pareciam muito alegres por trs 
dos culos de lentes grossas.
      S faltou carreg-la no colo at a sala de estar, onde comearam a perguntar tudo a respeito dela.
      Falavam com rapidez, misturando italiano com ingls. Comida era o assunto mais importante no momento. Theresa sempre achava que a sua criana devia estar faminta. 
Depois de a terem empanturrado de minestrone, po fresco e um pedao enorme de tiramisu com cobertura de chocolate como sobremesa, Theresa pareceu quase convencida 
de que sua pequenina no ia perecer de m nutrio.
      - Agora... - Al se recostou, acendendo um de seus grossos charutos - ... voc vai nos contar por que est aqui?
      - E eu preciso de motivo para vir at em casa? - Lutando para parecer totalmente relaxada, Anna se esticou em uma das confortveis poltronas antigas, de encosto 
alto. Elas haviam sido estofadas inmeras vezes no decorrer dos anos. No momento, exibiam uma alegre padronagem listrada, mas Anna sentiu que o assento da poltrona 
ainda cedia confortavelmente, como se ela estivesse se sentando sobre claras em neve.
      - Voc telefonou h trs dias e no comentou que estava vindo para casa.
      - Foi um impulso. Estava atolada de trabalho at as orelhas, me senti cansada e resolvi tirar uma folga. Fiquei com vontade de voltar para casa e comer um 
pouco da comida da Nana por alguns dias.
      Era verdade, embora no fosse toda a verdade. No achou que seria muito sensato contar aos seus adorados avs que ela se envolvera com um homem, tivera um 
caso, mantivera os olhos bem abertos, mas acabara com o corao partido.
      - Voc trabalha demais! - disse Theresa. - Al, eu no vivo comentando que essa menina trabalha demais?
      - Ela gosta de trabalhar demais. Gosta de usar a cabea. E  uma cabea muito boa. Quanto a mim, eu tenho uma cabea boa tambm, e aposto que ela no veio 
at aqui s para comer o seu manicotti.
      - Vamos ter manicotti para o jantar? - perguntou Anna, sorrindo, apesar de saber que isso no ia distra-los por muito tempo. Eles j a tinham visto passar 
pelo pior, permaneceram firmes ao lado dela mesmo quando ela fez de tudo para mago-los, e a si mesma. Alm do mais, conheciam-na muito bem.
      - Comecei a preparar o molho assim que voc ligou para dizer que estava vindo. Al, no perturbe a menina!
      - No estou perturbando... estou s perguntando.
      - Se tivesse um crebro to bom nessa cabea grande, j saberia que  um rapaz que a fez vir correndo para casa - explicou Theresa, levantando os olhos. - 
Ele tem descendncia italiana? - quis saber ela, fixando em Anna aqueles imensos olhos brilhantes.
      E Anna teve de rir. Nossa, como era bom estar em casa!
      - No fao a menor idia, Nana, s sei  que ele adora o meu molho especial.
      - Ento tem bom gosto. Por que no o traz aqui para a gente conhec-lo e dar uma boa olhada nele?
      - Porque estamos passando por alguns problemas, e preciso resolv-los antes.
      - Resolv-los? - Theresa abanou a mo. - Como  que vocs vo poder resolver os problemas se voc est aqui e ele no est?... Ele  bonito?
      - Lindo.
      - E ele trabalha? - quis saber Al.
      - Est abrindo o prprio negcio, com os irmos.
      - Bom... isso quer dizer que ele tem noo de famlia. - E Theresa balanou a cabea em sinal de aprovao. - Traga-o com voc da prxima vez para ns o avaliarmos 
com os prprios olhos.
      - Certo - concordou Anna, porque era mais fcil concordar do que explicar tudo. - Agora vou desfazer as malas.
      - Ele a magoou - murmurou Theresa quando Anna saiu da sala.
      - Anna tem um corao forte. - Al esticou o brao e deu uma palmadinha sobre a mo de Theresa.
      
      * * *
      
      Ela no teve pressa. Pendurou algumas das roupas no closet, dobrou outras e as colocou nas gavetas da velha cmoda que usara desde criana. O quarto estava 
exatamente como era. O papel de parede desbotara um pouco. Olhando para ele, lembrou-se de que fora o prprio av que o instalara, a fim de alegrar o quarto, assim 
que ela foi morar com eles.
      E ela detestou as lindas rosas na parede, porque pareciam to frescas e vivas, enquanto tudo dentro dela estava morto.
      As rosas, porm, continuavam ali, um pouco mais velhas, mas ainda ali. Da mesma forma que seus avs. Sentou-se na cama, ouvindo o som familiar do colcho de 
molas.
      O familiar, o reconfortante, o seguro.
      Era isso, admitiu, que andava  procura. Um lar, crianas, rotina, com todas as surpresas que uma famlia sempre fazia surgir. Para alguns, supunha, aquilo 
soaria banal demais. Houve um tempo em que ela dissera a si mesma exatamente isso.
      Mas agora sabia das coisas. Lar, casamento, famlia. No havia nada de banal nisso. Os trs elementos formavam uma unidade sem igual e muito preciosa.
      Ela queria, precisava daquilo para si mesma.
      Talvez ela tivesse feito joguinhos, afinal. Pode ser que no tivesse sido completamente honesta. Nem com Cam nem consigo mesma. Ela no tentara seqestr-lo 
para dentro dos seus sonhos, mas, por baixo da superfcie, ser que no comeara a alimentar esperanas de que ele pudesse compartilh-los com ela? Mantivera uma 
fachada de casualidade, sexo sem vnculos, mas seu corao andava precipitado demais, e ela ansiara por mais.
      Talvez merecesse estar sofrendo agora.
      Qual ? No foi nada disso!, pensou ralhando consigo mesma e levantando-se com determinao. Ela conseguiu fazer com que aquilo fosse o bastante e aceitara 
as limitaes de seu relacionamento. Mesmo assim, ele no confiara nela. Isso ela no ia tolerar.
      De jeito nenhum ia assumir a culpa por tudo, decidiu, e caminhando com passos largos at o espelho estreito sobre a cmoda comeou a retocar a maquiagem.
      Ela conseguiria o que sonhava, um dia... um homem forte que a amasse, a respeitasse e confiasse nela. Arrumaria um homem que a visse como parceira e no como 
inimiga. Teria a sua casa junto da gua, crianas s dela e um co bem bobalho, se quisesse. Teria tudo o que sonhava.
      Simplesmente no seria com Cameron Quinn.
      Quanto mais no fosse, deveria at agradecer a ele por lhe abrir os olhos, no apenas com relao s falhas do relacionamento deles, mas tambm no que dizia 
respeito s suas prprias carncias e desejos.
      Era prefervel passar por aquele sufoco.


  Captulo Vinte
  
      Uma semana podia ser interminvel, conforme Cam descobriu. Principalmente quando a gente tinha um monte de coisas entaladas que no conseguia colocar para 
fora.
      Ajudou um pouco o fato de ele ter conseguido arrumar algumas brigas, tanto com Phillip quanto com Ethan. Mas no era o mesmo que ter um confronto com Anna.
      Ajudou tambm o fato de o incio dos trabalhos para a montagem do casco do barco tomar tanto do seu tempo e da sua concentrao. Ele no podia se dar ao luxo 
de pensar nela quando estava encaixando tbuas.
      Mesmo assim, pensava nela.
      Passou por alguns maus bocados imaginando-a sassaricando de um lado para outro em alguma praia do Caribe, com aquele biquni minsculo, e encontrando um sujeito 
qualquer muito musculoso e todo bronzeado que passava o tempo todo esfregando protetor solar em suas costas e trazendo-lhe drinques exticos.
      Essa imagem no o fez se sentir nem um pouco melhor.
      Ao chegar em casa depois de um sbado inteiro no galpo que ele gostava de imaginar como seu pequeno estaleiro, sentiu-se pronto para uma cerveja. Talvez duas. 
Ele e Ethan foram direto para o freezer, e j haviam aberto as garrafas quando Phillip chegou.
      - Seth no est com vocs? - perguntou ele.
      - No, foi passar a tarde na casa de Danny. - Cam bebeu direto da garrafa, tentando lavar o p de serragem que colara em sua garganta. - Sandy vai traz-lo 
para casa depois.
      - timo. - Phillip serviu-se de uma cerveja. - Sentem-se.
      - O que houve?
      - Recebi uma carta da companhia de seguros hoje de manh. - E puxou uma cadeira. - Para encurtar a histria, eles resolveram adiar o pagamento da aplice. 
Vieram com um monte de termos legais, citaram clusulas, mas no fundo a mensagem era de que continuam em dvida a respeito da causa da morte e vo continuar com 
as investigaes.
      - Ah, fodam-se eles! Essa cambada de fominhas... eles no esto  a fim de desembolsar a grana. - Chateado, Cam chutou uma cadeira e desejou de todo o corao 
que tivesse sido Mackensie.
      - Conversei com o nosso advogado - continuou Phil, fazendo uma careta. - Acho que ele vai reconsiderar a nossa amizade se eu continuar a ligar para ele nos 
fins de semana. Ele me disse que temos algumas opes. Podemos ficar quietos, deixar que a seguradora continue com as investigaes, ou podemos process-los pelo 
no-cumprimento da clusula referente ao pagamento em caso de morte.
      - Pois deixe que eles fiquem com a porra do dinheiro deles, no preciso dessa grana mesmo.
      - No. - Ethan falou baixinho, como se fosse um eco distante da exploso de Cam. Continuou a tomar a cerveja, pensativo e balanando a cabea. - Isso no est 
certo! Papai fez todos os pagamentos e as renovaes, ano aps ano. Aumentou o valor da aplice por causa de Seth. No  correto que eles se recusem a pagar. E se 
eles no pagarem, vai ficar subentendido, de algum modo, que papai se matou. Isso tambm no  correto. At agora eles vm forando a barra do lado deles - acrescentou, 
levantando seus olhos melanclicos. - Vamos fazer uma presso agora, de volta.
      - Se o caso acabar no tribunal - avisou Phillip -, a coisa pode se complicar.
      - E a gente vai fugir da raia com o rabo entre as pernas s porque a coisa pode se complicar? - Pela primeira vez, um lampejo de diverso surgiu no rosto de 
Ethan. - Bem, eles que se fodam!
      - E voc, Cam, o que acha?
      - Eu ando atrs de uma boa briga h algum tempo - disse, e tomou mais um gole. - Acho que  isso a!...
      - Ento, todos ns estamos de acordo. Vamos montar a papelada para dar entrada no processo na semana que vem e vamos enrabar essa companhia. - Mais animado 
e sentindo-se pronto para a batalha, Phillip levantou a garrafa, fazendo um brinde: - A uma boa briga!
      - A uma boa vitria! - corrigiu Cam.
      - Isso mesmo! S que isso vai nos custar uma grana - acrescentou Phillip. - Taxas, impostos legais. A maior parte do capital que a gente juntou entre ns trs 
est enterrada em nossa fbrica. - Ele soltou o ar. - Acho que vamos ter que fazer outra vaquinha.
      Com menos arrependimento do que esperava, Cam pensou no seu amado Porsche, que continuava pacientemente  espera dele, em Nice.  apenas um carro, disse a 
si mesmo. Uma droga de um carro.
      - Eu consigo colocar as mos em uma grana nova, mas isso vai levar alguns dias - anunciou Cam.
      - Eu posso vender a minha casa. - Ethan encolheu os ombros. - J tem um pessoal a interessado nela, e a casa est l vazia mesmo...
      - No! - S de pensar naquilo, a barriga de Cam deu um n. - Voc no vai vender a sua casa! Alugue para algum. Ns vamos conseguir superar esse problema.
      - Eu tenho algumas aes - suspirou Phillip, dizendo adeus a uma boa parcela de uma carteira de aes que vinha crescendo. - Vou falar com o meu agente financeiro 
para coloc-las  venda. Podemos abrir uma conta conjunta na semana que vem: o Fundo para Defesa dos Quinn.
      Os trs conseguiram esboar um sorriso meio sem graa.
      - O garoto vai ter que saber - disse Ethan, depois de pensar por um momento. - Se a gente vai encost-los na parede, o garoto precisa saber o que est rolando.
      Cam levantou a cabea a tempo de ver os dois irmos olhando fixamente para ele.
      - Ah, qual ?... Por que tem sempre que ser eu?
      - Voc  o mais velho - sorriu Phillip. - Alm do mais, isso vai afastar a sua cabea de Anna.
      - Eu no estou pensando nela nem em nenhuma outra mulher.
      - Mas andou todo nervoso e meditabundo a semana toda - murmurou Ethan. - Quase me deixou louco.
      - Quem  que est falando com voc? A gente teve um desentendimento, foi tudo. Estou dando um tempo a ela para deixar as coisas acalmarem.
      - A mim, parece que ela deixou acalmar tanto que congelou, pelo menos na ltima vez que a vi. - Phillip examinou sua cerveja. - E isso j faz uma semana.
      - O jeito com que eu lido com uma mulher  problema meu.
      - Claro que . S quero que algum me avise assim que vocs terminarem, t legal? Ela  muito...
      Phillip parou de falar na mesma hora, quando Cam s faltou pular por cima da mesa para apertar-lhe a garganta. As garrafas de cerveja voaram e se espatifaram 
no cho.
      Resignado, Ethan passou a mo pelos cabelos, espalhando gotas de cerveja que haviam voado em cima dele. Cam e Phillip estavam no cho, trocando socos. Ethan 
foi at a cozinha e se serviu de outra cerveja, antes de encher uma jarra com gua bem gelada.
      Suas botas de trabalhar esmagaram cacos de vidro, que ele foi chutando pelo caminho com a esperana de no precisar levar ningum correndo para o hospital 
a fim de levar pontos. Sem pena de nenhum dos dois, despejou a jarra em cima de ambos.
      Conseguiu atrair a ateno deles.
      O lbio de Phillip estava cortado, as costelas de Cam latejavam de dor, e os dois estavam sangrando por rolar sobre o vidro quebrado. Ensopados e ofegantes, 
os dois se olharam com desconfiana. Com todo o cuidado, Phillip passou um dedo sobre o lbio que sangrava.
      - Desculpe, Cam. Foi uma piada de mau gosto. Eu no sabia que as coisas estavam to srias entre vocs dois.
      - Eu nunca disse que estavam srias.
      - Mano, nem precisava! - E riu, fazendo uma careta quando sentiu uma fisgada no lbio. - Acho que eu jamais imaginei que voc fosse o primeiro de ns a se 
apaixonar desse jeito.
      O estmago que Phillip havia socado comeou a se retorcer com fora.
      - Quem falou que eu estou apaixonado por ela?
      - Voc no me deu um soco na cara s porque estava a fim. - E olhou para sua cala toda amassada e suja. - Merda! Voc sabia o quanto  difcil tirar manchas 
de sangue de um tecido de puro algodo? - Levantando-se, esticou a mo para Cam. - Ela  uma mulher fabulosa - disse, puxando Cam do cho e ajudando-o a se colocar 
de p. - Espero que vocs acertem os ponteiros.
      - No tenho ponteiro nenhum a acertar - disse Cam, desesperado. - Voc est totalmente por fora!
      - Se voc est dizendo... vou l em cima me lavar. E saiu da sala, mancando um pouco.
      - Eu no vou limpar essa droga de cho s porque vocs dois tiveram um faniquito - avisou Ethan.
      - Foi ele que comeou - resmungou Cam, sem se importar com o fato de que falar isso era ridculo.
      - No, eu acho que quem comeou foi voc, com o que quer que tenha feito para deixar Anna to revoltada. - Ethan abriu o armrio das vassouras, pegou um esfrego 
e o jogou na direo de Cam. - Acho que agora  voc que vai ter que limpar a cagada - disse, e saiu pela porta dos fundos.
      - Vocs dois pensam que sabem muita coisa! - Furioso, chutou a cadeira enquanto ia buscar um balde. - Eu  que devia saber o que est acontecendo na minha 
prpria vida. Insanidade, isso  o que ... Devia estar na Austrlia a essa hora, me preparando para a corrida mais importante da minha vida... Era l que eu devia 
estar!
      Passou o esfrego sobre a gua, a cerveja, os cacos de vidro e as gotas de sangue, continuando a resmungar sozinho:
      - Era na Austrlia que eu devia estar, se tivesse algum juzo. Agora vem a droga de uma mulher para me complicar as coisas.  at melhor mesmo eu me livrar 
dessas rdeas.
      Deu mais um chute em outra cadeira, s para se sentir melhor, e depois sacudiu o esfrego dentro do balde para soltar os cacos.
      - Quem brigou por aqui? - chegou Seth, querendo saber.
      - Fui eu que arranquei o couro de Phillip. - Virou-se Cam, estreitando os olhos ao ver o menino parado na porta de entrada.
      - Por qu?
      - Porque me deu vontade.
      Fazendo que sim com a cabea, Seth deu a volta na poa e pegou uma Pepsi na geladeira.
      - Se arrancou o couro dele, como  que quem est sangrando  voc?
      - Talvez eu goste de sangrar. - Acabou de passar o esfrego, limpando tudo enquanto o menino continuava em p, observando. - E voc, qual  o seu problema? 
- quis saber Cam.
      - Eu no tenho problema nenhum.
      Cam chutou o balde para o lado. O mnimo que Phillip podia fazer era esvazi-lo depois em algum lugar. Foi para a pia e, com cara de mau humor, catou vrios 
pedaos de vidro no brao. Depois, pegou uma garrafa de usque, puxou uma cadeira e se sentou com a garrafa e um copo.
      Notou quando os olhos de Seth se fixaram na garrafa para a seguir olharem para o outro lado. Deliberadamente, Cam despejou dois dedos de Johnnie Walker no 
copo.
      - Nem todo mundo que bebe fica bbado - disse ele. - ... E nem todo mundo que fica bbado, como pode ser que eu decida ficar, d porrada em crianas.
      - No sei por que as pessoas bebem essa merda, para comear.
      - Porque somos fracos - disse, e entornou o copo de uma vez s. - Fracos, burros e porque nos parece gostoso na hora.
      - Voc vai para a Austrlia?
      - Parece que no. - E se serviu de mais uma dose.
      - No me importo se voc for. Estou cagando e andando para onde voc pode ir. - A fria insinuada pela voz do menino surpreendeu a ambos. Vermelho de vergonha, 
Seth virou as costas e saiu pela porta afora. 
      Ora, mas que inferno!, pensou Cam, deixando o usque de lado. Afastou a cadeira para trs, levantou-se da mesa e foi correndo para a porta, enquanto Seth atravessava 
o quintal e se enfiava no bosque.
      - Espere! - Quando isso no fez o menino diminuir o passo, Cam colocou um pouco mais de ameaa na voz: - Droga! Eu falei pra esperar a!...
      Dessa vez Seth deu uma derrapada com os tnis e parou. Virou-se para trs e os dois ficaram olhando um para o outro, por sobre o extenso gramado entre eles, 
com a tenso e os nervos  flor da pele vibrando a partir deles, em ondas quase visveis.
      - Traga esse traseiro de volta aqui! Agora!
      Ele voltou, com os punhos fechados e o queixo empinado. Os dois sabiam que ele no tinha mesmo para onde ir.
      - Eu no preciso de voc! - afirmou ele.
      - Sei, aqui que no precisa! Devia dar um chute na sua bunda por ser burro. Todo mundo fala que voc tem um crebro de gnio a dentro, mas, se quer saber, 
acho que voc  burro, uma anta completa... Agora, sente a bunda aqui! - acrescentou, apontando o dedo com determinao para os degraus da escada. - ... E se voc 
no fizer o que eu mandar, na hora em que mandar, posso acabar lhe dando uma surra nessa bunda magra.
      - Voc no me mete medo! - reagiu Seth, mas sentou.
      - Meto tanto medo que te deixo branco, e isso me transforma em dono do chicote. - Cam se sentou tambm e olhou quando o cozinho veio se arrastando, desconfiado, 
e acabou subindo no colo do menino. E assusto cezinhos tambm, pensou ele, desgostoso. - Eu no vou a parte alguma - comeou.
      - J disse que no me importo.
      - Legal, mas estou lhe comunicando mesmo assim. Pensei em fazer isso, assim que as coisas se resolvessem por aqui. Disse a mim mesmo que ia cair fora. Acho 
que precisava me convencer disso. Jamais imaginei que voltaria aqui para ficar de vez.
      - Ento, por que no acabou indo embora?
      Cam lhe deu um tapa carinhoso no alto da cabea, com a base do punho, perguntando:
      - Por que no cala a boca at eu acabar o que tenho para falar?
      O tapa indolor e a ordem, dada com impacincia, foram mais reconfortantes para Seth do que mil promessas.
      - Cheguei  concluso de que j estava nessa vida de corridas h muito tempo. Gostava do que fazia, quando estava l, mas acho que agora estou fora desse lance. 
Parece que consegui um bom lugar para ficar, um negcio para tocar, um trabalho... e talvez uma mulher - murmurou, pensando em Anna.
      - Ento voc resolveu ficar, s para trabalhar e ficar cutucando at conseguir transar com uma garota.
      - Esses so dois motivos muito bons para a gente ficar em um lugar. Alm do mais, tem voc. - Cam se recostou nos degraus acima deles, cruzando os braos. 
- No posso dizer que me importava muito com voc assim que cheguei de volta. Voc tinha aquela atitude escrota,  feio pra cacete, mas acabou amadurecendo e se 
transformou em um cara legal.
      Com uma alegria imensa, Seth abafou o riso e replicou:
      - Voc  muito mais feio do que eu!
      -  porque sou maior, tenho que ser mais feio mesmo... Enfim, acho que vou ficar por aqui para ver se voc consegue ficar mais bonito com o passar do tempo.
      - Eu no queria que voc fosse embora no... - confessou Seth, entre dentes, depois de um longo momento. Era o mais perto que ele conseguia chegar de abrir 
o corao.
      - Eu sei - suspirou Cam. - Agora que j acertamos esse lance, tem mais uma coisa que est rolando... No  nada para a gente se preocupar, s um monte de besteiras 
legais. Phil e o advogado vo cuidar da maior parte do problema, mas pode ser que pinte gente fofocando por a. Voc no deve dar ateno a nada do que ouvir na 
rua.
      - Que tipo de fofoca?
      - Algumas pessoas... alguns idiotas... acham que papai jogou o carro contra aquele poste de propsito. Acham que ele se matou.
      - Eu sei, e agora esse babaca da seguradora anda fazendo perguntas para todo mundo.
      Cam suspirou. Sabia que nesse momento ele deveria provavelmente ensinar o garoto que no se deve chamar pessoas adultas de babaca, mas havia questes mais 
importantes ali.
      - Voc j sabia?
      - Claro, as histrias correm. Ele conversara com a me de Danny e Will. Danny contou que ela enchera os ouvidos dele defendendo os Quinn. No gostava de ver 
um cara qualquer circulando pela cidade e fazendo perguntas sobre Ray. Aquele cabea de melo do Chuck, da leiteria, disse para o detetive que Ray andou comendo 
umas alunas, teve uma crise de conscincia e se matou.
      - Crise de conscincia? - Caramba, de onde  que o garoto tirara esse termo? - Chuck Kimball, ?... ele sempre teve uma cabea de melo mesmo. Dizem por a 
que foi pego colando em uma prova de literatura e conseguiu ser expulso da faculdade. E estou me lembrando que Phillip deu uma surra nele uma vez. S no me recordo 
do motivo da briga.
      - Ele tem cara de carpa.
      - Carpa? - Riu Cam. - , acho que tem mesmo. Papai... Ray... jamais tocou em uma aluna, Seth.
      - Ele era muito legal comigo. - E isso era o que mais contava.
      - Minha me...
      - V em frente, conte - incentivou Cam.
      - Ela me disse que ele era meu pai. S que em outra ocasio ela falou que meu pai era um outro cara, e uma outra vez, em que ela estava realmente doidona, 
contou que o meu velho era um tal de Keith Richards.
      - Caramba, quer dizer que ela deu para um dos Rolling Stones?
      - Cam no conseguiu se segurar e deu uma gargalhada.
      - Quem?
      - Mais tarde eu cuido da sua educao musical.
      - Eu no sei se Ray era meu pai mesmo... - Seth levantou a cabea. - Ela  uma tremenda mentirosa, ento eu nunca engoli nada do que ela contava, mas o fato 
 que Ray me aceitou. Sei que ele entregou um dinheiro para ela, muita grana... no sei se ele teria me contado que era meu pai. Uma vez ele me disse que havia coisas 
sobre as quais a gente precisava conversar, mas ele tinha que resolver alguns problemas antes. E sei tambm que voc no gostaria de saber que ele era o meu pai. 
      Aquilo no importava, compreendeu Cam. No importava mais...
      - E voc, gostaria de ter certeza de que ele era seu pai? - perguntou ao menino.
      - Ray era um cara decente... - O menino disse isso de uma forma to simples que Cam envolveu-o, colocando o brao em torno do seu ombro, e Seth se recostou 
nele.
      - Sim, ele era...
      
      
      Tudo mudara. Tudo estava diferente. E Cam estava louco para contar para ela. Sabia que sua vida dera uma nova reviravolta, mais uma vez. E, de algum modo, 
ele acabou no lugar exato em que precisava estar. A nica pea que faltava era Anna.
      Ele arriscou e foi dirigindo at o apartamento dela. Era sbado  noite, pensou. Ela era esperada no trabalho na segunda. Anna era uma mulher prtica e com 
certeza ia reservar o domingo para relaxar, cuidar da roupa da semana, ler seus e-mails, enfim...
      Se ela ainda no tivesse voltado, ele iria ficar esperando na soleira de sua porta at ela aparecer.
      S que, no momento em que ela atendeu  batida na porta logo da primeira vez e ficou ali parada, parecendo to renovada, bem descansada, to linda, ele foi 
pego totalmente de surpresa.
      Anna, por outro lado, se preparara para esse encontro durante toda a semana. Sabia exatamente como lidar com Cam.
      - Oi, Cam, isso  uma surpresa. Quase que voc no me pega em casa!
      - Quase que no a pego em casa? - repetiu ele, de forma tola.
      - , mas ainda tenho alguns minutos. Gostaria de entrar?
      - Sim, eu... onde, diabos, voc se meteu?
      - Como disse? - perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
      - Voc sumiu, desapareceu no ar!
      - No diria isso. Consegui uma semana de licena no trabalho, verifiquei se as minhas vizinhas iam ficar bem e pedi para elas regarem as plantas durante a 
minha ausncia. Tambm no fui abduzida por aliens, simplesmente tirei uns dias de folga, por motivos pessoais. Quer um pouco de caf?
      - No. - Tudo bem, pensou ele, ela vai bancar a fria e distante. Ele tambm sabia fazer isso. - Preciso conversar com voc.
      - Isso  bom, porque eu tambm preciso falar com voc. Como est Seth?
      - Est timo. De verdade. Resolvemos uma poro de diferenas. Hoje mesmo...
      - O que aconteceu com o seu brao?
      - Nada! - Impaciente, ele olhou para o brao, todo cheio de ferimentos e arranhes. - No foi nada. Escute, Anna...
      - Por que no se senta? Eu queria muito pedir desculpas a voc por ter sido to grossa na semana passada.
      - Pedir desculpas? - Ora, agora sim... Sentindo-se disposto a perdoar, ele se sentou no sof. - Por que no esquecemos tudo? Tenho muitas coisas para lhe contar.
      -  que eu realmente preciso esclarecer algumas coisas. - Sorrindo de forma agradvel, ela se sentou na poltrona em frente a ele. - Imagino que ns dois nos 
vimos em uma posio muito desconfortvel. Grande parte disso foi culpa minha. Resolver me envolver com voc foi um risco calculado. O problema  que senti uma atrao 
muito forte, e no pesei os problemas potenciais de forma to cuidadosa quanto deveria. Obviamente, algo como o que aconteceu no fim da semana passada estava fadado 
a ocorrer. E como ns dois colocamos os interesses de Seth em primeiro lugar, e vamos continuar a faz-lo, eu detestaria que ficssemos batendo cabea um com o outro.
      - timo, ento no vamos mais bater cabea... - Ele esticou a mo, tentando alcan-la, mas Anna se esquivou do gesto e simplesmente deu um tapinha carinhoso 
na mo estendida.
      - Agora que est tudo acertado, voc vai ter que me desculpar, Cam. Detesto ter que apressar voc para ir embora, mas tenho um encontro.
      - Um o qu?
      - Um encontro! - E olhou para o relgio de pulso. - Alis, j estou em cima da hora e ainda preciso trocar de roupa.
      - Voc tem um encontro? - Lentamente, ele se levantou. - Hoje  noite? Que diabos est querendo me dizer com isso? 
      - O que voc entendeu quando... - Piscou duas vezes, como se estivesse confusa, e ento deixou o olhar se encher de desculpas. - Ah, Cam, eu sinto muito! Pensei 
que ns dois tnhamos compreendido que havamos terminado com o... bem, o aspecto mais pessoal do nosso relacionamento. Achei que j havia ficado bem claro que aquilo 
no estava funcionando bem para nenhum de ns dois.
      Parecia que algum o pegara de guarda baixa e enfiara um soco, com punhos de ferro, bem em seu plexo solar.
      - Olhe, Anna, se voc ainda est pau da vida comigo...
      - Eu estou lhe parecendo pau da vida? - perguntou com frieza.
      - No. - Ele olhou para ela, balanando a cabea enquanto sentia o estmago dar um pulo e se retorcer. - No, realmente no parece. Voc est me dando o fora, 
ento...
      - No seja melodramtico! Estamos simplesmente colocando um ponto final em um caso no qual ns dois entramos por vontade prpria, sem promessas nem expectativas. 
Foi bom enquanto durou, foi mesmo... Eu detestaria estragar essas lembranas. Agora, com relao ao nosso relacionamento profissional, j lhe disse que vou fazer 
tudo o que estiver ao meu alcance para apoiar a proposta solicitando que a guarda permanente de Seth fique com vocs. Entretanto, espero que voc seja mais aberto 
com relao s informaes e detalhes sobre o caso daqui para a frente. Tambm ficarei feliz de consult-los ou aconselh-los sobre qualquer assunto relacionado 
com essa guarda. Voc e seus irmos esto desempenhando um trabalho maravilhoso com ele.
      Ele ficou esperando, certo de que ainda vinha mais.
      -  s isso? - perguntou ele, por fim.
      - No consigo me lembrar de mais nada no momento... E agora voc me desculpe, mas estou com um pouco de pressa.
      - Voc est com um pouco de pressa... - Ela acabara de apunhal-lo bem no corao e estava com pressa. - Isso  muito ruim, porque eu ainda no acabei.
      - Sinto muito se o seu ego ficou arranhado.
      - , meu ego est arranhado. Estou cheio de arranhes, na verdade. Como  que voc consegue ficar a em p me dando o fora depois dos momentos que passamos 
juntos?
      
      - Sim, o sexo foi fantstico, no estou negando isso. S que a gente no vai mais transar.
      - Sexo? - Ele a agarrou pelos braos e sacudiu-a, e teve a satisfao de ver um claro de raiva por baixo dos seus olhos frios. - Foi s isso que aquilo representou 
para voc?
      - Foi s isso que aquilo representou para ns dois! - As coisas no estavam saindo do jeito que ela planejara. Ela achou que ele ia ficar zangado e disparar 
direto porta afora. Ou talvez se mostrar aliviado por ela ter recuado antes dele e sair dali assobiando. Ele no deveria entrar em confronto direto com ela, como 
estava acontecendo. - Agora me solte!
      - Aqui que eu vou soltar! Andei a semana toda meio louco, esperando a sua volta. Voc virou a minha vida toda do avesso, e agora no vou sair de mansinho s 
porque voc quer terminar comigo, de jeito nenhum!
      - Ns terminamos um com o outro. Eu no quero mais voc na minha vida, e o azar  todo seu se eu falei isso antes de voc. Agora tire as mos de mim!
      Ele a soltou, como se a pele dela estivesse queimando seus dedos. Pressentiu um n de desconfiana na garganta dela e perguntou:
      - O que a fez achar que eu ia terminar com voc?
      - Ns no queremos as mesmas coisas. No estvamos indo a lugar nenhum, e eu no vou continuar seguindo por esse caminho, no importa o que sinta por voc.
      - E o que sente por mim?
      - Cansao! Estou cansada de voc! - gritou ela. - Cansada de mim, cansada de ns. Cheia e cansada de me enganar, dizendo a mim mesma que diverso e joguinhos 
seriam o bastante. Pois no so o bastante! No chega nem perto do que eu quero, e o que eu quero, nesse momento,  que voc caia fora daqui!
      Ele sentiu a raiva e o pnico que o apertavam afrouxarem um pouco e voltou a se deliciar com aquilo.
      - Voc est apaixonada por mim, no ?
      Ele jamais vira uma mulher ir do controle total para a exploso furiosa to rpido. E, ao ver aquilo acontecer, perguntou a si mesmo por que levara tanto tempo 
para compreender que a adorava. Ela girou o corpo, agarrou um abajur e o atirou na direo dele.
      Cam teve que reconhecer que ela tinha uma boa mira, e se sentiu grato por estar em p, pois conseguiu desviar a tempo, ouvindo apenas o silvo da base da luminria 
que tirou um fino da sua cabea e foi se espatifar de encontro  parede.
      - Seu arrogante, convencido, filho-da-me com sangue de barata! - Pegou um vaso pesado dessa vez, um novinho que comprara na viagem de volta, s para se alegrar, 
e o varejou com fora.
      - Nossa, Anna! - Era admirao pura em estado bruto aquilo que sentiu explodir dentro dele enquanto se viu forado a agarrar o vaso no ar antes que o atingisse 
na cara. - Voc deve estar mesmo louquinha por mim!...
      - Eu desprezo voc! - E olhou em volta, de forma frentica, em busca de mais alguma coisa que pudesse atirar nele. Acabou agarrando uma fruteira que estava 
sobre o balco da cozinha. As frutas voaram antes. Mas... - Detesto voc! - Peras... - Abomino voc! - Bananas... - No posso acreditar que permiti que voc tocasse 
em mim! - Finalmente, a fruteira. S que ela foi mais esperta dessa vez, fingiu que ia jogar um segundo antes e, ento, mirou na direo em que ele desviara.
      A pea de cermica o atingiu pouco acima da orelha e o fez ver estrelas rodando diante dos olhos.
      - Certo! Agora a brincadeira acabou! - E deu um mergulho na direo dela, agarrando-a pela cintura. Mesmo com o corpo j todo arrebentado, ele teve que agentar 
os chutes e socos dela, mas conseguiu jog-la sobre o sof e segur-la.
      - Agora veja se consegue se acalmar, antes que acabe me matando.
      - Mas eu quero matar voc - disse ela, rangendo os dentes.
      - Pode acreditar que j deu pra perceber.
      - Voc no percebe nada! - E enfiou a cabea por baixo dele, tentando escapar, fazendo-o sentir uma mistura de teso com vontade de rir. Sentindo a mesma coisa, 
ela levantou a cabea e o atingiu com fora.
      - Ai!... droga! T legal, j chega! - Ele a levantou no ar e a colocou sobre o ombro. - Ainda nem desfez as malas?... E vem me dizer que tem uma bosta de encontro. 
No tem encontro nenhum! Vem me dizer que a gente terminou? Conversa fiada! - Ele marchou at o quarto dela, viu a mala sobre a cama e a pegou.
      - O que est fazendo? Coloque-me no cho! E ponha a mala no cho tambm.
      - No vou largar nenhuma das duas, nem voc nem a mala, at a gente chegar a Las Vegas.
      - Las Vegas? Las Vegas?! - E o socou com fora nas costas, usando as duas mos. - No vou a parte alguma com voc, muito menos a Las Vegas.
      - Pois  exatamente para l que a gente est indo!  o lugar mais rpido do mundo para as pessoas se casarem, e eu estou com pressa.
      - E como  que voc espera me colocar dentro de um avio quando eu estou berrando com toda a fora, colocando os pulmes pra fora? Vou conseguir com que voc 
v preso em menos de cinco minutos.
      J com a pacincia por um fio, porque ela estava provocando danos considerveis nele, ele a colocou no cho, bem na porta da frente, e segurou-lhe os dois 
braos, avisando:
      - A gente vai se casar e isso j est resolvido!
      - Pois voc pode... - Seu corpo despencou no piso e sua cabea deu um n. - Casar? - A palavra finalmente penetrou atravs da sua raiva. - Mas voc no quer 
se casar...
      - Pois pode acreditar, agora j estou pensando seriamente em reconsiderar a idia, desde a hora em que voc me deu aquela cacetada na cabea com a fruteira. 
Agora voc vai me acompanhar de forma razovel ou eu vou ser obrigado a sed-la?
      - Por favor, me deixe em paz, me deixe sozinha.
      - Anna - e abaixou a cabea at que sua sobrancelha ficou na mesma altura que a dela -, no me pea isso, no me pea para deix-la sozinha, porque acho que 
no consigo mais viver sem voc. Arrisque-se, deixe os dados rolarem... venha comigo.
      - Voc est zangado e magoado - disse ela, trmula -, e est achando que sair correndo para ir a Las Vegas a fim de encomendar um casamento instantneo e pasteurizado 
vai consertar tudo.
      Ele emoldurou seu rosto, de modo gentil dessa vez. Lgrimas estavam comeando a aparecer em seus olhos, e ele sabia que ia acabar de joelhos se ela as deixasse 
escorrer. 
      - Anna, voc no consegue me dizer que no me ama, e mesmo que diga eu no vou acreditar em voc.
      - Ah, mas eu estou apaixonada por voc, Cam, no nego isso. S que vou conseguir sobreviver. Existem coisas na vida das quais eu necessito. Fui obrigada a 
ser honesta comigo mesma e reconhecer isso. Voc me magoou demais!
      - Eu sei... - disse, e pressionou os lbios na testa dela. - Eu sei o que fiz. Fui mope, fui egosta, fui burro! E alm do mais, droga, estava apavorado. 
Por mim, por voc, por tudo que estava rolando  minha volta. Estraguei tudo, e agora voc no est disposta a me dar mais uma chance.
      - No  uma questo de dar chance. Trata-se de a gente ser prtica o bastante para admitir que desejamos coisas diferentes da vida.
      - Pois eu finalmente descobri, hoje, o que quero da vida. Diga-me o que voc quer.
      - Eu quero uma casa - afirmou ela.
      Ele j tinha uma pronta para ela, pensou ele.
      - Quero um casamento - continuou ela.
      E ele no havia acabado de pedi-la em casamento?
      - Quero ter filhos!
      - Quantos?
      Os olhos dela secaram e ela deu um empurro nele.
      - Isso no  brincadeira, Cam.
      - Mas eu no estou brincando. Estava pensando em dois, com uma opo em aberto para trs. - Sua boca se abriu em um sorriso repuxado ao ver o ar de choque 
no rosto dela. - Viu s? Agora  voc que est ficando apavorada ao compreender que eu estou falando srio.
      - Mas voc... voc vai voltar correndo para Roma, ou sei l para onde, assim que puder.
      - Ns dois podemos ir para Roma, para outro lugar, ou sei l para onde, na nossa lua-de-mel... Mas no vamos levar o garoto! Desse ponto no abro mo, sou 
eu que determino. Pode ser que me d vontade de participar de uma ou outra corrida de vez em quando, s para no perder a forma por completo. Basicamente, porm, 
vou estar estabelecido no negcio de construo de barcos.  claro que a fbrica pode ir para o brejo. Nesse caso, voc vai ficar grudada a um sujeito que vai ficar 
cuidando da casa, mesmo detestando os trabalhos domsticos.
      Ela queria pressionar os dedos sobre as tmporas, mas ele continuava a segur-la entre os braos.
      - Assim eu no consigo nem pensar, Cam.
      - timo, ento apenas oua. Voc deixou um buraco dentro de mim quando foi embora, Anna. Eu no queria admitir isso, mas o buraco estava l, grande e vazio.
      - Sabe o que eu fiz hoje? - continuou ele, encostando as sobrancelhas nas dela por um instante. - ... Trabalhei o dia inteiro na construo do barco, e me 
senti bem. Depois, voltei para casa, o nico lar que jamais tive, e tudo me pareceu certo. Em seguida, tivemos uma reunio de famlia e decidimos processar a seguradora 
e fazer o que  certo pela memria do nosso pai. Por falar nisso, tenho conversado muito com ele.
      - O qu?... Quem? - Ela no conseguia parar de olhar para ele, embora sua cabea estivesse girando.
      - Meu pai. Tenho levado uns papos com ele, trs papos, na verdade, depois que ele morreu. Ele me pareceu muito bem disposto.
      - Cam... - Ela sentiu um bolo bem na base da garganta.
      - Sim, sim, eu j sei - disse ele com um sorriso maroto. - Preciso de aconselhamento psicolgico. Podemos conversar a respeito disso mais tarde, no quero 
mudar de assunto. Estava contando a voc as coisas que fiz hoje, no era?
      - Era... - muito lentamente, ela concordou.
      - Muito bem... depois da reunio, Phil soltou uma piadinha sem graa e acabamos nos socando por algum tempo. Isso foi muito legal tambm. Depois, conversei 
com Seth a respeito das coisas sobre as quais j deveria ter falado antes, e ouvi o que ele tinha a dizer, do jeito que tambm j deveria ter feito antes. Depois, 
ficamos simplesmente sentados l juntos mais um pouquinho. Isso tambm me fez sentir legal, Anna, e me pareceu a coisa certa, tudo se encaixando direitinho.
      - Fico feliz... - E os lbios dela se curvaram, formando um sorriso.
      - Tem mais. Senti, quando estava sentado l, que era l mesmo que eu queria ficar, e precisava estar. S havia uma coisa faltando, e essa coisa era voc. Foi 
ento que resolvi encontrar voc e lev-la de volta. - Pressionou os lbios de leve sobre a sua testa. - Vim at aqui para levar voc para casa, Anna.
      - Acho que eu preciso me sentar um instante.
      - No, quero voc em p e com os joelhos bambos quando eu lhe disser que a amo. Est pronta?
      - Ai, meu Deus!
      - Eu sempre tive todo o cuidado de jamais dizer a uma mulher que a amava... exceto a minha me. E, mesmo para ela, no dizia muitas vezes, pelo menos no o 
bastante. D uma chance para mim, Anna, e eu vou dizer essa frase para voc tantas vezes quantas voc agentar ouvir.
      - S que eu no quero me casar em Las Vegas. - Ela soltou um suspiro.
      - Estraga-prazeres! - E observou seus lbios se curvarem para baixo, antes de cobri-los com os seus. E o sabor dela o acalmou e fez pararem de doer todas as 
feridas do seu corpo e da sua alma. - Deus, como eu senti saudades! Nunca mais se afaste de mim...
      - Pelo menos isso fez voc cair na real - disse, e passou os braos com fora em volta dele. E aquilo lhe parecia muito gostoso, pensou, com a cabea meio 
area. Parecia-lhe a coisa certa. - Ah, Cam, quero ouvir a frase agora!
      - Eu amo voc! Parece to certo amar voc, tudo se encaixa. No acredito que tenha perdido tanto tempo.
      - Foram menos de trs meses apenas - lembrou ela.
      - Tempo demais! Mas a gente corre atrs para compensar.
      - Eu quero que voc me leve para casa - murmurou ela - ... depois.
      - Depois de qu? - Ele se afastou ligeiramente dela, virando a cabea para o lado, e a seguir a fez soltar uma gargalhada ao levant-la no ar e segur-la no 
colo.
      Foi caminhando com ela nos braos, atravs da sala cheia de detritos, chutou uma banana com cara de passada que ficara no caminho e disse:
      - Sabe de uma coisa? No consigo compreender por que motivo eu costumava achar que o casamento ia ser uma coisa chata e entediante.
      - O nosso no vai ser. - E ela beijou sua cabea machucada, que ainda sangrava um pouquinho. - Eu prometo!
      
  
  FIM
       
      
      




 




2



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